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Isabél Zuaa cancelou espectáculo em Guimarães após ataque racista: “Ia levando com  o microfone na cabeça”

A noite desta quinta-feira, 11, deveria ter sido de estreia do espectáculo “Afro Saloyá”,  de Isabél Zuaa, em Guimarães, mas uma agressão racista, com ameaça física e tentativa de intimidação determinou o cancelamento da apresentação. Para que os factos não sejam distorcidos, a artista multidisciplinar explicou ao público do Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor a violência que sofreu durante os ensaios. “Ia levando com o microfone na cabeça”, contou, numa mensagem que o Afrolink partilha em vídeo.

A noite desta quinta-feira, 11, deveria ter sido de estreia do espectáculo “Afro Saloyá”,  de Isabél Zuaa, em Guimarães, mas uma agressão racista, com ameaça física e tentativa de intimidação determinou o cancelamento da apresentação. Para que os factos não sejam distorcidos, a artista multidisciplinar explicou ao público do Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor a violência que sofreu durante os ensaios. “Ia levando com o microfone na cabeça”, contou, numa mensagem que o Afrolink partilha em vídeo.

Acompanhada da sua equipa, a artista multidisciplinar Isabél Zuaa subiu esta quinta-feira, 11, ao palco do Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, não para estrear o espectáculo “Afro Saloyá”, conforme estava programado, mas para anunciar o seu cancelamento.

Dirigindo-se ao público, a multipremiada actriz explicou que, durante os ensaios, “ia levando com o microfone na cabeça”. O episódio, contou, resultou da desatenção de uma pessoa da equipa técnica, a quem a criadora chamou à razão. Sem que nada o fizesse prever, e já depois de ter retomado o trabalho, Isabél foi surpreendida com a entrada em cena do director técnico que, de dedo em riste, exigiu que pedisse desculpas à colega.

“Obviamente que isso gerou uma comoção da nossa parte, e quase perdemos a razão”, partilhou a artista, acrescentando que quem se deveria  desculpar era a equipa técnica, que depois da ameaça e intimidação abandonou o espectáculo.

A história, que a criadora e intérprete de “Afro Saloyá” faz questão de contar na primeira pessoa, para que não seja distorcida, foi testemunhada pela sua equipa de produção, que também deu o seu testemunho. O posicionamento, de denúncia do racismo e sexismo, foi pronta e fortemente aplaudido pelo público.

Resta saber se haverá responsabilização dos agressores.

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Uma editora que só publica autores negros? Bem-vinda, Kiala! 

Olhamos para os catálogos dos grupos editoriais, percorremos a programação dos festivais literários, lemos páginas de divulgação e crítica de novos autores e o cenário mantém-se e ostensivamente branco. Da cor do país, dizem uns, rejeitando pintar Portugal a vários tons, sobretudo se estivermos a falar dos mais escuros. A recém-lançada Kiala assume o compromisso de destoar desta palete monocromática, agregando ao mundo editorial não apenas cores que não estão, mas cores que não se quer que estejam. Às páginas tantas, talvez se consiga perceber que o problema não é a Kiala existir. O problema é ter de existir. Eu que vos diga...e digo. 

Olhamos para os catálogos dos grupos editoriais, percorremos a programação dos festivais literários, lemos páginas de divulgação e crítica de novos autores e o cenário mantém-se ostensivamente branco. Da cor do país, dizem uns, rejeitando pintar Portugal a vários tons, sobretudo se estivermos a falar dos mais escuros. A recém-lançada Kiala assume o compromisso de destoar desta palete monocromática, agregando ao mundo editorial não apenas cores que não estão, mas cores que não se quer que estejam. Às páginas tantas, talvez se consiga perceber que o problema não é a Kiala existir. O problema é ter de existir. Eu que vos diga...e digo. 

Lá atrás, muito antes de me passar pela cabeça escrever e publicar livros, a minha amiga Inês, à época também colega de redacção, fez o que é bem reconhecida por fazer: funcionou como um algoritmo humano, programado para aproximar pessoas. 

De um lado estávamos nós, jornalistas com muitos caracteres de escrita para contratualizar, do outro uma pequena, porém promissora, empresa do sector editorial, que andava a causar furor não apenas pelo catálogo, mas pelos serviços que oferecia, na altura inovadores. 

À boa maneira portuguesa, lá se combinou um café de possibilidades, encerrado com o compromisso de envio de propostas por e-mail. O desafio era, aos meus olhos, bastante apetecível: escrever obras de bolso de não-ficção, sobre temas que despertassem interesse e curiosidade, e se pudessem arrumar em lógicas facilmente vendáveis.

Tudo isso aconteceu há uns bons 15 anos, mas, por mais tempo que passe, sinto que nunca me vou esquecer da sensação de desconforto com que saí daquele encontro – como se estivesse ali a mais, sem qualquer possibilidade de ser vista ou ouvida. 

Convenci-me de que seria impressão minha, e de que apenas havia uma maior afinidade do 'angariador' com as outras pessoas. Porque, nos antípodas do que se vomita por aí, as pessoas negras não passam a vida a ver racismo em tudo. Bem pelo contrário, lidar com o sentimento de desumanização associado à violência racista é de tal forma pesado, que – por mim falo – esse é o último cenário que quero considerar. 

Aliás, a cada exclusão racista que vivi, sempre quis acreditar que estaria enganada. "Não, não pode ser. Isso não faz qualquer sentido. Esta pessoa não me está a ignorar por causa da minha cor de pele". Agarrada a esta crença de sobrevivência, cumpri o que estava combinado. 

Entusiasmada com o projecto, pus logo as minhas ideias a trabalhar na construção de uma lista com uma dezena de propostas. O exercício não era muito diferente daquele que, todas as semanas, aperfeiçoava nas reuniões de planeamento editorial.  

Basicamente, teria de encontrar temas que se pudessem estender muito além das palavras que cabem num artigo, e, ao mesmo tempo, fossem capazes de surpreender – num registo misterioso, insólito e/ou revelador. 

Se a memória não me atraiçoa, a conversa passou pelo livro "Histórias de um Portugal Assombrado", da jornalista Vanessa Fidalgo, que começou por escrever uma reportagem sobre o assunto. 

Dizia eu, uns parágrafos antes, que me senti excluída, mas, na esperança de me ter enganado, lá enviei a minha quota-parte. Recordo-me de ter sido a primeira a fazê-lo – porque íamos falando sobre o processo –, e também a única a ficar sem resposta. Zero, nicles, nada. Nem sequer um "obrigada pela sua participação". 

Como em tantas outras situações, calei a minha revolta e segui caminho, não sem ter de testemunhar a marcação de mais cafés de conversa, aí já sem a minha indesejada presença negra. 

"Mas quem é que escreveu?" 

Anos mais tarde, já com o meu primeiro livro escrito, ilustrado e quase paginado, bati à porta de todas as editoras que me ocorreu interpelar. Estariam interessadas num livro protagonizado por heroínas e heróis negros? O primeiro do género em Portugal? 

Na única resposta que recebi, após cerca de 10 contactos, o desinteresse revelou-se estrutural. "Neste momento o plano editorial para os próximos dois anos está completamente preenchido, não se prevendo a inclusão de novas linhas editoriais", adiantaram-me, com uma nota de desencanto à mistura. "O mercado editorial está muito difícil, e as apostas das editoras acabam por se centrar no licenciamento internacional". 

Procurei apoio no então ACM – Alto Comissariado para as Migrações, também fui parar à CPLP e, pelo caminho, os planos de publicação da "Força Africana" passaram ainda pela inscrição numa conferência intitulada "Every Stories Matter", precedida de um concurso com o mesmo nome, no qual tinta testado a minha sorte. Sem sucesso. 

Paguei 30 euros para assistir à conferência, fiz questão de dizer que o valor era tudo menos inclusivo – pressuposto acoplado ao programa – e não hesitei nas abordagens. Em modo "pitch", interpelei uma das oradoras, fundadora de uma editora reconhecida e premiada pelo catálogo infantojuvenil, categoria na qual tenho três livros publicados, e outros três por publicar. 

Aproveitando o mote do encontro, apresentei a "Força Africana", quis saber como lhe poderia fazer chegar algumas páginas, e, embora tenha começado a conversa por declarar a minha autoria, no final tive de ouvir: "Mas quem é que escreveu?". Dei o benefício da dúvida que raramente me é dado – talvez a pessoa estivesse distraída às minhas primeiras palavras –, mas o olhar de desdém que se seguiu à minha resposta precipitou o fim de qualquer possibilidade de entendimento. 

Mas não sem antes se dar ao esforço de me explicar que tinha desafiado algumas figuras públicas negras a escrever para crianças. Ou seja, a mui aliada persona já tinha feito a sua parte pela inclusão, e o problema, estava-se mesmo a ver, é que a malta não sabe agradecer e aproveitar as oportunidades. 

O olhar condescendente explica, por exemplo, que, ao contrário das outras autoras que integram a mesma casa literária, a escritora Olinda Beja nunca tenha sido "agraciada", nas apresentações dos livros que vai publicando, com a presença da sua editora. 

A ausência, partilhada na Bienal “What's Beyond That Border”, recém-realizada em Viseu, evidencia o lugar marginal a que são relegadas as autorias negras, mesmo quando conseguem entrar no mercado. 

Pensemos ainda na obra seminal de Grada Kilomba, "Memórias da Plantação - Episódios de Racismo Quotidiano", publicada em Portugal em 2019, mais de uma década depois de ter sido lançada na Alemanha, em 2008. 

Acrescentemos James Baldwin à reflexão: o seu romance de estreia, "Go tell it on the Mountain" ("Se o disseres na montanha"), chegou ao país 65 anos depois de ter sido lançado. 

Idem para “The bluest eye” ("O Olhar mais azul"), de Tony Morrison, aqui publicado em 2023, mais de cinco décadas após ganhar vida. 

Se referências literárias negras e consagradas enfrentam estas barreiras, o que dizer dos novos autores? Por tudo isso e tanto mais, tenhamos a capacidade de ver e reconhecer que o problema não é a Kiala existir. O problema é ter de existir. 

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A literatura negra tem casa própria e exclusiva em Portugal, e isso promete desalojar preconceitos 

Em 2019 começou por partilhar sugestões de livros, e reflexões sobre a falta de diversidade, autoral e temática, no mundo editorial. De conteúdo em publicação, desbravou páginas, capítulos e títulos, popularizando-se como a autora do “Quem me Lera”, projecto que se tornou assinatura e marca digital. Tradutora, revisora e editora, Elga Fontes lidera agora uma nova chancela – a Kiala – onde o catálogo e a sua produção se constroem a partir de talentos negros. O Afrolink apresenta-lhe esta novidade, que se estreia no mercado com a obra “Feminismo na Periferia”, já à venda, e com apresentação marcada para as 18h30 de 11 de Junho, na Casa do Comum, em Lisboa.

Em 2019 começou por partilhar sugestões de livros, e reflexões sobre a falta de diversidade, autoral e temática, no mundo editorial. De conteúdo em publicação, desbravou páginas, capítulos e títulos, popularizando-se como a autora do “Quem me Lera”, projecto que se tornou assinatura e marca digital. Tradutora, revisora e editora, Elga Fontes lidera agora uma nova chancela – a Kiala – onde o catálogo e a sua produção se constroem a partir de talentos negros. O Afrolink apresenta-lhe esta novidade, que se estreia no mercado com a obra “Feminismo na Periferia”, já à venda, e com apresentação marcada para as 18h30 de 11 de Junho, na Casa do Comum, em Lisboa.

Sem meias-palavras, Elga Fontes anuncia ao que vem: “Contribuir para o alargamento da forma como nós, enquanto cidadãos portugueses em concreto, conseguimos ver e imaginar o mundo”.  A proposta constrói-se sob a chancela da Kiala, editorialmente dedicada à publicação de autores negros, e confronta-se, desde a primeira letra, com a estreiteza e incoerência de perspectivas que pretende dilatar.

Se por um lado há quem se apresse a condenar o projecto ao fracasso – “A maior parte do vosso público-alvo é analfabeto ou não quer saber minimamente de leitura, a não ser que seja o manual de instruções de como ‘montar’ um barco de borracha para invadir a Europa” – , por outro lado não falta quem veja nele uma ameaça tão grande que justifique a apresentação de uma queixa ao Provedor de Justiça.

Lembrando que o mercado está cheio de editoras que se dedicam a géneros literários específicos, especializando-se, por exemplo, em obras religiosas ou feministas, Elga, que é tradutora e revisora, sublinha que a Kiala tem de ser vista à luz dessa liberdade curatorial.

“Acho importante frisar isto: o facto de publicarmos exclusivamente livros de pessoas negras, não impede quem não o seja de participar no mercado editorial”.

Apesar da obviedade, depressa os protestos se alastraram por artigos de opinião, caixas de comentário e mensagens privadas em redes sociais, numa voragem de reacções em que, sem surpresa, as formulações racistas – como aquela que partilhámos há um par de parágrafos – , são a via escolhida para contestar o alegado racismo da Kiala.

“Para quem não estudou geografia, Portugal é um estado soberano cujo território fica no continente europeu, não em África”, lê-se num dos comentários, em que se apregoa o carácter branco da população lusa.  “É esta a sua matriz populacional, que não é alterada pelo facto de viverem no país alguns pretos, amarelos, mestiços ou às riscas”, prossegue a mensagem, exigindo “mais respeito pela casa do hospedeiro”.

“Feminismo na Periferia” e “A morte de Vivek Oji” inauguram a Kiala

O pensamento, cristalizado na fantasia de uma identidade racial monocromática, e na ideia de que pessoas não brancas são apenas paisagem social – sem o direito a afirmar as suas subjectividades –, explica bem a importância de uma editora com o foco curatorial da Kiala. 

“Esperamos que os nossos livros consigam inspirar os leitores, abrir espaço para outras formas de pensar e combater a facilidade com que ainda se desumanizam pessoas negras”.

A esperança, partilhada numa das publicações da chancela no Instagram, ganha corpo com o lançamento da obra  “Feminismo na Periferia”, de Mikki Kendall, já disponível para venda, e com apresentação marcada para as 18h30 de 11 de Junho, na Casa do Comum.

Segue-se, em Novembro, “A morte de Vivek Oji”,  da autoria de Akwaeke Emezi, que encerra o catálogo de publicações anunciadas para este primeiro ano de vida.

“Acho que estes dois livros entram muito bem nos dois verbos que queremos conjugar: ver e imaginar”, assinala Elga, antes de assinalar as diferenças entre títulos. “‘Feminismo na Periferia’ é, no grande plano das coisas, mais um sobre feminismo, só que é dos poucos traduzidos em Portugal que fala numa perspectiva interseccional”, aponta, acrescentando: “Fala sobre feminismo tendo como objecto principal, digamos assim, pessoas negras, pessoas periféricas, pessoas que tendem a ser excluídas dos ideais e do movimento feminista na prática”. 

Já a obra “A morte de Vivek Oji”, nota a tradutora, centra-se “numa pessoa negra, nigeriana, que se debate muito com a identidade de género, tema que ainda é escassamente abordado em Portugal”. Isto porque, apesar de existirem no país algumas publicações sobre pessoas trans e identidade de género, Elga explica que poucas reflectem a realidade de pessoas negras em contextos africanos ou afrodescendentes.

Confiante no poder transformador das leituras, a coordenadora da Kiala sublinha que os livros permitem “imaginarmo-nos enquanto agentes activos da sociedade que queremos construir, e na qual queremos viver”.

Por exemplo, em “Feminismo na Periferia”, a autora parte da própria experiência, marcada por violência, pobreza e hipersexualização, para, destaca-se na sinopse, analisar “temas como direitos reprodutivos, experiências de abuso, cultura popular e saúde mental”. Ao fazê-lo, prossegue o epítome, Mikki Kendall confronta falhas. “As correntes feministas convencionais raramente encaram a satisfação das necessidades básicas como uma questão feminista e, demasiadas vezes, concentram-se não na sobrevivência das muitas, mas no aumento dos privilégios de poucas. Essa miopia, alimentada por divisões internas e pelo privilégio étnico-racial e de classe, fragiliza a solidariedade entre mulheres e deixa, sobretudo, as mulheres negras e periféricas à margem”.

O poder inclusivo e combativo da literatura

Conseguimos ver melhor, a partir deste e de outros olhares de denúncia?

“Os livros dão-nos acesso a diferentes vivências, a partes de nós que se calhar não conseguimos ver no dia-a-dia, ou que temos dificuldade em partilhar com outras pessoas”, e assumem “um papel importantíssimo na definição da cultura e de uma sociedade mais igualitária e justa para todos”.

Desde logo, a literatura tem o poder de influenciar a linguagem que usamos. Na Kiala, o livro de estilo distingue-se por integrar a explicitação de como usar o sistem ELO, de linguagem neutral, ao mesmo tempo que lista uma série de termos a evitar, enunciando os substitutos.

“Pessoa negra em vez de preto, Estados Unidos da América, em vez de apenas América”.

E porque as palavras importam, Elga partilha como construiu o nome da chancela que agora coordena.

“Já tinha o nome na cabeça, mas ainda tive um processo de pesquisa. Kiala tem origens no kimbundu que é um língua bantu de Angola, e, nesse contexto, significa luz ou trazer luz”, explica, sem perder de vista outros sentidos.

“Em diferentes contextos culturais, pode ser lugar de alento, o lugar onde a galinha põe os ovos, e até líder de um grupo de pessoas que vão ser circuncidadas”, ilustra a editora, rendida ao reportório de possibilidades. 

“Achei engraçado que poderíamos adoptar também esse sentido metafórico da literatura negra, que pode ter diversos significados de acordo com diversas interpretações. É uma coisa viva por si só, não é homogénea”.

Bem vistas e revistas as leituras, Kiala tornou-se incontornável e, sendo indissociável do trabalho de Elga que se reconhece como angolana, nascida em Portugal – , é à identidade bantu que vai buscar a raiz.

 “Querendo ou não, é uma marca que está muito associada à minha imagem, enquanto mulher negra que tem tentado trazer uma maior diversidade para o meio editorial”.

O compromisso, iniciado em 2019, com o lançamento da página “Quem me Lera”, estende-se agora além das recomendações literárias. 

E, muito mais do que uma chancela dedicada à publicação de autores negros, a Kiala distingue-se por abrir portas a profissionais negros, nomeadamente para design e paginação.

“O nosso principal objectivo neste momento é tornar a editora sustentável algo que, por si só, já é bastante difícil neste sector, tão pequenino, com poucos apoios, e onde é tão caro publicar livros”.

O desafio acentua-se a partir do reconhecimento que “a maior parte das pessoas não compra livros, não gosta de ler, e não tem hábitos de leitura”.

Também por isso, a estratégia de afirmação da Kiala deverá passar pela articulação com outros projectos, igualmente alinhados com a divulgação da literatura negra, permitindo queo ciclo de vida de cada obra se prolongue para além da publicação.

“Queremos ir crescendo, mas não vamos crescer sozinhos”, pontua Elga, reafirmando a  vocação colectiva e combativa da nova chancela. 

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Reportagem, Educação Paula Cardoso Reportagem, Educação Paula Cardoso

Centrar os estudos no aluno para dar a volta ao meio – como a Gulbenkian quer alargar o mapa do sucesso escolar 

De portas abertas desde o final do ano passado, os Centros de Estudo Gulbenkian acompanham 75 alunos de três bairros da Área Metropolitana de Lisboa, onde as carências socioeconómicas andam de mãos dadas com elevadas taxas de insucesso e abandono escolar. A intervenção, implementada em articulação com agrupamentos de escolas, e a parceria de entidades locais, pretende transformar essa realidade, através de uma rede de dezenas de explicadores, a aposta em três disciplinas – Português, Inglês e Matemática – e o envolvimento das famílias e comunidades. O Afrolink foi até ao bairro do Vale da Amoreira, no município da Moita, para saber mais sobre esta proposta de mudança. 

De portas abertas desde o final do ano passado, os Centros de Estudo Gulbenkian acompanham 75 alunos de três bairros da Área Metropolitana de Lisboa, onde as carências socioeconómicas andam de mãos dadas com elevadas taxas de insucesso e abandono escolar. A intervenção, implementada em articulação com agrupamentos de escolas, e a parceria de entidades locais, pretende transformar essa realidade, através de uma rede de dezenas de explicadores, a aposta em três disciplinas – Português, Inglês e Matemática – e o envolvimento das famílias e comunidades. O Afrolink foi até ao bairro do Vale da Amoreira, no município da Moita, para saber mais sobre esta proposta de mudança. 

Rafael e Aléssia, com o professor Domingos Boieiro, no Centro de Estudos Gulbenkian, no Vale da Amoreira

Fotografias de Luís Mucauro

Esvaziadas de ensinamento, as palavras tornaram-se, aula após aula, sinónimo de condicionamento e incompreensão. "O teu português não é muito correcto", habitou-se a ouvir um lado; "Precisas de melhorar a escrita", foi escutando do outro, e, sem qualquer direcção, Aléssia Rosário acabou perdida num contínuo de admoestações e recomendações. "Nunca disseram exactamente o que é preciso mudar". 

Foi assim desde que chegou a Portugal, há cerca de cinco anos, e até ao final do ano passado, quando a entrada no Centro de Estudos Gulbenkian do Vale da Amoreira impôs um 'antes e depois'.  

"Hoje consigo ver os erros que cometo", assinala Aléssia, em busca de um equilíbrio entre a bagagem que traz de São Tomé e Príncipe e a vivência em Portugal. "Aqui, a professora de Português foi super educada e gentil. Explicou-me que é normal pensar que algumas coisas estão correctas, por estar mais familiarizada com elas".  

O exemplo, acrescenta o colega Rafael Raposo, expõe uma das fracturas que há muito fragiliza a qualidade do ensino. "Na escola, os professores não conseguem dar atenção a todos, porque as turmas são grandes. Cá, falam mais pausadamente, conseguimos que tenham tempo para nós". 

Com um plano de estudos que engloba Português, Matemática e Inglês, e, por cada disciplina, uma carga horária semanal de hora e meia de explicações, os Centros de Estudo Gulbenkian diferenciam-se também pela dimensão dos grupos, limitados a três aprendizes por sala. 

"A grande maioria dos alunos veio indicada pelas escolas. Existem, no entanto, alguns casos indicados pelas famílias, e pelas organizações comunitárias que gerem os Centros", esclarece Luís Plácido dos Santos, director do serviço de Educação e Ciência da Gulbenkian. 

75 alunos, notas mais altas, assiduidade nos 95%

Desde 17 de Novembro no terreno, o projecto que o Afrolink foi conhecer ao Vale da Amoreira, também está a ser implementado nos bairros do Zambujal e Padre Cruz, acompanhando, nos três territórios, um total de 75 alunos, do 4.º ao 12.º ano. 

"O balanço será realizado no final do ano", adianta Luís Plácido, que, para já, destaca a elevada taxa de assiduidade – fixada nos 95% –, a que se junta um impacto positivo na avaliação. "Diversos alunos já melhoraram as notas, comparativamente ao ano anterior", adianta, explicando que só após "uma reflexão estratégica sobre o projecto", será possível aventar os próximos passos. 

Por enquanto, a intervenção está sustentada numa rede de 39 explicadores, na sua maioria professores do ensino público, seleccionados através de uma chamada aberta. 

"Tive algumas reticências quando ouvi falar em centros de explicações", admite Domingos Boieiro, atento às desigualdades no acesso à Educação, que se acentuam com o facto de algumas famílias pagarem pelo apoio ao estudo dos filhos.  

Peremptório em traçar a diferença entre a lógica classista de mercantilização do ensino, que rejeita, e a dinâmica comunitária e de transformação social, que o liga aos Centros de Estudo, o professor de História, vê neste projecto uma via para corrigir desequilíbrios. 

 "Aquilo que a Gulbenkian procurou fazer, e é também por isso que aqui estou, foi dar uma oportunidade a alguns estudantes que já são bons alunos – temos de o dizer –, e se forem apoiados poderão chegar onde toda a gente com mais condições chega". 

Aléssia e Rafael confirmam os benefícios, muito além da atenção diferenciada que recebem, ao não terem de disputar dúvidas com dezenas de outros colegas.  

"Passei de 12 para 15 a História", compara Rafael, enquanto Aléssia sublinha que ao ultrapassar as dificuldades de expressão e interpretação em Português, tornou-se mais fácil subir as notas e planear a entrada na universidade. 

"São os nossos finalistas e, por isso, há aqui um sentimento agridoce", reconhece Joana Gavinhos, coordenadora do Centro de Estudos do Vale da Amoreira.

Alunos do 11.º ano

Universidade, família e comunidade

Agora na recta final do 12.º ano em Línguas e Humanidades, os colegas de turma e de explicações encontraram neste espaço, que funciona no CRIVA – entidade parceira da Gulbenkian para a intervenção neste bairro do município da Moita –, um acolhimento único das suas necessidades, com a substituição da disciplina de Matemática pela de História. 

O ajuste, nota Luís Plácido, obedece a exigências de preparação para os exames de acesso ao Ensino Superior, horizonte que já pré-ocupa os estudos de Dário Pontes e Sueyma Hassane, alunos do 11.º ano. 

"Quero ter uma média melhor para aumentar as hipóteses de entrar na faculdade", sublinha Dário, que se junta a Sueyma na vontade de manter o acompanhamento Gulbenkian no 12.º ano. 

Enquanto essa boa notícia não chega, o projecto continua a diferenciar-se por colocar os alunos, e por extensão também os agregados familiares, no centro da intervenção. 

"O apoio ao 4.º ano está a decorrer na escola básica, algo fundamental para o bem-estar das famílias", salienta Joana Gavinhos, destapando outro dos eixos centrais deste projecto: o envolvimento dos encarregados de educação, "chamados para o processo desde o início". 

João Gouveia ilustra bem essa presença, e não hesita na avaliação. "Há a questão das notas, que estão a melhorar, e também uma mudança ao nível da confiança", diz o pai de Fernanda Gouveia, uma das alunas do 6.º ano seleccionadas para frequentar o Centro de Estudos do Vale da Amoreira. 

Além do benefício das explicações para o percurso e futuro dos filhos – "A minha Fernanda é um bocadinho aérea, mas vejo que anda mais aplicada", reconhece João –, as famílias encontram outros benefícios neste projecto. "Conseguimos, por exemplo, facilitar o tratamento da acção social escolar", aponta Joana, de memória voltada para um caso, entretanto desbloqueado, "que a pessoa não conseguiu resolver por falta de um documento". 

A cada intervenção, nota a coordenadora, mais do que o investimento que está a ser feito nas trajectórias individuais, sobressai um contributo concreto para o desenvolvimento local. 

Paula Encarnação, assistente social e técnica da Câmara Municipal da Moita, sublinha o impacto. "Há uma mobilização dos recursos existentes no território, seja de apoio alimentar, ao nível das juntas de freguesia, seja do serviço de habitação e de acção social escolar, ambos sob gestão da autarquia". 

Paula Encarnação, à esquerda, e Joana Gavinhos

Sair do bairro para ampliar o bairro

A par da capacitação dos alunos e das famílias, "para poderem ser autónomas na procura dos serviços e informação", a responsável destaca que o projecto "promove a inclusão, o diálogo intercultural e respeito pela diversidade cultural", favorecendo a construção de uma "comunidade mais rica a coesa". 

A transformação, acrescenta Joana Gavinhos, passa também pelo contacto com outras realidades, concretizado através de "actividades culturais e de descoberta", que, através de passeios fora do bairro, alargam horizontes. "Nas férias das Páscoa, fomos recebidos na Assembleia da República pela deputada Eurídice [Pereira], que é aqui do distrito de Setúbal", conta a coordenadora, desfiando as memórias desse dia. 

"À hora de almoço, no momento em que estávamos num compasso de espera, passou a deputada Eva [Cruzeiro], que os miúdos conhecem por causa do rap. Foram logo ter com ela, tirámos fotos, e depois foi interessante vê-la [no hemiciclo] em plenas funções". 

Antes dessa visita, interpõe Paula Encarnação, houve também a oportunidade de o grupo assistir a um concerto de música clássica na Gulbenkian, experiências a que se juntam as mentorias, programadas para acontecer uma vez por mês nos Centros de Estudo.  

"O objectivo é inspirar e fazer os alunos pensar sobre perspectivas de futuro, contar as suas próprias experiências, e fazer os estudantes acreditar", descreve Luís Plácido, explicando que essa responsabilidade é assumida sobretudo pelos "actuais Bolseiros Gulbenkian Mérito", ou seja, universitários com elevadas classificações escolares.  

Mais do que alunos que se distinguem pelas notas, o responsável garante que o grupo de mentores "é muito diversificado", integrando "raparigas e rapazes de várias proveniências, classes cursos, etnias e raças". 

Tudo para que todas as crianças e jovens encontrem modelos referência nos quais se possam rever. Ou, como se lê na obra colectiva exposta numa das paredes do Centro de Estudos, "juntando as peças dos nossos sonhos, construímos a nossa liberdade".   

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Como podemos melhorar o serviço de imigração em Portugal? Assembleia de Cidadãos Migrantes responde

O tema das Migrações está a marcar o debate público, mobilizando – e polarizando – as agendas políticas e mediáticas.  Entre propostas de alterações legislativas, actualizações estatísticas dos novos fluxos migratórios, e análises sobre o seu impacto no tecido social e serviços públicos, o que têm a dizer os imigrantes que vivem no país? A I Assembleia de Cidadãos Migrantes compromete-se a ouvir e a fazer ouvir os contributos de quem deixou um mundo para trás e escolheu Portugal para viver. 

O tema das Migrações está a marcar o debate público, mobilizando – e polarizando – as agendas políticas e mediáticas.  Entre propostas de alterações legislativas, actualizações estatísticas dos novos fluxos migratórios, e análises sobre o seu impacto no tecido social e serviços públicos, o que têm a dizer os imigrantes que vivem no país? A I Assembleia de Cidadãos Migrantes compromete-se a ouvir e a fazer ouvir os contributos de quem deixou um mundo para trás e escolheu Portugal para viver.

É imigrante? Tem pelo menos 18 anos? Está a viver em Portugal? Inscreva-se na I Assembleia de Cidadãos Migrantes do país, que, nos dias 30 de maio, 6, 13 e 20 de Junho (sempre ao sábado), entre as 11h00 e as 18h00, vai deliberar sobre uma pergunta: “Como podemos melhorar o serviço de imigração?”. 

A participação nas quatro sessões terá uma compensação de 200€ em vouchers de supermercado. 

 Além dos contributos de 50 pessoas sorteadas, a Assembleia vai envolver 10 pessoas migrantes na condução dos trabalhos, integrando-as numa equipa profissional de facilitação. 

No final dos quatro dias de deliberação, mais do que a apresentação de propostas concretas para melhorar o serviço de imigração, pretende-se construir um caminho para a sua implementação. Com todas as pessoas. 

Participem e divulguem! 

Inscrições aqui

Mais informações aqui

Esta é uma iniciativa financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, promovida pela Associação Pão a Pão, em parceria com o Fórum dos Cidadãos.

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PSP desmente André Ventura: cidadãos ajudaram agentes a sair de carro capotado - não o abalroaram

Nas últimas horas, o líder da extrema-direita parlamentar divulgou, nas suas redes sociais, um vídeo com a seguinte legenda: “Na Cruz de Pau (Seixal) um grupo de bandidos perseguiu e abalroou um carro de polícia”. A mensagem, rematada com um apelo à reflexão -“As imagens (...) deviam fazer-nos pensar na selva em que Portugal se está a tornar sem que ninguém faça nada” - foi rapidamente disseminada por outros políticos e fiéis do Chega, unidos na distorção da realidade.  Em busca dos factos, o Afrolink, questionou a  PSP que, através do seu núcleo de imprensa e comunicação institucional, desmente a ficção criada por André Ventura. 

Nas últimas horas, o líder da extrema-direita parlamentar divulgou, nas suas redes sociais, um vídeo com a seguinte legenda: “Na Cruz de Pau (Seixal) um grupo de bandidos perseguiu e abalroou um carro de polícia”. A mensagem, rematada com um apelo à reflexão - “As imagens (...) deviam fazer-nos pensar na selva em que Portugal se está a tornar sem que ninguém faça nada” - foi rapidamente disseminada por outros fiéis do Chega, unidos na distorção da realidade.  Em busca dos factos, o Afrolink, questionou a  PSP que, através do seu núcleo de imprensa e comunicação institucional, desmente a ficção criada por André Ventura. 

Imagem retirada do vídeo cujo conteúdo está a ser distorcido

Sem ódios de efeito viral, a história conta-se em curtos parágrafos.

No sábado, 2 de Maio, por volta das 17h, um carro patrulha da PSP mandou parar um condutor que passou um sinal vermelho, na freguesia da Amora, município do Seixal. Desobedecendo à ordem, o motorista pôs-se em fuga, tendo embatido na lateral da viatura policial, que acabou por capotar.  

Em momento algum houve perseguição aos agentes por parte de um grupo. Pelo contrário, a única intervenção colectiva deu-se em auxílio dos efectivos, esclarece a PSP. 

“Do referido capotamento resultaram dois polícias feridos, com ferimentos ligeiros, conduzidos ao Hospital Garcia da Orta para receberem tratamento hospitalar, depois de auxiliados por populares a sair da viatura policial”. 

 A PSP adianta ainda que “o suspeito foi identificado e a viatura do embate  localizada”. 

Tudo o resto é ódio. 

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David J. Amado: “Preferia ser atacado e até morrer como sou, do que viver como alguém que não sou”

“A Água Me Leva” é o mais recente filme de David J. Amado, tendo estreado em março em Lisboa, no Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, no âmbito do projeto “Democracy em in Action”. Seguiram-se outras exibições na Casa Capitão e na Associação Passa Sabi, a que se junta uma nova no próximo sábado, 2 de maio, na Rádio Quântica. Após ter assistido à última apresentação, o Afrolink encontrou-se com o produtor, bailarino, e artista na Fundação Gulbenkian. Uma oportunidade para falarmos sobre esta curta-metragem, que vai fazer parte de um projeto maior, intitulado “Depois do Norte”, mas também para conversarmos sobre o livro “Desprotegidos”, que se prepara para lançar.

“A Água Me Leva” é o mais recente filme de David J. Amado, tendo estreado em março em Lisboa, no Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, no âmbito do projeto “Democracy in Action”. Seguiram-se outras exibições na Casa Capitão e na Associação Passa Sabi, a que se junta uma nova no próximo sábado, 2 de maio, às 18h, na Rádio Quântica. Após ter assistido à última apresentação, a repórter Naya Chardon encontrou-se com o produtor, bailarino e artista na Fundação Gulbenkian. Uma oportunidade para falarem sobre a curta-metragem, que vai fazer parte de um projeto maior, intitulado “Depois do Norte”, mas também para conversarem sobre o livro “Desprotegidos”, que David se prepara para lançar.

David J. Amado, com Pedro Kussy (de costas), na curta-metragem “A Água Me Leva”

Por Naya Chardon*

Comecemos por perceber a história de David J. Amado. Em Portugal há nove anos, o bailarino já viveu nas Caraíbas, no Brasil, e em várias cidades dos Estados Unidos, Nova Iorque incluída, onde estudou música na Columbia University.

Conta que todos os locais o influenciaram, seja no trabalho artístico, em concreto na carreira na dança, ou na vida pessoal. Uma das razões pela qual viajou tanto tem que ver com o interesse por estilos de dança considerados mais “elitistas”, e muitas vezes menos acessíveis em zonas do sul global, onde nasceu. É o caso da dança clássica, em que se especializou, lançando, no ano passado, o projeto “Ballet para Todos”, que proporciona aulas gratuitas para jovens e crianças em comunidades marginalizadas. Mais do uma forma de expressão, David vê na dança clássica, um caminho para  aprender a ter controlo sobre o próprio corpo, ou seja, uma capacidade de empoderamento.

“ A [música] é a minha base porque, antes de tudo, seja dança, seja cinema, seja teatro, eu preciso sentir alguma coisa no meu corpo em termos de ritmo.”

Autor do livro “Desprotegidos”, que está em fase de pré-lançamento e tem publicação prevista para maio, David também assina o filme “A Água Me Leva”, explorando, nestes dois projetos, o empoderamento e autonomia corporal.

O Corpo Estereotipado

Em “Desprotegidos”, o corpo negro masculino representa um dos temas centrais, com a partilha da experiência de abuso sexual entre homens. Através de cinco protagonistas, a obra mostra o percurso de redescobrir a individualidade após ter passado por um trauma; ao mesmo tempo que, na voz dos personagens, integra português europeu, português do Brasil e crioulo da Guiné-Bissau. Esta pluralidade linguística não é apenas uma consequência das diversas culturas à qual o bailairino foi exposto — é um exemplo de como o livro procura uma universalização da dor que ultrapassa fronteiras.

“Quando a pesquisa começa, eles [os cinco protagonistas] são bem estereotipados, mas ao longo do livro, as camadas de máscaras começam a cair; o público e também os personagens conseguem se ver mais autenticamente. [...] Eles conseguem perceber: existe uma identidade por trás dessa persona estereotipada de ser raivoso, forte, dissociado, fetichizado, ou domesticado. Há uma outra pessoa atrás disso.”

Embora o recurso a personagens fictícias permita ao autor distanciar-se da sua própria história, a metáfora da “ecdise” — o processo pelo qual os répteis abandonam a sua pele — introduz um movimento inverso: o de revelação.

“Essa ideia de ver uma cobra ou uma aranha sair da sua pele, e em que a pele deixada para atrás tem o mesmo formato do corpo antigo, sempre foi muito interessante para mim. Porque eu penso na maneira como muitas pessoas, não só homens gays e negros, usam tanta coisa, seja roupa, seja outras pessoas, como pele para proteger o que está ali dentro. Então, essa pele que todos os personagens estão a usar no início da peça é o estereótipo. Mas eu sou o tipo de pessoa que preferia ser atacado e até morrer como sou, do que viver como alguém que não sou.”

Desmascarar os personagens permite ao leitor aceder a fragmentos introspetivos e vulneráveis do autor, que explica como já tentou esconder-se vivendo “dentro dos estereótipos”, devido, nomeadamente, à proteção que isso oferece.

“É minha história, mas ao mesmo tempo não é. Então eu penso nas máscaras que uso, porque sou todos os cinco.”

Influências Externas: Coreopoema e Ntozake Shange

O uso de cinco personagens fictícias também faz referência ao livro for colored girls who have considered suicide when the rainbow is enuf”, de Ntozake Shange, que acompanha sete mulheres negras queer e é escrito no estilo original do “coreopoema” que, explica David, é uma peça de teatro feita de poemas, mas com coreo. Então, é uma história com início, meio e fim, mas contada com poesia e dança.”

Após se ter conectado com essa obra na escola, David foi enormemente influenciado por ela em “Desprotegidos”, mas também em “A Água Me Leva”, que foi desenvolvido com base nesse conceito de “coreopoema”, incorporando dança e poesia numa experiência audiovisual, imaginada pela visão artística do autor.

“Todos os meus projetos são, de alguma maneira, multidisciplinares ou transdisciplinares. Mesmo sendo cinema, por exemplo, é um filme de dança com poesia que começou com ritmo, porque poesia também é musical.”

“Esses Davids que eu tenho sido, ainda são”

A curta-metragem, tal como o livro, destacam-se por temas de autorrepresentação e uma identidade cíclica, ou seja, a ideia de que o crescimento não é linear, e que a nossa identidade inclui, simultaneamente, todas as versões do que somos. 

“Essa ideia da criança existe em tudo que eu faço, porque eu não acredito muito nessa ideia da criança interior, porque a criança que eu era ainda está ao meu lado. Eu a levo comigo. [...] Eu tenho todas as idades que tenho tido na minha vida. [...] Esses Davids que eu tenho sido ainda são.”

Água, Travessias & Depois do Norte
Como o título denuncia, uma das forças maiores do filme é a água, elemento que, para David, representa várias mensagens diferentes, tanto simbólicas como literais. Em primeiro lugar, existem as travessias transatlânticas de negros durante a escravidão, e o trauma geracional associado à água que acompanha essa viagem. 

“Eu venho de um povo que foi levado pelas águas contra a sua vontade, mas também venho de muitas pessoas que foram levadas pelas águas com a esperança de algo maior e melhor para suas vidas.”

No livro, a ideia de travessia é mais metafórica, tendo que ver com os obstáculos que os personagens têm de enfrentar. No filme, também há um sentido metafórico de travessia, mas é especificamente ligado à água. O movimento natural deste elemento, explica David, não é um conceito preto ou branco, de bom ou de mau, mas mais uma ponte de transição.

“Confiar no fluxo da minha vida [e tomar] a decisão de sair, de sair de um estado, de sair de um lugar físico, de sair de um lugar mental e psicológico e atravessar. Então, a decisão é comigo mesmo. Eu decido sair, mas depois disso, eu tenho de confiar nas águas para me levarem à terra firme.”

“A Água me Leva” faz parte de um projeto maior intitulado “Depois do Norte”, que Amado quer desenvolver ainda mais, usando os outros elementos da Natureza: terra, ar e fogo. Uma das suas visões é ter quatro salas de exibição, cada uma representando um elemento. A ideia principal do projeto é a travessia do Norte para o Sul global, questionando a ideia do Norte como destino final e propondo, em vez disso, um regresso consciente ao Sul. Tendo vivido em ambos, o David espera direcionar este projeto para o Sul, partilhando o seu trabalho lá, e completar essa travessia através da arte.

*com edição de Paula Cardoso

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Fui condenada a pagar 26 mil euros de rendas já pagas, por omissão de notificação – onde fica o meu direito à defesa?

À luz da lei existe notificação tácita? Não deve a mesma ser explícita? Não tem o Estado o dever de provar, de forma cabal, que notifica os cidadãos antes de presumir seja o que for? Como entender que a notificação de atribuição de um apoio jurídico seja comunicada de forma expressa e com indicação de prazos de recurso, e que a notificação de não atribuição – aquela que efectivamente atira o cidadão para uma situação de desprotecção jurídica – não o seja? Continuo sem respostas. Continuarei à procura delas. Pela restituição do meu direito à defesa.

À luz da lei existe notificação tácita? Não deve a mesma ser explícita? Não tem o Estado o dever de provar, de forma cabal, que notifica os cidadãos antes de presumir seja o que for? Como entender que a notificação de atribuição de um apoio jurídico seja comunicada de forma expressa e com indicação de prazos de recurso, e que a notificação de não atribuição – aquela que efectivamente atira o cidadão para uma situação de desprotecção jurídica – não o seja? Continuo sem respostas. Continuarei à procura delas. Pela restituição do meu direito à defesa.

Ando às voltas com uma decisão judicial que parte de uma consideração que contesto: os factos de que fui acusada foram dados como “confessados”, por não me ter oposto a uma decisão de indeferimento. Entendo que não tinha como me opor a algo que não chegou ao meu conhecimento.

A alegação, que poderia ser simples de provar, parece, contudo, enredar-me num novelo de desproteção jurídica, do qual, nos últimos dias, me tenho procurado desembaraçar, nomeadamente com reclamações submetidas à Inspeção-Geral do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social; E-Clic; Provedor de Justiça e Portal da Queixa.

Partilho a minha história porque tenho a possibilidade, a capacidade e a energia para o fazer. Tenho igualmente a esperança de que, expondo as falhas, o sistema faça mais e melhor, porque vejo no erro possibilidades de correção, aprendizagem e aperfeiçoamento.

Passo a expor os factos, na medida do que considero mais relevante para sustentar a minha defesa.

Solicitei apoio jurídico via site da Segurança Social, e entendo que não fui notificada da decisão de indeferimento desse pedido, algo que me tirou o direito à defesa, porque, conforme referi no início deste texto, o Estado considera que a não oposição a essa decisão equivale à confissão dos factos, à renúncia da defesa.

A minha contestação prende-se com os procedimentos de notificação tácita que o sistema estabelece, quando os mesmos, a meu ver, deveriam ser cabalmente expressos.

É sequer admissível que se presuma que a pessoa esteja notificada de uma decisão, a partir de uma mensagem que indica “notificação para audiência prévia?”.

A mensagem, decorrente da proposta de uma decisão de indeferimento ao meu pedido de proteção jurídica, não indica prazos de resposta, mas remete para os mesmos nos seguintes termos: “Caso não concorde com a mesma, deve apresentar resposta no prazo que lhe foi concedido em Apoio de Proteção Jurídica/ Consultar Pedido / Resposta à audiência prévia”.

Assim procedi, mas não existe no site qualquer opção “resposta à audiência prévia”, no menu ações que me foi indicado.

Como tal, e porque a mensagem referia a existência de um prazo, consultei a informação disponível no site da Segurança Social sobre o pedido de apoio jurídico, na qual se lê:  "Caso a Segurança Social recuse o pedido, é notificado por carta. Tem 10 dias para responder à notificação, enviar documentos em falta ou documentos que comprovem a sua resposta. Se não responder dentro deste prazo, não terá direito a apoio judicial".

Tomei esta informação como boa e, mesmo tendo aceitado ser notificada de decisões por via eletrónica, assumi, à falta de outra indicação, que diante de uma decisão aconteceria uma de duas coisas: ou receberia notificação por correio; ou por via da caixa de mensagens da Segurança Social.

Não aconteceu uma nem outra porque, ao contrário das orientações que recebi “Apoio de Proteção Jurídica/ Consultar Pedido / Resposta à audiência prévia”, o sistema ‘enterrou’ a notificação numa pasta designada “documentos”, à qual acedi no último domingo, 29 de março, já depois de ter sido notificada da sentença (o que aconteceu dois dias antes, a 27), e, em desespero, ter andado a abrir e a clicar em tudo e mais um par de botas.

Entretanto, alguns advogados que consultei já me disseram que é um erro aceitar notificações por via eletrónica, o que diz muito sobre o sistema, na medida em que uma advertência desse tipo revela desconfiança sobre os serviços, e expectativa de prejuízo para o cidadão.

Importa, por isso, denunciar esta realidade para que a consigamos alterar – em vez de nos resignarmos a disfuncionalidades e arbitrariedades –, impedindo que outras pessoas passem pelo mesmo.

Neste processo, fiquei também a saber que, no passado, o apoio jurídico era requerido com o auxílio de um advogado, protegendo efetivamente o cidadão destes ‘desvios’ do sistema. Ninguém me conseguiu elucidar sobre os pressupostos da mudança de procedimentos que, como se verifica no meu caso, podem ter como efeito privar o cidadão do direito à defesa.

Seja como for, questiono: uma notificação, via caixa de mensagens, não deve ser explícita, indicando prazos e formas de resposta ou, em alternativa, linkando para essa informação ou remetendo, corretamente, para os passos a seguir? O cidadão considera-se notificado diante do que considero uma omissão grave?

Assinalo que a notificação da base de incidência contributiva, que recebo todos os meses da segurança social é bastante eficiente em efetivamente notificar-me – a partir da caixa de mensagens sou reencaminhada, por link direto, para a opção “Aceda à posição Atual”. Sem desvios nem opacidades.

Assinalo igualmente que, a minha expectativa de ser esclarecida, ou adequadamente informada, via caixa de mensagens da Segurança Social está também assente no facto de, em 2024, ter submetido outro pedido de apoio jurídico, cujo resultado foi apresentado de forma inequívoca, com indicação de prazos.

“Decisão: Deferido (...) Caso não concorde com a decisão tomada, num prazo de 15 dias, poderá apresentar impugnação judicial em Apoio de proteção jurídica > Apresentar Impugnação Judicial”.

Não teria, portanto, como imaginar que o que se espera do cidadão é que, num cenário de indeferimento – em que efetivamente precisa de recorrer porque fica sem apoio –, não tenha indicação de prazos, e seja encaminhado para uma espécie de caça ao tesouro pelo site para conseguir sequer ser notificado.

Fala-se tanto de transição digital, a Segurança Social deu à sua estratégia nessa área o nome “Primeiro Pessoas”, mas, a minha experiência demonstra que, nesse processo, os direitos dos cidadãos estão a ser completamente negligenciados.

Para aqui empurrada, pergunto: existirá algum mecanismo mais “estrutural” que salvaguarde os meus direitos, garantindo que:

  • a sentença proferida (diante da minha presumida não oposição) seja suspensa – tendo em conta a gravidade da sua efetivação – despejo e pagamento de 26 mil euros em rendas que tenho como provar que foram pagas (via transferência bancária), tal como tenho como provar que o contrato de arrendamento continua ativo nas Finanças;

  • o sistema me dê a oportunidade de me defender, a partir do reconhecimento de que não fui notificada?

Continuo sem respostas. Continuarei a lutar por elas. Pela restituição do meu direito à defesa.

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Condenada a pagar 26 mil euros de rendas já pagas, porque a decisão – por mais injusta que seja – está “dentro da lei”

Inacreditável. Absurdo. Distópico. Quando acabarem de ler este texto, talvez vos ocorram outros adjectivos para juntar ao meu actual estado de perplexidade jurídica. Inquilina sem qualquer renda em atraso, mas desde 2024 em disputa com a empresa-senhoria – por esta, à margem das normas, tentar impor a lei do mais forte –, encontro-me na circunstância bizarra de ter sido condenada a pagar cerca de dois anos de rendas já liquidadas. Esta é a crónica de um naufrágio pelo Portugal dos pergaminhos.

Fui condenada a pagar rendas já pagas, acusada pelo Estado de ocupar imóvel que o mesmo Estado reconhece ter de ajudar a pagar – e paga! Este é o relato de um naufrágio pelo Portugal dos pergaminhos.

Inacreditável. Absurdo. Distópico. Quando acabarem de ler este texto, talvez vos ocorram outros adjectivos para juntar ao meu actual estado de perplexidade jurídica.

Inquilina sem qualquer renda em atraso, mas desde 2024 em disputa com a empresa-senhoria – por esta, à margem das normas, tentar impor a lei do mais forte –, encontro-me na circunstância bizarra de ter sido condenada a pagar cerca de dois anos de rendas já liquidadas.

A esdrúxula decisão enquadra-se numa sentença que me acusa de ocupar ilegalmente um apartamento que, não só declaro arrendar às Finanças, como me tornou elegível para beneficiar do apoio extraordinário à renda.

Portanto, o mesmo Estado que me condena por ocupação ilegal de imóvel, e a ressarcir cerca de 26 mil euros em rendas, reconhece que ando a pagar rendas acima da taxa de esforço recomendada e, por isso, inclui-me na lista de contribuintes que devem receber apoio para suportar esse encargo.

Importa referir que não mexi uma palha para beneficiar dessa medida – o sistema cruzou dados e chegou até mim. O mesmo sistema a quem, através da minha contabilista, reportei a ausência de recibos de renda, como forma de me salvaguardar de eventuais chatices na apresentação da declaração anual de rendimentos. Aproveitei para explicar à Autoridade Tributária que o contrato declarado pelo senhorio – e que permanece activo no site – está 50€ abaixo do valor que pago todos os meses.

Mas, nada disso importa, explicam-me múltiplas análises jurídicas, profundezas nas quais ando mergulhada desde que, na última sexta-feira, 27, fui confrontada, por via electrónica, com a factura das disfuncionalidades e arbitrariedades do Estado.

Partilho a história – omitindo, obviamente, o nome dos autores desta enorme desonestidade –, porque tenho a possibilidade, a capacidade e a energia para o fazer. Tenho igualmente a esperança de que, expondo as falhas, o sistema faça mais e melhor, porque vejo no erro possibilidades de aprendizagem e aperfeiçoamento.

Queiramos nós, efectivamente, melhorar e avançar – em vez de ficarmos agarrados a desfiles de estatísticas e odes summiteiras à inovação –, e talvez consigamos sair do Portugal dos pergaminhos para entrar no Portugal das pessoas. Todas, todas, todas.

Transição digital? Notificar deveres, ocultar direitos

Até lá, este é o relato do meu naufrágio pela transição digital do país, que engalana discursos sobre a modernização dos serviços públicos, como vias de eficiência e eficácia, mas, na prática, encurrala cidadãos em becos de atrofia e entropia.

É de um desses lugares de ‘atrapamento’ que vos escrevo, após ter sido digitalmente guiada para um caminho armadilhado de qualquer possibilidade de defesa. Ei-lo, passo a passo, descrito na caixa de mensagens da Segurança Social Directa: “Apoio de protecção jurídica/Consultar pedido/ Resposta à audiência prévia”.

Ainda consegui chegar ao “apoio de protecção jurídica”, que, na realidade, está escondido na área “apoios e respostas sociais”, consultei o pedido e, como não encontrei nenhuma opção “resposta à audiência prévia”, pedi apoio jurídico para poder pedir apoio jurídico. Traduzindo: encaminhei o meu impasse para uma advogada.

Fosse como fosse, pensei intuitivamente, havendo algum prazo a cumprir, terei de ser notificada disso mesmo. Vai daí, fui verificando a caixa de mensagens da Segurança Social, onde encontrei a “proposta de indeferimento” ao pedido de protecção jurídica. Neste processo, não recebi nenhum alerta de “novas mensagens” no e-mail, ao contrário do que acontece mensalmente, para pagamento das contribuições.

Saliente-se, aliás, que, neste caso, a “Notificação da base de incidência contributiva” redirecciona efectivamente para a  “Notificação da base de incidência contributiva.”

Nota para memória futura: o Estado sabe bem ‘notificar-me’ dos meus deveres, mas negligencia fazê-lo quando se trata de proteger os meus direitos.

Seja como for, imagino que seja fácil perceber – a partir daquelas perícias que se fazem nas ciber investigações – que só consegui desenterrar a notificação que me era dirigida, na sequência da necessidade de me defender do facto de me terem privado de defesa.

Confuso? É.

Legalmente válido? Tenho dúvidas.

Ao contrário do que aconteceu com a notificação judicial, que me chegou por e-mail e para a qual fui directamente encaminhada – com recurso a links que me dispensaram de andar às aranhas com o motor de busca para encontrar as opções –, a ‘notificação’ da Segurança Social vem sem ligações para as respostas, e, pior do que isso, lista opções que o site não apresenta. Desafio-os, por exemplo, a procurar por resposta à audiência prévia. Desafio-os também, já agora, a encontrar um humano que vos ajude nesse processo.

Assim digitalizados sem transição, acabamos destituídos do direito de acção e reacção.

Afinal, se não vejo a notificação, como se considera que fui notificada? Se me encaminham para uma opção inexistente no site, como esperam que a encontre?

Não sorria. Está a ser injustiçado, mas dentro da lei!

Como é que a mesma Segurança Social que propagandeia a estratégia “Primeiro Pessoas” – apresentada como um programa que pretende acelerar uma transformação digital alinhada com as necessidades dos cidadãos –, não cuida de validar as opções que disponibiliza antes de as recomendar?

Sabem aquele sketche dos Gato Fedorento? Aquele do “segue, segue, segue”? Qualquer semelhança com este disfuncionamento não é pura coincidência, nem dá vontade de rir.

Muito pelo contrário.  A consequência para a minha vida é grave: mesmo sem prova da minha notificação, o sistema assume que fui notificada porque, aparentemente, cabe ao cidadão encontrar o que o sistema esconde.

Mesmo que a informação disponível no site diga o seguinte: “Caso a Segurança Social recuse o pedido, é notificado por carta. Tem 10 dias para responder à notificação, enviar documentos em falta ou documentos que comprovem a sua resposta. Se não responder dentro deste prazo, não terá direito a apoio judicial".

Invoco tudo isso nas 1001 conversas que, entretanto, iniciei com outros tantos advogados, e aprendo que a Justiça não é para aqui chamada. “O que importa é a lei”, ouço repetidamente, ao mesmo tempo que luto com o sistema de “dupla autenticação” a que estou obrigada para entrar no site da Segurança Social, sem que o site da Segurança Social esteja obrigado a uma “dupla autenticação” dos seus procedimentos.

Como se não fosse suficiente esta bizarria me ter retirado a possibilidade de oposição a um “procedimento especial de despejo”, requerido via Balcão do Arrendatário e Senhorio, apercebo-me que não existe mecanismo de apreciação das alegações apresentadas, antes de se avançar com um processo da natureza deste em que me vejo envolvida.

Penso numa formulação que anda aí pelas notícias –“Por falta de indícios que sustentem a acusação” –, que, neste caso, seria mesmo: “Por existência de indícios que anulam a acusação”.

Estado contra Estado. Quem pode mais?

Afinal, como é que uma pessoa que paga rendas, algo facilmente comprovável pela declaração de rendimentos e pelo apoio extraordinário que recebe do Estado, pode ser acusada de ocupar ilegalmente a habitação que declara habitar, e condenada a pagar uns incomportáveis 26 mil euros de rendas, factura a que se juntarão as custas judiciais?

Já agora, importa lembrar que o apoio extraordinário à renda, aprovado no governo PS, foi atribuído automaticamente, a partir do cruzamento de dados, num processo que torna obrigatória a existência de um contrato de arrendamento registado nas Finanças.

É igualmente relevante acrescentar que a empresa que me acusa de ocupação está desde Maio de 2024 a receber, por transferência bancária, o pagamento das rendas referentes ao apartamento que arrendo, sem que alguma vez se tenha recusado a fazê-lo.

Mais: o contrato de arrendamento, que permanece activo nas Finanças, apresenta um valor 50€ abaixo daquele que pago, elementos que, a meu pedido, a minha contabilista reportou à Autoridade Tributária.

A tudo isto, junto a fundada suspeita de que alguém dentro da empresa-senhoria joga com o fim dos prazos dos contratos, para chantagear inquilinos a aceitar renovações por valores acima do que a lei estabelece.

A desconfiança concretizou-se ao receber uma carta de não-renovação, invocando uma cláusula inexistente no meu contrato, e com uma assinatura por mim não reconhecível, nem estatutariamente identificada.

Como não suspeitar de fraude? Mais ainda quando, na comunicação anterior, a renovação era dada como certa.

Quis perceber o que estava a acontecer, recordando que tínhamos um acordo para cinco anos – assumido entre negociações por e-mail –, mas ninguém se dignou a explicar.

O silêncio só foi quebrado depois do término do contrato, em que sou surpreendida por um telefonema de que estaria em dívida, porque a renda foi actualizada. Não nos termos do que a lei dispõe, mas nos termos do que a empresa se lembrou de fixar.  

Note-se que nem sequer me foi apresentada uma proposta de renovação: por agora iria alancar com 100 euros de aumento, depois de no ano anterior ter suportado outro de 50 euros, para no ano seguinte, passar para uma subida de 200 euros? Onde é que isto iria parar?

Dever cívico de travar a “lei do mais forte”

Quantos de tantos pesadelos sociais que andamos a viver não seriam abortáveis se acordássemos para os nossos direitos, em vez de nos resignarmos à “lei do mais forte”?

Afinal, conforme já aventei entre linhas d’ O Tal Podcast– que passo a reproduzir até ao final deste texto –, qual o nosso dever cívico de cada vez que nos deparamos com disfuncionalidades – e até mesmo arbitrariedades – do sistema?

Talvez não estivesse na situação em que me encontro se já se tivesse desfeito o silêncio sobre a opacidade que continua a prevalecer sobre tantos desmandos institucionais. Talvez não estivesse na situação em que me encontro se estivéssemos, enquanto cidadãos activos, preparados para confrontar o ruído de sobreposição às nossas vozes. Talvez não estivesse na situação em que me encontro se, individual e colectivamente, assumíssemos o nosso lugar de fala cidadã.

Enquanto me questiono sobre a linha bem demarcada que continua a afastar os decisores políticos dos cidadãos, lembro-me que a sociedade se constrói passo a passo, lenta, paciente e quotidianamente.

Mas, ao contrário da destruição que nos anda a paralisar, essa construção exige educação cívica. Ou à letra do que alguém escreveu no muro das ideias que acompanhou o último Congresso do Partido Socialista, precisamos “educar para termos um país de cidadãos, não de meros utentes do Estado (e refilões, ainda por cima!)”.

Eu, por vezes apenas refilona e utente, mas sempre combatente, afirmo cada vez mais a necessidade de cerrar fileiras pelos nossos direitos. Sei, contudo, que nem todos o podem fazer. Seja por incapacidade financeira, ou para não arranjar mais problemas; seja por desconhecimento ou descrença na justiça, reconhecidamente favorável aos mais poderosos.

Mas corrigir o que está mal exige agir, em vez de consentir ou desistir sem persistir. Por hoje resisto, e isso passa por não aceitar a injustiça de uma decisão sem dar luta.

Posso até não ganhar, mas não será por falta de comparência. Muito menos de agência.

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Afrolink junta-se à Casa Capitão, com Mercado, O Tal Podcast, Cinema e Exposição

No próximo Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, que se assinala a 21 de Março, o Afrolink junta-se à Casa Capitão, para um sábado de consciencialização e celebração. O programa tem como mote o poema “Deixa Passar o meu Povo”, da moçambicana Noémia de Sousa, numa homenagem que evoca o centenário do seu nascimento, e comemora também o Dia Mundial da Poesia, igualmente assinalado a 21 de Março. Entre a luta anti-racista e a poesia, as actividades começam às 11h, com uma edição especial do Mercado Afrolink, e terminam às 20h, com um tributo à presença negra em Portugal, decorrente da última comemoração do “Black History Month”.  Pelo caminho, teremos um episódio ao vivo de O Tal Podcast, seguido de uma sessão de curtas-metragens, encerrada numa conversa com os autores, integrada no projecto “Democracy in Action”. A entrada é livre, e o repto colectivo: “Deixa Passar o meu Povo”, poetizava Noémia de Sousa, inspirando-nos a reconhecer os marcos racistas do passado, a confrontar as marcas raciais do presente, e a assumir as nossas vozes para contar e cantar os amanhãs! Em união. Vamos!

No próximo Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, que se assinala a 21 de Março, o Afrolink junta-se à Casa Capitão, para um sábado de consciencialização e celebração. O programa tem como mote o poema “Deixa Passar o meu Povo”, da moçambicana Noémia de Sousa, numa homenagem que evoca o centenário do seu nascimento, e comemora também o Dia Mundial da Poesia, igualmente assinalado a 21 de Março. Entre a luta anti-racista e a poesia, as actividades começam às 11h, com uma edição especial do Mercado Afrolink, e terminam às 20h, com um tributo à presença negra em Portugal, decorrente da última comemoração do “Black History Month”.  Pelo caminho, teremos um episódio ao vivo de O Tal Podcast, seguido de uma sessão de curtas-metragens, encerrada numa conversa com os autores, integrada no projecto “Democracy in Action”. A entrada é livre, e o repto colectivo: “Deixa Passar o meu Povo”, poetizava Noémia de Sousa, inspirando-nos a reconhecer os marcos racistas do passado, a confrontar as marcas raciais do presente, e a assumir as nossas vozes para contar e cantar os amanhãs! Em união. Vamos!

No próximo dia 21 de Março, todos os encontros passam pela Casa Capitão

Na obra “De Todos se faz um País”, Oscar Monteiro, um dos históricos da luta de libertação que afirmou e firmou a Independência de Moçambique, lembra-nos a força política da poesia.

“Ela exalta para a acção, ilumina, com o brilho intenso de um relâmpago, um momento da luta. É uma canção de combate”, assinala a determina altura, referindo-se ao papel da “poesia panfletária”, que contrapõe ao da “poesia intimista”, descrita como duradoura e permanente.

“Ela penetra, molda, pelo sentimento, a maneira de ser, intimiza-se e funde-se com o leitor, leva-nos mais longe, leva-nos por toda a vida. Valores e maneiras de pensar, sentimentos que, quando incorporados em nós, não saem com a facilidade com que sai a palavra ou o poema externo. Nesse sentido, fica-se poeta para toda a vida. E isso explica outros comportamentos, constância, ética, sentido dos outros”.

Recordo as palavras de Oscar Monteiro por encontrar nelas o agregador que, no próximo dia 21 de Março, junta o Afrolink à Casa Capitão para um sábado de celebração e consciencialização.

Além de assinalarmos o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, nessa data comemoramos o Dia Mundial da Poesia, pretexto para ‘umbilicar’ o programa ao poema “Deixa Passar o meu Povo”, da moçambicana Noémia de Sousa.

A homenagem à chamada “mãe dos poetas moçambicanos”, no ano em que celebramos o centenário do seu nascimento, serve de mote às reflexões que queremos despertar, e às acções que esperamos influenciar.

A proposta começa às 11h, com a abertura de portas do Mercado Afrolink, e estende-se até às 20h.

Até lá, lembramos que o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial foi instituído pela Organização das Nações Unidas em 1966, em memória das vítimas do massacre de Sharpeville, ocorrido seis anos antes, na África do Sul do apartheid.

A barbárie, protagonizada pela polícia e encerrada com 69 mortes e 186 feridos, ocorreu durante um protesto pacífico contra a chamada Lei do Passe, que obrigava a população negra a andar com um cartão, indicando os locais onde era permitida a sua circulação.

Mais de seis décadas depois do crime racista, as fronteiras raciais continuam a distanciar a Humanidade.

Esta programação também é um passo para nos aproximarmos. Confira tudo o que não pode perder.

Mercado Afrolink - O Regresso

Horário: 11h00 – 20h00

Espaço: Anexo/Unicorn Stage 

“Os passos das pessoas que andaram juntas nunca se apagam”, lembra-nos um provérbio africano que transmite a importância da união, princípio-guia que a plataforma editorial Afrolink implementa desde o primeiro dia, e que aplica à sua comunidade empreendedora.

A novidade constrói-se a partir do Mercado Afrolink, lançado em 2021 na antiga Casa Capitão, que, agora renovada, se volta a abrir a esta rede de pertença.

Mostra digital da Exposição “Black History Month”

Horário: 11h – 20h, com visita comentada das 19h40 às 20h

Espaço: Anexo/Unicorn Stage 

Em exibição ao longo do dia, no mesmo espaço onde decorre o Mercado Afrolink, a mostra digital da exposição "Black History Month" celebra a presença negra em Portugal e o seu contributo, a partir do reconhecimento de figuras que marcaram e continuam a marcar a História do país.

A colecção resulta de uma iniciativa da Embaixada do Canadá em Portugal, realizada com a parceria da AIMA - Agência para a Integração, Migrações e Asilo, reunindo 12 retratos dos artistas Jacquie Comrie, Brian Amadia e Kando.

A partir das 19h40, teremos uma visita comentada, prestando tributo a cada uma das figuras representadas, num momento para retratar o passado, reconhecer o presente e reparar o futuro.

Os 12 retratos criados para a exposição “Black History Month” estão agora em mostra digital

Casa Capitão convida O Tal Podcast

Horário: 16h00 – 17h30

Espaço: Primeiro Andar 

Com o tema “Desfazer o silêncio, confrontar o ruído, e assumir o lugar de fala”, as anfitriãs Paula Cardoso e Georgina Angélica recebem José Rui Rosário, criador d’ “O Lado Negro da Força”, e Justino Sacalumbo, host do “Despertador Podcast”, para um episódio ao vivo d’ O Tal Podcast.

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião.

Paula Cardoso, à esquerda, e Georgina Angélica, autoras d’ O Tal Podcast

Sessão de cinema “Democracy in Action” –  “Manifestos de Vidas Negras”

Horário: 18h00 – 19h30

Espaço: Sótão 

Aoaní, David J. Amado, Elísio Bajone, Indi Mateta e Josiana Cardoso cruzam olhares e experiências no grande ecrã, com curtas-metragens inéditas que nos guiam por histórias ainda por contar, e memórias por documentar.

Esta mostra resulta de um workshop conduzido por Michèle Stephenson e Joe Brewster, da Rada Studio New York, e insere-se no projeto “Democracy in Action”, que está a ser desenvolvido por um consórcio europeu, integrado, em Portugal, pelo CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG.

Depois da exibição, haverá espaço para uma conversa, com a presença dos autores e condução da jornalista Margarida Valença.

As curtas que serão apresentadas resultam de um workshop conduzido por Michèle Stephenson e Joe Brewster, da Rada Studio New York, enquadrado no projecto “Democracy in Action”

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Entrevista, Política Afrolink Entrevista, Política Afrolink

Eva Cruzeiro: “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop na Assembleia da República”

Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.

Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista conduzida por Margarida Valença, em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.

Eva Cruzeiro

Entrevista de Margarida Valença

Eva Cruzeiro, conhecida como Eva Rap Diva, tem sido um dos nomes mais falados da política portuguesa, nos últimos meses. Num momento em que a distância entre eleitos e eleitores parece aumentar, e em que a democracia é frequentemente descrita como mais frágil e polarizada, a deputada eleita pelo PS por Lisboa, em maio do ano passado, destaca-se por um percurso fora das elites político-partidárias e por uma forma de comunicar mais acessível, recorrendo também às plataformas digitais para fazer passar a sua mensagem.

Rapper, ativista e investigadora luso-angolana, cresceu na Arrentela, viveu vários anos em Angola e construiu uma carreira na música antes de entrar na política institucional. Pelo caminho, trabalhou em call centers e no atendimento ao público, e até mesmo em setores como a camionagem e a construção civil. Mais tarde, regressou à academia para estudar Ciência Política e Relações Internacionais, fazendo depois pós-graduações em Gestão Financeira e em Direitos Humanos.

Foi na Assembleia da República que nos encontrámos para esta conversa. Ao longo da entrevista, Eva Cruzeiro fala da entrada na política enquanto outsider, do impacto que sente que o seu mandato tem tido, e da forma como olha para o enfraquecimento dos partidos tradicionais num contexto de crescimento da extrema-direita. Defende que a política precisa de mais pessoas que tenham os “pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las”, e critica uma excessiva teorização das decisões públicas: “Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais têm apenas um conhecimento teórico.”

Insiste também na importância de comunicar a política de uma forma que chegue a todas as pessoas. “A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do Parlamento tem que perceber”, afirma, explicando que só quando consegue traduzir uma proposta para o quotidiano sente que está realmente a comunicar bem.

A conversa passou ainda pelos ataques de que tem sido alvo no espaço público e parlamentar, e pela forma como avalia a resposta das instituições democráticas face à normalização de discursos de ódio e de narrativas da extrema-direita. “Eu culpo os democratas”, diz, argumentando que essa normalização acontece quando não há uma reação firme aos primeiros sinais. Para a deputada, a ausência de resposta clara por parte dos partidos e das instituições abre espaço à legitimação de posições que atacam direitos e minorias. Pessoalmente, admite que este combate pode ter impacto, mas diz estar preparada para o enfrentar: “Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar.”

Há também espaço para regressar à música e ao lugar que o hip-hop continua a ocupar na sua vida. “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República”, afirma, lembrando: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto.”

Como é que o teu interesse e a relação com a política foi evoluindo até seres deputada?

Desde miúda que sempre me interessei e gostei de política, mas não de uma forma estruturada. Tinha questões que achava que precisavam de ser contestadas, que podiam ser mais bem resolvidas, que podiam ter mais atenção. Mas era só isso. Ideologicamente, sempre tive uma educação muito de esquerda por parte da minha família. A minha avó, que é a matriarca da família, é uma mulher de esquerda. A minha mãe também, sendo mais ao centro. O meu pai que me criou – o meu padrasto – é um homem do Partido Socialista há muitas décadas. Sempre participou muito nas coisas do partido, mas nunca nos levou para esse mundo. Foi sempre um militante de base. Nunca ocupou posições de relevância nem teve aspirações políticas. Tive uma educação muito aberta no que toca à política. O meu pai e a minha mãe nunca me tentaram dizer “tens que gostar disto” ou “tens que escolher isto ou aquilo”. Quando me mudo para Angola, com 20 anos, é o próprio contexto que me faz ganhar uma ligação mais forte à política. Começo a compreender a importância de intervir politicamente na sociedade, através da minha arte e da minha participação cívica. Isso acaba por influenciar aquele que é o meu pensamento e a minha visão política para Portugal, e é aí que começo a estruturar-me melhor.

O curso surgiu quando, no meio disto?

Mais tarde decidi que queria estudar. Havia coisas que eu não compreendia e achava que uma licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais iria passar a fazer mais sentido para mim. Claro que, depois de a fazer, passei a perceber melhor muitas dessas questões, mas na altura em que estudei já era politicamente uma pessoa bastante sólida nas minhas ideias, na minha visão e na minha mundividência. Sempre tive muito interesse em Finanças. Fiz uma pós-graduação em Gestão Financeira para aprofundar os meus conhecimentos nessa área. Fui alguém que começou a aprender cedo, e sempre achei que o contabilista, o financeiro, as pessoas com quem eu trabalhava nesse setor, estavam muitas vezes a dar voltas e eu não conseguia perceber determinadas movimentações e decisões que eram tomadas. Então fui estudar para compreender melhor. Eu sou muito assim: não quero saber se um tema é sobre medicina, ambiente ou construção. Quando tenho dúvidas sobre uma matéria, vou estudá-la de forma aprofundada e ponto final. Acho que o que me aconteceu com as Finanças – e foi algo que mudou muito a minha vida – foi ganhar uma educação financeira sólida. Isso ajuda-nos a estruturar a nossa gestão pessoal. O bem-estar das pessoas está também muito ligado à questão financeira. Também estudei Direitos Humanos nesse sentido. Queria aprofundar mais. Para fazer advocacy é importante estarmos bem informados, por isso fiz uma pós-graduação em Direitos Humanos. Estudei desenvolvimento recentemente, em Londres, e agora estou a fazer um doutoramento. Tudo na busca de mais respostas e de me sentir mais segura para abordar determinadas matérias.

Agora que já levas algum tempo de mandato, e olhando para o contexto e as ideias com que chegaste, o que é que, por dentro, percebes como as maiores dificuldades? E que balanço fazes do que tem sido mais desafiante e mais gratificante?

Nós precisamos de pessoas mais executivas na política. Os políticos de carreira, os tecnocratas, são muito importantes, mas acho que precisamos também de mais pessoas com os pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las. Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais tem apenas um conhecimento teórico, ou com as quais não tem uma ligação próxima. Decidem sobre a vida de pessoas de certas profissões, sobre áreas geográficas que não conhecem, onde não estão, que não vivenciam. Percebo que quem chega a cargos de decisão e de poder possa estar mais ligado ao trabalho político em si, mas o trabalho de campo faz muita diferença. E isso não é um problema da esquerda nem da direita. É um problema do sistema político português. Isso tem feito com que algumas políticas públicas não sejam desenhadas da forma mais adequada. É isso também que leva a que, em alguns casos, na sua advocacy política, não se consiga fazer a abordagem mais adequada para chegar a soluções verdadeiramente eficientes e eficazes para as pessoas que delas precisam.

Nesse sentido, o que é que sentes que pessoalmente tens acrescentado, sendo uma pessoa outsider?

Acho que trago um bocado isso. Já vivi dentro e fora de Portugal muitos anos. Cresci aqui e, nos últimos anos em que cá estive, vivi sempre como uma pessoa que partilha o dia-a-dia de qualquer português. A minha convivência social é com pessoas que não estão ligadas à política. Tenho amigas na Buraca, que vivem em Cascais ou em Oeiras, na Margem Sul, no Porto, em Gaia, ou no Alentejo, em Grândola. Visito essas pessoas, durmo em casa delas, elas dormem na minha, vamos a festivais juntas, vamos a restaurantes. Tenho um irmão que vive na Guarda, numa aldeia onde ele e a esposa são dos mais jovens, depois de terem vivido 10 anos em Londres e decidido voltar para o interior de Portugal. Nos últimos anos estive em todos esses lugares como uma pessoa comum. Acho que tenho uma leitura do território, da sociedade e dos problemas um pouco diferente de quem esteve dedicado 100% à política – com muitas aspas, porque não é só o trabalho político que é feito pelos atores políticos. O trabalho político é sério, difícil, exige muito empenho, muito estudo e muita escuta, e muitos intervenientes políticos fazem-no. Mas há um outro mundo que enriquece muito a política quando entra nela. Com toda a modéstia, acho que acabo por trazer um pouco disso.

Diria que há também duas coisas relevantes na forma como te expressas: uma certa leveza, e acessibilidade na linguagem que usas. Isso é intencional?

É. Uma das melhores coisas que me aconteceu quando fui fazer o mestrado em Inglaterra foi tê-lo feito em inglês. Há muitos termos técnicos da economia política que aprendi e trabalhei em inglês. De forma natural, não os trago diretamente para a língua portuguesa. E como tenho o domínio deles em inglês, quando os transporto para o português faço-o de uma forma muito mais suave do que, se calhar, outras pessoas que estudaram as mesmas matérias em português, ou do que eu própria faria se estivesse a falar em inglês. Mas também influenciou o facto de ter feito a minha carreira musical em Angola. Quando comecei a tornar-me muito conhecida em Angola, percebi que havia termos na minha linguagem que eram barreiras. Inclusive o sotaque português, e o facto de falar muito rápido eram um problema. Já aí, há 10 anos, tive que fazer um esforço para falar mais devagar, usar termos mais acessíveis e até linguagem mais próxima do dia-a-dia, para me aproximar das pessoas. Esse exercício acaba por nos ensinar a fazer da língua algo que nos une e aproxima. Isto não é algo totalmente natural para mim. É um esforço que faço nos debates na televisão, nas entrevistas, é uma prática diária. Porque não me interessa passar a ideia de intelectual. Interessa-me passar a ideia, que acho que é aquilo que eu sou, de uma pessoa como qualquer outra, que quer ser ouvida e entendida por qualquer outra pessoa.

Isso é algo que muitas vezes afasta as pessoas da política: esta noção de que se fala em “politiquês” ou “economiquês”. Muitas vezes as pessoas até têm interesse, mas sentem que aquilo que ouvem na política, ou mesmo na comunicação social, está codificado numa linguagem inacessível. Há uma barreira entre querer perceber um assunto e conseguir realmente compreendê-lo. Ao mesmo tempo, há temas que são complexos e que, quando se simplificam demasiado, podem perder rigor. Como é que se garante esse equilíbrio?

O convívio com as pessoas comuns do dia-a-dia ajuda-nos a fazer isso. Por exemplo, eu falo de propostas com a minha avó. E ela faz-me perguntas em que, por vezes, o primeiro sentimento que eu tenho é “como é que ela não sabe?”. Não exteriorizo isso, obviamente. Mas penso: eu é que comuniquei mal. Então procuro explicar de uma forma que entenda. E só quando ela percebe é que sei que estou a falar bem sobre o tema. A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do parlamento tem que perceber. O senhor da oficina onde levo o meu carro a fazer a manutenção tem que entender. Um exemplo é o pacote laboral. No meu dia-a-dia, tenho falado com pessoas, e muita gente diz: “Temos que lutar pelos nossos direitos trabalhistas”. E eu pergunto: “Mas qual é a coisa do pacote laboral que está errada?”. E muita gente não consegue explicar. Entretanto, fiz um vídeo num centro comercial, no Colombo, sobre o banco de horas. Naquele vídeo expliquei, de uma forma muito básica e prática, o que é que pode acontecer se esta nova proposta para o banco de horas, que está neste pacote laboral, passar. Aquele foi um dos vídeos com mais visualizações do meu Instagram, Facebook e TikTok. Já passou um milhão de visualizações, e é um vídeo a falar sobre uma proposta concreta deste governo, em relação à qual estou contra. E as pessoas começaram a partilhar, porque perceberam de que forma iam ficar prejudicadas. Claro que nem sempre a gente consegue explicar. Eu estou nesse exercício constante de me melhorar nesse sentido. E essa melhoria consigo fazer com o contacto direto com as pessoas, que para mim é fácil, porque o meu meio já é um meio de pessoas que não são políticas, dos meus amigos, etc. Não tenho um amigo próximo que seja um ator político e uma pessoa com uma carreira na política: a maior parte dos meus amigos são pessoas super comuns, umas com mais formação, outras com menos. Os meus amigos da escola continuam a ser os mesmos. Então sou obrigada a ter essa convivência com todas essas pessoas.

Estamos a viver um momento em que as democracias estão em crise. Há um lado relevante na renovação dos atores políticos, mas, para além disso, o que consideras necessário mudar ou repensar no espaço onde atuas? Por exemplo, o próprio PS, como muitos partidos de centro-esquerda e centro-direita na Europa, tem vindo a enfraquecer. Qual a tua análise sobre as razões desse fenómeno, e o que pode ser feito para o contrariar?

Algumas propostas de uma certa esquerda surgiram sem o devido enquadramento, informação e trabalho de educação à sua volta. E isso acabou por distanciar essa esquerda das pessoas. Por exemplo, quando falamos de racismo, não basta dizer que ser racista é mau. É preciso contextualizar: de onde parte o racismo, porque é que existe, o que gera numa sociedade. As próprias pessoas, através de um pensamento crítico treinado e estruturado pela educação, devem chegar à conclusão de que o racismo é negativo. Como esse trabalho não foi feito de forma consistente, hoje não temos ferramentas suficientes para responder, de forma eficaz, quando aparecem pessoas a perguntar “qual é o problema de ser racista?”, “qual é o problema de chamar preto a um preto?”, “qual é o problema de eu dizer o que penso”. Vivemos numa estrutura que fomenta o racismo, e há quem se aproveite disso para dividir e capitalizar politicamente. As pessoas não foram devidamente informadas, formadas e educadas para lidar com este fenómeno. O mesmo aconteceu com a misoginia. Durante décadas, falou-se dos direitos das mulheres, da igualdade e da diversidade, repetindo-se que é errado haver discriminação, ou que um homem ganhe mais do que uma mulher. Mas muitas mulheres e muitos homens não compreendem verdadeiramente o que está em causa nessa luta. Há uma certa esquerda que acha que tudo isto é óbvio. Mas não basta parecer óbvio. As mulheres ganharem menos pode parecer evidentemente injusto, mas nem sempre se explicou porquê. E depois surge um charlatão ou uma charlatona a dizer: “As mulheres ficam grávidas, o patrão tem que pagar o salário nesse período, portanto é normal que ganhem menos porque podem dar menos lucro.” Um argumento destes pode parecer ridículo para alguém à esquerda, mas não é ridículo se houver quem acredite nele. Não é ridículo se conseguir provocar retrocessos na luta pelos direitos das mulheres. Ridículo é não termos preparado as pessoas para compreender por que razão esse argumento não faz sentido numa sociedade democrática e liberal como a nossa.

Há um certo moralismo à esquerda?

Claro. A moralidade não é um problema quando vem acompanhada de informação. Quando não vem, pode tornar-se repressiva. Este trabalho de ajudar as pessoas a compreender o porquê de determinadas causas, e porque é que vale a pena lutar por elas falhou em muitos casos. Em relação a várias questões foi bem feito. A esquerda, a nível global, tem vitórias, avanços e transformações sociais incríveis. Mas houve também muito que poderia ter sido mais bem trabalhado. Acredito que parte do crescimento da direita resulta disso. Mas também há um fator cíclico nas sociedades. Não tem sido possível garantir que todos se sintam satisfeitos, e essa insatisfação, essa frustração acumulada, leva muitas pessoas a mudar a sua visão política. Agora há muita gente a deslocar-se para a direita. Acredito que, daqui a alguns anos, depois desta fase, possa haver um novo movimento de aproximação à esquerda. Porque não vejo perfeição absoluta em nenhum dos lados. Não acredito que a esquerda seja perfeita e a direita totalmente imperfeita, ou vice-versa. É por isso que me posiciono ao centro, com tudo o que isso tem de problemático. Sou uma pessoa de centro-esquerda, consciente das suas virtudes, mas também das suas lacunas.

E quais são?

Sou de centro-esquerda, defendo a minha visão, então deixo as críticas para quem não gosta dessa visão.

A extrema-direita tem vindo a ganhar muita força a nível parlamentar. Desde que começaste o teu mandato, já te mandaram “para a tua terra” no Parlamento. Num programa de comentário com a deputada Madalena Cordeiro sobre este episódio, ela dizia: “A Eva não é da Arrentela? Então era só dizer que era da Arrentela”. Noutro programa, com a deputada Rita Matias, a propósito das presidenciais, ouviu-se coisas como: “De repente parece que estamos ali as duas na Arrentela a falar no bairro.” Ou ainda, quando falavas da expressão “três Salazares” usada por André Ventura, Rita Matias respondeu: “É uma expressão popular. Pois, porque a Eva passou 15 anos em Angola e por isso não sabe o que é que os portugueses sentem na vida real. Tem que estar mais em Portugal.” Coisas que antes chocariam, como as declarações de André Ventura, em 2017, sobre a comunidade cigana, hoje tornaram-se quase banais, parte do dia-a-dia. Como é que isto te faz sentir e que peso tem no teu quotidiano, em plenário? Como lidas com este discurso tóxico crescente?

Eu culpo os democratas. Os grandes partidos da nossa democracia são quem eu culpo por isso ter evoluído, e para nós termos retrocedido para este estágio. Mas também culpo a comunicação social. Estes são os maiores responsáveis. Claro que existe um contexto histórico e social que facilita a passagem desse tipo de narrativas ao longo do tempo, mas a normalização não é feita quando o PS ou PSD dizem “ah, isto é normal”. A normalização é feita quando alguém faz um ataque racista, por exemplo, e está toda uma sala a assistir, escandalizam-se, mas continuam a dialogar com aquela pessoa. Imaginemos que estamos numa sala e, sem autorização, um homem toca no peito de uma mulher. Se apenas olharmos e dissermos “isto é errado, é assédio”, e continuarmos a conversa, na vez seguinte ele vai pôr a mão outra vez. E depois outra. E vamo-nos habituando a que aquele homem seja um abusador e deixamos passar. A normalização faz-se assim. Faz-se na reação aos primeiros sinais. Se não houver logo uma punição que corte e mostre que aquilo não é permitido, aquilo vai entrando, como se puséssemos uma vaselina. Quando damos conta, já dominou o espaço e já se normalizou. Quando aparece o André Ventura, e faz-se sinalizações de qual era a sua matriz e base ideológica, e as nossas instituições o permitiram, abriu-se a porta para aquilo que temos hoje em dia. Quem permite que aquilo permaneça e dialoga com eles abre a porta. Podem dizer: “Mas tu também debates com a Rita Matias.” Sim, mas eu desconstruo a narrativa dela. Ninguém tem dúvidas de que ela não sai ilesa desses ataques quando os faz. Eu já encontro este fenómeno instalado. Mas há anos podia ter sido travado. E não é uma postura de censura. Quando prendemos um violador, não estamos a censurar o violador. Estamos a proteger as vítimas e a repor a ordem. A minha pergunta é: as pessoas vítimas de racismo, xenofobia e discurso de ódio estiveram a ser protegidas? Parece-me que não.

Se a liberdade de expressão de alguém está a atacar a dignidade de outras pessoas e ninguém faz nada, isso não é apenas liberdade de expressão. É um sistema que não está a proteger quem tem que proteger. Depois, a comunicação social também é cúmplice. Esta fase de crescimento da extrema-direita coincide com uma fase frágil da comunicação social. Com o crescimento da internet, as plataformas digitais e os canais de YouTube estão a crescer muito. A comunicação social portuguesa tradicional tem de pensar em como se reinventar, e faz um caminho mais fácil: agarrar audiências através do choque e da polarização. Não porque tenha criado melhor entretenimento, ou melhores formas de fazer jornalismo e de informar de maneira mais apelativa, mas porque abre espaço a uma extrema-direita radical, que faz um discurso que choca, que polariza, e que capta o interesse das pessoas. E não capta apenas o interesse de quem é da extrema-direita. Capta também o interesse de quem transforma isso no seu novo entretenimento.

Até pessoas de esquerda, quando ouvem dizer que o líder da extrema-direita vai à televisão, muitas vezes vão ver, às vezes só para ver aquele horror. Hoje, o horror traz audiências à comunicação social. É por isso que vemos horas de Gaza, horas da Ucrânia, horas de terramotos e de desgraças. Esse horror gera audiência. E eu não vi, até agora, ninguém na comunicação social a discutir seriamente outras formas de captar a atenção das pessoas. Também não vi, ao nível das nossas instituições, uma discussão sobre como, através da informação, da educação e das novas tecnologias, podemos mobilizar a atenção das pessoas para outras coisas, através de outros sentimentos que não apenas o choque, o horror, a fomentação do ódio e da polarização. Será que, através de outro tipo de ação, de outro tipo de estímulo, conseguimos audiência? Estamos numa fase em que parece que acreditamos que só isto resulta na comunicação, porque nem sequer houve, pelo menos do que é do meu conhecimento, um verdadeiro esforço para procurar outros caminhos que mantenham a comunicação social relevante e interessante para o povo português.

E, a nível emocional, como é viver diariamente com a sensação de que a democracia está mais frágil do que alguma vez esteve desde o 25 de Abril? Assistir a isso em primeira mão, lidar com esses protagonistas no dia-a-dia, num contexto em que a banalização do ataque se estende do Parlamento ao comentariado?

Ainda não parei para fazer uma grande análise ou reflexão sobre as minhas emoções. Acho que as pessoas que estão na frente de combate têm que, de certa forma, desumanizar-se e perceber que atrás delas existem milhares de pessoas que precisam que elas façam uma luta bem feita. As pessoas que sofrem com o crescimento da extrema-direita, que são desumanizadas, humilhadas, que veem os seus direitos limitados, e são gratuitamente atacadas por quem as instrumentaliza para ganhar votos, são muito mais do que eu e, em conjunto, muito mais importantes do que eu, e são a minha principal preocupação. Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar. Alguém tem que fazer este trabalho. Não é fácil, mas os danos emocionais que eu possa sofrer valem a pena pela luta que estamos a fazer. Se tenho a oportunidade de ser eu a fazê-la, então fá-lo-ei sem medo do impacto que estes embates diários e a violência que esta gente traz, para o Parlamento e para a sociedade, possam ter em mim.

Vens do hip-hop, movimento que em Portugal foi crucial na afirmação do discurso e narrativas antirracistas, com protagonistas como o General D ou o Chullage, que intervieram de forma assertiva numa altura em que esses discursos eram completamente marginais. Sentes que estás a continuar esse legado? Há simbolismo em haver alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República?

É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República. O hip-hop tem sido um dos maiores espaços de ativismo político na sociedade portuguesa. Eu cresci na Arrentela até uma parte da minha vida, e comecei a ouvir Chullage e Red Eyes Gang muito cedo. Obviamente que isso mexeu comigo e ajudou a definir a pessoa que sou hoje. Sou muito grata, e ainda não tive a oportunidade de falar sobre isso e agradecer da forma adequada, mas o Chullage, o Boss AC, os Black Company, os TWA, os The Blazz e muitos outros artistas que ouvi há muitos anos foram muito importantes para aquilo em que me tornei. Há pouco falávamos da parte psicológica de lidar com estes ataques, mas também tenho que dizer que o hip-hop me formou, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto. Acredito que há uma grande probabilidade de sair ilesa por causa da escola hip-hop. Não posso dizer que sou a continuação do legado do Chullage ou do General D. Acho que seria muita arrogância da minha parte.

Digo no sentido de seres uma representante do movimento

Sim. Vejo o que fiz no hip-hop como a grande obra da minha vida. Se não viver muito mais, tudo o que fiz é suficiente para ir para onde eu for orgulhosa do meu percurso. O meu lugar no hip-hop fala por si. Consegui quebrar barreiras espetaculares. Hoje em dia, as pessoas encontram-me e dizem: “Ah, tornaste-te deputada. Uau.” E eu penso: eu já sou a Eva Rap Diva há muito tempo, e aquilo que fiz enquanto Eva Rap Diva já era muito “uau”. Ser deputada é uma grande responsabilidade, claro, mas eu já ando a fazer coisas “uau” há muito tempo. Muitas pessoas em Portugal não têm noção da dimensão do trabalho que fiz, mas no hip-hop deixo um legado do qual me orgulho. Talvez um dia alguém queira estudar e perceber como é que uma mulher como eu chegou ao hip-hop da forma como chegou, o que fez. E se existe hoje uma geração de rappers mulheres na lusofonia, pelo que sei e pelo que oiço dizer, também vem dessa influência da Eva Rap Diva. E isso deixa-me orgulhosa, com um sentido claro de missão cumprida.

Nos últimos anos, assistimos a uma afirmação muito forte de artistas lusófonos e afrodescendentes, por exemplo, os Calema a encherem o Estádio da Luz, ou o “Nova Lisboa” do Dino D’Santiago a ganhar um palco enorme, trazendo para o centro do debate questões como o racismo e a inclusão. Como é que vês este momento da música, e do hip-hop em particular, nesse contexto?

Há uma polarização na nossa sociedade que tem a ver com as expectativas que as pessoas tinham daquilo que seria a democracia, a Europa, Portugal na Europa, a globalização. O acesso de todos ao Serviço Nacional de Saúde, a uma educação e a uma vida plena, próspera, com bem-estar. E depois há a questão que a extrema-direita traz, que é a questão identitária, racial e nacionalista. Temos que diferenciar uma coisa da outra, porque há muita gente que defende a extrema-direita e depois fica a ouvir kizomba dias e dias a fio. Culturalmente, e a nível social, nós estamos mesmo todos juntos e misturados. Mas há depois quem agarre a frustração das expectativas e ponha tudo no mesmo saco. E há muita gente que acaba por ficar dentro desse saco porque realmente quer agarrar-se a alguma coisa. Mas a música e a arte demonstram que Portugal é mesmo este país dos Calema, do Dino D’Santiago, da Eva Cruzeiro, da Amália, do Slow J, da Ana Moura, da Carolina Deslandes e do Sérgio Godinho. Este é um Portugal de várias gentes, com várias formas de comunicar, de cantar, de dançar, de falar, de viver e de sentir. Acho que a música acaba por ser a prova factual disso. Os artistas mais ouvidos em Portugal, nos últimos anos, são jovens negros afrodescendentes. Olha que maravilhoso que isto é. Isto é o que nos define. É o que a gente segue, o que a gente ouve, o que a gente compra, o que a gente comemora. E é este Portugal que temos que lembrar que existe, e que nós somos. Não é todas as outras coisas que andam por aí a tentar fazer parecer que o país é: um Portugal dividido, que isola, discrimina, humilha e fere a dignidade das pessoas, só por causa da sua cor de pele ou da sua orientação sexual. Esse não é o nosso Portugal. Isso é um Portugal que eles estão a querer que o nosso Portugal seja. E nós vamos resistir a isso.

Mas porque é que achas que há este gap entre o mundo da arte e outras esferas?

O problema é que eu não acho que exista esse gap. De um modo geral, a sociedade portuguesa vive e celebra essa mistura. Há uma minoria que expressa outro tipo de sentimentos: de ódio, por exemplo. Mas, mesmo junto dessa minoria, há pessoas que não têm propriamente um conflito cultural. O que têm são outras frustrações, outras manifestações de descontentamento, muitas vezes ligadas a questões económicas ou sociais, que acabam por se sobrepor a isso. Esquecem o facto de serem culturalmente próximos de um mundo imenso que é Portugal, e agarram-se à extrema-direita por causa dessas outras questões que, naquele momento, lhes parecem mais urgentes. Mas se fores falar com essas pessoas, com calma, percebes que não têm problema nenhum em estar ligadas a outras culturas e em celebrá-las no seu dia-a-dia. Há uma minoria, sim, que rejeita aquilo a que chama “cultura portuguesa”, quando tudo o que estivemos a falar é cultura portuguesa. O Slow J é cultura portuguesa. O Prodígio é cultura portuguesa. O T-Rex é cultura portuguesa. O Plutónio é cultura portuguesa. A Capicua é cultura portuguesa. Depois há quem queira dizer que não. Mas como é que eu vou distinguir o Valete do Sam The Kid no que toca à cultura portuguesa? Ambos são cultura portuguesa. Nós é que temos que começar a afirmar isso claramente: o Valete é cultura portuguesa, a Ana Moura é cultura portuguesa, o Sam The Kid é cultura portuguesa, o Slow J é cultura portuguesa, o Dino D’Santiago é cultura portuguesa. “Ah, mas ele também é cabo-verdiano.” Também é cultura portuguesa. A Sara Tavares é cultura portuguesa. Não me interessa onde se inspirou. Ninguém foi perguntar ao Sérgio Godinho em quem é que ele se inspirou. E, se forem perguntar, provavelmente não chegaremos tão longe na análise como chegamos quando falamos de artistas negros e vice-versa. Quando vamos a outros países, africanos ou da América Latina, encontramos pessoas que dizem que se inspiraram no Sérgio Godinho ou noutros artistas portugueses. Isso sempre existiu e nunca incomodou ninguém. Qual é o incómodo agora?

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Welket Bungué: “Sou sujeito e objeto daquilo que estou a registar”

"Contemplação Impasse Tentativa” é o mais recente filme de Welket Bungué, estreado em Outubro do ano passado em Portugal, no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa. Com a Guiné-Bissau como palco, a curta-metragem transporta-nos para a atualidade do caos de uma feira, epicentro de uma série de observações sobre o passado político, marcado pela luta de libertação, e a presente governação, manchada de autoritarismo. Cinquenta e dois anos depois da Independência, o que o povo diria a Amílcar Cabral diante da questão: “Como é que veem o país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. Sem perder de vista o olhar sobre o futuro, Welket usa o cinema como resistência, e faz do telemóvel uma força de intervenção. Para conhecer nesta conversa conduzida pela estudante Naya Chardon, de 16 anos, que partilha com o Afrolink, o resultado de um encontro com o ator, performer, modelo e realizador.

"Contemplação Impasse Tentativa” é o mais recente filme de Welket Bungué, estreado em Outubro do ano passado em Portugal, no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa. Com a Guiné-Bissau como palco, a curta-metragem transporta-nos para a atualidade do caos de uma feira, epicentro de uma série de observações sobre o passado político, marcado pela luta de libertação, e a presente governação, manchada de autoritarismo. Cinquenta e dois anos depois da Independência, o que o povo diria a Amílcar Cabral diante da questão: “Como é que veem o país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. Sem perder de vista o olhar sobre o futuro, Welket usa o cinema como resistência, e faz do telemóvel uma força de intervenção. Para conhecer nesta conversa conduzida pela estudante Naya Chardon, de 16 anos, que partilha com o Afrolink, o resultado de um encontro com o ator, performer, modelo e realizador.

Welket Bungué, fotos de Kristin Berhge

Por Naya Chardon*

Entre poesia e paisagens pitorescas, o telemóvel de Welket Bungué atravessa o caos de uma feira guineense – a Lumo –, protegido por uma manta de invisibilidade. "Contemplação Impasse Tentativa" nasce ali, nesse olhar que observa sem ser visto — uma metáfora para fazer cinema num país onde ver é, em si, um ato político.

 Mas quem é Welket Bungué?

Ator, performer, modelo e realizador, Welket Bungué nasceu na Guiné-Bissau em 1988, tem atuado em vários projetos, cofundou a produtora KUSSA, e escreveu o livro “Corpo Periférico”. Mais conhecido pelo papel principal que interpretou em “Berlin Alexanderplatz” (2020), Welket também realizou “Memória”, sobre Amílcar Cabral.  

Em Novembro passado, numa das suas últimas passagens por Lisboa – enquadrada numa intensa rotina de filmagens e viagens – encontrámo-nos na Fundação Calouste Gulbenkian para uma conversa.  

Sem reservas, Welket revelou como a arte sempre foi uma forma de se exprimir, pessoal e politicamente; e descreveu a sua metodologia como sendo de autorrepresentação: o ato de o próprio sujeito periférico se filmar, narrar e pensar, em vez de ser apenas objeto do olhar de outros. 

"As imagens são filmadas enquanto ponto subjetivo, porque na minha obra eu sou sujeito e objeto daquilo que estou a registar", concretiza o cineasta. 

“Contemplação Impasse Tentativa”, o seu mais recente projeto, permite observar como o realizador passa das palavras à ação. 

Estreado no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa, no final do ano passado, o filme serve de mote para esta conversa, na qual abordámos temas como identidade, e refletimos sobre o cinema como ferramenta de resistência política. 

Começámos pelo nome da produção: porquê “Contemplação Impasse Tentativa”?

Welket explica que, embora as três palavras se sustentem autonomamente, juntas ganham importância reforçada. "São convergentes, têm também como objetivo abrir uma perceção mais ampla e crítica sobre o filme".

Apresentando uma a uma, o realizador nota que "Contemplação" deve ser entendida não só no seu significado literal, mas também como conceito abstrato: enquanto movimento de sair de si próprio para ver as coisas acontecerem, com um olhar não-intrusivo. 

Já o termo "Impasse" refere-se à situação política na Guiné-Bissau, gerida sob evidentes tendências autocráticas, e em que não se sabe se o país está a viver numa democracia ou numa ditadura.  

Nem de propósito, uma das cenas centrais do filme acontece na feira de Lumo, onde a negligência de um trabalhador do Estado leva a que estacione a viatura num lugar indevido, interrompendo o negócio de todos, e gerando uma grande desordem. 

“Foi apenas um carro, mas desestabilizou tudo”, nota o também ator, sublinhando a consequência: “As pessoas têm de trabalhar muito para tentar corrigir uma coisa que não foi provocada por elas”. 

Não será assim demasiadas vezes? Welket assinala que, nesse cenário, o impasse é uma metáfora para o impasse em que o seu país se encontra, sem saber se vai andar "para a frente, para trás ou para o lado". 

Finalmente, a palavra "Tentativa" traduz o sentimento rebelde e otimista de persistir, expressão de uma resiliência capaz de transportar o povo do país para "um lugar melhor." 

A Manta de Invisibilidade

Enquadrado o título do filme, a conversa retorna ao primeiro conceito – de “Contemplação” –para adicionar um olhar concreto a essa ideia abstrata, possível a partir da figura do "missionário invisível". 

“Era preciso que houvesse um olhar não intrusivo, para que pudéssemos testemunhar realmente o que está a acontecer no país, como as pessoas estão a lidar com tudo", explica o cineasta, acrescentando que aí reside o manto de invisibilidade que acompanha a câmara enquanto se filma. 

Por isso, mais do que uma invenção cinematográfica, o “missionário invisível” é a projeção do próprio realizador, que põe em prática o método de autorrepresentação. Além disso, num contexto como o guineense, no qual a crítica pública é reprimida, a câmara invisível oferece a vantagem de se mover livremente, conseguindo ver, escutar e registar o que não pode ser dito. 

Regressar em imagens

O processo vai-se revelando, na autodescoberta que tem sido o reencontro do realizador com as origens, iniciado em 2019, quase três décadas depois da saída da Guiné, em 1991. A essa primeira viagem seguiram-se outras, roteiro onde se destaca o regresso a Xitole, a sua localidade-berço.  

Aconteceu em 2023, e envolveu um improviso sobre rodas: para poder registar e capturar esse momento, Welket, que seguia de autocarro, teve de pedir ao condutor para desencascar uma paragem.

 "Houve um fracasso, no sentido em que embora o autocarro passasse por lá, Xitole não era uma paragem da viagem". 

O "áudio" em audiovisual

A par do registo visual, Welket firma créditos no registo sonoro, compilando anos de viagem num mosaico audiovisual. Não estranha, por isso, que em “Contemplação Impasse Tentativa” encontremos imagens de arquivo, que vão muito além da Guiné-Bissau. É o caso do mar em São Tomé e Príncipe, da vista aérea de Portugal, ou dos planos da Nigéria e da Alemanha, todos extraídos de uma compilação seleta das suas idas e vindas. 

‘Arrumadas’ as imagens, qual será o raciocínio que guia os diversos sons do filme? Por cada escolha, há uma intencionalidade, garante o realizador, sem descurar um único áudio. Seja o canto dos pássaros, o movimento do mar em São Tomé e Príncipe, ou a voz-off que lê a poesia do seu pai, Paulo T. Bungué. 

“Cabral” é um dos poemas que se ouve na produção, aponta Welket, explicando que o mesmo representa uma homenagem a Amílcar Cabral. 

Mais do que cuidar da escolha dos sons, o guineense sublinha a importância de afinar a edição: as alterações técnicas permitiram-lhe "deslocar as pessoas para um outro lugar" – o de contemplação. 

"Embora fale na primeira pessoa, há a intenção de que a voz pareça também consciência”.  

Cabral em eco: cinema entre memória e revolução

“Contemplação Impasse Tentativa” aborda vários temas políticos, seja direta ou indiretamente. Ao longo do filme, encontramos, por exemplo, alusões e homenagens a Amílcar Cabral, líder da luta pela independência contra o domínio colonial português, em Cabo Verde e na Guiné-Bissau. 

A determinada altura, a ação encaminha-nos para um exercício de imaginação de uma pergunta que Cabral poderia fazer: “Como é que vocês veem o vosso país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. 

Com esta proposta, Cabral deixa de ser apenas uma figura histórica para tornar-se consciência coletiva.  

"Qual é a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos e cidadãs, quando abrimos mão dos nossos direitos ou desacreditamos no sistema eleitoral democrático, que é o que se passa no país? É muito difícil ter-se um posicionamento político, porque há quase sempre represálias”, lamenta o guineense, prosseguindo: “Sem falar na questão dos recursos para poderes viver, para te poderes deslocar. Essas coisas acabam por suplantar o desejo de ser criativo". 

As mensagens políticas ressaltam igualmente no diálogo que os poemas de Paulo T. Bungué criam através do tempo: entre o sonho revolucionário dos anos 1970 e o presente autoritário de um país em busca de voz.  

Filmando o silêncio, o cineasta faz o país responder sem palavras. 

"Por isso é que o filme manda uma pessoa invisível, que possa andar pelo país. [Sob este regime] já não temos manifestações públicas livres no país. Tu não podes ir agora para a rua com panfletos a dizer ‘Somos mais a favor dos direitos das mulheres, ou somos mais a favor dos direitos para a educação’. Não podes. Porque eles vão usar a polícia de intervenção rápida; vão disparar balas de borracha e jatos de água quente contra a população para a desmobilizar. Por isso é que o filme manda uma pessoa invisível, que possa andar pelo país — o governo não sabe que ele está lá, o povo também não sabe". 

Pequenos ecrãs, grandes revoluções: um novo cinema guineense

Atento à realidade, Welket acredita que para criar uma indústria cinematográfica na Guiné-Bissau, que vê hoje como mínima, é preciso reinventar a arte, e recorrer aos telemóveis. O artista nota que cineastas como Flora Gomes ou Sana Na N'Hada têm produzido filmes desde o final dos anos 80 com as câmaras típicas, mas defende que para tornar o cinema mais acessível e democratizante - enquanto ferramenta de expressão política –, é preciso aprender a contar histórias usando o dispositivo móvel. 

"Tendo em conta a conjuntura política em que vivemos, acredito que há muita coisa que precisa ser denunciada ou documentada para que possa haver um tratamento apropriado nos próximos anos. E o telemóvel é que o pode fazer. Usar os dispositivos móveis pode capacitar pessoas com um instrumento que pode mudar vidas." 

Entre as histórias que devem ser contadas, o realizador inclui as que têm sido invisibilizadas, lembrando que é preciso desocultar vários capítulos do passado. O cineasta recorda, por exemplo, que durante a sua primeira viagem à Guiné-Bissau, ao conhecer o Memorial da Escravatura e Tráfico Negreiro de Cacheu, percebeu que teria de se comprometer com "um retorno mais pragmático e recorrente ao país, para poder resgatar novas histórias e contribuir para uma reinvenção do cinema guineense”. 

“Contemplação Impasse Tentativa” é indissociável dessa consciência. No filme, Welket recorre à herança poética paterna como forma de manter viva a memória da libertação e promover esperança para uma sociedade onde a arte é também uma responsabilidade cívica.

 Enraizado entre a memória de Cabral e o futuro de uma nova geração armada de telemóveis, o realizador usa o cinema como resistência, e incentiva outros a fazerem o mesmo. 

 

*com edição de Paula Cardoso

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A democracia somos nós, a anti-democracia também. O que o futuro nos reserva?

Numa acção de campanha de Catarina Martins, candidata que tem o meu apoio à Presidência da República, tive a oportunidade de fazer uma intervenção sobre o momento político que vivemos, de recuo democrático e avanço fascista. Aconteceu no passado dia 8, no Clube União Banheirense "O Chinquilho", na Moita, e partilho agora, em vésperas de eleições, a minha intervenção, para recordar que a Democracia somos nós. Votemos por ela! Eu voto com a Catarina! Para que Viva a Democracia.

Numa acção de campanha de Catarina Martins, candidata que tem o meu apoio à Presidência da República, tive a oportunidade de fazer uma intervenção sobre o momento político que vivemos, de recuo democrático e avanço fascista. Aconteceu no passado dia 8, no Clube União Banheirense "O Chinquilho", na Moita, e partilho agora, em vésperas de eleições, a minha intervenção, para recordar que a Democracia somos nós. Votemos por ela! Eu voto com a Catarina! Para que Viva a Democracia.

Estou contigo nesta campanha, Catarina, porque sei – aliás, sabemos – que não é de mentalidades individualistas e egóicas que Portugal precisa. O país precisa de colectivo, e ele constrói-se todos os dias com a nossa participação.

A Democracia somos nós.

E ela será tão mais forte, quão mais capazes formos de construir colectivo, agregando – e não segregando – todas as diferenças que compõem a nossa sociedade.

A Democracia somos nós.

E ela continuará a definhar se insistirmos na ideia do outro como ameaça, na narrativa do diferente como menos humano, e em modelos de sociedade onde a exigência de desempenho laboral se sobrepõe ao empenho em defesa da existência humana.

A Democracia somos nós.

Defendê-la exige participação, muito além dos actos eleitorais. É no dia a dia, em casa, nos transportes públicos, nas escolas, nos hospitais, nas ruas, nas redes sociais, em todos os espaços da nossa vida que os valores da democracia têm de ser concretizados e consolidados.

Se hoje enfrentamos a maior ameaça à nossa democracia, e a democracia somos nós, isso significa que está nas nossas mãos protegê-la.

Infelizmente, não é isso que temos feito enquanto país.

De ciclo em ciclo político, o que se observa é que cada vez mais de nós ficam de fora das preocupações de quem tem o dever de incluir todas as pessoas.

Por isso mesmo, a anti-democracia também somos nós. Os que por não serem directamente visados, se resignam diante do racismo, da xenofobia, da misoginia, lgbtfobia e todas as manifestações contra o direito a ser.

A anti-democracia também somos nós. Os que diante da precarização das condições de trabalho, da redução dos salários, especulação imobiliária e aumento do custo de vida culpam os mais vulneráveis e idolatram os responsáveis.

A anti-democracia também somos nós. Os que negam a existência de barreiras estruturais que mantêm pessoas negras e ciganas afastadas do exercício da cidadania, e vedam a nacionalidade a quem nasceu em Portugal.

Se a democracia somos nós, e a anti-democracia também, o que é que o futuro nos reserva como país?

Acredito que a resposta a esta pergunta passa, com importância decisiva, pelas presidenciais do próximo dia 18.

Também por isso estou aqui. Contigo Catarina, e com todas as pessoas que querem que a Democracia resista a todas as ameaças.

Numa altura em que temos um governo alinhado à extrema-direita, com propostas de normas anti-constitucionais e conivente com políticas imperialistas, é vital impedir que a Presidência da República esteja, também ela, ao serviço da anti-democracia.

Nunca, como hoje, precisámos tanto de uma chefia de Estado que actue em defesa da Constituição da República e, já agora, do Direito Internacional.

Estou contigo, Catarina, porque sei que, mais do que respeitar os princípios fundadores da nossa Democracia, tu lutas para que eles se cumpram.

Desde logo o princípio da igualdade, que consagra que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”.

À luz do mesmo princípio, “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”.

Ainda estamos longe de cumprir este princípio, mas ele é tão estruturante para a vida democrática que desistir dele é desistir da Democracia.

Eu não desisto. E também por isso estou aqui. Contigo, Catarina.

Não desisto, porque assumo o dever de honrar quem me antecedeu, quem deu a vida para que hoje eu esteja aqui, em liberdade, com direito de voto e agência política.

Não desisto porque acredito que um país melhor, coeso e fraterno é possível, com consciência e mobilização colectiva.

Não desisto porque a luta pela igualdade é a luta pela vida.

Neste 2026, que marca os 50 anos da nossa Constituição e 100 desde o golpe militar que impôs a ditadura, somos desafiados a escolher entre as trevas do passado, e novos dias inteiros e limpos. Entre a democracia e a anti-democracia. Entre a vida e a morte.

Eu voto contigo Catarina. Pela Vida, pela Democracia, reiterando que ela não existe sem igualdade.

Viva a Democracia!

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Mais do que “votar em”, no próximo dia 18 eu “votarei com” Catarina Martins

O ano começa com mais um repto democrático. No próximo dia 18 de Janeiro teremos eleições presidenciais e, nunca como agora, importa perceber que o cargo em disputa não é decorativo, ao contrário do que outros ciclos políticos possam ter sugerido. Hoje é a defesa da própria Constituição da República que está em disputa, perante o avanço da extrema-direita no Parlamento e no Governo. Embora os alertas à anti-democratização do país não venham de hoje, eles agravam-se dia após dia, por terem sido repetidamente desvalorizados e até ignorados. Como se Portugal beneficiasse de um estatuto de excepcionalidade, fruto da particularidade de terem sido os militares a libertar a nação do fascismo. Neste 2026 que agora se inicia, desejo que sejamos capazes de defender o nosso Estado de Direito Democrático, votando uns com os outros, com quem, como nós, luta por um país digno para todas as pessoas. Catarina Martins é a minha escolha presidencial, e este texto a expressão pública do meu apoio. Votemos pela nossa Democracia.

O ano começa com mais um repto democrático. No próximo dia 18 de Janeiro teremos eleições presidenciais e, nunca como agora, importa perceber que o cargo em disputa não é decorativo, ao contrário do que outros ciclos políticos possam ter sugerido. Hoje é a defesa da própria Constituição da República que está em disputa, perante o avanço da extrema-direita no Parlamento e no Governo. Embora os alertas à anti-democratização do país não venham de hoje, eles agravam-se dia após dia, por terem sido repetidamente desvalorizados e até ignorados. Como se Portugal beneficiasse de um estatuto de excepcionalidade, fruto da particularidade de terem sido os militares a libertar a nação do fascismo. Neste 2026 que agora se inicia, desejo que sejamos capazes de defender o nosso Estado de Direito Democrático, votando uns com os outros, com quem, como nós, luta por um país digno para todas as pessoas. Catarina Martins é a minha escolha presidencial, e este texto a expressão pública do meu apoio. Votemos pela nossa Democracia.

Neste 1.º de Janeiro de 2026, proponho-me imaginar não apenas os próximos 364 dias, mas os cinco anos que temos pela frente. Faço-o na primeira pessoa do plural porque o mundo e o país que idealizo constrói-se colectivamente, sem muros nem fronteiras humanas, e com mais Democracia.

“Uma Democracia forte que ocupa todos os lugares das nossas vidas, nas escolas, nas empresas, nos bairros”, à letra do compromisso que assume Catarina Martins, e que me alia à sua candidatura à Presidência da República.

Mais do que “votar em”, no próximo dia 18 eu “votarei com”, posicionando-me do lado da candidata que, com todas as pessoas, seja onde for, luta por um país mais livre, justo e fraterno.

Vejo-a fazê-lo em múltiplas frentes, todos os dias, e não apenas a cada ciclo eleitoral. Vejo-a fazê-lo em defesa do nosso direito à habitação; pela continuidade e melhoria do nosso Serviço Nacional de Saúde; em nome da valorização do sector cultural; no combate ao racismo, xenofobia e todas as formas de discriminação; pela salvaguarda dos nossos direitos trabalhistas, estudantis e tantos mais. Vejo-a fazer, e não apenas prometer.

Esta é uma intervenção que nos aproxima, porque sei que as pessoas de palavra são aquelas que cumprem – e se cumprem – com a força da acção.

Reconheço na Catarina a rara e cada vez mais valiosa capacidade de dialogar e encontrar convergências políticas, sem perder de vista a promoção e protecção da igualdade e dignidade humanas, inegociáveis.

Como ela, e com ela, defendo que “temos em nós a força para o fazer”. Uma força tão mais consequente quão mais conscientes estivermos do valor da nossa Democracia, e da importância de a defendermos sem reservas.

Por isso, neste 1.º de Janeiro de 2026, ao imaginar os próximos 364 dias – em que elegeremos um(a) novo(a) Chefe de Estado –, e ao visualizar os anos que temos pela frente, antecipo a urgência de reflectirmos sobre o que está em jogo nestas Presidenciais. Pensemos no quanto a nossa Constituição, documento que todas as forças partidárias deveriam reconhecer e proteger como basilar, parece existir (e resistir) apenas 'à condição'.

E enquanto se dissemina a narrativa de que a quase cinquentenária Lei Fundamental precisa de ser revista, em vez de cumprida, quem nos defende de um novo e derradeiro não-é-não-que-afinal-é-sim?

"Temos em nós a força para o fazer”, nunca é demais repetir.

Mas isso exige que sonhemos juntos o nosso futuro, que em vez de ‘votarmos em’, ou ‘votarmos contra’, sejamos capazes de ‘votar uns com os outros’, por um Portugal com todas as vozes e para todas as pessoas. Exactamente como nos propõe Catarina Martins, a candidata que conjuga a vida, Portugal e a política no plural. Eu voto com o mesmo compromisso colectivo. Votemos todos. Uns com os outros. Com a Catarina.

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Seguimos o ritmo da alma de Anna Joyce, e mergulhamos em “Ondas do Mar”

Aos 10 anos compunha temas infantis, animada pelo sonho de se tornar cantora, talvez como a brasileira Xuxa. Já na adolescência amadureceu letras, depois de também escrever refrões para os amigos rappers, mas foi na fase adulta da vida que a música se tornou carreira, impulsionada por sucessos como “Te Amar”, “Puro”, “Outra Vez”, ou “Curtição”. Agora ligada à Universal Music Portugal, Anna Joyce esteve em Lisboa no último mês de Novembro, e falou com o Afrolink sobre “Ondas do Mar”, escrita a seis mãos, e cantada com Ivandro. A novidade antecipa a estreia da artista angolana no palco do Sagres Campo Pequeno, marcada para 28 de Fevereiro de 2026. Uma oportunidade para conversarmos também sobre os desafios da indústria musical, e os seus quase 12 anos gravações e espectáculos. “Temos ouvido muitas influências de música africana aqui, a serem tratadas por artistas portugueses, o que é muito bom, mas também é bom sermos nós próprios a dar cara à nossa música”.

Aos 10 anos compunha temas infantis, animada pelo sonho de se tornar cantora, talvez como a brasileira Xuxa. Já na adolescência amadureceu letras, depois de também escrever refrões para os amigos rappers, mas foi na fase adulta da vida que a música se tornou carreira, impulsionada por sucessos como “Te Amar”, “Puro”, “Outra Vez”, ou “Curtição”. Agora ligada à Universal Music Portugal, Anna Joyce esteve em Lisboa no último mês de Novembro, e falou com o Afrolink sobre “Ondas do Mar”, escrita a seis mãos, e cantada com Ivandro. A novidade antecipa a estreia da artista angolana no palco do Sagres Campo Pequeno, marcada para 28 de Fevereiro de 2026. Uma oportunidade para conversarmos também sobre os desafios da indústria musical, e os seus quase 12 anos gravações e espectáculos. “Temos ouvido muitas influências de música africana aqui, a serem tratadas por artistas portugueses, o que é muito bom, mas também é bom sermos nós próprios a dar cara à nossa música”.

Dez músicas celebraram, em 2024, os primeiros 10 anos de carreira de Anna Joyce, embrulhados para os fãs no disco “A Peça”, lançado sem amarras comerciais.

“Foi mais sobre uma comemoração, do que sobre lançar um álbum para ser top nas paradas”, assinala ao Afrolink a cantora angolana, firme no palmilhar de novos caminhos.

“Não podes estar sempre a fazer as mesmas coisas”, nota a autora de sucessos como “Puro”, “Outra Vez” ou “Curtição”. Agora ligada à casa portuguesa da Universal Music, a artista juntou-se a duas outras referências da editora, Ivandro e Prodígio, no tema “Ondas do Mar”.

Composto pelos três e cantado em dueto, por Anna e Ivandro, o tema soma quase meio milhão de visualizações no YouTube, cerca de um mês após o lançamento, aumentando as expectativas para o próximo espectáculo da cantora em palcos portugueses.

“Estávamos à espera deste tema, demorou um bocadinho mais do que era suposto, mas não fazia sentido sair depois do show, porque as pessoas não iam poder cantar a música connosco”, explica a cantora, feliz com a parceria. “Decidimos mudar a data para 28 de Fevereiro, para haver tempo e disponibilidade de ambas as partes para fazermos esta canção, e acho que valeu a pena”.

Pela primeira vez ao lado de Ivandro, Anna conta que a ligação aconteceu a partir de Prodígio, que agora também é seu manager.

“Eu disse: olha, eu quero cantar com o Ivandro, e ele é que tratou, ele é que foi atrás. Então, foi muito mais do que só escrever, ele foi o maestro por detrás dessa música”.

O resultado ouve-se em todas as plataformas digitais, e, revela a cantora, tem por detrás um entendimento raro.

“Foi quase uma coisa inédita para mim, um processo muito bonito e satisfatório: escrevemos, gravamos, e a música estava feita num dia”.

Com tanto alinhamento, talvez venham aí novas marés de parceria?

“O objectivo é também expandirmos um bocadinho as nossas raízes, e levarmos a nossa música a ser conhecida pelas pessoas que a fazem. Porque temos ouvido muitas influências de música africana aqui, a serem tratadas por artistas portugueses, o que é muito bom, mas também é bom sermos nós próprios a dar cara à nossa música”.

Batimentos e abatimentos de tecnologia

Entre os desafios de manter a autenticidade – num mercado cheio de apropriações e pressões comerciais –, e as facilidades de produção – aceleradas por artificialidades tecnológicas – estará a originalidade artística comprometida?

“Se for em termos de expandir a música, e cada um poder mostrar o seu valor, acho que está definitivamente mais fácil. Com as redes sociais, há pessoas que nem precisam ser agenciadas para ter sucessos a tocar. Vemos vários exemplos nos TikToks da vida”, nota Anna, sem esquecer o reverso da medalha. “Acho que as tecnologias limitam o artista, porque é tão fácil agora gravar, que, com ou sem talento, uma pessoa consegue cantar uma música, e soa relativamente bem”.

No meio de tantas “inteligências” não humanas, estará o público a ser enganado?

“Eu não quero dizer isso, porque há pessoas que sonham com a música e podem não ter todo o talento do mundo. Então, não acho que seja enganador, porque vem de um lugar de querer. Diria até que lesa mais o artista do que o público, porque depois há certas alturas em que tu precisas, por exemplo, de te apresentares ao vivo e torna-se complicado”.

Capacidades vocais à parte, para quem ouve, muitas vezes o que fica é uma incapacidade de diferenciação, como se estivéssemos sempre diante das mesmas composições.

“Quando as pessoas fazem música pelo que está no hype, ou, como os miúdos dizem, pelo que está a bater, acho que há a tendência de se fazer o mesmo, com as mesmas batidas, as mesmas letras. Então, acho que existe essa facilidade de acabarem todos a cantar as mesmas coisas”.

Como quebrar esse ciclo de descaracterização?

Independentemente de compromissos e pressões comerciais, Anna Joyce defende a importância de cada artista encontrar e expressar a sua autenticidade.

“Não acho que seja uma obrigação do artista ser activista social ou um exemplo para a juventude, como muitas vezes se faz pensar. Nem todos somos assim. O artista, antes de ser artista, é uma pessoa e, dentro da nossa individualidade, somos o que somos”.

o que me vem na alma”.

O exemplo brasileiro

Nos estúdios, nos palcos ou na intimidade, a cantora angolana garante que não se adultera.  “Sou enquanto artista o que sou como pessoa. Então, o que eu vou escrever vai ser fruto da minha criação, da minha família, das oportunidades que tive”, aponta, demarcando-se dos ouvidos e olhos que condenam outras formas de expressão musical.

“Quando falamos de kuduro, por exemplo, pensamos no contexto dos kuduristas? É um contexto do gueto, do subúrbio, de pobreza, de fome, e eles são fruto disso. Então, como é que vamos exigir que uma pessoa que venha daí se comporte como uma pessoa que vive dentro de um condomínio, com água, energia e todas as condições? Ouve quem quer ouvir”.

Fã assumida desse estilo, ao qual reconhece mestria, a cantora também retira dos artistas a responsabilidade de se moderarem na linguagem.

“Acho que é uma questão de escolha, porque, na verdade, as pessoas dizem palavrões. Apenas defendo que, em relação às crianças, nós, os pais, é que temos de estar atentos. Não podemos condenar os artistas que têm letras com asneiras, e depois, pormos a tocar essas músicas quando damos uma festa, que também tem crianças. Depois, quando elas estiverem a cantar, é culpa é do kudurista? Não é”.

Acima das diferenças, que vê como uma riqueza, Anna Joyce defende a necessidade de se valorizar a produção cultural.

“Os governos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] não olham para a música como uma força, como algo que possa trazer retorno aos próprios países”, observa a cantora, lembrando que foi a exportação da cultura que tornou o Brasil mundialmente conhecido.

“Onde é que estaríamos hoje se tivéssemos valorizado, apostado e investido na nossa cultura, como por exemplo o Brasil fez, com o Carnaval, samba, pagode, sertanejo, caipirinhas? Era bom que se fizesse isso nos nossos países, porque não é tarde”.

A esse propósito, acrescenta a angolana, convém não esquecer que muitas das maiores referências brasileiras vêm de África, como por exemplo a capoeira.

Potenciar o mercado PALOP

Ainda a pensar no que falta fazer, embora sublinhe que não tem razões de queixa, “porque a música angolana circula pela comunidade PALOP inteira”, Anna Joyce reconhece que o inverso não acontece.

“Chega pouca música moçambicana a Angola, pouca música de São Tomé e Príncipe e da Guiné, e um bocadinho mais de Cabo Verde, porque durante muitos anos foi um músculo no nosso mercado. Agora, acho que tem de haver trabalho de divulgação e investimento, porque há muito boa música a ser feita”.

Presença habitual em Moçambique – “vou pelo menos 10 vezes por ano” –, a cantora partilha também uma reclamação que ouve recorrentemente. “Um artista angolano chega, ganha um cachê infinitamente maior e tem condições melhores do que os músicos moçambicanos”.

O que fazer, então, para equilibrar os pratos da balança?

“Falta apoio aos artistas, e criação de mais oportunidades”, defende, certa de que, contra ventos e marés, a música permanecerá central nas nossas vidas.

“Nós somos música. Ela faz parte do nosso ADN, e não precisamos de um curso de arte e cultura ou de Belas Artes para a entendermos. Cantamos quando estamos tristes, e também quando estamos felizes. É a forma de arte mais acessível e, desde bebés, a nossa mãe canta musiquinhas para adormecermos”.

Na sua própria história, revela Anna, a música é também “terapia, cura, e um lugar bom”, que começou a ocupar ainda criança.

Talento precoce, inspiração familiar

“Comecei a compor aos 10 anos, com o sonho de ser cantora. Queria ser a Xuxa ou o que fosse”, recorda, de volta aos planos infantis.

“Na altura, havia um programa na SIC, que era o Buereré. Então, eu escrevi o meu repertório para ter as minhas músicas prontas quando lá fosse. Mas nunca fui”.

O engenho para compor, precocemente exercitado, estendeu-se também à escrita de refrões de rap para amigos, já na adolescência substituídos por letras “mais maduras”.

“Uma das minhas músicas de maior sucesso, que tem o título ‘Final’, foi feita quando eu tinha 18 anos”, conta Anna que, cerca de uma década depois, resgatou-a de velhas anotações.

Antes como agora, a voz feminina de “Ondas do Mar” assenta a sensibilidade e identidade musical num sólido património de referências familiares. “Sou de uma casa onde se ouvia música todos os dias e, no fundo, tudo o que fui ouvindo foi-me moldando”.

Do fado aos ritmos latinos e brasileiros, passando pela Pop, o Reggae, a Kizomba e o Zouk, Anna Joyce revê nas suas criações “o resultado dessa mistura toda”, profundamente sintonizada na sua maior inspiração: Mariah Carey.

“Ela é uma artista-compositora e, como eu sempre tive essa veia de composição, acabei por me inspirar muito nela para cantar e fazer músicas com qualidade. Por isso é que sou muito exigente com o meu conteúdo”.

Em contagem decrescente para o novo ano, e o próximo concerto em Portugal, a cantora angolana faz questão de renovar, a cada criação, a sua força artística: : “Faço aquilo que me vem na alma”.

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“Racismo: uma descolonização em curso”

Ao saber da existência do “Prémio Mário Soares, Liberdade e Democracia” que, a partir de 2025, será atribuído anualmente pela Assembleia da República, não resisti a concorrer. Desde logo porque considero que o meu trabalho contribui, ao encontro do que a distinção se propõe reconhecer, “para a formação da opinião pública, em total liberdade e diversidade de opiniões, no respeito dos valores democráticos, contribuindo dessa forma para o robustecimento da democracia em Portugal e no mundo”. Não é um trabalho isolado, é uma prática, e, por isso mesmo, fui a jogo na opção “relato de actividades”, desconfiada de que talvez seja uma via reservada a organizações não governamentais. Em todo o caso, avancei, e no final da semana passada, fiquei a saber que a jornalista Sofia Craveiro foi a vencedora, com a série de artigos “Arquivos de Media — Memória Sem Garantia de Preservação”, que vale a pena ler, enquanto a historiadora Ângela Coutinho recebeu uma menção honrosa pelo seu “Dossier África”, que vale a pena ouvir. Ficou, assim, demonstrado que, para o júri, o dever de memória merece atenção e premiação, tal como a promoção da participação cívica, distinguida numa segunda menção honrosa, atribuída à associação MyPolis. Espero, por isso, que nas futuras edições do Prémio se compreenda o quanto uma memória colectiva selectiva, como o é a portuguesa, tem fracturado a nossa democracia. Até lá, parabéns, à Sofia pela merecida distinção, e também à Ângela e à MyPolis. Para minha memória, partilho convosco a sinopse que submeti para enquadrar a minha candidatura, composta por um livro (Força Africana), vários textos publicados no Afrolink, um artigo integrado numa publicação académica, e outro numa edição alusiva aos 50 anos do 25 de Abril. Gravei o texto como: “Racismo: uma descolonização em curso”.

Ao saber da existência do “Prémio Mário Soares, Liberdade e Democracia” que, a partir deste 2025, será atribuído anualmente pela Assembleia da República, não resisti a concorrer. Desde logo porque considero que o meu trabalho contribui, ao encontro do que a distinção se propõe reconhecer, “para a formação da opinião pública, em total liberdade e diversidade de opiniões, no respeito dos valores democráticos, contribuindo dessa forma para o robustecimento da democracia em Portugal e no mundo”. Não é um trabalho isolado, é uma prática, e, por isso mesmo, fui a jogo na opção “relato de actividades”, desconfiada de que talvez seja uma via reservada a organizações não governamentais. Em todo o caso, avancei, e no final da semana passada, fiquei a saber que a jornalista Sofia Craveiro foi a vencedora, com a série de artigos “Arquivos de Media — Memória Sem Garantia de Preservação”, que vale a pena ler, enquanto a historiadora Ângela Coutinho recebeu uma menção honrosa pelo seu “Dossier África”, que vale a pena ouvir. Ficou, assim, demonstrado que, para o júri, o dever de memória merece atenção e premiação, tal como a promoção da participação cívica, distinguida numa segunda menção honrosa, atribuída à associação MyPolis. Espero, por isso, que nas futuras edições do Prémio se compreenda o quanto uma memória colectiva selectiva, como o é a portuguesa, tem fracturado a nossa democracia. Até lá, parabéns, à Sofia pela merecida distinção, e também à Ângela e à MyPolis. Para minha memória, partilho convosco a sinopse que submeti para enquadrar a minha candidatura, composta por um livro (Força Africana), vários textos publicados no Afrolink, um artigo integrado numa publicação académica, e outro numa edição alusiva aos 50 anos do 25 de Abril. Gravei o texto como: “Racismo: uma descolonização em curso”.

Imprimo a esta sinopse o título do recém-estreado documentário da jornalista Joana Gorjão Henriques, co-realizado por Mariana Godet.

“Racismo: uma descolonização em curso” dá continuidade audiovisual a uma série de reportagens escritas para o diário Público, transformado, por força do trabalho incansável da Joana, num oásis mediático no deserto nacional de literacia e memória racial.

Como ex-titular da carteira profissional de jornalista, filha de moçambicanos, neta de sino e luso-moçambicanos, bisneta de chineses e portugueses, conheço bem esse deserto porque o sinto na pele.

Apesar de viver em Portugal desde os meus dois-quase-três anos, e embora tenha adquirido a nacionalidade dos meus bisavós paternos, originários de Almacave, nunca me senti portuguesa.

Não por desejo de autoexclusão ou incapacidade cultural de integração – narrativas que têm acentuado os discursos anti-imigração –, mas porque todos os espaços que frequentei e frequento me devolvem despertença.

Ser uma pessoa negra em Portugal era e continua a ser sinónimo de imparidade humana.

Poupo-vos aos tomos de agressões racistas que pesam sobre a minha história, e salto logo para o chão a que me agarrei: o conhecimento.

Percebi cedo que ser boa aluna me tornava uma “negra melhor” – menos desigual do que os outros negros, mas ainda assim nunca igual. Mais tarde, já licenciada e inserida no mercado de trabalho, percebi que nem mesmo sendo a melhor profissional da equipa teria hipóteses de progressão. Escrevi sobre isso aqui, não por um qualquer surto de vitimismo, mas por dever cívico e compromisso democrático.

Se hoje me dedico à criação e promoção de narrativas e protagonismos negros, sobretudo através da literatura infanto-juvenil e da produção de conteúdos de matriz jornalística, é por reconhecer o poder da Educação e da Informação para transformar o mundo.

Quando escrevo, palestro e capacito grupos sobre racismo, não o faço para dividir, agredir ou transgredir. Faço-o em defesa da nossa Humanidade, historicamente constrangida por fronteiras raciais.

Cinquenta e um anos depois da Revolução que ditou o fim do regime colonial português, o que reconhecemos desse passado? Quantas vozes foram e continuam a ser silenciadas? Quem tem medo de confrontar o racismo?

Temos de falar! Todos, todos, todos. E eu assumo, a cada projecto que crio, a minha voz. Com a Força Africana proponho-me, conforme assinado no prefácio desta aventura, construir “personagens com os quais as crianças negras se podem identificar – favorecendo a sua auto-estima e sentimento de integração”. Ao mesmo tempo, esta é uma história que permite “que todas as crianças incluam no imaginário heróis e heroínas étnica e racialmente diferentes, desencorajando atitudes de superioridade de uns sobre os outros”.

A humanização e afirmação positiva da presença negra no mundo, marca da Força Africana, estende-se aos conteúdos publicados pela rede Afrolink, promotora da diversidade, equidade e inclusão na sociedade portuguesa. Com o mesmo propósito, nasceu O Tal Podcast, concretizado como um “espaço de ligações humanas”, enraizado na convicção de que “sejam quais forem as nossas diferenças, ao partilharmos vivências aproximamo-nos”.

Sei que ainda estamos longe, mas também sei que não nos falta caminho para fazer juntos. Aproximemo-nos!

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Voando com o inimigo: quem vê o 25 de Abril, a luta contra o fascismo e José Afonso como um ataque?

“Em política não há inimigos, mas sim adversários”. Com algumas adaptações, em diferentes geografias, épocas e línguas, a frase tem sido utilizada para expressar a urbanidade que deve reger o jogo democrático, demarcando-o do terreno de guerra. De um lado há diálogo, debate e construção, dentro de regras que todos aceitam respeitar; do outro impera a violência, a destruição humana e o culto da morte. Esta política de agressão está a impor-se em Portugal, a partir da normalização do Chega que, diariamente, a cada intervenção, declara guerra à Democracia, criminaliza grupos de pessoas, e empurra o país para um abismo fascista. Na última terça-feira, 9, num voo da TAP com partida em Lisboa e em direcção a Bruxelas, uma comitiva desse partido disparou insultos racistas e xenófobos contra pessoas negras que seguiam nessa viagem. Avessos ao cumprimento das mais elementares regras de vida em sociedade, deputados e assessores da extrema-direita parlamentar, liderados por Pedro Pinto – para quem a Polícia em Portugal deve matar mais –, passaram o voo a incomodar-me a mim e a outros passageiros, num coro de grunhidos que escalou no momento da aterragem em Bruxelas. Tudo porque, em protesto, projectei comigo a força das ruas, num sonoro “25 de Abril Sempre, fascismo nunca mais”, e acompanhei o momento com a reprodução do “Grândola, Vila Morena”. Em momento algum me dirigi aos agressores em série que, automaticamente, concertaram urros racistas para me silenciar. Miguel Cardoso, que seguia comigo num grupo que viajou a convite da Representação Portuguesa da Comissão Europeia, entoava a composição de José Afonso, quando Pedro Pinto, igual a si próprio, lhe dirigiu insultos racistas, encerrados com a “ordem”, verbalizada e gesticulada, para se calar. Os confrontos envolveram intervenção policial e, sem surpresa, o Chega fabricou a sua ficção dos acontecimentos, a partir de um vídeo cirurgicamente editado para se arrogar de vítima. Nós não temos um vídeo, mas pergunto-me: quem, para além da Justiça portuguesa, precisa de mais provas para concluir que estamos diante de militantes do ódio, e inimigos da Democracia?

“Em política não há inimigos, mas sim adversários”. Com algumas adaptações, em diferentes geografias, épocas e línguas, a frase tem sido utilizada para expressar a urbanidade que deve reger o jogo democrático, demarcando-o do terreno de guerra. De um lado há diálogo, debate e construção, dentro de regras que todos aceitam respeitar; do outro impera a violência, a destruição humana e o culto da morte. Esta política de agressão está a impor-se em Portugal, a partir da normalização do Chega que, diariamente, a cada intervenção, declara guerra à Democracia, criminaliza grupos de pessoas, e empurra o país para um abismo fascista. Na última terça-feira, 9, num voo da TAP com partida em Lisboa e em direcção a Bruxelas, uma comitiva desse partido disparou insultos racistas e xenófobos contra pessoas negras que seguiam nessa viagem. Avessos ao cumprimento das mais elementares regras de vida em sociedade, deputados e assessores da extrema-direita parlamentar, liderados por Pedro Pinto – para quem a Polícia em Portugal deve matar mais –, passaram o voo a incomodar-me a mim e a outros passageiros, num coro de grunhidos que escalou no momento da aterragem em Bruxelas. Tudo porque, em protesto, projectei comigo a força das ruas, num sonoro “25 de Abril Sempre, fascismo nunca mais”, e acompanhei o momento com a reprodução do “Grândola, Vila Morena”. Em momento algum me dirigi aos agressores em série que, automaticamente, concertaram urros racistas para me silenciar. Miguel Cardoso, que seguia comigo num grupo que viajou a convite da Representação Portuguesa da Comissão Europeia, entoava a composição de José Afonso quando Pedro Pinto, igual a si próprio, lhe dirigiu insultos racistas, encerrados com a “ordem”, verbalizada e gesticulada, para se calar. Os confrontos envolveram intervenção policial e, sem surpresa, o Chega fabricou a sua ficção dos acontecimentos, a partir de um vídeo cirurgicamente editado para se arrogar de vítima. Nós não temos um vídeo, mas pergunto-me: quem, para além da Justiça portuguesa, precisa de mais provas para concluir que estamos diante de militantes do ódio, e inimigos da Democracia?

Trocam esgares de impaciência, entrecortados com sons de desdém, perante a entrada de um passageiro com mobilidade condicionada. Soltam impropérios racistas, como “até parece que já chegamos a África”, e declaram, orgulhosamente, o ódio que os move: “Os portugueses escolheram-nos. Acabou a mama da esquerdalha”.

Pelo caminho, entre idas e vindas à casa de banho, também se entretêm a bloquear o corredor – qual gangue que impõe um infantil ritual de passagem –, e não se coíbem mesmo de ensaiar vocalizações de símios.

Estão sentados atrás de mim, no voo TAP 640 que, na passada terça-feira, 9, saiu de Lisboa em direcção a Bruxelas, e fazem questão de dar nas vistas, gerar ruído e provocar, a exemplo do que fazem na Assembleia da República, nas televisões e ruas do país.

À cabeça têm o seu líder parlamentar, Pedro Pinto, o mesmo que incitou à violência policial ao defender, na ressaca do homicídio de Odair Moniz – às mãos de um agente da PSP –, que se os polícias “disparassem mais a matar, o país estava mais na ordem”.  

Foi diante desse estado de perturbação – que, segundo relatos de outros passageiros, começou na porta de embarque, com exigências de prioridade indevidas – que, no momento da aterragem em Bruxelas, projectei comigo a força das ruas, num sonoro “25 de Abril Sempre, fascismo nunca mais”, e acompanhei o momento com a reprodução, no telemóvel, do “Grândola, Vila Morena”.

Seguiu-se um coro de grunhidos, que escalou no confronto com Miguel Cardoso, que seguia comigo num grupo que viajou a convite da Representação Portuguesa da Comissão Europeia.

Abro aqui um parêntesis para lembrar que não é a primeira vez que Miguel, director executivo da Black Europeans e coordenador nacional desta organização, enfrenta ataques racistas do Chega.

Em Setembro, André Ventura usou as redes sociais para acusar a Black Europeans de organizar um encontro com “o dinheiro dos contribuintes”, que estaria a ser desviado de gastos na saúde, justiça, habitação e pensões. “É nestas porcarias que andamos a esbanjar recursos públicos”, publicou Ventura, pronta e cabalmente desmentido.

Meses depois, Miguel Cardoso volta a estar no centro dos ataques do Chega, desta vez por ter entoado o “Grândola, Vila Morena” diante de uma comitiva do partido, e por ter ousado desacatar a ‘ordem’ verbalizada e gesticulada por Pedro Pinto para se calar.

Os confrontos envolveram intervenção policial e, sem surpresa, a extrema-direita parlamentar fabricou a sua ficção dos acontecimentos, a partir de um vídeo cirurgicamente editado para se arrogar de vítima.

Nós não temos um vídeo, porque estávamos na linha de fogo, mas pergunto-me: quem, para além da Justiça portuguesa, precisa de mais provas para concluir que estamos diante de militantes do ódio, e inimigos da Democracia?

Enquanto revisito as turbulências do voo, assinalo que o comandante se limitou a cumprir o protocolo designado para estas situações – não se trata de tomar partido –, e acrescento uma nota de esperança: a queixa apresentada às autoridades belgas parece ter caminho para avançar, num ordenamento jurídico que, ao que tudo indica, leva a sério a gravação e publicação indevida da imagem de terceiros.

Por cá, a horda de ameaças racistas disparadas online contra o Miguel persiste, e todas estão a ser devidamente investigadas.

Aconteça o que acontecer, salta à evidência o repúdio que a exaltação do 25 de Abril, da luta anti-facista, e da composição de José Afonso provocam à extrema-direita parlamentar. E isso, por mais votos que se conte, não tem nada de democrático.

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“Malês”: a maior revolta de pessoas escravizadas no Brasil, contada por Antonio Pitanga

Aos 86 anos, o multipremiado actor e realizador brasileiro Antonio Pitanga apresenta-nos o filme da sua vida: “Malês”. A produção, que levou quase três décadas até chegar ao grande ecrã, transporta-nos para a Bahia de 1835, ano marcado pelo Levante dos Malês. O acontecimento é apontado como a maior rebelião de pessoas escravizadas no Brasil, e povoa o imaginário de Pitanga desde a infância, quando “o desejo de contar histórias ainda por conhecer” começou a ganhar forma. A busca por saber encaminhou-lhe os passos para o antigo Alto Volta, hoje Burkina Faso, onde, em 1964, procurou ir à raiz dos seus questionamentos: “De onde eu vim?”. As memórias da incursão africana, bem como dos ímpetos de criança, foram partilhadas pelo autor, no final de Novembro, em Berlim, após a exibição de “Malês”, longa exibida na sessão de abertura do Cine Brasil. Ainda sem data de apresentação em Portugal, o filme já marcou presença em países africanos, e suscita o interesse de universidades americanas, empenhadas em conhecer esse importante capítulo da resistência negra. Seja onde for, Pitanga defende a importância de “contar uma história dessas, e ter a alegria de a levar para as favelas, os quilombos, e África”. O Afrolink espera que a viagem de “Malês”, com destino a um maior conhecimento sobre a Escravatura, chegue às salas portuguesas. Até lá, deixamos-vos com um encontro pleno de lições e de inspiração.

Aos 86 anos, o multipremiado actor e realizador brasileiro Antonio Pitanga apresenta-nos o filme da sua vida: “Malês”. A produção, que levou quase três décadas até chegar ao grande ecrã, transporta-nos para a Bahia de 1835, ano marcado pelo Levante dos Malês. O acontecimento é apontado como a maior rebelião de pessoas escravizadas no Brasil, e povoa o imaginário de Pitanga desde a infância, quando “o desejo de contar histórias ainda por conhecer” começou a ganhar forma. A busca por saber encaminhou-lhe os passos para o antigo Alto Volta, hoje Burkina Faso, onde, em 1964, procurou ir à raiz dos seus questionamentos: “De onde eu vim?”. As memórias da incursão africana, bem como dos ímpetos de criança, foram partilhadas pelo autor, no final de Novembro, em Berlim, após a exibição de “Malês”, longa exibida na sessão de abertura do Cine Brasil. Ainda sem data de apresentação em Portugal, o filme já marcou presença em países africanos, e suscita o interesse de universidades americanas, empenhadas em conhecer esse importante capítulo da resistência negra. Seja onde for, Pitanga defende a importância de “contar uma história dessas, e ter a alegria de a levar para as favelas, os quilombos, e África”. O Afrolink espera que a viagem de “Malês”, com destino a um maior conhecimento sobre a Escravatura, chegue às salas portuguesas. Até lá, deixamos-vos com um encontro pleno de lições e de inspiração.

Foram precisos 29 anos de persistência criativa, mais de oito décadas de experiência e consciência de vida, e séculos de resistência negra para contar esta História. Nela encontramos a Bahia de 1835, e um dos acontecimentos que, desde a infância, habita o imaginário de Antonio Pitanga: o Levante dos Malês, reconhecido como a maior rebelião de pessoas escravizadas no Brasil.

“Criança ouve tudo. Sabe de coisa que até Deus duvida, né? Os mais velhos vão falando e a gente vai escutando, formando uma narrativa”, aponta o actor e realizador, revisitando os primeiros anos de uma existência colectivamente predestinada, porque “ninguém nasce no Pelourinho por acaso”.

Filho de Maria Natividade, “neta de escravo que com 12 anos já era empregada doméstica”, Pitanga recorda como o seu bairro-berço, situado em Salvador, bem no coração da Bahia, “é uma referência de tragédia”.

As memórias, fixadas nos horrores da Escravatura, recuam aos tempos em que “os senhores levavam os ‘seus negros’ para assistir outros negras e negros serem chicoteados”, dissuadindo-os de incorrer nas mesmas ‘tentações’.

Os capítulos do passado, aqui descritos pelo realizador, desfiam-se em Berlim, depois da exibição no grande ecrã do Cine Brasil, de “Malês” – o filme da vida de Antonio Pitanga, baseado na obra do historiador João José Reis.

Aos 86 anos, e com seis décadas de carreira, construída no teatro, na televisão e no cinema, o baiano cumpre, com a nova produção, “o desejo de contar histórias ainda por conhecer”.

A busca por mais saberes encaminhou-lhe os passos para o antigo Alto Volta, hoje Burkina Faso, onde, em 1964, procurou ir à raiz dos seus questionamentos: “De onde eu vim?”.

Da incursão africana – cumprida numa rota alargada, com passagens por Benim, Togo, Nigéria e Senegal –, aos ímpetos da infância, Pitanga faz questão de sublinhar que transporta nas vivências múltiplas influências ancestrais.

“Ninguém nasce de um acidente”, observa, evocando todo o movimento negro que o – e nos – antecede, e que tem a sua génese na oralidade, “tatuando alma, pele e corpo”.

Não estranha, por isso, que, em contraciclo àquilo que alguns colegas conjecturavam – de que o Brasil poderia estar a falar holandês, espanhol ou inglês, se outras ocupações coloniais, que não a portuguesa, tivessem vingado –, o cineasta sempre tenha defendido outra hipótese. “Eu dizia: não, o que eu queria era falar árabe, como os negros Malês, sequestrados da Mãe África e escravizados no Brasil”.

Protagonismo feminino e humanização

O fascínio de Pitanga por essa presença negra, africana e muçulmana estendia-se à Educação que acumulavam. “Eles eram letrados, tinham conhecimento da Física, da Engenharia, e isso, na minha cabeça de jovem brilhava”.

Consciente de que aquilo que não está nos anais diz tanto ou mais do que tudo o que está, o autor de “Malês” assume a responsabilidade de preencher vazios históricos a partir da sua obra.

“Tenho a bagagem do século passado, mas sou o homem de hoje, meu tempo é agora, meu futuro é no presente”, nota, explicando que construiu o filme atento às possibilidades de novos encontros.

“Para dialogar com vocês, com meus netos, meus bisnetos, com o ensino fundamental, a Universidade Pública, com os quilombos e os povos, eu tenho que interagir no olhar do século XXI, em pleno 2025. Então, quando você se depara com uma história como essa, o que faz?”.

Pitanga optou por reconhecer a presença feminina, humanizando-a.

“As mulheres não estão nos anais. Não tinham nem direito de fala. É sempre o marido, o homem. Então, eu disse: não, vamos trazer a mulher, e dividir o protagonismo”.

O resultado comprova-se em “Malês”, uma “história real”, que nos permite conhecer “as cabeças que fizeram o Levante”, nomeadamente o Pacífico Licutan, interpretado pelo próprio Pitanga.

Ao mesmo tempo, o filme oferece-nos a oportunidade de homenagear todas aquelas que tornaram possível a resistência, o combate e os caminhos da libertação negra, indissociáveis da reivindicação do direito de Amar.

Não é por acaso que as primeiras cenas de “Malês” nos transportam para um casamento, violentamente interrompido por acção do sistema escravocrata, da mesma forma que a existência de um parto na trama está longe de ser acidental.

Sem nunca se desligar de uma direcção humanizadora, o filme desconstrói igualmente a vilania de Sabina, personagem interpretada por Camila Pitanga.

Ainda que os registos históricos a apontem como a denunciante dos planos da revolta, sabotados a partir da sua interferência, o realizador retirou-lhe o rótulo de traidora.

“Criei, com o meu irmão cubano, Antonio Molina [também cineasta], um diálogo com Iyá Nassô, para se entender que o gesto dela era de Amor. E por Amor se faz qualquer coisa”. Até mesmo denunciar o próprio marido, com a ilusão de que seria poupado no embate com os agentes do sistema escravocrata.

“Eles estão preparados para a nossa força, não para a nossa inteligência”

A par da homenagem ao contributo das mulheres negras para a História da nossa libertação, “Malês” distingue-se também por exibir outra face pouco visibilizada do papel feminino nesse passado: mais do que ‘meras’ cúmplices dos crimes da Escravatura, as mulheres brancas orquestraram-nos tão ou mais cruelmente do que os homens.

Quão longe estamos de conhecer e reconhecer essa realidade? E de perceber que, sem esse encontro com o passado, as relações raciais vão continuar minadas de desconfiança?

Enquanto viaja por países africanos e suscita o interesse de universidades americanas, nomeadamente Princeton, Pensilvânia e Harvard, “Malês” permanece sem data de apresentação em Portugal.

“Quando levei o filme agora, em Burkina Faso, o pessoal lá chorou. Eles diziam: Gratidão, Pitanga, gratidão!”, partilha o realizador, assinalando igualmente o entusiamo da academia americana em discutir o levante baiano.

“Eles sabem tudo do Haiti [da Revolução], mas perguntam: que negros são esses, letrados, do Brasil, que fizeram tudo para se organizar?”.

A resposta prende-nos ao grande ecrã, onde “Malês” projecta o poder da mobilização e unidade negra. “Nunca fomos tantos. Uma hora vamos ser todos”, ouvimos numa das cenas, enquanto noutra se apresenta aquele que talvez seja o “perigo” que desde sempre mobiliza o opressor branco contra os povos negros. “Eles estão preparados para a nossa força, não estão preparados para a nossa inteligência”.

Seja como e com quantos for, Pitanga defende a importância de “contar uma história dessas, e ter a alegria de a levar para as favelas, os quilombos, e África”.

O Afrolink espera que a viagem de “Malês”, com destino a um maior conhecimento sobre a Escravatura, chegue às salas de cinema lusas, e que, a partir delas, encontremos renovada e reforçada inspiração para continuar a luta, à letra do que nos lega a obra de Antonio Pitanga: “Parados não podemos ficar (...) / Temos que levantar. Todos juntos”.

Neste movimento, prosseguindo com a força argumentativa do filme, que nunca percamos de vista o compromisso colectivo, por mais especificidades individuais que a nossa mobilização agregue. “Se o mundo quer fazer o meu filho de escravo, eu quero é mudar o mundo”. Avancemos!

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Vânia e Malika convidam-nos a ir à raiz de quem somos, para desenterrar emoções e plantar comunidade

Entre aprendizagens online, num caminho de autoconhecimento feminino e africano, a poetisa, performer e activista Vânia Andrade encontrou sustentação nos ensinamentos da farmacêutica holística Malika Rodrigues. Primeiro como seguidora dos conteúdos partilhados por Malika nas redes sociais – sob a assinatura Malika Soul –, e depois enquanto sua mentoranda, “Puma”, como também é conhecida, quis fazer dos novos saberes um espaço de ligação a outras mulheres. Nasceu assim o “Raiz Sagradu”, construído como um “círculo de mulheres africanas, onde o descanso é honrado, a consciência sábia do útero sagrado é despertada, e o amor-próprio é cultivado”. Cerca de um ano depois da estreia em Lisboa, a proposta regressa no próximo dia 29 de Novembro, em Caxias. Desta vez em formato de retiro diurno, com seis horas de duração – das 12h às 18h –, o “lugar de partilha” promete promover a reconexão a “uma tradição ancestral feminina”. As inscrições estão abertas, e o Afrolink dá-lhe a conhecer o essencial deste encontro, em conversa com as suas criadoras.

Entre aprendizagens online, num caminho de autoconhecimento feminino e africano, a poetisa, performer e activista Vânia Andrade encontrou sustentação nos ensinamentos da farmacêutica holística Malika Rodrigues. Primeiro como seguidora dos conteúdos partilhados por Malika nas redes sociais – sob a assinatura Malika Soul –, e depois enquanto sua mentoranda, “Puma”, como também é conhecida, quis fazer dos novos saberes um espaço de ligação a outras mulheres. Nasceu assim o “Raiz Sagradu”, construído como um “círculo de mulheres africanas, onde o descanso é honrado, a consciência sábia do útero sagrado é despertada, e o amor-próprio é cultivado”. Cerca de um ano depois da estreia em Lisboa, a proposta regressa no próximo dia 29 de Novembro, em Caxias. Desta vez em formato de retiro diurno, com seis horas de duração – das 12h às 18h –, o “lugar de partilha” promete promover a reconexão a “uma tradição ancestral feminina”. As inscrições estão abertas, e o Afrolink dá-lhe a conhecer o essencial deste encontro, a partir de uma conversa com as suas criadoras.

Alayo Akinkugbe, fotografada por Cameron Ugbodu

Com quantos gestos se constrói um movimento de regeneração colectiva? Que práticas e ensinamentos abandonámos, desenraizando-nos? Como honrar na actualidade a nossa ancestralidade? Onde podemos encontrar as peças que sentimos faltar ao puzzle da nossa existência?

Por mais individuais que sejam os nossos questionamentos, enfrentamentos e desligamentos humanos, há, na matriz africana, um manancial de respostas que só a comunidade consegue oferecer.

“Temos vindo a depositar muitas vezes numa só pessoa aquilo que antigamente era tribal”, observa a farmacêutica holística Malika Rodrigues, que encontrou no mundo digital, sob a identidade “Malika Soul”, uma via de divulgação e expansão de práticas ancestrais africanas, centradas no feminino.

"Não é para minimizar o homem, mas nós somos a fonte da vida. Escolhi especializar-me no cuidado das mulheres porque sou mulher, e porque estudei o corpo da mulher”.

Da alimentação às emoções, numa intersecção de alma, corpo e mente, os conteúdos de Malika cruzaram-se com os interesses de Vânia Andrade há cerca de cinco anos, entre confinamentos da pandemia.

“Ela falava de algumas coisas de que já tinha alguma informação, porque ouvia pessoas do Brasil, mas em Portugal ainda não eram assunto”.

A identificação com as mensagens, desde logo com a comunicação em língua cabo-verdiana, levou a poetisa, performer e activista a inscrever-se, em 2023 num programa de mentoria de quatro meses, encerrado com um desafio, lançado pela farmacêutica holística.

“Eu proponho sempre às mulheres que acompanho que dêem algum contributo para a nossa comunidade, seja através de um projeto, um desafio, ou uma criação”, explica Malika, partilhando as sementes que fizeram germinar o “Raiz Sagradu”, em co-criação com Vânia.

Apresentado como “um círculo de mulheres africanas onde o descanso é honrado, a consciência sábia do teu útero sagrado é despertada, e o amor-próprio é cultivado”, este é, antes de mais, um resgaste de tecnologias milenares.

“Antes recorríamos às mais velhas, às irmãs, às tias, em busca de soluções. Isso acontecia sem julgamento”, nota Malika, que com o “Raiz Sagradu” presta reverência ao passado, e promove a “devolução à prática de estarmos em grupo”.

Nutrir corpo e alma

A proposta, inaugurada no ano passado na Área Metropolitana de Lisboa, já depois de um encontro no Luxemburgo, regressa no próximo dia 29 de Novembro aos arredores da capital portuguesa, em formato de retiro diurno, e com seis horas de duração – das 12h às 18h.

 “Sentimos que aquelas horas com que iniciámos não foram suficientes. As pessoas querem mais, precisam de mais, e nós também precisamos de mais tempo, para darmos mais e melhor”, aponta Malika.

A entrega, complementa Vânia, começa com um convite ao reconhecimento.

“Queremos que as mulheres se olhem ao espelho e realmente se vejam, que parem com aquela síndrome do pensamento sempre activo, em que estão sempre preocupadas”.

Para facilitar esse processo, o encontro assume-se como “baby friendly”, permitindo que as mães possam levar as suas crianças.

Além de um espaço para cuidar dos mais novos, o “Raiz Sagradu” oferece um novo olhar para as heranças do continente-berço da Humanidade.

“Quando falamos em rituais terapêuticos africanos, falamos do que, de certa forma, nos foi tomado. São cerimónias e práticas que muitas vezes esquecemos que são nossas. Então, trazemos esse relembrar”, assinala Malika, desfiando alguns elementos.  “O yoga vem daí, o movimento, a respiração, a meditação e os tambores também”.

A farmacêutica junta ainda a água e a nutrição a essa rememorialização. “Fazer o resgate da nossa alimentação é uma consciência que trago muito às nossas mulheres, porque nós somos natureza. Então, só a natureza nos pode curar, tratar e maximizar”.

Com este entendimento, o retiro vai incluir um catering completamente vegano, a que se junta uma mesa de frutas, para acompanhar com uma selecção de chás.

A par das escolhas naturais para nutrir o corpo, que Malika promove igualmente com o seu projecto Alma Food, o “Raiz Sagradu” convida-nos a desenterrar emoções.

“Há questões comuns ao facto de sermos mulheres africanas, como virmos de famílias em que só há uma mãe, ou a forma pouco emocional de nos relacionarmos. Falamos pouco sobre isso”, observa Vânia, sublinhando a importância de o fazermos, num espaço seguro. “Ouvir que há outra mulher a vivenciar aquilo que nós estamos a viver, e perceber, finalmente, que não estamos sozinhas é único”.

Sem temas tabu, o “Raiz Sagradu” propõe-se restabelecer “a parte de estarmos juntos e navegarmos as complexidades da vida”, reitera Malika, sustentada na própria jornada.

“Sentia mesmo falta de ter práticas com que me identificasse, de ter pessoas com quem visse que poderia haver sinergia. Então, foi a partir dessa necessidade pessoal que me virei para a nossa comunidade e comecei a fazer a mentoria”.

Nesse caminho, e já depois de preencher os ‘buracos’ em que tropeçou, a farmacêutica encontrou a sua expressão holística.

“Há mais de 15 anos, quando a saúde mental nem era mencionada, já tinha feito terapia, e inclusive psicoterapia, mas não encontrava psicólogas negras. Senti que havia ali um gap em que, culturalmente, linguisticamente, e em termos de experiência, não me podia expressar. E não era culpa da psicoterapeuta. Era simplesmente algo que ela também não tinha para me oferecer”.

Perante essas sessões de impossibilidade, Malika abriu o seu próprio caminho de possibilidades.  “Nesse processo, encontrei a minha mentora, que é a Queen Afua, uma mulher africana também, muito conhecida nos Estados Unidos pelo trabalho que faz há mais de 50 anos. Aí encontrei essa parte holística da componente espiritual da mulher negra”.

A metamorfose vivida pela farmacêutica, ganha, na história de Vânia, força identitária. “Tenho pensado muito no que significa ser africana, e sentido, cada vez mais, que é ser esta pessoa em que me estou a tornar: alguém que respeita os seus limites, que escolhe estar em lugares onde é acolhida, e pode fortificar a africanidade que às vezes se vai desligando, em locais que não nos permitem expressar a individualidade”.

Pelo contrário, o “Raiz Sagradu” promete uma “experiência única”, orientada “para acolher, nutrir e saudar” cada mulher, despertando a escuta da sua verdade mais profunda.

“Trazemos essa proposta de como, juntas, podemos fazer esse trabalho e caminhar com outro olhar para metabolizar de forma saudável a raiva, muito presente na mulher africana”, conclui Malika, apontando também para a necessidade de “metabolizar o nosso luto, as nossas perdas, metabolizar doenças que possamos ter”.

Tudo sem perder de vista a máxima que impera no sagrado feminino: a cura de uma é a cura de todas.

Pode inscrever-se no retiro “Raiz Sagradu” aqui. 

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Odair Moniz: depois da faca invisível, entra em cena a sua "astúcia" fatal, agravada pela 'ameaça' do crioulo 

Por esta altura, há exactamente um ano, o país reagia, em sobressalto, a uma onda de protestos nas periferias da Área Metropolitana de Lisboa, motivada pelo assassinato de Odair Moniz, às mãos de Bruno Pinto, agente da PSP. O crime, prontamente justificado por narrativas racistas, assentes na criminalização da vítima e na defesa da Polícia, evidenciou, mais uma vez, a política de impunidade que grassa nas forças de segurança.  Aliás, não fossem os vídeos captados pelos moradores da Cova da Moura – onde Odair Moniz foi mortalmente baleado –, e talvez ainda estivéssemos a ouvir testemunhos sobre como a vítima empunhou uma faca contra o agente, forçando-o a disparar em legítima defesa. Não uma, mas duas vezes, sublinhe-se, não fosse Odair feito à prova de bala. Assassinado a 21 de Outubro de 2024, Dá, como era carinhosamente tratado, deixou viúva, dois filhos, e uma comunidade enlutada. Todos pedem Justiça. Todos pedimos Justiça, e ela passa pelo Tribunal de Sintra, onde o homicídio começou a ser julgado, na última quarta-feira, 22 de Outubro. Amanhã, 29, há mais.

Por esta altura, há exactamente um ano, o país reagia, em sobressalto, a uma onda de protestos nas periferias da Área Metropolitana de Lisboa, motivada pelo assassinato de Odair Moniz, às mãos de Bruno Pinto, agente da PSP. O crime, prontamente justificado por narrativas racistas, assentes na criminalização da vítima e na defesa da Polícia, evidenciou, mais uma vez, a política de impunidade que grassa nas forças de segurança.  Aliás, não fossem os vídeos captados pelos moradores da Cova da Moura – onde Odair Moniz foi mortalmente baleado –, e talvez ainda estivéssemos a ouvir testemunhos sobre como a vítima empunhou uma faca contra o agente, forçando-o a disparar em legítima defesa. Não uma, mas duas vezes, sublinhe-se, não fosse Odair feito à prova de bala. Assassinado a 21 de Outubro de 2024, Dá, como era carinhosamente tratado, deixou viúva, dois filhos, e uma comunidade enlutada. Todos pedem Justiça. Todos pedimos Justiça, e ela passa pelo Tribunal de Sintra, onde o homicídio começou a ser julgado, na última quarta-feira, 22 de Outubro. Amanhã, 29, há mais.

Foto do movimento Vida Justa

Não há dúvidas sobre a identidade do homicida: Bruno Pinto, agente da PSP, atingiu Odair Moniz com dois tiros, na madrugada de 21 de Outubro de 2024.

Um ano depois, na última quarta-feira, 22, o polícia começou a ser julgado no Tribunal de Sintra, e, repetindo um já estafado argumento entre as forças de segurança, optou por fazer do ataque à vítima a sua defesa.

Além de insistir na descrição de Odair como uma pessoa "astuta", que ia oscilando entre a passividade e a agressividade, o arguido sugeriu que o cabo-verdiano teria algum domínio de artes marciais, habilidade que, na sua ficção dos acontecimentos, inviabilizou os esforços para o imobilizar sem recurso à arma de fogo.  “Parecia que o bastão lhe fazia cócegas", declarou.

Como se não bastasse, o agente juntou ao retrato de indomabilidade de Odair elementos que parecem retirados de um mau filme de acção: o segundo disparo é explicado pela alegada ausência de efeitos do primeiro.

Qual "duro de parar", o cabo-verdiano não só terá permanecido em pé após o tiro inicial, como, relatou o polícia, parecia disposto a avançar sobre si.

Para completar o enredo do perigoso agressor, algures no testemunho, Bruno Pinto acusou Odair de proferir ameaças contra si e o seu colega, inclusivamente em crioulo cabo-verdiano, língua que assumiu desconhecer.

Num dia em que também se ouviu Ana Patrícia, viúva da vítima, Rui Machado, o outro agente envolvido nos trágicos acontecimentos, e uma moradora da Cova da Moura, ficou evidente que a tese da legítima defesa vai ser explorada desavergonhada e despudoradamente.

De tal forma que até a faca supostamente empunhada por Odair, porém invisível nos vídeos, reaparece nas convicções do arguido, entre inúmeras contradições.

O julgamento, marcado ainda pelas perguntas absolutórias do colectivo de juízes, continua amanhã,  29.

Até lá, o Afrolink partilha oito notas extraídas do primeiro dia, onde o acesso à sala de audiências se fez sob o filtro de uma lista de ‘personas non gratas’.  

Nota 1: Proibido entrar! O mistério dos nomes banidos

Levo o protocolo bem estudado: chego já com o cartão de cidadão em mãos, escancaro a mala para a devida verificação, e, acto contínuo, atravesso o detector de metais. É então que me apercebo da novidade: em vez de se limitar a confirmar a minha identidade, a equipa de segurança do tribunal verifica se o meu nome está “na lista”. Estranho o procedimento, quero questionar, mas mantenho o foco: o acesso à sala de audiências onde vai ser julgado o homicídio de Odair Moniz. Aliviada por não ter sido barrada, guardo a pergunta para um melhor momento, que chega depois de almoço. Como quem entretém o tempo, pergunto: “Olhe, esta manhã, quando apresentei o meu cartão de cidadão, reparei que consultaram umas folhas, para verificar se o meu nome estava incluído. Porquê?”. A resposta adensa a minha inquietação: “Se estivesse nessa lista, não a poderíamos deixar entrar”, explicaram-me. Cada vez mais intrigada, perguntei: o que as pessoas listadas fizeram para ser banidas? Fiquei sem resposta.  

Nota 2: Conhecem o caso Elson Sanches (Kuku)?

Quinze anos separam os assassinatos de Elson Sanches (2009) e Odair Moniz (2024), ambos no município da Amadora e na sequência de perseguições policiais, encerradas com disparos fatais. Nas duas situações, envolvendo agentes da PSP, as vítimas surgem conveniente e presumidamente armadas: vale tudo para justificar o recurso à lei da bala. No caso de Elson, também conhecido por Kuku, o agente relatou ter visto um objecto metálico brilhante, e ouvido um som semelhante ao manuseio de uma arma, antes de baleá-lo à queima-roupa. O tribunal não conseguiu provar a alegação – tornando o disparo injustificado e esvaziando a tese de legítima defesa –, mas a ausência de testemunhas no momento do crime, aliada à criminalização da vítima e falta de iluminação no local, conspiraram no sentido da absolvição do polícia. Ainda que Kuku fosse apenas um miúdo de 14 anos, e do outro lado estivesse um agente treinado e de quase 40 anos, a juíza entendeu que naquelas circunstâncias a decisão policial dificilmente poderia ser outra. E nem o facto de o disparo ter sido efectuado a escassos centímetros da cabeça de Kuku, ao jeito de uma execução, levou a magistrada a reavaliar o que classificou de “infeliz evento”. Poderá a narrativa da “legítima defesa” repetir-se no caso de Odair Moniz, tendo em conta que também aqui existe uma putativa arma – no caso branca – e todo um argumentário que criminaliza a vítima? O advogado José Semedo Fernandes, que representa a família de Odair, aproveitou as alegações iniciais do julgamento para lembrar as semelhanças deste processo com o de Kuku, sublinhando a principal diferença: desta vez temos imagens da intervenção policial. Muitas foram captadas por moradores munidos de telemóveis e, não fosse a sua pronta disseminação nas redes sociais, talvez tivéssemos um comunicado sobre a avaria das câmaras de videovigilância instaladas no local, da mesma forma que tivemos um auto de notícia da PSP com uma faca que afinal não o era.  “A defesa acredita que aqui a verdade vai ser encontrada, e que o arguido será condenado”. Assim seja!

Nota 3: Procurador investido em revelar os factos, colectivo de juízes parece apostado em mascará-los com teorias absolutórias

Sabemos quem matou Odair Moniz. Chama-se Bruno Pinto, é agente da PSP e está a ser julgado por homicídio. Sabemos também que, ao contrário do que a Polícia começou por alegar, a vítima não estava armada quando foi baleada. Sabemos ainda que o outro agente que se encontrava no local, Rui Machado, estava munido de uma lata de gás pimenta, que poderia ter usado para imobilizar Odair, mas optou por não o fazer. “Seis minutos é a linha de tempo que está aqui a ser analisada”, lembrou, mais do que uma vez, o procurador Pedro Lopes Pereira, colocando o foco nas decisões que determinaram os factos ocorridos entre as 5h25 e as 5h31 de 21 de Outubro de 2024. “Retrospectivando: considera proporcional que se tenha chegado a esta situação?”, questionou o representante do Ministério Público, recordando que na origem da intervenção de Bruno Pinto esteve um eventual crime de desobediência, e outro de condução perigosa. O procurador quis igualmente saber porque é que o agente disparou duas vezes contra Odair – afinal, se o objectivo era imobilizar a vítima, não estaria já imobilizada com o primeiro tiro? Pedro Lopes Pereira sublinhou ainda que a dupla de agentes já estava à espera de reforços policiais quando se deu a confrontação com Odair Moniz, e questionou-os sobre a não utilização do gás pimenta. Em separado, o arguido Bruno Pinto e a testemunha Rui Machado repetiram a mesma ficção dos acontecimentos: por um lado, naquela madrugada o vento desaconselhava o uso do gás pimenta; por outro lado, o manuseio do spray tornou-se desafiante perante a atitude da vítima. Nos antípodas da intervenção do procurador, o colectivo de juízes pareceu estar mais interessado em oferecer ao arguido argumentos para uma legítima defesa, em vez de o confrontar com a consequência das suas escolhas. Desde logo, a insistência na falta de formação da Polícia, nomeadamente em carreira de tiro, sugere que Bruno Pinto tenha sido vítima de uma impreparação estrutural. Do mesmo modo, quando se questiona  “Conformou-se com este resultado?”, “Voltaria a fazer o mesmo?”, ou “Alguma vez desejou este resultado?”, parece que se está a forçar uma reparação da imagem  do agente, apresentado com um profissional bem intencionado, a quem um azar bateu à porta. “Infeliz evento”, como no caso de Kuku? As manobras de absolvição incluíram mesmo uma analogia com o futebol: perante a explicação do arguido para a trajectória fatal dos seus disparos – quando os mesmos supostamente foram direccionados para os membros inferiores da vítima –, o juiz Carlos Camacho lembrou-se de sugerir que há um movimento semelhante no desporto-rei. Resumidamente: tal como o agente inclina o torso ligeiramente para trás quando dispara, também futebolista o faz para ganhar impulso quando remata.

Nota 4: Odair culpado por ser uma pessoa negra...perdão, astuta!

Armado ou desarmado, encorpado ou franzino, alcoolizado ou sóbrio, com ou sem cadastro, aparentemente pouco importa. Se de um lado estiver um elemento das forças de segurança e, do outro, um homem negro, este transforma-se automaticamente num alvo a abater. A presunção da culpa negra está de tal forma instituída nas polícias que, à falta de provas, aposta-se tudo na construção de uma história de criminalidade que transforme a vítima em agressor. O caso de Odair não é excepção. Repetidamente descrito pelo agente que o assassinou como uma “pessoa astuta”, o cabo-verdiano foi apresentado em tribunal como um perigo ambulante, que ia atropelando uma série de pessoas, e chegou mesmo a ameaçar de morte a dupla da PSP. Para a narrativa soar mais credível, Bruno Pinto, que assume não saber crioulo, expressa o que terá ouvido de Odair: “Mi ta mata”, ou qualquer coisa do género.  “Ele alterava de personagem: passivo-agressivo, passivo-agressivo”, apontou o agente que o matou, estendendo o juízo incriminatório à generalidade da Cova da Moura. “O bairro oferece protecção”, observou Bruno Pinto no seu depoimento, garantindo que na madrugada fatídica efectuou os primeiros disparos para o ar em resposta a um avanço popular, alegadamente instigado pelos pedidos de ajuda de Odair. “O que é que fiz, o que é que se passa?”, terá sido um dos ‘alertas’ a soar rua acima, ao encontro de um grupo que, segundo o arguido, está ligado à “criminalidade organizada e violenta”. Noutra referência aos perigos da Cova da Moura, o agente adiantou: “Quando passamos por eles não cometem nenhum crime, assobiam”. Já Odair, além da atitude astuta, ficou ‘marcado’ por um suposto domínio de artes marciais.  “Ele mantém sempre uma boa postura”, notou o arguido, atribuindo o equilíbrio à prática desportiva.

Nota 5: Dúvidas razoáveis - faca na imaginação, tiro à queima-roupa

“Num primeiro momento, o arguido é peremptório a dizer que Odair Moniz estava munido de uma faca. Depois refere que não sabe dizer a 100% se havia uma faca ou uma lâmina”. A incoerência, apontada ao agente da PSP, é assinalada pelo procurador que, já depois de visionadas as imagens de videovigilância em tribunal, confronta Bruno Pinto: afinal, havia ou não havia uma faca? Hesitante, o arguido devolve afirmativamente: “Eu agora tenho a certeza”. Questiono-me: na altura, não teve a mesma convicção? Então porque é que disparou contra uma pessoa desarmada? Mais: se, de facto, em algum momento suspeitou da existência de uma faca, não seria lógico assumir que, logo após os disparos, procurasse localizar e neutralizar a arma? “Deveria tê-lo feito, mas não era a minha preocupação”, afirmou, igualmente titubeante perante uma hipótese colocada pelo advogado José Semedo Fernandes. “Garante que o tiro à queima-roupa não foi disparado no momento em que estava debruçado, em cima de Odair?”. Antes da resposta do arguido, o contexto: apesar da insistência na tese da indomabilidade da vítima, há pelo menos um momento em que a intervenção policial consegue conter Odair, que fica de bruços sobre um carro e de costas para Bruno Pinto, permitindo a este ganhar alguma vantagem física. Terá sido nesta situação, já com o cabo-verdiano manietado, que o agente disparou o primeiro tiro? “Acredito que não”, atira o homicida, insistindo na superior capacidade de Odair para resistir. “Tanto no primeiro como no segundo tiro, ele encontrava-se a vir para cima de mim, e eu protejo-me”. Facto: aquando do primeiro tiro, não se vê, nas imagens, nenhum clarão. Como é que com um disparo à queima-roupa, o agente avança para um segundo, sob a alegação de que não tinha a certeza de ter acertado o primeiro? Afinal, queria matar ou manietar?

Nota 6: Mais dúvidas razoáveis – arma no coldre, rádio no chão

Na noite do homicídio de Odair Moniz, Bruno Pinto fazia a patrulha com Rui Machado, agente que está a ser acusado de falso testemunho por, juntamente com outro PSP, ter afirmado que viu um punhal por baixo do corpo de Odair, algo que se comprovou ser mentira. Por causa deste processo, a presença de Rui Machado no julgamento de Bruno Pinto ficou circunscrita a questões não relacionadas com a arma branca. Feito este enquadramento, há a destacar dois momentos do seu testemunho. O primeiro prende-se com as armas que usou, o segundo tem que ver com os tiros que mataram Odair. Vamos por partes: assim que saiu da viatura, empunhou a arma de fogo em direcção a Odair, para o intimidar, mas acabou por recolhê-la, quando entendeu que não era necessário manter essa abordagem. “Não achou necessário porquê?”, questionou o procurador, baralhando o agente. “Pode repetir a pergunta?”. Na resposta, Rui Machado secundou a leitura do autor dos disparos: “Inicialmente [Odair] sai do carro com um comportamento passivo. Embora não esteja a colaborar connosco, não partiu logo para a agressão”. Prosseguindo com os pedidos de esclarecimento, o procurador indagou: em vez da arma de fogo, o agente optou pelo bastão extensível, e nem tocou no gás pimenta que transportava, será que não lhe passou pela cabeça usar o spray, ou entendeu que as condições não eram favoráveis à sua utilização? “Ambas as duas”, respondeu, escancarando mais uma incongruência.  Avancemos para os tiros: ao mesmo tempo que Rui Machado relatou a agressividade de Odair e dificuldade em manietá-lo, ficámos a saber que desperdiçou uma oportunidade para o conter – em prol de um objecto que poderia recuperar depois. Ficámos igualmente a saber que o que lhe ocorreu fazer numa situação de confronto físico entre a vítima e Bruno Pinto, foi dar costas à altercação. “Estou com o bastão, dou um empurrão, e ele [Odair] embate contra a parte traseira de uma viatura, desfiro uma bastonada, quando vou para desferir a segunda levo o meu braço atrás, o meu rádio saltou e caiu atrás de mim, cerca de um metro e pouco. Virei-me de costas para os dois. O meu colega continuava na altercação, digamos assim, com Odair”. Conta o agente que foi nesse instante, em que estava de costas, que ouviu mais um tiro, o terceiro da noite – dois tinham sido para o ar, e este foi primeiro a acertar na vítima. “Não sabia quem tinha sido atingido, nem quem tinha efectuado o disparo: se tinha sido o meu colega, o Odair, ou um disparo para o ar. Viro-me para os dois, primeira imagem que tenho é o Odair com a mão esticada na cabeça do meu colega numa posição de agressão. O meu colega meio que recuava, com a arma apontada na direcção das pernas do Odair. Dirijo-me na direcção dos dois, e quando estou a chegar há mais um disparo, e o Odair caído no chão. Naquele momento não me apercebi do sucedido, estava completamente sob o efeito túnel”. Foi aí que Rui Machado ainda carregou sobre a vítima com uma bastonada, porque, garante, não conseguiu travar o impulso que já levava. O testemunho torna bastante plausível a hipótese aventada por José Semedo Fernandes, de que o primeiro tiro a atingir Odair aconteceu quando o mesmo estava imobilizado, encostado a um carro. É, contudo, ao segundo tiro que o cabo-verdiano cai sobre o asfalto, de barriga para baixo, embora tenha aparecido posteriormente de barriga para cima, circunstância que levou a juíza presidente do colectivo a questionar: “Foi por via da sua acção que [a vítima] acabou por ficar de barriga para cima?”. “Não lhe consigo dizer.”

Nota 7: O grito de Odair – “Sou doente” – e a mão ferida que as algemas policiais queriam ignorar

Os agentes da PSP Bruno Pinto e Rui Machado coincidem no retrato da resistência oferecida por Odair Moniz. “Sou doente, sou doente. Arma não, bastão não”, terá vociferado a vítima, que começou por levantar os braços, tornando assim visível a ligadura que lhe cobria uma das mãos. “Chegou a explicar que tinha um ferimento?”, perguntou o advogado José Semedo Fernandes, numa alusão a uma queimadura que, desde Maio, mantinha Odair de baixa médica. Não tendo a vítima explicado, questiono-me se não seria lógico assumir que a referência a uma doença pudesse estar relacionada com a mão que a vítima fez questão de elevar. Estaria Odair a recusar ser algemado por ser “uma pessoa astuta”, como tantas vezes repetiu o agente que o matou, ou por estar a recuperar de um ferimento que as algemas iriam agravar? A ausência de diálogo entre os agentes e a vítima parece ter marcado os seis minutos de interacção que tiveram, dominados, no testemunho dos PSP, por ameaças. “Vou-vos matar filhos da p***”, terá avisado Odair que, mesmo com a mão ligada e sob o efeito de álcool e estupefacientes, permanecia, aos olhos dos agentes, incapaz de manietar.  (os exames toxicológicos indicaram que tinha no sangue de 1,98 gramas de álcool por litro, e uma concentração de canabinóides de 1 nanogramas por mililitro).“A adrenalina dele estava muito alta devido à perseguição, à fuga e por ter embatido”, numa série de carros antes de parar, considerou Rui Machado, insistido na ficção –“Tentámos de tudo”–, mas assumindo que ignoraram o ferimento de Odair.  Afinal, conforme declarou em tribunal, estavam a tentar algemá-lo “na mão que desse”. Já Bruno Pinto aproveitou todas as oportunidades para salientar o quão perigosa é a Cova da Moura. “Ali optei pela minha vida e pela do meu colega”. Para Odair restou a morte.

Nota 8: Regressar da morte – o pesadelo de uma família destroçada

“A vida mudou muito?”. Diante da juíza que preside ao colectivo de juízes, Ana Patrícia Moniz, viúva de Odair, não hesitou um segundo antes de responder: mudou “bastante”, mudou “tudo”. Incapaz de pregar olho desde o assassinato do seu “Dá”, a ajudante de cozinha, lembra que ele era “o pilar da casa”, que “nunca deixava faltar nada”. Como se não bastasse o pesadelo que representa a perda irreparável do companheiro de 23 dos seus 37 anos de vida, ‘Mónica’, como também é conhecida, recordou em tribunal que a violência policial contra a sua família não acabou com o homicídio. “Rebentaram-me a porta, ponho um armário [atrás da porta] para tentar dormir”, relatou a viúva, e mãe dos dois filhos de Odair. A receber tratamento psiquiátrico desde Novembro do ano passado, a ajudante de cozinha partilha os danos emocionais que observa também nos filhos, de 21 e quatro anos. “O mais velho está com depressão, não sai do quarto”, lamenta, enquanto descreve como o mais novo corre para o comando da televisão, desligando-a, de cada vez que surge uma notícia sobre o pai. “Ainda hoje pergunto-me o que aconteceu com o meu marido”, sublinha a viúva, que passou a andar movida por uma bateria de medicamentos: anti-depressivos, calmantes, SOS para ansiedade. Perdas somadas, a família reclama 200 mil euros de indemnização. Pague-se! Faça-se Justiça.

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