HISTÓRIAS
Seguimos o ritmo da alma de Anna Joyce, e mergulhamos em “Ondas do Mar”
Aos 10 anos compunha temas infantis, animada pelo sonho de se tornar cantora, talvez como a brasileira Xuxa. Já na adolescência amadureceu letras, depois de também escrever refrões para os amigos rappers, mas foi na fase adulta da vida que a música se tornou carreira, impulsionada por sucessos como “Te Amar”, “Puro”, “Outra Vez”, ou “Curtição”. Agora ligada à Universal Music Portugal, Anna Joyce esteve em Lisboa no último mês de Novembro, e falou com o Afrolink sobre “Ondas do Mar”, escrita a seis mãos, e cantada com Ivandro. A novidade antecipa a estreia da artista angolana no palco do Sagres Campo Pequeno, marcada para 28 de Fevereiro de 2026. Uma oportunidade para conversarmos também sobre os desafios da indústria musical, e os seus quase 12 anos gravações e espectáculos. “Temos ouvido muitas influências de música africana aqui, a serem tratadas por artistas portugueses, o que é muito bom, mas também é bom sermos nós próprios a dar cara à nossa música”.
Aos 10 anos compunha temas infantis, animada pelo sonho de se tornar cantora, talvez como a brasileira Xuxa. Já na adolescência amadureceu letras, depois de também escrever refrões para os amigos rappers, mas foi na fase adulta da vida que a música se tornou carreira, impulsionada por sucessos como “Te Amar”, “Puro”, “Outra Vez”, ou “Curtição”. Agora ligada à Universal Music Portugal, Anna Joyce esteve em Lisboa no último mês de Novembro, e falou com o Afrolink sobre “Ondas do Mar”, escrita a seis mãos, e cantada com Ivandro. A novidade antecipa a estreia da artista angolana no palco do Sagres Campo Pequeno, marcada para 28 de Fevereiro de 2026. Uma oportunidade para conversarmos também sobre os desafios da indústria musical, e os seus quase 12 anos gravações e espectáculos. “Temos ouvido muitas influências de música africana aqui, a serem tratadas por artistas portugueses, o que é muito bom, mas também é bom sermos nós próprios a dar cara à nossa música”.
Dez músicas celebraram, em 2024, os primeiros 10 anos de carreira de Anna Joyce, embrulhados para os fãs no disco “A Peça”, lançado sem amarras comerciais.
“Foi mais sobre uma comemoração, do que sobre lançar um álbum para ser top nas paradas”, assinala ao Afrolink a cantora angolana, firme no palmilhar de novos caminhos.
“Não podes estar sempre a fazer as mesmas coisas”, nota a autora de sucessos como “Puro”, “Outra Vez” ou “Curtição”. Agora ligada à casa portuguesa da Universal Music, a artista juntou-se a duas outras referências da editora, Ivandro e Prodígio, no tema “Ondas do Mar”.
Composto pelos três e cantado em dueto, por Anna e Ivandro, o tema soma quase meio milhão de visualizações no YouTube, cerca de um mês após o lançamento, aumentando as expectativas para o próximo espectáculo da cantora em palcos portugueses.
“Estávamos à espera deste tema, demorou um bocadinho mais do que era suposto, mas não fazia sentido sair depois do show, porque as pessoas não iam poder cantar a música connosco”, explica a cantora, feliz com a parceria. “Decidimos mudar a data para 28 de Fevereiro, para haver tempo e disponibilidade de ambas as partes para fazermos esta canção, e acho que valeu a pena”.
Pela primeira vez ao lado de Ivandro, Anna conta que a ligação aconteceu a partir de Prodígio, que agora também é seu manager.
“Eu disse: olha, eu quero cantar com o Ivandro, e ele é que tratou, ele é que foi atrás. Então, foi muito mais do que só escrever, ele foi o maestro por detrás dessa música”.
O resultado ouve-se em todas as plataformas digitais, e, revela a cantora, tem por detrás um entendimento raro.
“Foi quase uma coisa inédita para mim, um processo muito bonito e satisfatório: escrevemos, gravamos, e a música estava feita num dia”.
Com tanto alinhamento, talvez venham aí novas marés de parceria?
“O objectivo é também expandirmos um bocadinho as nossas raízes, e levarmos a nossa música a ser conhecida pelas pessoas que a fazem. Porque temos ouvido muitas influências de música africana aqui, a serem tratadas por artistas portugueses, o que é muito bom, mas também é bom sermos nós próprios a dar cara à nossa música”.
Batimentos e abatimentos de tecnologia
Entre os desafios de manter a autenticidade – num mercado cheio de apropriações e pressões comerciais –, e as facilidades de produção – aceleradas por artificialidades tecnológicas – estará a originalidade artística comprometida?
“Se for em termos de expandir a música, e cada um poder mostrar o seu valor, acho que está definitivamente mais fácil. Com as redes sociais, há pessoas que nem precisam ser agenciadas para ter sucessos a tocar. Vemos vários exemplos nos TikToks da vida”, nota Anna, sem esquecer o reverso da medalha. “Acho que as tecnologias limitam o artista, porque é tão fácil agora gravar, que, com ou sem talento, uma pessoa consegue cantar uma música, e soa relativamente bem”.
No meio de tantas “inteligências” não humanas, estará o público a ser enganado?
“Eu não quero dizer isso, porque há pessoas que sonham com a música e podem não ter todo o talento do mundo. Então, não acho que seja enganador, porque vem de um lugar de querer. Diria até que lesa mais o artista do que o público, porque depois há certas alturas em que tu precisas, por exemplo, de te apresentares ao vivo e torna-se complicado”.
Capacidades vocais à parte, para quem ouve, muitas vezes o que fica é uma incapacidade de diferenciação, como se estivéssemos sempre diante das mesmas composições.
“Quando as pessoas fazem música pelo que está no hype, ou, como os miúdos dizem, pelo que está a bater, acho que há a tendência de se fazer o mesmo, com as mesmas batidas, as mesmas letras. Então, acho que existe essa facilidade de acabarem todos a cantar as mesmas coisas”.
Como quebrar esse ciclo de descaracterização?
Independentemente de compromissos e pressões comerciais, Anna Joyce defende a importância de cada artista encontrar e expressar a sua autenticidade.
“Não acho que seja uma obrigação do artista ser activista social ou um exemplo para a juventude, como muitas vezes se faz pensar. Nem todos somos assim. O artista, antes de ser artista, é uma pessoa e, dentro da nossa individualidade, somos o que somos”.
o que me vem na alma”.
O exemplo brasileiro
Nos estúdios, nos palcos ou na intimidade, a cantora angolana garante que não se adultera. “Sou enquanto artista o que sou como pessoa. Então, o que eu vou escrever vai ser fruto da minha criação, da minha família, das oportunidades que tive”, aponta, demarcando-se dos ouvidos e olhos que condenam outras formas de expressão musical.
“Quando falamos de kuduro, por exemplo, pensamos no contexto dos kuduristas? É um contexto do gueto, do subúrbio, de pobreza, de fome, e eles são fruto disso. Então, como é que vamos exigir que uma pessoa que venha daí se comporte como uma pessoa que vive dentro de um condomínio, com água, energia e todas as condições? Ouve quem quer ouvir”.
Fã assumida desse estilo, ao qual reconhece mestria, a cantora também retira dos artistas a responsabilidade de se moderarem na linguagem.
“Acho que é uma questão de escolha, porque, na verdade, as pessoas dizem palavrões. Apenas defendo que, em relação às crianças, nós, os pais, é que temos de estar atentos. Não podemos condenar os artistas que têm letras com asneiras, e depois, pormos a tocar essas músicas quando damos uma festa, que também tem crianças. Depois, quando elas estiverem a cantar, é culpa é do kudurista? Não é”.
Acima das diferenças, que vê como uma riqueza, Anna Joyce defende a necessidade de se valorizar a produção cultural.
“Os governos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] não olham para a música como uma força, como algo que possa trazer retorno aos próprios países”, observa a cantora, lembrando que foi a exportação da cultura que tornou o Brasil mundialmente conhecido.
“Onde é que estaríamos hoje se tivéssemos valorizado, apostado e investido na nossa cultura, como por exemplo o Brasil fez, com o Carnaval, samba, pagode, sertanejo, caipirinhas? Era bom que se fizesse isso nos nossos países, porque não é tarde”.
A esse propósito, acrescenta a angolana, convém não esquecer que muitas das maiores referências brasileiras vêm de África, como por exemplo a capoeira.
Potenciar o mercado PALOP
Ainda a pensar no que falta fazer, embora sublinhe que não tem razões de queixa, “porque a música angolana circula pela comunidade PALOP inteira”, Anna Joyce reconhece que o inverso não acontece.
“Chega pouca música moçambicana a Angola, pouca música de São Tomé e Príncipe e da Guiné, e um bocadinho mais de Cabo Verde, porque durante muitos anos foi um músculo no nosso mercado. Agora, acho que tem de haver trabalho de divulgação e investimento, porque há muito boa música a ser feita”.
Presença habitual em Moçambique – “vou pelo menos 10 vezes por ano” –, a cantora partilha também uma reclamação que ouve recorrentemente. “Um artista angolano chega, ganha um cachê infinitamente maior e tem condições melhores do que os músicos moçambicanos”.
O que fazer, então, para equilibrar os pratos da balança?
“Falta apoio aos artistas, e criação de mais oportunidades”, defende, certa de que, contra ventos e marés, a música permanecerá central nas nossas vidas.
“Nós somos música. Ela faz parte do nosso ADN, e não precisamos de um curso de arte e cultura ou de Belas Artes para a entendermos. Cantamos quando estamos tristes, e também quando estamos felizes. É a forma de arte mais acessível e, desde bebés, a nossa mãe canta musiquinhas para adormecermos”.
Na sua própria história, revela Anna, a música é também “terapia, cura, e um lugar bom”, que começou a ocupar ainda criança.
Talento precoce, inspiração familiar
“Comecei a compor aos 10 anos, com o sonho de ser cantora. Queria ser a Xuxa ou o que fosse”, recorda, de volta aos planos infantis.
“Na altura, havia um programa na SIC, que era o Buereré. Então, eu escrevi o meu repertório para ter as minhas músicas prontas quando lá fosse. Mas nunca fui”.
O engenho para compor, precocemente exercitado, estendeu-se também à escrita de refrões de rap para amigos, já na adolescência substituídos por letras “mais maduras”.
“Uma das minhas músicas de maior sucesso, que tem o título ‘Final’, foi feita quando eu tinha 18 anos”, conta Anna que, cerca de uma década depois, resgatou-a de velhas anotações.
Antes como agora, a voz feminina de “Ondas do Mar” assenta a sensibilidade e identidade musical num sólido património de referências familiares. “Sou de uma casa onde se ouvia música todos os dias e, no fundo, tudo o que fui ouvindo foi-me moldando”.
Do fado aos ritmos latinos e brasileiros, passando pela Pop, o Reggae, a Kizomba e o Zouk, Anna Joyce revê nas suas criações “o resultado dessa mistura toda”, profundamente sintonizada na sua maior inspiração: Mariah Carey.
“Ela é uma artista-compositora e, como eu sempre tive essa veia de composição, acabei por me inspirar muito nela para cantar e fazer músicas com qualidade. Por isso é que sou muito exigente com o meu conteúdo”.
Em contagem decrescente para o novo ano, e o próximo concerto em Portugal, a cantora angolana faz questão de renovar, a cada criação, a sua força artística: : “Faço aquilo que me vem na alma”.
Junte-se à Rede Nacional de Profissionais Negras e Negros na Educação
“Por uma Educação com Justiça, Representatividade e Compromisso Ético”, a Rede Nacional de Profissionais Negras e Negros propõe-se “mapear e chegar a todas as professoras, professores, educadoras e educadores negros que actuam em Portugal — no continente e nas ilhas — criando um espaço de conexão, escuta e acção colectiva”. O propósito ganha vida online, a partir de um repto à participação, que o Afrolink divulga.
“Por uma Educação com Justiça, Representatividade e Compromisso Ético”, a Rede Nacional de Profissionais Negras e Negros propõe-se “mapear e chegar a todas as professoras, professores, educadoras e educadores negros que actuam em Portugal — no continente e nas ilhas — criando um espaço de conexão, escuta e acção colectiva”. O propósito ganha vida online, a partir de um repto à participação, que o Afrolink divulga.
“Se és uma educadora, educador, professora ou professor negra/o a actuar em Portugal, preenche o formulário de mapeamento e junta-te a esta rede nacional”, apela a educadora, formadora e consultora Georgina Angélica, promotora da iniciativa, e criadora do projeto Educar com Amor e Consciência.
Além de “mapear e conectar docentes negras e negros em Portugal, em todos os níveis de ensino”, a Rede pretende “valorizar saberes, experiências e trajectórias de profissionais negras e negros no campo educativo”, bem como “partilhar desafios e construir soluções práticas e colaborativas para uma educação anti-racista, plural e representativa”.
As ambições do projecto passam ainda por “influenciar políticas públicas, apresentando ideias e propostas concretas que promovam a justiça racial na educação”; meta que se articula com a necessidade de “sensibilizar decisores políticos e instituições para a urgência de garantir equidade na formação, contratação e progressão de profissionais negras e negros”.
A missão da Rede inclui ainda criar as condições para a sua integração “como um órgão consultivo permanente, que contribua activamente para o desenvolvimento de políticas educativas mais justas, inclusivas e coerentes com a diversidade da sociedade portuguesa”.
Mais informações Rede Nacional de Profissionais Negras e Negros na Educação-Mapeamento e Colaboração - Google Forms
A certeza da Revelação de Marco Mendonça, na arte de afirmar e celebrar pertença
O actor e encenador Marco Mendonça conquistou a 6.ª edição do Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II, distinção anual “que pretende reconhecer e promover talentos emergentes no panorama teatral, motivando o arranque e desenvolvimento de percursos profissionais de sucesso neste sector”. O anúncio do vencedor aconteceu na última sexta-feira, 12 de Setembro, e leva-nos a recuperar dois dos trabalhos com a sua assinatura que o Afrolink acompanhou e divulgou: “Blackface” e “Reparations Baby!”
O actor e encenador Marco Mendonça conquistou a 6.ª edição do Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II, distinção anual “que pretende reconhecer e promover talentos emergentes no panorama teatral, motivando o arranque e desenvolvimento de percursos profissionais de sucesso neste sector”. O anúncio do vencedor aconteceu na última sexta-feira, 12 de Setembro, e leva-nos a recuperar dois dos trabalhos com a sua assinatura que o Afrolink acompanhou e divulgou: “Blackface” e “Reparations Baby!”
Marco Mendonça, em Blackface, com fotografia de Diana Tinoco
Antes de lhe darmos a ler – ou reler – os artigos aqui publicados sobre as criações de Marco Mendonça, partilhamos algumas notas curriculares e biográficas.
Nascido em Moçambique em 1995, o actor, dramaturgo e encenador revelou desde cedo a sua veia artística. Em Portugal desde o início da adolescência, licenciou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema, em 2015, altura em que iniciou um estágio de um ano no Teatro Nacional D. Maria II.
Co-autor do “Parlamento Elefante”, projecto vencedor, em 2019, da Bolsa Amélia Rey Colaço, também co-criou “Cordyceps”, peça apoiada pela Rede 5 Sentidos, em 2021.
Dois anos depois apresentou a sua primeira criação a solo, “Blackface”, a que se seguiu, já neste ano, “Reparations Baby!”.
Marco Mendonça integra ainda o elenco de “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues, além de somar papéis em cinema e televisão, com vários criadores nacionais.
Com Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II, que tem o valor pecuniária de 5 mil euros, Marco vê reconhecida a “qualidade da sua prestação artística no ano a que se refere o prémio; o contributo da sua prestação artística para o desenvolvimento e fortalecimento da área teatral; a capacidade de crescimento e valorização da sua carreira, nacional e internacionalmente; e a introdução de elementos de inovação ou diferenciação na sua prática profissional”.
Saiba mais sobre as suas criações, lendo ou relendo o que publicámos aquando da estreia de Blackface e Reparations Baby!
“Reparations Baby!” – o concurso-revolução para descolonizar a nossa TV
Humor de ressignificação: o “Blackface” que confronta a prática racista
“Reparations Baby!” – o concurso-revolução para descolonizar a nossa TV
“Reparations Baby!” é a mais recente criação de Marco Mendonça, que, com um texto tão mordaz quanto perspicaz, coloca o tema das reparações históricas na agenda…quanto mais não seja cultural. Produzido pelo Teatro Nacional D. Maria II, o espectáculo estreia-se no próximo dia 5 de Junho no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, antes de seguir para as cidades de Barcelos e de Ílhavo, nos dias 14 e 21 do mesmo mês, respectivamente. A apresentação em Lisboa está marcada para o Teatro Variedades, onde a peça sobe ao palco de 9 a 27 de Julho. Na recta final dos ensaios, o Afrolink conversou com o actor, criador e encenador, que, depois de nos ter apresentado a peça “Blackface”, regressa aos arquivos históricos para nos desafiar a reflectir sobre legados de abusos e desigualdades raciais, e a importância do reconhecimento, e da responsabilização. “Acho que pode ser produtivo saber que a culpa existe, que está de certa forma no ADN da construção do país, e do império”.
“Reparations Baby!” é a mais recente criação de Marco Mendonça que, com um texto tão mordaz quanto perspicaz, coloca o tema das reparações históricas na agenda…quanto mais não seja cultural. Produzido pelo Teatro Nacional D. Maria II, o espectáculo estreia-se no próximo dia 7 de Junho no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, antes de seguir para as cidades de Barcelos e de Ílhavo, nos dias 14 e 21 do mesmo mês, respectivamente. A apresentação em Lisboa está marcada para o Teatro Variedades, onde a peça sobe ao palco de 9 a 27 de Julho. Na recta final dos ensaios, o Afrolink conversou com o actor, criador e encenador que, depois de nos ter apresentado a peça “Blackface”, regressa aos arquivos históricos para nos desafiar a reflectir sobre legados de abusos e desigualdades raciais, e a importância do reconhecimento e responsabilização. “Pode ser produtivo saber que a culpa existe, que está de certa forma no ADN da construção do país, e do império”.
“Reparations Baby!”, com foto de Pedro Macedo e composição gráfica de Vinicius Batista
Foto de capa de Filipe Ferreira
Náufrago de uma narrativa histórica afundada nos “heróis do mar”, Portugal permanece à deriva, incapaz de sair das profundezas de um passado romantizado, e de trazer à tona a realidade.
“Há uma insistência em falar-se das partes boas, sendo que é preciso procurarmos muito para as encontrar”, aponta Marco Mendonça, que, a partir do teatro, nos encaminha para outra direcção.
“Falta ao país responsabilização, a tomada de consciência de que o que aconteceu foi terrível, horrendo para todos os países ocupados,”, sublinha o autor de “Reparations Baby!”, peça que se vai estrear no próximo dia 7 de Junho no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra.
Entre ensaios, que foram ajudando a firmar caminhos – “começámos com a versão 6 do texto, agora já vamos na 8.3 – o actor, criador e encenador assume a intenção de constranger.
“Há provocações que eu sinto mesmo que precisam de estar em palco, e espero que elas cheguem nos momentos certeiros”.
O processo cumpre-se com “a ideia de um game show extravagante, com luzes, música, e muita informação”, antecipa Marco que, depois de nos ter apresentado a peça “Blackface”, regressa aos arquivos históricos para nos desafiar a reflectir sobre legados de abusos e desigualdades raciais, e a importância do reconhecimento.
“Pode ser produtivo saber que a culpa existe, e que ela pertence a alguém. Acredito que, mais do que nunca, as pessoas precisam de viver essa culpa, de a sentir, ou de empatizar com quem reclama reparações históricas”.
A abordagem, explica o moçambicano e português, “parte sempre de um lugar muito pessoal”, indissociável das suas próprias vivências, marcadas por um contínuo de heranças coloniais.
“Há coisas que eu me proponho a aprender, para poder falar delas com o mínimo de propriedade”, assinala, enquanto ganha músculo na arte de deslindar factos que o país continua a ocultar.
“O processo de pesquisa para o espetáculo trouxe-me muito mais frustração do que esperança”, admite, alertando para a urgência de uma discussão séria e consequente sobre reparações.
“Começaria por uma coisa muito simples que é assumir, de forma transparente e responsável, tudo o que de mal aconteceu”.
Ou, nas palavras do Presidente da República, evocadas em “Reparations Baby!”, Portugal deve reconhecer aquilo que “de bom e de mau” fez no passado.
“Esse reconhecimento é essencial. A culpa existe, e está, de certa forma, no ADN da construção do país, e do império”, reforça o autor, insistindo na importância da informação.
Por exemplo, qual o peso do trauma ancestral na vida das pessoas negras? “A título muito pessoal, sou uma pessoa que sofre de ansiedade. Fui diagnosticado há cinco anos e, nessa altura, fiquei a pensar muito sobre o nível de hereditariedade dessa condição”, conta Marco, hoje munido de pesquisas que evidenciam a carga transgeracional do que vivemos.
“Fui ler para tentar perceber um bocadinho melhor as minhas ansiedades, e vejo muito fundamento nessa ideia de transmissão”.
A consciência encontra tradução em “Reparations Baby!”, onde o trauma ancestral atinge proporções demolidoras.
“Não são apenas os estudos. Percebi também, ao falar com o elenco, que esse é um peso comum entre nós, pessoas negras, e muito mais transversal do que pensamos”.
Reconhecê-lo permite enfrentá-lo, observa Marco: “A minha ansiedade surgiu como um problema, e agora é simplesmente uma coisa com a qual eu vivo, e está tudo bem”.
O exemplo encaixa na perfeição num dos inúmeros e valiosos ensinamentos que encontramos em James Baldwin: “Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.
A citação-lição do escritor americano solta-se no palco de “Reparations Baby!”, onde um concurso televisivo exclusivamente reservado a participantes negros nos confronta com uma sucessão de factos e constrangimentos históricos.
“São coisas que todos os dias me fazem pensar, e dão-me mais vontade de constatar o óbvio da forma menos óbvia possível”.
Entre os “heróis do mar”, e os “heróis do mas”
A proposta combina “segmentos de teoria anti-racista” com “cultura pop luso-africana e trivia colonial”, anuncia-se na sinopse do espectáculo, que apresenta Reparations Baby!, como “um programa que pretende revolucionar o prime time português”.
Mas, estarão as pessoas brancas preparadas para ver pessoas negras num lugar de protagonismo televisivo, e a facturas milhares de euros? E até que ponto se disponibilizam para olhar criticamente para o passado?
“Como espectador, gosto de sair de uma sala de teatro a pensar, a considerar uma perspectiva que nunca tinha ponderado antes. Por isso, se “Reparations Baby!” ajudar o público nesse processo, tanto melhor”.
Além de abrir amplo espaço para debate e reflexão, o espectáculo ilustra bem como a fragilidade branca continua a frustrar possibilidade de avanço.
“Para mim é evidente que existe o medo de uma espécie de vingança, a ideia absurda de que quando um número considerável de pessoas negras estiver em esferas de poder e de decisão, isto vai ser uma razia completa de pessoas brancas”.
Consciente ou inconscientemente, Marco nota que esse receio de perda – mesmo que não se saiba bem o que se está em vias de perder” – continua a travar não apenas o acesso de pessoas negras a oportunidades, mas até a simples possibilidade de diálogo.
“As pessoas negras não estão aqui para tomar o lugar de ninguém. Estão aqui simplesmente para poder concorrer aos lugares, e ter acesso às entrevistas, aos castings, aos editais, ao que quer que seja”, nota, reiterando o pensamento: “É tão fácil perceber que as pessoas brancas não perderiam absolutamente nada, e que as coisas não iriam mudar assim tanto para quem está no poder”.
Falta querer.
Do mesmo modo, Portugal deve procurar entender porque é que se recusa a assumir o “bom” e o “mau” do passado colonizador, justificando sempre as atrocidades do império com os usos e costumes dos “homens desse tempo”. Hoje reféns dos desditos “heróis do mar”, que, entre cenas de “Reparations Baby!”, são certeiramente rebaptizados de “heróis do mas”. Afogados em séculos de mentiras.
Bilheteira:
https://reparationsbaby.carrd.co/
Marco Mendonça, autor de “Reparations Baby!”, aqui em palco com “Blackface”, fotografado por Diana Tinoco
Ficha Técnica
Texto e Direcção Marco Mendonça
Interpretação Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Danilo da Matta, June João, Márcia Mendonça, Stela, Vera Cruz
Cenografia Pedro Azevedo
Figurinos Aldina Jesus, Pedro Azevedo
Desenho de luz Teresa Antunes
Desenho de som, Sonoplastia e Música original Mestre André
Vídeo Heverton Harieno
Design Gráfico Vinicius Batista
Apoio à criação Bruno Huca
Participação especial Cláudio Castro, David Esteves, José Neves e Pedro Gil
Produção Teatro Nacional D. Maria II