HISTÓRIAS
Eva Cruzeiro: “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop na Assembleia da República”
Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.
Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista conduzida por Margarida Valença, em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.
Eva Cruzeiro
Entrevista de Margarida Valença
Eva Cruzeiro, conhecida como Eva Rap Diva, tem sido um dos nomes mais falados da política portuguesa, nos últimos meses. Num momento em que a distância entre eleitos e eleitores parece aumentar, e em que a democracia é frequentemente descrita como mais frágil e polarizada, a deputada eleita pelo PS por Lisboa, em maio do ano passado, destaca-se por um percurso fora das elites político-partidárias e por uma forma de comunicar mais acessível, recorrendo também às plataformas digitais para fazer passar a sua mensagem.
Rapper, ativista e investigadora luso-angolana, cresceu na Arrentela, viveu vários anos em Angola e construiu uma carreira na música antes de entrar na política institucional. Pelo caminho, trabalhou em call centers e no atendimento ao público, e até mesmo em setores como a camionagem e a construção civil. Mais tarde, regressou à academia para estudar Ciência Política e Relações Internacionais, fazendo depois pós-graduações em Gestão Financeira e em Direitos Humanos.
Foi na Assembleia da República que nos encontrámos para esta conversa. Ao longo da entrevista, Eva Cruzeiro fala da entrada na política enquanto outsider, do impacto que sente que o seu mandato tem tido, e da forma como olha para o enfraquecimento dos partidos tradicionais num contexto de crescimento da extrema-direita. Defende que a política precisa de mais pessoas que tenham os “pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las”, e critica uma excessiva teorização das decisões públicas: “Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais têm apenas um conhecimento teórico.”
Insiste também na importância de comunicar a política de uma forma que chegue a todas as pessoas. “A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do Parlamento tem que perceber”, afirma, explicando que só quando consegue traduzir uma proposta para o quotidiano sente que está realmente a comunicar bem.
A conversa passou ainda pelos ataques de que tem sido alvo no espaço público e parlamentar, e pela forma como avalia a resposta das instituições democráticas face à normalização de discursos de ódio e de narrativas da extrema-direita. “Eu culpo os democratas”, diz, argumentando que essa normalização acontece quando não há uma reação firme aos primeiros sinais. Para a deputada, a ausência de resposta clara por parte dos partidos e das instituições abre espaço à legitimação de posições que atacam direitos e minorias. Pessoalmente, admite que este combate pode ter impacto, mas diz estar preparada para o enfrentar: “Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar.”
Há também espaço para regressar à música e ao lugar que o hip-hop continua a ocupar na sua vida. “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República”, afirma, lembrando: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto.”
Como é que o teu interesse e a relação com a política foi evoluindo até seres deputada?
Desde miúda que sempre me interessei e gostei de política, mas não de uma forma estruturada. Tinha questões que achava que precisavam de ser contestadas, que podiam ser mais bem resolvidas, que podiam ter mais atenção. Mas era só isso. Ideologicamente, sempre tive uma educação muito de esquerda por parte da minha família. A minha avó, que é a matriarca da família, é uma mulher de esquerda. A minha mãe também, sendo mais ao centro. O meu pai que me criou – o meu padrasto – é um homem do Partido Socialista há muitas décadas. Sempre participou muito nas coisas do partido, mas nunca nos levou para esse mundo. Foi sempre um militante de base. Nunca ocupou posições de relevância nem teve aspirações políticas. Tive uma educação muito aberta no que toca à política. O meu pai e a minha mãe nunca me tentaram dizer “tens que gostar disto” ou “tens que escolher isto ou aquilo”. Quando me mudo para Angola, com 20 anos, é o próprio contexto que me faz ganhar uma ligação mais forte à política. Começo a compreender a importância de intervir politicamente na sociedade, através da minha arte e da minha participação cívica. Isso acaba por influenciar aquele que é o meu pensamento e a minha visão política para Portugal, e é aí que começo a estruturar-me melhor.
O curso surgiu quando, no meio disto?
Mais tarde decidi que queria estudar. Havia coisas que eu não compreendia e achava que uma licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais iria passar a fazer mais sentido para mim. Claro que, depois de a fazer, passei a perceber melhor muitas dessas questões, mas na altura em que estudei já era politicamente uma pessoa bastante sólida nas minhas ideias, na minha visão e na minha mundividência. Sempre tive muito interesse em Finanças. Fiz uma pós-graduação em Gestão Financeira para aprofundar os meus conhecimentos nessa área. Fui alguém que começou a aprender cedo, e sempre achei que o contabilista, o financeiro, as pessoas com quem eu trabalhava nesse setor, estavam muitas vezes a dar voltas e eu não conseguia perceber determinadas movimentações e decisões que eram tomadas. Então fui estudar para compreender melhor. Eu sou muito assim: não quero saber se um tema é sobre medicina, ambiente ou construção. Quando tenho dúvidas sobre uma matéria, vou estudá-la de forma aprofundada e ponto final. Acho que o que me aconteceu com as Finanças – e foi algo que mudou muito a minha vida – foi ganhar uma educação financeira sólida. Isso ajuda-nos a estruturar a nossa gestão pessoal. O bem-estar das pessoas está também muito ligado à questão financeira. Também estudei Direitos Humanos nesse sentido. Queria aprofundar mais. Para fazer advocacy é importante estarmos bem informados, por isso fiz uma pós-graduação em Direitos Humanos. Estudei desenvolvimento recentemente, em Londres, e agora estou a fazer um doutoramento. Tudo na busca de mais respostas e de me sentir mais segura para abordar determinadas matérias.
Agora que já levas algum tempo de mandato, e olhando para o contexto e as ideias com que chegaste, o que é que, por dentro, percebes como as maiores dificuldades? E que balanço fazes do que tem sido mais desafiante e mais gratificante?
Nós precisamos de pessoas mais executivas na política. Os políticos de carreira, os tecnocratas, são muito importantes, mas acho que precisamos também de mais pessoas com os pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las. Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais tem apenas um conhecimento teórico, ou com as quais não tem uma ligação próxima. Decidem sobre a vida de pessoas de certas profissões, sobre áreas geográficas que não conhecem, onde não estão, que não vivenciam. Percebo que quem chega a cargos de decisão e de poder possa estar mais ligado ao trabalho político em si, mas o trabalho de campo faz muita diferença. E isso não é um problema da esquerda nem da direita. É um problema do sistema político português. Isso tem feito com que algumas políticas públicas não sejam desenhadas da forma mais adequada. É isso também que leva a que, em alguns casos, na sua advocacy política, não se consiga fazer a abordagem mais adequada para chegar a soluções verdadeiramente eficientes e eficazes para as pessoas que delas precisam.
Nesse sentido, o que é que sentes que pessoalmente tens acrescentado, sendo uma pessoa outsider?
Acho que trago um bocado isso. Já vivi dentro e fora de Portugal muitos anos. Cresci aqui e, nos últimos anos em que cá estive, vivi sempre como uma pessoa que partilha o dia-a-dia de qualquer português. A minha convivência social é com pessoas que não estão ligadas à política. Tenho amigas na Buraca, que vivem em Cascais ou em Oeiras, na Margem Sul, no Porto, em Gaia, ou no Alentejo, em Grândola. Visito essas pessoas, durmo em casa delas, elas dormem na minha, vamos a festivais juntas, vamos a restaurantes. Tenho um irmão que vive na Guarda, numa aldeia onde ele e a esposa são dos mais jovens, depois de terem vivido 10 anos em Londres e decidido voltar para o interior de Portugal. Nos últimos anos estive em todos esses lugares como uma pessoa comum. Acho que tenho uma leitura do território, da sociedade e dos problemas um pouco diferente de quem esteve dedicado 100% à política – com muitas aspas, porque não é só o trabalho político que é feito pelos atores políticos. O trabalho político é sério, difícil, exige muito empenho, muito estudo e muita escuta, e muitos intervenientes políticos fazem-no. Mas há um outro mundo que enriquece muito a política quando entra nela. Com toda a modéstia, acho que acabo por trazer um pouco disso.
Diria que há também duas coisas relevantes na forma como te expressas: uma certa leveza, e acessibilidade na linguagem que usas. Isso é intencional?
É. Uma das melhores coisas que me aconteceu quando fui fazer o mestrado em Inglaterra foi tê-lo feito em inglês. Há muitos termos técnicos da economia política que aprendi e trabalhei em inglês. De forma natural, não os trago diretamente para a língua portuguesa. E como tenho o domínio deles em inglês, quando os transporto para o português faço-o de uma forma muito mais suave do que, se calhar, outras pessoas que estudaram as mesmas matérias em português, ou do que eu própria faria se estivesse a falar em inglês. Mas também influenciou o facto de ter feito a minha carreira musical em Angola. Quando comecei a tornar-me muito conhecida em Angola, percebi que havia termos na minha linguagem que eram barreiras. Inclusive o sotaque português, e o facto de falar muito rápido eram um problema. Já aí, há 10 anos, tive que fazer um esforço para falar mais devagar, usar termos mais acessíveis e até linguagem mais próxima do dia-a-dia, para me aproximar das pessoas. Esse exercício acaba por nos ensinar a fazer da língua algo que nos une e aproxima. Isto não é algo totalmente natural para mim. É um esforço que faço nos debates na televisão, nas entrevistas, é uma prática diária. Porque não me interessa passar a ideia de intelectual. Interessa-me passar a ideia, que acho que é aquilo que eu sou, de uma pessoa como qualquer outra, que quer ser ouvida e entendida por qualquer outra pessoa.
Isso é algo que muitas vezes afasta as pessoas da política: esta noção de que se fala em “politiquês” ou “economiquês”. Muitas vezes as pessoas até têm interesse, mas sentem que aquilo que ouvem na política, ou mesmo na comunicação social, está codificado numa linguagem inacessível. Há uma barreira entre querer perceber um assunto e conseguir realmente compreendê-lo. Ao mesmo tempo, há temas que são complexos e que, quando se simplificam demasiado, podem perder rigor. Como é que se garante esse equilíbrio?
O convívio com as pessoas comuns do dia-a-dia ajuda-nos a fazer isso. Por exemplo, eu falo de propostas com a minha avó. E ela faz-me perguntas em que, por vezes, o primeiro sentimento que eu tenho é “como é que ela não sabe?”. Não exteriorizo isso, obviamente. Mas penso: eu é que comuniquei mal. Então procuro explicar de uma forma que entenda. E só quando ela percebe é que sei que estou a falar bem sobre o tema. A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do parlamento tem que perceber. O senhor da oficina onde levo o meu carro a fazer a manutenção tem que entender. Um exemplo é o pacote laboral. No meu dia-a-dia, tenho falado com pessoas, e muita gente diz: “Temos que lutar pelos nossos direitos trabalhistas”. E eu pergunto: “Mas qual é a coisa do pacote laboral que está errada?”. E muita gente não consegue explicar. Entretanto, fiz um vídeo num centro comercial, no Colombo, sobre o banco de horas. Naquele vídeo expliquei, de uma forma muito básica e prática, o que é que pode acontecer se esta nova proposta para o banco de horas, que está neste pacote laboral, passar. Aquele foi um dos vídeos com mais visualizações do meu Instagram, Facebook e TikTok. Já passou um milhão de visualizações, e é um vídeo a falar sobre uma proposta concreta deste governo, em relação à qual estou contra. E as pessoas começaram a partilhar, porque perceberam de que forma iam ficar prejudicadas. Claro que nem sempre a gente consegue explicar. Eu estou nesse exercício constante de me melhorar nesse sentido. E essa melhoria consigo fazer com o contacto direto com as pessoas, que para mim é fácil, porque o meu meio já é um meio de pessoas que não são políticas, dos meus amigos, etc. Não tenho um amigo próximo que seja um ator político e uma pessoa com uma carreira na política: a maior parte dos meus amigos são pessoas super comuns, umas com mais formação, outras com menos. Os meus amigos da escola continuam a ser os mesmos. Então sou obrigada a ter essa convivência com todas essas pessoas.
Estamos a viver um momento em que as democracias estão em crise. Há um lado relevante na renovação dos atores políticos, mas, para além disso, o que consideras necessário mudar ou repensar no espaço onde atuas? Por exemplo, o próprio PS, como muitos partidos de centro-esquerda e centro-direita na Europa, tem vindo a enfraquecer. Qual a tua análise sobre as razões desse fenómeno, e o que pode ser feito para o contrariar?
Algumas propostas de uma certa esquerda surgiram sem o devido enquadramento, informação e trabalho de educação à sua volta. E isso acabou por distanciar essa esquerda das pessoas. Por exemplo, quando falamos de racismo, não basta dizer que ser racista é mau. É preciso contextualizar: de onde parte o racismo, porque é que existe, o que gera numa sociedade. As próprias pessoas, através de um pensamento crítico treinado e estruturado pela educação, devem chegar à conclusão de que o racismo é negativo. Como esse trabalho não foi feito de forma consistente, hoje não temos ferramentas suficientes para responder, de forma eficaz, quando aparecem pessoas a perguntar “qual é o problema de ser racista?”, “qual é o problema de chamar preto a um preto?”, “qual é o problema de eu dizer o que penso”. Vivemos numa estrutura que fomenta o racismo, e há quem se aproveite disso para dividir e capitalizar politicamente. As pessoas não foram devidamente informadas, formadas e educadas para lidar com este fenómeno. O mesmo aconteceu com a misoginia. Durante décadas, falou-se dos direitos das mulheres, da igualdade e da diversidade, repetindo-se que é errado haver discriminação, ou que um homem ganhe mais do que uma mulher. Mas muitas mulheres e muitos homens não compreendem verdadeiramente o que está em causa nessa luta. Há uma certa esquerda que acha que tudo isto é óbvio. Mas não basta parecer óbvio. As mulheres ganharem menos pode parecer evidentemente injusto, mas nem sempre se explicou porquê. E depois surge um charlatão ou uma charlatona a dizer: “As mulheres ficam grávidas, o patrão tem que pagar o salário nesse período, portanto é normal que ganhem menos porque podem dar menos lucro.” Um argumento destes pode parecer ridículo para alguém à esquerda, mas não é ridículo se houver quem acredite nele. Não é ridículo se conseguir provocar retrocessos na luta pelos direitos das mulheres. Ridículo é não termos preparado as pessoas para compreender por que razão esse argumento não faz sentido numa sociedade democrática e liberal como a nossa.
Há um certo moralismo à esquerda?
Claro. A moralidade não é um problema quando vem acompanhada de informação. Quando não vem, pode tornar-se repressiva. Este trabalho de ajudar as pessoas a compreender o porquê de determinadas causas, e porque é que vale a pena lutar por elas falhou em muitos casos. Em relação a várias questões foi bem feito. A esquerda, a nível global, tem vitórias, avanços e transformações sociais incríveis. Mas houve também muito que poderia ter sido mais bem trabalhado. Acredito que parte do crescimento da direita resulta disso. Mas também há um fator cíclico nas sociedades. Não tem sido possível garantir que todos se sintam satisfeitos, e essa insatisfação, essa frustração acumulada, leva muitas pessoas a mudar a sua visão política. Agora há muita gente a deslocar-se para a direita. Acredito que, daqui a alguns anos, depois desta fase, possa haver um novo movimento de aproximação à esquerda. Porque não vejo perfeição absoluta em nenhum dos lados. Não acredito que a esquerda seja perfeita e a direita totalmente imperfeita, ou vice-versa. É por isso que me posiciono ao centro, com tudo o que isso tem de problemático. Sou uma pessoa de centro-esquerda, consciente das suas virtudes, mas também das suas lacunas.
E quais são?
Sou de centro-esquerda, defendo a minha visão, então deixo as críticas para quem não gosta dessa visão.
A extrema-direita tem vindo a ganhar muita força a nível parlamentar. Desde que começaste o teu mandato, já te mandaram “para a tua terra” no Parlamento. Num programa de comentário com a deputada Madalena Cordeiro sobre este episódio, ela dizia: “A Eva não é da Arrentela? Então era só dizer que era da Arrentela”. Noutro programa, com a deputada Rita Matias, a propósito das presidenciais, ouviu-se coisas como: “De repente parece que estamos ali as duas na Arrentela a falar no bairro.” Ou ainda, quando falavas da expressão “três Salazares” usada por André Ventura, Rita Matias respondeu: “É uma expressão popular. Pois, porque a Eva passou 15 anos em Angola e por isso não sabe o que é que os portugueses sentem na vida real. Tem que estar mais em Portugal.” Coisas que antes chocariam, como as declarações de André Ventura, em 2017, sobre a comunidade cigana, hoje tornaram-se quase banais, parte do dia-a-dia. Como é que isto te faz sentir e que peso tem no teu quotidiano, em plenário? Como lidas com este discurso tóxico crescente?
Eu culpo os democratas. Os grandes partidos da nossa democracia são quem eu culpo por isso ter evoluído, e para nós termos retrocedido para este estágio. Mas também culpo a comunicação social. Estes são os maiores responsáveis. Claro que existe um contexto histórico e social que facilita a passagem desse tipo de narrativas ao longo do tempo, mas a normalização não é feita quando o PS ou PSD dizem “ah, isto é normal”. A normalização é feita quando alguém faz um ataque racista, por exemplo, e está toda uma sala a assistir, escandalizam-se, mas continuam a dialogar com aquela pessoa. Imaginemos que estamos numa sala e, sem autorização, um homem toca no peito de uma mulher. Se apenas olharmos e dissermos “isto é errado, é assédio”, e continuarmos a conversa, na vez seguinte ele vai pôr a mão outra vez. E depois outra. E vamo-nos habituando a que aquele homem seja um abusador e deixamos passar. A normalização faz-se assim. Faz-se na reação aos primeiros sinais. Se não houver logo uma punição que corte e mostre que aquilo não é permitido, aquilo vai entrando, como se puséssemos uma vaselina. Quando damos conta, já dominou o espaço e já se normalizou. Quando aparece o André Ventura, e faz-se sinalizações de qual era a sua matriz e base ideológica, e as nossas instituições o permitiram, abriu-se a porta para aquilo que temos hoje em dia. Quem permite que aquilo permaneça e dialoga com eles abre a porta. Podem dizer: “Mas tu também debates com a Rita Matias.” Sim, mas eu desconstruo a narrativa dela. Ninguém tem dúvidas de que ela não sai ilesa desses ataques quando os faz. Eu já encontro este fenómeno instalado. Mas há anos podia ter sido travado. E não é uma postura de censura. Quando prendemos um violador, não estamos a censurar o violador. Estamos a proteger as vítimas e a repor a ordem. A minha pergunta é: as pessoas vítimas de racismo, xenofobia e discurso de ódio estiveram a ser protegidas? Parece-me que não.
Se a liberdade de expressão de alguém está a atacar a dignidade de outras pessoas e ninguém faz nada, isso não é apenas liberdade de expressão. É um sistema que não está a proteger quem tem que proteger. Depois, a comunicação social também é cúmplice. Esta fase de crescimento da extrema-direita coincide com uma fase frágil da comunicação social. Com o crescimento da internet, as plataformas digitais e os canais de YouTube estão a crescer muito. A comunicação social portuguesa tradicional tem de pensar em como se reinventar, e faz um caminho mais fácil: agarrar audiências através do choque e da polarização. Não porque tenha criado melhor entretenimento, ou melhores formas de fazer jornalismo e de informar de maneira mais apelativa, mas porque abre espaço a uma extrema-direita radical, que faz um discurso que choca, que polariza, e que capta o interesse das pessoas. E não capta apenas o interesse de quem é da extrema-direita. Capta também o interesse de quem transforma isso no seu novo entretenimento.
Até pessoas de esquerda, quando ouvem dizer que o líder da extrema-direita vai à televisão, muitas vezes vão ver, às vezes só para ver aquele horror. Hoje, o horror traz audiências à comunicação social. É por isso que vemos horas de Gaza, horas da Ucrânia, horas de terramotos e de desgraças. Esse horror gera audiência. E eu não vi, até agora, ninguém na comunicação social a discutir seriamente outras formas de captar a atenção das pessoas. Também não vi, ao nível das nossas instituições, uma discussão sobre como, através da informação, da educação e das novas tecnologias, podemos mobilizar a atenção das pessoas para outras coisas, através de outros sentimentos que não apenas o choque, o horror, a fomentação do ódio e da polarização. Será que, através de outro tipo de ação, de outro tipo de estímulo, conseguimos audiência? Estamos numa fase em que parece que acreditamos que só isto resulta na comunicação, porque nem sequer houve, pelo menos do que é do meu conhecimento, um verdadeiro esforço para procurar outros caminhos que mantenham a comunicação social relevante e interessante para o povo português.
E, a nível emocional, como é viver diariamente com a sensação de que a democracia está mais frágil do que alguma vez esteve desde o 25 de Abril? Assistir a isso em primeira mão, lidar com esses protagonistas no dia-a-dia, num contexto em que a banalização do ataque se estende do Parlamento ao comentariado?
Ainda não parei para fazer uma grande análise ou reflexão sobre as minhas emoções. Acho que as pessoas que estão na frente de combate têm que, de certa forma, desumanizar-se e perceber que atrás delas existem milhares de pessoas que precisam que elas façam uma luta bem feita. As pessoas que sofrem com o crescimento da extrema-direita, que são desumanizadas, humilhadas, que veem os seus direitos limitados, e são gratuitamente atacadas por quem as instrumentaliza para ganhar votos, são muito mais do que eu e, em conjunto, muito mais importantes do que eu, e são a minha principal preocupação. Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar. Alguém tem que fazer este trabalho. Não é fácil, mas os danos emocionais que eu possa sofrer valem a pena pela luta que estamos a fazer. Se tenho a oportunidade de ser eu a fazê-la, então fá-lo-ei sem medo do impacto que estes embates diários e a violência que esta gente traz, para o Parlamento e para a sociedade, possam ter em mim.
Vens do hip-hop, movimento que em Portugal foi crucial na afirmação do discurso e narrativas antirracistas, com protagonistas como o General D ou o Chullage, que intervieram de forma assertiva numa altura em que esses discursos eram completamente marginais. Sentes que estás a continuar esse legado? Há simbolismo em haver alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República?
É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República. O hip-hop tem sido um dos maiores espaços de ativismo político na sociedade portuguesa. Eu cresci na Arrentela até uma parte da minha vida, e comecei a ouvir Chullage e Red Eyes Gang muito cedo. Obviamente que isso mexeu comigo e ajudou a definir a pessoa que sou hoje. Sou muito grata, e ainda não tive a oportunidade de falar sobre isso e agradecer da forma adequada, mas o Chullage, o Boss AC, os Black Company, os TWA, os The Blazz e muitos outros artistas que ouvi há muitos anos foram muito importantes para aquilo em que me tornei. Há pouco falávamos da parte psicológica de lidar com estes ataques, mas também tenho que dizer que o hip-hop me formou, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto. Acredito que há uma grande probabilidade de sair ilesa por causa da escola hip-hop. Não posso dizer que sou a continuação do legado do Chullage ou do General D. Acho que seria muita arrogância da minha parte.
Digo no sentido de seres uma representante do movimento
Sim. Vejo o que fiz no hip-hop como a grande obra da minha vida. Se não viver muito mais, tudo o que fiz é suficiente para ir para onde eu for orgulhosa do meu percurso. O meu lugar no hip-hop fala por si. Consegui quebrar barreiras espetaculares. Hoje em dia, as pessoas encontram-me e dizem: “Ah, tornaste-te deputada. Uau.” E eu penso: eu já sou a Eva Rap Diva há muito tempo, e aquilo que fiz enquanto Eva Rap Diva já era muito “uau”. Ser deputada é uma grande responsabilidade, claro, mas eu já ando a fazer coisas “uau” há muito tempo. Muitas pessoas em Portugal não têm noção da dimensão do trabalho que fiz, mas no hip-hop deixo um legado do qual me orgulho. Talvez um dia alguém queira estudar e perceber como é que uma mulher como eu chegou ao hip-hop da forma como chegou, o que fez. E se existe hoje uma geração de rappers mulheres na lusofonia, pelo que sei e pelo que oiço dizer, também vem dessa influência da Eva Rap Diva. E isso deixa-me orgulhosa, com um sentido claro de missão cumprida.
Nos últimos anos, assistimos a uma afirmação muito forte de artistas lusófonos e afrodescendentes, por exemplo, os Calema a encherem o Estádio da Luz, ou o “Nova Lisboa” do Dino D’Santiago a ganhar um palco enorme, trazendo para o centro do debate questões como o racismo e a inclusão. Como é que vês este momento da música, e do hip-hop em particular, nesse contexto?
Há uma polarização na nossa sociedade que tem a ver com as expectativas que as pessoas tinham daquilo que seria a democracia, a Europa, Portugal na Europa, a globalização. O acesso de todos ao Serviço Nacional de Saúde, a uma educação e a uma vida plena, próspera, com bem-estar. E depois há a questão que a extrema-direita traz, que é a questão identitária, racial e nacionalista. Temos que diferenciar uma coisa da outra, porque há muita gente que defende a extrema-direita e depois fica a ouvir kizomba dias e dias a fio. Culturalmente, e a nível social, nós estamos mesmo todos juntos e misturados. Mas há depois quem agarre a frustração das expectativas e ponha tudo no mesmo saco. E há muita gente que acaba por ficar dentro desse saco porque realmente quer agarrar-se a alguma coisa. Mas a música e a arte demonstram que Portugal é mesmo este país dos Calema, do Dino D’Santiago, da Eva Cruzeiro, da Amália, do Slow J, da Ana Moura, da Carolina Deslandes e do Sérgio Godinho. Este é um Portugal de várias gentes, com várias formas de comunicar, de cantar, de dançar, de falar, de viver e de sentir. Acho que a música acaba por ser a prova factual disso. Os artistas mais ouvidos em Portugal, nos últimos anos, são jovens negros afrodescendentes. Olha que maravilhoso que isto é. Isto é o que nos define. É o que a gente segue, o que a gente ouve, o que a gente compra, o que a gente comemora. E é este Portugal que temos que lembrar que existe, e que nós somos. Não é todas as outras coisas que andam por aí a tentar fazer parecer que o país é: um Portugal dividido, que isola, discrimina, humilha e fere a dignidade das pessoas, só por causa da sua cor de pele ou da sua orientação sexual. Esse não é o nosso Portugal. Isso é um Portugal que eles estão a querer que o nosso Portugal seja. E nós vamos resistir a isso.
Mas porque é que achas que há este gap entre o mundo da arte e outras esferas?
O problema é que eu não acho que exista esse gap. De um modo geral, a sociedade portuguesa vive e celebra essa mistura. Há uma minoria que expressa outro tipo de sentimentos: de ódio, por exemplo. Mas, mesmo junto dessa minoria, há pessoas que não têm propriamente um conflito cultural. O que têm são outras frustrações, outras manifestações de descontentamento, muitas vezes ligadas a questões económicas ou sociais, que acabam por se sobrepor a isso. Esquecem o facto de serem culturalmente próximos de um mundo imenso que é Portugal, e agarram-se à extrema-direita por causa dessas outras questões que, naquele momento, lhes parecem mais urgentes. Mas se fores falar com essas pessoas, com calma, percebes que não têm problema nenhum em estar ligadas a outras culturas e em celebrá-las no seu dia-a-dia. Há uma minoria, sim, que rejeita aquilo a que chama “cultura portuguesa”, quando tudo o que estivemos a falar é cultura portuguesa. O Slow J é cultura portuguesa. O Prodígio é cultura portuguesa. O T-Rex é cultura portuguesa. O Plutónio é cultura portuguesa. A Capicua é cultura portuguesa. Depois há quem queira dizer que não. Mas como é que eu vou distinguir o Valete do Sam The Kid no que toca à cultura portuguesa? Ambos são cultura portuguesa. Nós é que temos que começar a afirmar isso claramente: o Valete é cultura portuguesa, a Ana Moura é cultura portuguesa, o Sam The Kid é cultura portuguesa, o Slow J é cultura portuguesa, o Dino D’Santiago é cultura portuguesa. “Ah, mas ele também é cabo-verdiano.” Também é cultura portuguesa. A Sara Tavares é cultura portuguesa. Não me interessa onde se inspirou. Ninguém foi perguntar ao Sérgio Godinho em quem é que ele se inspirou. E, se forem perguntar, provavelmente não chegaremos tão longe na análise como chegamos quando falamos de artistas negros e vice-versa. Quando vamos a outros países, africanos ou da América Latina, encontramos pessoas que dizem que se inspiraram no Sérgio Godinho ou noutros artistas portugueses. Isso sempre existiu e nunca incomodou ninguém. Qual é o incómodo agora?
José Semedo Fernandes vê nas alterações à Lei da Nacionalidade um “ajoelhar” do Governo perante a extrema-direita
A Assembleia da República iniciou, na semana passada, a discussão sobre as alterações à Lei da Nacionalidade, cuja votação foi, entretanto, adiada para Setembro. As mudanças, nos termos propostos pelo Governo, representam não apenas um “retrocesso social”, aponta, ao Afrolink, o advogado José Semedo Fernandes, assinalando o “‘ajoelhar’ do Governo diante da deriva populista que Portugal agora atravessa”.
A Assembleia da República iniciou, na semana passada, a discussão sobre as alterações à Lei da Nacionalidade, cuja votação foi, entretanto, adiada para Setembro. As mudanças, nos termos propostos pelo Governo, representam não apenas um “retrocesso social”, aponta, ao Afrolink, o advogado José Semedo Fernandes, assinalando o “‘ajoelhar’ do Governo diante da deriva populista que Portugal agora atravessa”.
José Semedo Fernandes
Com uma longa e extensa experiência em processos de regularização e acesso à nacionalidade – nomeadamente no Gabinete Jurídico do outrora CNAI – Centro Nacional de Apoio ao Imigrante, hoje CNAIM - Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes –, José Semedo Fernandes recorda que a estratégia do actual Executivo, de criar uma “confusão entre políticas migratórias e de nacionalidade”, repete a linha adoptada pelo XIX Governo Constitucional, liderado por Pedro Passos Coelho. “Nesse período criaram-se leis que abriram a porta à expulsão de pessoas nascidas em Portugal (filhos de estrangeiros) com base em conceitos indeterminados como a desordem pública”.
Na resposta, por escrito, a um conjunto de questões enviadas pelo Afrolink, o advogado rejeita, igualmente, a ideia de uma política migratória ‘de portas escancaradas’. “De salientar que, no momento da organização da Expo 98, construção da ponte Vasco da Gama e anos seguintes, tivemos uma entrada massiva de imigrantes em Portugal, a maioria em situação irregular, mas esses, por questões económicas, foram “acolhidos” sem qualquer dificuldade”.
O advogado chama ainda a atenção para um aspecto que tem sido ignorado: “Em relação aos filhos de estrangeiros, nascidos em Portugal, o debate tem-se centrado nas crianças que irão nascer, após a publicação da lei, olvidando os efeitos que a mesma produzirá às pessoas que nasceram desde 1981 até à data”.
Debruçando-se sobre esses casos, o especialista salienta que “esse jovens-adultos, nascidos em Portugal, têm sido tratados como estrangeiros sendo (legalmente/burocraticamente) impedidos de ter acesso à nacionalidade portuguesa”. Injustamente.
Em vez de “reparar historicamente esses jovens/adultos, tal como foi feito com os descendentes do Judeus Sefarditas”, o Governo, sob liderança de Luís Montenegro, prefere alimentar o “ódio contra a diferença”, reitera José Semedo Fernandes, peremptório na análise. “Uma das estratégias tem passado pela desumanização do imigrante criando a ideia de que a sua presença é a origem de tudo o que corre mal em Portugal”.
As alterações à Lei da Nacionalidade, propostas pelo Governo, estão a ser apontadas como um retrocesso, e, pior do que isso, como uma inversão do sentido que Portugal vinha dando às suas políticas de acolhimento. Que mudanças destacas, e qual o seu impacto nos processos que tens acompanhado?
As alterações à Lei da Nacionalidade, propostas pelo actual Governo, apresentam-se como um retrocesso nos direitos sociais, cívicos, políticos e até humanitários dos cidadãos imigrantes e dos seus descendentes. Apresenta-se também como um “ajoelhar” do Governo diante da deriva populista que Portugal agora atravessa. Costumo dizer que a alteração da Lei da Nacionalidade portuguesa operada em 1981 foi a pior das atrocidades que o Estado Português cometeu contra milhares de filhos de estrangeiros nascidos em Portugal (com efeitos nefastos desde 1981 até à data), impedindo-os de ter direito à nacionalidade do país onde nasceram. De salientar que os efeitos dessa lei perduram até hoje, condenando milhares desses jovens/adultos a serem estrangeiros, muitos em situação irregular, no país onde nasceram. A proposta do Governo pretende aumentar o tempo de residência legal dos pais, à data do nascimento, para três anos. Ao invés de reparar historicamente esses jovens/adultos, tal como foi feito com os descendentes do Judeus Sefarditas, prepara-se agora para publicar uma lei que prejudicará não apenas as crianças que nascerão após a publicação da Lei, mas também os milhares de jovens/adultos que nasceram desde 1981 até à data. Acresce que, muitos desses jovens, por desconhecimento, resolveram a sua situação através do pedido de nacionalidade por naturalização. Nacionalidade essa que o Governo propõe que seja retirada como pena acessória. Portanto, caso a proposta avance em relação aos filhos dos estrangeiros nascidos em Portugal, será seguramente um retrocesso social.
De que forma tens acompanhado o debate político sobre esta nova lei, nomeadamente, a discussão parlamentar? Que distorções e omissões te saltam à vista?
Em relação aos filhos de estrangeiros, nascidos em Portugal, o debate tem-se centrado nas crianças que irão nascer, após a publicação da lei, olvidando os efeitos que a mesma produzirá às pessoas que nasceram desde 1981 até à data. De reforçar que, esse jovens-adultos, nascidos em Portugal, têm sido tratados como estrangeiros sendo (legalmente/burocraticamente) impedidos de ter acesso à nacionalidade portuguesa.
Estas mudanças legislativas têm sido vistas como uma resposta à agenda populista de extrema-direita, e não como uma resposta a necessidades/problemas existentes no país. Qual seria, na tua óptica, uma resposta adequada, em termos de política de nacionalidade e porquê?
Na minha opinião, estas mudanças, mascaradas de respostas a essa agenda populista, têm “embebido” o nosso tecido social na “solução” do ódio contra a diferença. Uma das estratégias tem passado pela desumanização do imigrante criando a ideia de que a sua presença é a origem de tudo o que corre mal em Portugal.
Entendes que o caminho legislativo que se está a seguir resulta de uma confusão entre políticas migratórias e de nacionalidade? Uma espécie de travão a “novos portugueses” indesejados?
Sim, tenho esse entendimento, visto que não é a primeira vez que essa estratégia é implementada. No XIX Governo Constitucional (começou em 2012 e terminou em 2015), liderado por Pedro Passos Coelho, também se criou uma confusão entre políticas migratórias e de nacionalidade. Nesse período criaram-se leis que abriram a porta à expulsão de pessoas nascidas em Portugal (filhos de estrangeiros), protegidas constitucionalmente, com base em conceitos indeterminados como a desordem pública.
Considerando a tua experiência com processos de regularização, alguma vez houve em Portugal uma política de imigração de portas escancaradas?
Tenho imensas dificuldades em aceitar essa expressão (portas escancaradas) De esclarecer que, a actual Lei da Estrangeiros foi publicada em 2007. Não obstante, essa expressão (portas escancaradas) apenas ganhou força nos últimos cinco anos com o surgimento do Chega, que passou a utilizar o tema da imigração como arma de arremesso. De salientar que, no momento da organização da Expo 98, construção da ponte Vasco da Gama e anos seguintes, tivemos uma entrada massiva de imigrantes em Portugal, a maioria em situação irregular, mas esses, por questões económicas, foram “acolhidos” sem qualquer dificuldade. Acresce que, com a entrada em vigor da Lei de Estrangeiros (em 2007), milhares de cidadãos migrantes (entre eles os cidadãos indostânicos) ajudaram a resgatar a Segurança Social com um saldo positivo de milhões de euros anuais. Também estes foram bem acolhidos até começarem a trazer, nos últimos anos, as mulheres e os filhos.
O aumento do período de permanência no país para requerer cidadania portuguesa é agravado também pela forma como esse prazo é contado: não a partir da entrega do pedido de legalização, mas apenas quando o mesmo é concedido, algo que se pode arrastar no tempo. Há quem refira a inconstitucionalidade deste preceito. Partindo do princípio que a lei passa nestes termos, há caminho legal para contestar essa exigência?
Em relação a essa questão, acredito estarmos na presença de uma diferença de tratamento perante a lei. Violando assim o princípio da igualdade. Nessa senda, só os tribunais poderiam clarificar essa situação.
Que Moçambique é este? Sem medo da morte, com a revolução dos 20%
Em Maputo, Cídia Chissungo desdobra-se entre colectivos, num esforço de concertação activista que, a cada manifestação, mobiliza canais de denúncia e redes de apoio a vítimas de detenções arbitrárias, e violentas cargas policiais. Em Lisboa, Gilana Sousa, com o projecto Quid Iuris – Associação, e Nelson Melo, em nome individual, são os precursores das primeiras marchas pacíficas contra a violação dos Direitos Humanos em Moçambique, entretanto alargadas a outras cidades portuguesas, com outros dinamizadores. Jovens, moçambicanos, e defensores de uma sociedade democrática e justa, todos vêem nas ruas uma plataforma de pressão política, especialmente activa na sequência das alegações de fraude eleitoral, apresentadas na ressaca da votação de 9 de Outubro, marcada pela forte repressão das autoridades, e pelo assassinato de duas figuras da oposição – Elvino Dias e Paulo Guambe. Presente num dos protestos de Lisboa, o Afrolink recolheu o testemunhos dos manifestantes, e também ouviu a contestação que chega de Maputo.
Em Maputo, Cídia Chissungo desdobra-se entre colectivos, num esforço de concertação activista que, a cada manifestação, mobiliza canais de denúncia e redes de apoio a vítimas de detenções arbitrárias, e violentas cargas policiais. Em Lisboa, Gilana Sousa, com o projecto Quid Iuris – Associação, e Nelson Melo, em nome individual, são os precursores das primeiras marchas pacíficas contra a violação dos Direitos Humanos em Moçambique, entretanto alargadas a outras cidades portuguesas, com outros dinamizadores. Jovens, moçambicanos, e defensores de uma sociedade democrática e justa, todos vêem nas ruas uma plataforma de pressão política, especialmente activa na sequência das alegações de fraude eleitoral, apresentadas na ressaca da votação de 9 de Outubro, marcada pela forte repressão das autoridades, e pelo assassinato de duas figuras da oposição – Elvino Dias e Paulo Guambe. Presente num dos protestos de Lisboa, o Afrolink recolheu os testemunhos dos manifestantes, e também ouviu a contestação que chega de Maputo.
As palavras de ordem, exibidas em cartazes improvisados, dão expressão à crescente revolta popular. “Não à fraude eleitoral”, lemos de um lado da manifestação, enquanto do outro encontramos várias mensagens de oposição ao Governo “assassino” e “mentiroso” de Moçambique.
Em Lisboa, a exemplo do que vem acontecendo noutras cidades da diáspora moçambicana, os protestos contestam os resultados das eleições de 9 de Outubro, e exigem uma viragem na condução dos destinos do país.
“O poder das pessoas é mais forte do que as pessoas no poder”, lembra Susana Cunhete, uma das pessoas que se juntaram à marcha pacífica organizada por Nelson Melo, no passado dia 7 de novembro.
Estudante do terceiro ano do curso superior de Economia, a maputense de 22 anos confia numa mudança política, forçada a partir das ruas. “Um povo unido faz a diferença”, repete, poucos metros depois da saída da Embaixada de Moçambique, ponto de concentração e de partida para a Praça do Comércio.
É aqui que, depois de um percurso em passo acelerado, num ritmo de quem não tem tempo a perder, dezenas de manifestantes exigem Justiça, e reclamam o poder. “Este país é nosso”, grita um dos cartazes que povoam a marcha, lado a lado com outro que reforça o repto popular: “Devolvam a nossa bela pátria”.
O amor a Moçambique proclama-se mais alto, e, entre declarações de rejeição da FRELIMO – o partido que governa o país desde a Independência –, um nome sobressai: Venâncio Mondlane.
“É uma marcha apartidária, mas como pode ouvir, há quem tenha as suas preferências. É normal”, defende Nelson Melo, responsável pelo protesto que antecedeu a denominada quarta fase dos protestos.
Demarcando-se de outras vozes, que expressam total devoção ao candidato presidencial do PODEMOS – força política que contesta os primeiros resultados eleitorais, que lhe dão cerca de 20% dos votos, contra 70% da FRELIMO –, o empresário de 27 anos, há três baseado em Portugal, sublinha que Venâncio é um produto das circunstâncias.
“Nós pegamos em algo que já sentimos há muitos anos. Estamos aqui porque queremos uma mudança, porque percebemos que as coisas não podem continuar do mesmo jeito”, diz o moçambicano, que vê na principal figura da oposição uma peça ao serviço de uma necessária viragem.
“O Venâncio não começou nada, ele aproveitou o momento, e nós aproveitamo-nos dele ainda mais”.
Profundamente activo nas redes sociais – o púlpito de onde mobiliza a população, lançando convocatórias de greve, manifestações e protestos simbólicos –, aquele que muitos nas ruas apelidam de “nosso Presidente”, não se poupa a demonstrações de força e popularidade.
Do panelanço ao luto
A mais recente, que terminou hoje, 22, incluiu o decretar de três dias de luto nacional, “pelos mártires da revolução das panelas”.
A referência fixa atenções num dos marcos da contestação pós-eleitoral: o apelo de Venâncio para que, num contínuo de contestação, os moçambicanos demonstrassem a sua insatisfação com o bater de tachos.
O chamado “panelanço” persiste, e em linha com ele, a presença nas ruas, duramente reprimida pelas autoridades. Além de acusações de detenções arbitrárias e fortes cargas policiais, sucedem-se os relatos de execuções à lei da bala, que números desencontrados situam na casa das dezenas.
“Não é de qualquer maneira que morrem 50 pessoas e a sociedade fica impávida e serena”, assinala Venâncio, numa das inúmeras mensagens que dirige aos seus seguidores, em directo, a partir da sua conta no Facebook.
Em protesto, o candidato do PODEMOS exortou a população a “parar todas as viaturas e buzinar em homenagem aos heróis”, por 15 minutos, das 12h às 12h15.
Sem esquecer “os que não têm viaturas”, Venâncio apontou outra forma de luta: “Levantem cartazes, da reposição da verdade eleitoral, nos semáforos, no meio das ruas, como se fossem sinaleiros”.
Atento a estas e outras manobras políticas, Kevin Ribeiro, de 31 anos, não esconde as reservas em relação ao novo protagonista da oposição em Moçambique.
“Será que é a melhor opção? Eu acho que é a única, porque a gente veio de uma altura em que tínhamos o [Afonso] Dhlakama e o David Simango como referências. Primeiro morre o Dhlakama, depois morre o Simango. Nós ficámos sem um refúgio. Então, quando aparece o Venâncio – porque ele já lutava há muitos anos por isso –, quando ele se impôs, claro que a gente viu ali uma alternativa”, contextualiza Kevin, residente em Maputo e, por estes dias, de visita a Portugal.
O exemplo do Brasil e a de Venâncio
Presente na marcha lisboeta de 7 de Novembro, o moçambicano, que trabalha no sector comercial, afasta da sua leitura as crenças salvacionistas que têm galvanizado o candidato do PODEMOS.
“Não é que o Venâncio seja o nosso Deus, mas ele é a chave para a mudança que nós todos queremos. E é o nosso alicerce, basicamente”.
Sem ilusões de um milagre, Kevin traz para a conversa o exemplo do Brasil.
“Posso estar a ser ingénuo, mas acho que daqui para frente a gente se vai começar a politizar, o moçambicano tem de se começar a politizar, como fez o brasileiro, por exemplo”.
Recuando ao “golpe”, que retirou Dilma Rousseff da Presidência e promoveu a ascensão de Temer, Kevin defende que, a partir dessa consciência, a população começou a “mexer-se mais”.
Confiante nesse processo, em que “todos, desde os mais novos ao mais velhos”, se começam a interessar mais por política, o maputense considera que Venâncio está apenas a funcionar como “a virada de chave” para um movimento de emancipação.
“Não temos de depender dele. A partir de agora, nós todos, os jovens, podemos fazer parte desta história, podemos até criar um partido”.
O impulso de Azagaia
O “abanão” cívico ganha crescente expressão em Moçambique, sublinha a activista Cídia Chissungo, desde o primeiro dia de protesto nas ruas.
“Entender o que está a acontecer hoje sem mencionar o dia 18 de Março de 2023 não faz sentido”, aponta, recuando a uma série de mobilizações na sequência da morte do músico Azagaia, falecido dias antes.
“Eu mesma fiz a lista das acções que deveriam ser realizadas, e a última acção consistia em prestar tributo em público, nas capitais do país, nessa data. Então, juntamente com outros activistas, começamos a nos mobilizar, e nos preparamos para sair à rua, no dia 18 de Março. Acontece que, mesmo tendo submetido todas as cartas a comunicar às autoridades a intenção de realizarmos a homenagem, naquele dia a Polícia atacou de forma brutal os jovens”.
As memórias mancham-se de violência: “A única coisa que os jovens tinham na mão eram cartazes, para se despedirem do seu músico favorito. Mas várias pessoas ficaram feridas e, até hoje, convivemos com dois companheiros que perderam, cada um deles, um olho, por conta daquelas manifestações, porque a Polícia simplesmente começou a disparar gás lacrimogéneo sem nenhuma necessidade. Houve um grande caos, não só em Maputo, mas também em Inhambane, em Nampula, Niassa…e tudo desnecessário”.
Os planos de uma revolução jovem estavam em marcha, reconstitui a activista. “Naquele dia, prometemos que nos iríamos vingar, mas que não iríamos fazer nada até ao dia das autárquicas. Dito e feito, em Outubro de 2023, as pessoas responderam da forma como deveriam responder, e a FRELIMO perdeu, incluindo em Maputo”, diz Cídia, sem ponta de hesitação.
“O Venâncio Mondlane venceu essas eleições. A sociedade civil e vários outros observadores colectaram provas dessa vitória, que a FRELIMO se recusou a aceitar. Então, as pessoas disseram mais uma vez: vamos voltar a cancelar esses dirigentes em Outubro de 2024”.
Cronologia estabelecida, a jovem moçambicana de 28 anos reforça o impacto de Azagaia para a força de sublevação.
“Esta onda toda de ‘precisamos de mudar o país’ começa mesmo em Março de 2023, porque quando Azagaia morre as pessoas começam a escutar as músicas com mais cuidado. A cena do povo tomar o poder, e que não é possível conseguir isso sem consentir sacrifícios, sem fazer greves etc, vai ecoando cada vez mais. Tanto mais que as pessoas que naquele dia 18 de Março tinham a intenção de sair à rua e que não puderam, acabaram formando aquilo que nós chamamos de Geração de 18 de Março”.
Este movimento, explica Cídia, “não tem nenhuma liderança”, mas partilha a vontade de afastar a FRELIMO do poder, “porque não sabe conviver com a liberdade, não consegue nem respeitar as próprias leis que existem no país”.
O peso dos 20%
O mau diagnóstico após quase 50 anos no poder, é reforçado nas palavras de quem ocupa as ruas.
“Todos estamos cansados da injustiça, dos raptos, dos assassínios, e de tudo aquilo que tem havido na fraude eleitoral que nós conseguimos ver”, assinala Nelson Melo, a partir de Lisboa.
Kevin Ribeiro corrobora. “As pessoas saíram de casa para votar, e fizeram filas enormes nas escolas primárias, em que a gente chegava às 10h e ficava até às 14, e 15h, se fosse preciso. Depois no final, tivemos a Comissão Nacional de Eleições a dizer: “Houve algumas anomalias, mas mesmo assim a gente declarou, já o vencedor”. Isso não faz sentido nenhum. A gente quer ver as coisas concretas, a gente quer ver o nosso voto realmente valer. Acho que é principalmente sobre isso. É sobre isso”.
O coro de protestos que se ouve desde a Embaixada de Moçambique em Lisboa, até à Praça do Comércio confirma as alegações de fraude eleitoral.
“O nosso papel, da diáspora, é dizer ao nosso querido Presidente, Filipe Jacinto Nyusi, que esta é a revolução dos 20%, e de que nós estamos aqui para mostrar que nos tem doído e vai continuar a doer até haver uma mudança”. A voz projectada entre aspas é a de Nelson Melo, firme na oposição, e, ao mesmo tempo, consciente das possibilidades de retaliação.
“Infelizmente tenho familiares que já foram raptados, tenho amigos e conhecidos que já foram raptados e assassinados. Então, como estamos sempre numa posição de voltar para Moçambique, podemos acabar numa posição de persona non grata. Sei que o pior pode acontecer, mas nós vamos fazer a nossa parte porque não temos medo, deixámos de ter medo, e vamos continuar a não ter medo”.
A coragem dos que não têm nada a perder ecoa também da voz da advogada Gilana Sousa, que, a 2 de Novembro, organizou, com o projecto Quid Iuris – Associação, a primeira marcha pacífica “contra a violência policial, assassinatos e raptos em Moçambique”, na sequência das convulsões eleitorais.
“Acho que este é um momento em que temos de nos solidarizar. Não é por estarmos em Portugal que as coisas que acontecem em Moçambique já não nos dizem respeito. Nascemos lá, crescemos lá, estamos cá a viver, mas identificamo-nos muito com o nosso país”.
Há uma década em terras lusas, a moçambicana de 26 anos nota que a liberdade de manifestação e expressão contrasta com a pressão familiar.
“Pais e tias ficaram muito preocupados com a minha vida, quando perceberam que estava a organizar uma marcha. Disseram-me: não te metas nisso, não te envolvas”.
O fim do medo
Gilana avançou e, tal todos aqueles que protestam, em Moçambique e na diáspora, não pretende recuar. Isso mesmo demonstram os novos apelos à mobilização: na próxima quinta-feira, 28, a partir das 19h30, decorre a “Vigília dos Mártires Moçambicanos em Lisboa”, em frente à Embaixada.
A proposta, indicam os seus promotores, pretende “honrar e homenagear as corajosas almas que deram as suas vidas” por um país melhor.
“As pessoas estão determinadas a retirar a FRELIMO do poder”, garante Cídia Chissungo, lembrando que a informação que temos hoje favorece a contestação.
“Esta não é só uma batalha de quem está na rua, é uma batalha de narrativas também, porque as pessoas estão mais do que nunca a ter acesso a uma versão dos factos que no passado não existia. Antes dizia-se às pessoas do Sul que quem estava a matar eram as pessoas da zona Centro e da zona Norte. Esses eram os maus. Então as pessoas da zona Sul sempre se viram na posição de terem de se defender, mas hoje essa retórica acabou”.
Para a activista, tornou-se evidente, para “todo o mundo”, que “o verdadeiro bandido da história actual é a FRELIMO”.
A consciência, defende, reforça a oposição. “O que estou a notar é que quanto mais a repressão aumenta, mais a resistência aumenta. As pessoas perderam o medo de morrer”.
Vigília na Praça do Comércio, em Lisboa
Um “tsunami na cidadania moçambicana” chamado Venâncio Mondlane
Se, como aponta a socióloga Sheila Khan, há um “tsunami na cidadania moçambicana” chamado Venâncio Mondlane, que marcas deixará a sua passagem? “Acho importante perceber que Venâncio Mondlane vai escrevendo uma nova página na política, e na maneira de fazer política em Moçambique”, considera a também investigadora e professora, lembrando o efeito dos resultados eleitorais na Assembleia Nacional. “É preciso pensar como é que a FRELIMO vai dialogar com o PODEMOS [partido que apoia Venâncio], e como é que o PODEMOS pode conquistar um lugar perdido pela RENAMO há muito tempo”, em concreto, “desde a morte de Afonso Dhlakama”.
Se, como aponta a socióloga Sheila Khan, há um “tsunami na cidadania moçambicana” chamado Venâncio Mondlane, que marcas deixará a sua passagem? “Acho importante perceber que Venâncio Mondlane vai escrevendo uma nova página na política, e na maneira de fazer política em Moçambique”, considera a também investigadora e professora, lembrando o efeito dos resultados eleitorais na Assembleia Nacional. “É preciso pensar como é que a FRELIMO vai dialogar com o PODEMOS [partido que apoia Venâncio], e como é que o PODEMOS pode conquistar um lugar perdido pela RENAMO há muito tempo”, em concreto, “desde a morte de Afonso Dhlakama”.
Foto de Yassmin Forte
O xadrez político em Moçambique joga-se num novo tabuleiro – que se estende das redes sociais às ruas –, e com uma mudança de regras que a liderança da Frelimo, instalada no poder desde a Independência, foi incapaz de antecipar.
“Só agora é que o Governo abriu os olhos, e se apercebeu que o povo, a democracia, a cidadania moçambicana vive nas redes sociais, e foi aí que o Venâncio Mondlane conseguiu efectivamente granjear e conquistar [apoio]”, nota a socióloga Sheila Khan.
Atenta à actualidade no país do Índico, onde nasceu, a também professora e investigadora é uma das pessoas que, em Portugal, se tem dedicado à análise do que acontece do Rovuma ao Maputo.
Ainda assim, refere que ficou “tristemente surpreendida” com as convulsões pós-eleitorais.
“Tudo apontava para uma fraude eleitoral, mas não estávamos preparados para isto. Como estamos muito próximos dos 50 anos da Independência, pensei, na minha ingenuidade, que haveria um certo respeito, algum pudor e alguma aprendizagem relativamente às últimas eleições autárquicas”, adianta Sheila, recuperando as evidências de fraude que, no ano passado, também levaram o povo a sair à rua, e conduziram mesmo à repetição da votação em alguns distritos.
Já aí, aponta a socióloga, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) revelou a sua deriva, expressa numa impopular negociação com a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), que, em troca de algumas autarquias, parece ter abdicado de ser oposição.
“Lembro-me perfeitamente de ver uma notícia, em que o título era mesmo ‘A RENAMO quer perder’”, diz a analista, defendendo que a escolha de Ossufo Momade para a corrida eleitoral foi um erro, ao que tudo indica, intencional.
“Indo ao encontro das reflexões de alguns analistas, observo que esta RENAMO é uma oposição fácil, fraca e maleável. É uma oposição que efectivamente a FRELIMO consegue manipular e dominar para alcançar os seus objectivos”.
A “imaturidade” e “irresponsabilidade” da FRELIMO
Os jogos de poder entre aquelas que têm sido as duas principais forças políticas de Moçambique pós-Independência subestimaram, contudo, os elevados níveis de insatisfação popular, capitalizados por Venâncio Mondlane.
Excluído da disputa à liderança da RENAMO, Venâncio abandonou o partido – onde militava desde 2018 e assumia crescente protagonismo –, e renunciou ao mandato parlamentar que exercia, para avançar para uma candidatura independente à Presidência da República. O PODEMOS - Partido Optimista para o Desenvolvimento de Moçambique foi a plataforma que encontrou para abrir caminho até às urnas, depois de a sua primeira opção – a CAD – Coligação Aliança Democrática – ter sido afastada, sob alegações de irregularidades no processo de inscrição.
“A ingenuidade disto tudo foi pensar que Venâncio Mondlane, não obstante todos os obstáculos que lhe foram pondo pelo caminho, não ia ter a capacidade de contorná-los e de os suplantar. Esqueceram-se de olhar não só para as características da sua personalidade, como para as novas ferramentas de comunicação”, assinala a especialista, lembrando o papel mobilizador que as redes sociais têm desempenhado nesta conjuntura.
Além da forma que escolheu para chegar ao eleitorado e amplificar a sua mensagem, Venâncio popularizou-se pelo conteúdo das intervenções, dirigido aos mais jovens e aos mais pobres.
A crescente projecção pública, assente na sedução do eleitorado moçambicano, no país e na diáspora, tem suscitado desconfianças sobre as suas ligações externas, nomeadamente à extrema-direita portuguesa, e à igreja evangélica sueca.
Para Sheila Khan, contudo, as colagens de Venâncio ao populismo não colhe. “Acho que temos que estudar bem o que é o populismo, em primeiro lugar. Em segundo lugar, temos que estudar bem o populismo e os seus contextos. Nos vários discursos de Venâncio Mondlane, uma das coisas que eu acho que ele não usa – ou que vai usando só de vez em quando – é a questão da elite. E a verdade é que os populistas são anti-elite, é uma coisa que massacram até ao cansaço: essa luta anti-elites”.
Centrando a análise na FRELIMO, a socióloga acusa o partido no poder de não parar de dar mostras de “imaturidade e irresponsabilidade”, traindo a sua própria história.
“A FRELIMO de hoje não é aquela pela qual se pugnou, pela qual tantas pessoas se entregaram. É uma FRELIMO manipuladora, é uma FRELIMO assassina”, sublinha a especialista, de crítica apontada para o controlo exercido sobre as comunicações, e para a repressão policial que ‘varre’ manifestações pacíficas à lei da bala.
Assembleia Nacional renovada
A evidente incapacidade de aceitar os desejos de mudança da população, não pode contudo, avisa Sheila, ignorar a nova configuração de forças parlamentar.
“A Assembleia Nacional de Moçambique tem uma nova oposição que é o PODEMOS, que roubou lugar à RENAMO e ao MDM [Movimento Democrático de Moçambique]. Agora é preciso pensar como é que a FRELIMO vai dialogar com o PODEMOS, e como é que o PODEMOS pode conquistar um lugar que foi perdido há muito tempo pela RENAMO”, em concreto, “desde a morte de Afonso Dhlakama”.
O que se segue? Sheila Khan antecipa novas tentativas de coaptação, à semelhança do que aconteceu após as autárquicas, mas duvida da sua eficácia.
“Há rumores de negociação nos bastidores, mas Venâncio Mondlane é um homem inteligente, arguto, e tem uma coisa que nenhum dos líderes dos outros partidos tem, que é a capacidade de, neste momento, ser um tsunami na cidadania moçambicana. Nem o Ossufo Momade, nem o Lutero Simango…ninguém conseguiu fazer isto”.
Que marcas deixará tudo “isto”?
“Estamos no momento do desespero. A população continua a dar o peito às balas, porque as pessoas percebem que já não têm nada a perder”.
Ou, como dizia um dos cartazes exibidos nos protestos em Maputo: “Roubaram-nos até os sonhos”.
Sheila Khan