HISTÓRIAS
Eva Cruzeiro: “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop na Assembleia da República”
Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.
Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista conduzida por Margarida Valença, em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.
Eva Cruzeiro
Entrevista de Margarida Valença
Eva Cruzeiro, conhecida como Eva Rap Diva, tem sido um dos nomes mais falados da política portuguesa, nos últimos meses. Num momento em que a distância entre eleitos e eleitores parece aumentar, e em que a democracia é frequentemente descrita como mais frágil e polarizada, a deputada eleita pelo PS por Lisboa, em maio do ano passado, destaca-se por um percurso fora das elites político-partidárias e por uma forma de comunicar mais acessível, recorrendo também às plataformas digitais para fazer passar a sua mensagem.
Rapper, ativista e investigadora luso-angolana, cresceu na Arrentela, viveu vários anos em Angola e construiu uma carreira na música antes de entrar na política institucional. Pelo caminho, trabalhou em call centers e no atendimento ao público, e até mesmo em setores como a camionagem e a construção civil. Mais tarde, regressou à academia para estudar Ciência Política e Relações Internacionais, fazendo depois pós-graduações em Gestão Financeira e em Direitos Humanos.
Foi na Assembleia da República que nos encontrámos para esta conversa. Ao longo da entrevista, Eva Cruzeiro fala da entrada na política enquanto outsider, do impacto que sente que o seu mandato tem tido, e da forma como olha para o enfraquecimento dos partidos tradicionais num contexto de crescimento da extrema-direita. Defende que a política precisa de mais pessoas que tenham os “pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las”, e critica uma excessiva teorização das decisões públicas: “Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais têm apenas um conhecimento teórico.”
Insiste também na importância de comunicar a política de uma forma que chegue a todas as pessoas. “A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do Parlamento tem que perceber”, afirma, explicando que só quando consegue traduzir uma proposta para o quotidiano sente que está realmente a comunicar bem.
A conversa passou ainda pelos ataques de que tem sido alvo no espaço público e parlamentar, e pela forma como avalia a resposta das instituições democráticas face à normalização de discursos de ódio e de narrativas da extrema-direita. “Eu culpo os democratas”, diz, argumentando que essa normalização acontece quando não há uma reação firme aos primeiros sinais. Para a deputada, a ausência de resposta clara por parte dos partidos e das instituições abre espaço à legitimação de posições que atacam direitos e minorias. Pessoalmente, admite que este combate pode ter impacto, mas diz estar preparada para o enfrentar: “Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar.”
Há também espaço para regressar à música e ao lugar que o hip-hop continua a ocupar na sua vida. “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República”, afirma, lembrando: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto.”
Como é que o teu interesse e a relação com a política foi evoluindo até seres deputada?
Desde miúda que sempre me interessei e gostei de política, mas não de uma forma estruturada. Tinha questões que achava que precisavam de ser contestadas, que podiam ser mais bem resolvidas, que podiam ter mais atenção. Mas era só isso. Ideologicamente, sempre tive uma educação muito de esquerda por parte da minha família. A minha avó, que é a matriarca da família, é uma mulher de esquerda. A minha mãe também, sendo mais ao centro. O meu pai que me criou – o meu padrasto – é um homem do Partido Socialista há muitas décadas. Sempre participou muito nas coisas do partido, mas nunca nos levou para esse mundo. Foi sempre um militante de base. Nunca ocupou posições de relevância nem teve aspirações políticas. Tive uma educação muito aberta no que toca à política. O meu pai e a minha mãe nunca me tentaram dizer “tens que gostar disto” ou “tens que escolher isto ou aquilo”. Quando me mudo para Angola, com 20 anos, é o próprio contexto que me faz ganhar uma ligação mais forte à política. Começo a compreender a importância de intervir politicamente na sociedade, através da minha arte e da minha participação cívica. Isso acaba por influenciar aquele que é o meu pensamento e a minha visão política para Portugal, e é aí que começo a estruturar-me melhor.
O curso surgiu quando, no meio disto?
Mais tarde decidi que queria estudar. Havia coisas que eu não compreendia e achava que uma licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais iria passar a fazer mais sentido para mim. Claro que, depois de a fazer, passei a perceber melhor muitas dessas questões, mas na altura em que estudei já era politicamente uma pessoa bastante sólida nas minhas ideias, na minha visão e na minha mundividência. Sempre tive muito interesse em Finanças. Fiz uma pós-graduação em Gestão Financeira para aprofundar os meus conhecimentos nessa área. Fui alguém que começou a aprender cedo, e sempre achei que o contabilista, o financeiro, as pessoas com quem eu trabalhava nesse setor, estavam muitas vezes a dar voltas e eu não conseguia perceber determinadas movimentações e decisões que eram tomadas. Então fui estudar para compreender melhor. Eu sou muito assim: não quero saber se um tema é sobre medicina, ambiente ou construção. Quando tenho dúvidas sobre uma matéria, vou estudá-la de forma aprofundada e ponto final. Acho que o que me aconteceu com as Finanças – e foi algo que mudou muito a minha vida – foi ganhar uma educação financeira sólida. Isso ajuda-nos a estruturar a nossa gestão pessoal. O bem-estar das pessoas está também muito ligado à questão financeira. Também estudei Direitos Humanos nesse sentido. Queria aprofundar mais. Para fazer advocacy é importante estarmos bem informados, por isso fiz uma pós-graduação em Direitos Humanos. Estudei desenvolvimento recentemente, em Londres, e agora estou a fazer um doutoramento. Tudo na busca de mais respostas e de me sentir mais segura para abordar determinadas matérias.
Agora que já levas algum tempo de mandato, e olhando para o contexto e as ideias com que chegaste, o que é que, por dentro, percebes como as maiores dificuldades? E que balanço fazes do que tem sido mais desafiante e mais gratificante?
Nós precisamos de pessoas mais executivas na política. Os políticos de carreira, os tecnocratas, são muito importantes, mas acho que precisamos também de mais pessoas com os pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las. Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais tem apenas um conhecimento teórico, ou com as quais não tem uma ligação próxima. Decidem sobre a vida de pessoas de certas profissões, sobre áreas geográficas que não conhecem, onde não estão, que não vivenciam. Percebo que quem chega a cargos de decisão e de poder possa estar mais ligado ao trabalho político em si, mas o trabalho de campo faz muita diferença. E isso não é um problema da esquerda nem da direita. É um problema do sistema político português. Isso tem feito com que algumas políticas públicas não sejam desenhadas da forma mais adequada. É isso também que leva a que, em alguns casos, na sua advocacy política, não se consiga fazer a abordagem mais adequada para chegar a soluções verdadeiramente eficientes e eficazes para as pessoas que delas precisam.
Nesse sentido, o que é que sentes que pessoalmente tens acrescentado, sendo uma pessoa outsider?
Acho que trago um bocado isso. Já vivi dentro e fora de Portugal muitos anos. Cresci aqui e, nos últimos anos em que cá estive, vivi sempre como uma pessoa que partilha o dia-a-dia de qualquer português. A minha convivência social é com pessoas que não estão ligadas à política. Tenho amigas na Buraca, que vivem em Cascais ou em Oeiras, na Margem Sul, no Porto, em Gaia, ou no Alentejo, em Grândola. Visito essas pessoas, durmo em casa delas, elas dormem na minha, vamos a festivais juntas, vamos a restaurantes. Tenho um irmão que vive na Guarda, numa aldeia onde ele e a esposa são dos mais jovens, depois de terem vivido 10 anos em Londres e decidido voltar para o interior de Portugal. Nos últimos anos estive em todos esses lugares como uma pessoa comum. Acho que tenho uma leitura do território, da sociedade e dos problemas um pouco diferente de quem esteve dedicado 100% à política – com muitas aspas, porque não é só o trabalho político que é feito pelos atores políticos. O trabalho político é sério, difícil, exige muito empenho, muito estudo e muita escuta, e muitos intervenientes políticos fazem-no. Mas há um outro mundo que enriquece muito a política quando entra nela. Com toda a modéstia, acho que acabo por trazer um pouco disso.
Diria que há também duas coisas relevantes na forma como te expressas: uma certa leveza, e acessibilidade na linguagem que usas. Isso é intencional?
É. Uma das melhores coisas que me aconteceu quando fui fazer o mestrado em Inglaterra foi tê-lo feito em inglês. Há muitos termos técnicos da economia política que aprendi e trabalhei em inglês. De forma natural, não os trago diretamente para a língua portuguesa. E como tenho o domínio deles em inglês, quando os transporto para o português faço-o de uma forma muito mais suave do que, se calhar, outras pessoas que estudaram as mesmas matérias em português, ou do que eu própria faria se estivesse a falar em inglês. Mas também influenciou o facto de ter feito a minha carreira musical em Angola. Quando comecei a tornar-me muito conhecida em Angola, percebi que havia termos na minha linguagem que eram barreiras. Inclusive o sotaque português, e o facto de falar muito rápido eram um problema. Já aí, há 10 anos, tive que fazer um esforço para falar mais devagar, usar termos mais acessíveis e até linguagem mais próxima do dia-a-dia, para me aproximar das pessoas. Esse exercício acaba por nos ensinar a fazer da língua algo que nos une e aproxima. Isto não é algo totalmente natural para mim. É um esforço que faço nos debates na televisão, nas entrevistas, é uma prática diária. Porque não me interessa passar a ideia de intelectual. Interessa-me passar a ideia, que acho que é aquilo que eu sou, de uma pessoa como qualquer outra, que quer ser ouvida e entendida por qualquer outra pessoa.
Isso é algo que muitas vezes afasta as pessoas da política: esta noção de que se fala em “politiquês” ou “economiquês”. Muitas vezes as pessoas até têm interesse, mas sentem que aquilo que ouvem na política, ou mesmo na comunicação social, está codificado numa linguagem inacessível. Há uma barreira entre querer perceber um assunto e conseguir realmente compreendê-lo. Ao mesmo tempo, há temas que são complexos e que, quando se simplificam demasiado, podem perder rigor. Como é que se garante esse equilíbrio?
O convívio com as pessoas comuns do dia-a-dia ajuda-nos a fazer isso. Por exemplo, eu falo de propostas com a minha avó. E ela faz-me perguntas em que, por vezes, o primeiro sentimento que eu tenho é “como é que ela não sabe?”. Não exteriorizo isso, obviamente. Mas penso: eu é que comuniquei mal. Então procuro explicar de uma forma que entenda. E só quando ela percebe é que sei que estou a falar bem sobre o tema. A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do parlamento tem que perceber. O senhor da oficina onde levo o meu carro a fazer a manutenção tem que entender. Um exemplo é o pacote laboral. No meu dia-a-dia, tenho falado com pessoas, e muita gente diz: “Temos que lutar pelos nossos direitos trabalhistas”. E eu pergunto: “Mas qual é a coisa do pacote laboral que está errada?”. E muita gente não consegue explicar. Entretanto, fiz um vídeo num centro comercial, no Colombo, sobre o banco de horas. Naquele vídeo expliquei, de uma forma muito básica e prática, o que é que pode acontecer se esta nova proposta para o banco de horas, que está neste pacote laboral, passar. Aquele foi um dos vídeos com mais visualizações do meu Instagram, Facebook e TikTok. Já passou um milhão de visualizações, e é um vídeo a falar sobre uma proposta concreta deste governo, em relação à qual estou contra. E as pessoas começaram a partilhar, porque perceberam de que forma iam ficar prejudicadas. Claro que nem sempre a gente consegue explicar. Eu estou nesse exercício constante de me melhorar nesse sentido. E essa melhoria consigo fazer com o contacto direto com as pessoas, que para mim é fácil, porque o meu meio já é um meio de pessoas que não são políticas, dos meus amigos, etc. Não tenho um amigo próximo que seja um ator político e uma pessoa com uma carreira na política: a maior parte dos meus amigos são pessoas super comuns, umas com mais formação, outras com menos. Os meus amigos da escola continuam a ser os mesmos. Então sou obrigada a ter essa convivência com todas essas pessoas.
Estamos a viver um momento em que as democracias estão em crise. Há um lado relevante na renovação dos atores políticos, mas, para além disso, o que consideras necessário mudar ou repensar no espaço onde atuas? Por exemplo, o próprio PS, como muitos partidos de centro-esquerda e centro-direita na Europa, tem vindo a enfraquecer. Qual a tua análise sobre as razões desse fenómeno, e o que pode ser feito para o contrariar?
Algumas propostas de uma certa esquerda surgiram sem o devido enquadramento, informação e trabalho de educação à sua volta. E isso acabou por distanciar essa esquerda das pessoas. Por exemplo, quando falamos de racismo, não basta dizer que ser racista é mau. É preciso contextualizar: de onde parte o racismo, porque é que existe, o que gera numa sociedade. As próprias pessoas, através de um pensamento crítico treinado e estruturado pela educação, devem chegar à conclusão de que o racismo é negativo. Como esse trabalho não foi feito de forma consistente, hoje não temos ferramentas suficientes para responder, de forma eficaz, quando aparecem pessoas a perguntar “qual é o problema de ser racista?”, “qual é o problema de chamar preto a um preto?”, “qual é o problema de eu dizer o que penso”. Vivemos numa estrutura que fomenta o racismo, e há quem se aproveite disso para dividir e capitalizar politicamente. As pessoas não foram devidamente informadas, formadas e educadas para lidar com este fenómeno. O mesmo aconteceu com a misoginia. Durante décadas, falou-se dos direitos das mulheres, da igualdade e da diversidade, repetindo-se que é errado haver discriminação, ou que um homem ganhe mais do que uma mulher. Mas muitas mulheres e muitos homens não compreendem verdadeiramente o que está em causa nessa luta. Há uma certa esquerda que acha que tudo isto é óbvio. Mas não basta parecer óbvio. As mulheres ganharem menos pode parecer evidentemente injusto, mas nem sempre se explicou porquê. E depois surge um charlatão ou uma charlatona a dizer: “As mulheres ficam grávidas, o patrão tem que pagar o salário nesse período, portanto é normal que ganhem menos porque podem dar menos lucro.” Um argumento destes pode parecer ridículo para alguém à esquerda, mas não é ridículo se houver quem acredite nele. Não é ridículo se conseguir provocar retrocessos na luta pelos direitos das mulheres. Ridículo é não termos preparado as pessoas para compreender por que razão esse argumento não faz sentido numa sociedade democrática e liberal como a nossa.
Há um certo moralismo à esquerda?
Claro. A moralidade não é um problema quando vem acompanhada de informação. Quando não vem, pode tornar-se repressiva. Este trabalho de ajudar as pessoas a compreender o porquê de determinadas causas, e porque é que vale a pena lutar por elas falhou em muitos casos. Em relação a várias questões foi bem feito. A esquerda, a nível global, tem vitórias, avanços e transformações sociais incríveis. Mas houve também muito que poderia ter sido mais bem trabalhado. Acredito que parte do crescimento da direita resulta disso. Mas também há um fator cíclico nas sociedades. Não tem sido possível garantir que todos se sintam satisfeitos, e essa insatisfação, essa frustração acumulada, leva muitas pessoas a mudar a sua visão política. Agora há muita gente a deslocar-se para a direita. Acredito que, daqui a alguns anos, depois desta fase, possa haver um novo movimento de aproximação à esquerda. Porque não vejo perfeição absoluta em nenhum dos lados. Não acredito que a esquerda seja perfeita e a direita totalmente imperfeita, ou vice-versa. É por isso que me posiciono ao centro, com tudo o que isso tem de problemático. Sou uma pessoa de centro-esquerda, consciente das suas virtudes, mas também das suas lacunas.
E quais são?
Sou de centro-esquerda, defendo a minha visão, então deixo as críticas para quem não gosta dessa visão.
A extrema-direita tem vindo a ganhar muita força a nível parlamentar. Desde que começaste o teu mandato, já te mandaram “para a tua terra” no Parlamento. Num programa de comentário com a deputada Madalena Cordeiro sobre este episódio, ela dizia: “A Eva não é da Arrentela? Então era só dizer que era da Arrentela”. Noutro programa, com a deputada Rita Matias, a propósito das presidenciais, ouviu-se coisas como: “De repente parece que estamos ali as duas na Arrentela a falar no bairro.” Ou ainda, quando falavas da expressão “três Salazares” usada por André Ventura, Rita Matias respondeu: “É uma expressão popular. Pois, porque a Eva passou 15 anos em Angola e por isso não sabe o que é que os portugueses sentem na vida real. Tem que estar mais em Portugal.” Coisas que antes chocariam, como as declarações de André Ventura, em 2017, sobre a comunidade cigana, hoje tornaram-se quase banais, parte do dia-a-dia. Como é que isto te faz sentir e que peso tem no teu quotidiano, em plenário? Como lidas com este discurso tóxico crescente?
Eu culpo os democratas. Os grandes partidos da nossa democracia são quem eu culpo por isso ter evoluído, e para nós termos retrocedido para este estágio. Mas também culpo a comunicação social. Estes são os maiores responsáveis. Claro que existe um contexto histórico e social que facilita a passagem desse tipo de narrativas ao longo do tempo, mas a normalização não é feita quando o PS ou PSD dizem “ah, isto é normal”. A normalização é feita quando alguém faz um ataque racista, por exemplo, e está toda uma sala a assistir, escandalizam-se, mas continuam a dialogar com aquela pessoa. Imaginemos que estamos numa sala e, sem autorização, um homem toca no peito de uma mulher. Se apenas olharmos e dissermos “isto é errado, é assédio”, e continuarmos a conversa, na vez seguinte ele vai pôr a mão outra vez. E depois outra. E vamo-nos habituando a que aquele homem seja um abusador e deixamos passar. A normalização faz-se assim. Faz-se na reação aos primeiros sinais. Se não houver logo uma punição que corte e mostre que aquilo não é permitido, aquilo vai entrando, como se puséssemos uma vaselina. Quando damos conta, já dominou o espaço e já se normalizou. Quando aparece o André Ventura, e faz-se sinalizações de qual era a sua matriz e base ideológica, e as nossas instituições o permitiram, abriu-se a porta para aquilo que temos hoje em dia. Quem permite que aquilo permaneça e dialoga com eles abre a porta. Podem dizer: “Mas tu também debates com a Rita Matias.” Sim, mas eu desconstruo a narrativa dela. Ninguém tem dúvidas de que ela não sai ilesa desses ataques quando os faz. Eu já encontro este fenómeno instalado. Mas há anos podia ter sido travado. E não é uma postura de censura. Quando prendemos um violador, não estamos a censurar o violador. Estamos a proteger as vítimas e a repor a ordem. A minha pergunta é: as pessoas vítimas de racismo, xenofobia e discurso de ódio estiveram a ser protegidas? Parece-me que não.
Se a liberdade de expressão de alguém está a atacar a dignidade de outras pessoas e ninguém faz nada, isso não é apenas liberdade de expressão. É um sistema que não está a proteger quem tem que proteger. Depois, a comunicação social também é cúmplice. Esta fase de crescimento da extrema-direita coincide com uma fase frágil da comunicação social. Com o crescimento da internet, as plataformas digitais e os canais de YouTube estão a crescer muito. A comunicação social portuguesa tradicional tem de pensar em como se reinventar, e faz um caminho mais fácil: agarrar audiências através do choque e da polarização. Não porque tenha criado melhor entretenimento, ou melhores formas de fazer jornalismo e de informar de maneira mais apelativa, mas porque abre espaço a uma extrema-direita radical, que faz um discurso que choca, que polariza, e que capta o interesse das pessoas. E não capta apenas o interesse de quem é da extrema-direita. Capta também o interesse de quem transforma isso no seu novo entretenimento.
Até pessoas de esquerda, quando ouvem dizer que o líder da extrema-direita vai à televisão, muitas vezes vão ver, às vezes só para ver aquele horror. Hoje, o horror traz audiências à comunicação social. É por isso que vemos horas de Gaza, horas da Ucrânia, horas de terramotos e de desgraças. Esse horror gera audiência. E eu não vi, até agora, ninguém na comunicação social a discutir seriamente outras formas de captar a atenção das pessoas. Também não vi, ao nível das nossas instituições, uma discussão sobre como, através da informação, da educação e das novas tecnologias, podemos mobilizar a atenção das pessoas para outras coisas, através de outros sentimentos que não apenas o choque, o horror, a fomentação do ódio e da polarização. Será que, através de outro tipo de ação, de outro tipo de estímulo, conseguimos audiência? Estamos numa fase em que parece que acreditamos que só isto resulta na comunicação, porque nem sequer houve, pelo menos do que é do meu conhecimento, um verdadeiro esforço para procurar outros caminhos que mantenham a comunicação social relevante e interessante para o povo português.
E, a nível emocional, como é viver diariamente com a sensação de que a democracia está mais frágil do que alguma vez esteve desde o 25 de Abril? Assistir a isso em primeira mão, lidar com esses protagonistas no dia-a-dia, num contexto em que a banalização do ataque se estende do Parlamento ao comentariado?
Ainda não parei para fazer uma grande análise ou reflexão sobre as minhas emoções. Acho que as pessoas que estão na frente de combate têm que, de certa forma, desumanizar-se e perceber que atrás delas existem milhares de pessoas que precisam que elas façam uma luta bem feita. As pessoas que sofrem com o crescimento da extrema-direita, que são desumanizadas, humilhadas, que veem os seus direitos limitados, e são gratuitamente atacadas por quem as instrumentaliza para ganhar votos, são muito mais do que eu e, em conjunto, muito mais importantes do que eu, e são a minha principal preocupação. Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar. Alguém tem que fazer este trabalho. Não é fácil, mas os danos emocionais que eu possa sofrer valem a pena pela luta que estamos a fazer. Se tenho a oportunidade de ser eu a fazê-la, então fá-lo-ei sem medo do impacto que estes embates diários e a violência que esta gente traz, para o Parlamento e para a sociedade, possam ter em mim.
Vens do hip-hop, movimento que em Portugal foi crucial na afirmação do discurso e narrativas antirracistas, com protagonistas como o General D ou o Chullage, que intervieram de forma assertiva numa altura em que esses discursos eram completamente marginais. Sentes que estás a continuar esse legado? Há simbolismo em haver alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República?
É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República. O hip-hop tem sido um dos maiores espaços de ativismo político na sociedade portuguesa. Eu cresci na Arrentela até uma parte da minha vida, e comecei a ouvir Chullage e Red Eyes Gang muito cedo. Obviamente que isso mexeu comigo e ajudou a definir a pessoa que sou hoje. Sou muito grata, e ainda não tive a oportunidade de falar sobre isso e agradecer da forma adequada, mas o Chullage, o Boss AC, os Black Company, os TWA, os The Blazz e muitos outros artistas que ouvi há muitos anos foram muito importantes para aquilo em que me tornei. Há pouco falávamos da parte psicológica de lidar com estes ataques, mas também tenho que dizer que o hip-hop me formou, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto. Acredito que há uma grande probabilidade de sair ilesa por causa da escola hip-hop. Não posso dizer que sou a continuação do legado do Chullage ou do General D. Acho que seria muita arrogância da minha parte.
Digo no sentido de seres uma representante do movimento
Sim. Vejo o que fiz no hip-hop como a grande obra da minha vida. Se não viver muito mais, tudo o que fiz é suficiente para ir para onde eu for orgulhosa do meu percurso. O meu lugar no hip-hop fala por si. Consegui quebrar barreiras espetaculares. Hoje em dia, as pessoas encontram-me e dizem: “Ah, tornaste-te deputada. Uau.” E eu penso: eu já sou a Eva Rap Diva há muito tempo, e aquilo que fiz enquanto Eva Rap Diva já era muito “uau”. Ser deputada é uma grande responsabilidade, claro, mas eu já ando a fazer coisas “uau” há muito tempo. Muitas pessoas em Portugal não têm noção da dimensão do trabalho que fiz, mas no hip-hop deixo um legado do qual me orgulho. Talvez um dia alguém queira estudar e perceber como é que uma mulher como eu chegou ao hip-hop da forma como chegou, o que fez. E se existe hoje uma geração de rappers mulheres na lusofonia, pelo que sei e pelo que oiço dizer, também vem dessa influência da Eva Rap Diva. E isso deixa-me orgulhosa, com um sentido claro de missão cumprida.
Nos últimos anos, assistimos a uma afirmação muito forte de artistas lusófonos e afrodescendentes, por exemplo, os Calema a encherem o Estádio da Luz, ou o “Nova Lisboa” do Dino D’Santiago a ganhar um palco enorme, trazendo para o centro do debate questões como o racismo e a inclusão. Como é que vês este momento da música, e do hip-hop em particular, nesse contexto?
Há uma polarização na nossa sociedade que tem a ver com as expectativas que as pessoas tinham daquilo que seria a democracia, a Europa, Portugal na Europa, a globalização. O acesso de todos ao Serviço Nacional de Saúde, a uma educação e a uma vida plena, próspera, com bem-estar. E depois há a questão que a extrema-direita traz, que é a questão identitária, racial e nacionalista. Temos que diferenciar uma coisa da outra, porque há muita gente que defende a extrema-direita e depois fica a ouvir kizomba dias e dias a fio. Culturalmente, e a nível social, nós estamos mesmo todos juntos e misturados. Mas há depois quem agarre a frustração das expectativas e ponha tudo no mesmo saco. E há muita gente que acaba por ficar dentro desse saco porque realmente quer agarrar-se a alguma coisa. Mas a música e a arte demonstram que Portugal é mesmo este país dos Calema, do Dino D’Santiago, da Eva Cruzeiro, da Amália, do Slow J, da Ana Moura, da Carolina Deslandes e do Sérgio Godinho. Este é um Portugal de várias gentes, com várias formas de comunicar, de cantar, de dançar, de falar, de viver e de sentir. Acho que a música acaba por ser a prova factual disso. Os artistas mais ouvidos em Portugal, nos últimos anos, são jovens negros afrodescendentes. Olha que maravilhoso que isto é. Isto é o que nos define. É o que a gente segue, o que a gente ouve, o que a gente compra, o que a gente comemora. E é este Portugal que temos que lembrar que existe, e que nós somos. Não é todas as outras coisas que andam por aí a tentar fazer parecer que o país é: um Portugal dividido, que isola, discrimina, humilha e fere a dignidade das pessoas, só por causa da sua cor de pele ou da sua orientação sexual. Esse não é o nosso Portugal. Isso é um Portugal que eles estão a querer que o nosso Portugal seja. E nós vamos resistir a isso.
Mas porque é que achas que há este gap entre o mundo da arte e outras esferas?
O problema é que eu não acho que exista esse gap. De um modo geral, a sociedade portuguesa vive e celebra essa mistura. Há uma minoria que expressa outro tipo de sentimentos: de ódio, por exemplo. Mas, mesmo junto dessa minoria, há pessoas que não têm propriamente um conflito cultural. O que têm são outras frustrações, outras manifestações de descontentamento, muitas vezes ligadas a questões económicas ou sociais, que acabam por se sobrepor a isso. Esquecem o facto de serem culturalmente próximos de um mundo imenso que é Portugal, e agarram-se à extrema-direita por causa dessas outras questões que, naquele momento, lhes parecem mais urgentes. Mas se fores falar com essas pessoas, com calma, percebes que não têm problema nenhum em estar ligadas a outras culturas e em celebrá-las no seu dia-a-dia. Há uma minoria, sim, que rejeita aquilo a que chama “cultura portuguesa”, quando tudo o que estivemos a falar é cultura portuguesa. O Slow J é cultura portuguesa. O Prodígio é cultura portuguesa. O T-Rex é cultura portuguesa. O Plutónio é cultura portuguesa. A Capicua é cultura portuguesa. Depois há quem queira dizer que não. Mas como é que eu vou distinguir o Valete do Sam The Kid no que toca à cultura portuguesa? Ambos são cultura portuguesa. Nós é que temos que começar a afirmar isso claramente: o Valete é cultura portuguesa, a Ana Moura é cultura portuguesa, o Sam The Kid é cultura portuguesa, o Slow J é cultura portuguesa, o Dino D’Santiago é cultura portuguesa. “Ah, mas ele também é cabo-verdiano.” Também é cultura portuguesa. A Sara Tavares é cultura portuguesa. Não me interessa onde se inspirou. Ninguém foi perguntar ao Sérgio Godinho em quem é que ele se inspirou. E, se forem perguntar, provavelmente não chegaremos tão longe na análise como chegamos quando falamos de artistas negros e vice-versa. Quando vamos a outros países, africanos ou da América Latina, encontramos pessoas que dizem que se inspiraram no Sérgio Godinho ou noutros artistas portugueses. Isso sempre existiu e nunca incomodou ninguém. Qual é o incómodo agora?
Cartas Aos Que FicaraM, por Telma Tvon
Escritora e rapper, Telma Tvon escreve para o Afrolink sobre a violenta repressão do Governo do MPLA aos protestos e greves dos taxistas que desde meados de Julho contestam, no país, a subida dos preços dos combustíveis. Com um balanço provisório de 30 mortos e 1.515 detidos, a situação inspirou a escritora a publicar três cartas, cruzando os olhares de três figuras ímpares da História angolana: Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz e Deolinda Rodrigues.
Escritora e rapper, Telma Tvon escreve para o Afrolink sobre a violenta repressão do Governo do MPLA aos protestos e greves dos taxistas que desde meados de Julho contestam, no país, a subida dos preços dos combustíveis. Com um balanço provisório de 30 mortos e 1.515 detidos, a situação inspirou a escritora a publicar três cartas, cruzando os olhares de três figuras ímpares da História angolana: Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz e Deolinda Rodrigues.
Telma Tvon
Texto de Telma Tvon
Não, eu não vos escrevo do além. Eu escrevo a partir do interior de cada angolana, de cada angolano, que tanto sente que já nada consegue desabafar no papel. E yah, filho continua a chorar, Mamã não enlouqueceu, morreu mesmo e desta vez nem foram para São Tomé. Jazem aqui mesmo, na Terra que os viu nascer. A Mãe fenece fisicamente por aqui e o Filho por sua vez enlouquece e fenece mentalmente, também por aqui. Destruídos pelas autoridades que era suposto protegê-los.
Não, eu não vos escrevo com piedade e compreensão porque raros não são os momentos em que me pergunto se vocês conhecem esses sentimentos. Se vocês sequer possuem o dom de ter sentimentos. Eu escrevo-vos, pois, observando o pó de estrela que todos os meus são. Hoje nada brilha. Hoje tudo é incerteza, choro e convulsões.
Não, eu não vos escrevo rogando que se transformem. Esse tempo expirou. Eu agora escrevo-vos na urgência de quem vê também para os outros o tempo expirar porque careço conspirar a vossa saída. Eu não vos teorizei assim. Eu não vos idealizei assim. Eu escrevo cansado, tentando encontrar forças fora da minha matéria para acender uma nova revolta activa. Eu escrevo com fé conseguindo encontrar inspiração nos manifestos agora proactivos que se aventam perante mim.
Não, eu continuo a não escrever pedindo mudança ou sextas oportunidades.
Eu agora escrevo torcendo freneticamente pelo vosso fim.
Com sublinhada tristeza,
Mário Pinto de Andrade - o Pai Fundador
Também eu vos quero distantes do meu povo. Sonho-vos fora. Erramos?
Não consigo tolerar mais essa Angola que chora. Errei?
Sonhadores? Irrealistas? Talvez, mas quantas mais vidas pagaremos pelos nossos sonhos deturpados pelos vossos contínuos erros? Devastação máxima ao desviver deste lado com tanto peso.
Também eu vos quero culpados por adiarem consecutivamente os dias da Humanidade. Assim eu quero-vos de todos os cargos exonerados. O justo mesmo era serem condenados a viver como estão a condenar o nosso povo a viver. Vocês chumbaram no básico, o meu coração de poeta não vos perdoa e eu já só quero descansar em paz. Eu já só manifesto, de bem longe, para o meu povo, abundância e paz e ainda assim está a doer bwe perceber que vocês não sentem, que vocês vivem tipo vos nasceram sozinhos, que vocês não aprendem nada, que vocês agora são um resumido, inaugurado, condecorado Nada.
Também eu agora vos quero sem a tentadora Certeza, sem a firme Esperança pois mediante todos os brilhos capazes que nos depenam a magia da vida também de se eclipsar das vossas vidas. Que é isso Viriato a rogar pragas? Talvez não, a prever sentenças. Eu já só vos desejo apartados das minhas gentes, das minhas terras. Com tudo o que já subtraíram construam as vossas Califórnias e Dubais no Inferno, soterrem-se nos vossos palácios de egoísmo.
Eu agora também escrevo com ansiedade, apelando à vossa partida.
Com aviltante pesar,
Viriato da Cruz - O Pai Poeta
Assim eu já só penso o quão vão foi o meu destino.
O meu país independente não era o fim. Era o sonho do começo.
Era a vida que germinava nos meus que naquela altura para uma sorte maior precisavam de sofrer. E olha só o azar em vocês personificado, pois nas vossas mãos hoje eles continuam a sofrer.
Assim eu já sem corpo, continuo a sofrer. Sabia que a liberdade não se alcançaria com sofrimento mas não seria para vocês que esperava endereçar estas palavras. Confusa com o meu corpo parido em Catete e defumado no Congo, me questiono hoje qual é a vossa ideologia? Vocês quem são? Vocês querem o quê? Sendo absurdamente sincera comigo eu acho que sei as respostas mas não me atrevo a dizê-las de forma perceptível. E ainda assim medo do quê pois se as palavras têm força e se materializam ao serem ditas em voz alta há muito que tal já aconteceu porque vocês andam aí, vaidosos, orgulhosos e não parece haver silêncio que quebre o vosso narcisismo.
Assim eu já só penso que hoje que sem razão aparente se depredam as vidas dos nada a perder, interrogo-me se o vosso M vem do quê, o vosso P juntamente com o vosso L servem para quê, e a vossa Angola é para Quem? Pois, pensem respostas caladas. Pensem em tom de monólogo porque nem diálogo queremos convosco e olhem bem, e oiçam bem, e leiam bem porque mesmo que neste exílio sem regresso eu continuo a ser a revolução. Eu continuo a orar pela libertação dos meus. Eu continuo numa luta sem forma, numa luta de pensamentos e desejos mas continuo, sim fictícios camaradas eu continuo. Continuo até sentir a vossa total retirada. Continuo até se espalhar por todos kimbos acima da terra que o meu povo é soberano.
Com colossal desgosto
Deolinda Rodrigues- a Langidila e Mãe da Revolução Angolana
Escutar a Terra através dos seus Guardiões - as vozes que tecem o futuro
“Falamos muito de “soluções climáticas” em reuniões e conferências. Mas e se as comunidades da linha da frente forem a própria solução? E se a reparação não for caridade, mas um acto de devolução – de recursos, de dignidade – a quem já cuida da vida?”. As reflexões partem de Virgílio Varela, que regressou de cinco meses de viagem pelo Brasil acompanhado das vozes que foi escutando, “das terras alagadas do Rio Grande do Sul às florestas sagradas de palmeiras no Maranhão, passando pelo solo ancestral da Bahia”. Num percurso que incluiu a visita a “20 comunidades indígenas e quilombolas”, o facilitador, formador, consultor, orador e storyteller pôde recordar que “a justiça tem ritmo (...) como um tambor que nunca deixa de bater”. A experiência é partilhada a poucos meses da COP 30 – Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, que acontece de 10 a 21 de Novembro na Amazónia –, com a força de uma lição de vida. “A caminho da COP30, não levo apenas notas. Levo vozes. Vozes que dizem: não estamos à espera de salvação. Já estamos a tecer o futuro”. Por isso, o convite que Virgílio deixa “é simples: Não amplifiques apenas estas vozes. Segue a sua liderança”.
“Falamos muito de “soluções climáticas” em reuniões e conferências. Mas e se as comunidades da linha da frente forem a própria solução? E se a reparação não for caridade, mas um acto de devolução – de recursos, de dignidade – a quem já cuida da vida?”. As reflexões partem de Virgílio Varela, que regressou de cinco meses de viagem pelo Brasil acompanhado das vozes que foi escutando, “das terras alagadas do Rio Grande do Sul às florestas sagradas de palmeiras no Maranhão, passando pelo solo ancestral da Bahia”. Num percurso que incluiu a visita a “20 comunidades indígenas e quilombolas”, o facilitador, formador, consultor, orador e storyteller pôde recordar que “a justiça tem ritmo (...) como um tambor que nunca deixa de bater”. A experiência é partilhada a poucos meses da COP 30 – Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, que acontece de 10 a 21 de Novembro na Amazónia –, com a força de uma lição de vida. “A caminho da COP30, não levo apenas notas. Levo vozes. Vozes que dizem: não estamos à espera de salvação. Já estamos a tecer o futuro”. Por isso, o convite que Virgílio deixa “é simples: Não amplifiques apenas estas vozes. Segue a sua liderança”.
Virgílio Varela percorreu o Brasil durante cinco meses
Texto de Virgílio Varela
“Esta não foi uma jornada para ‘ajudar’ comunidades. Foi uma jornada para escutar, para desaprender — e para recordar o que a Terra já sabe.”
Durante cinco meses, percorri o Brasil — das terras alagadas do Rio Grande do Sul às florestas sagradas de palmeiras no Maranhão, passando pelo solo ancestral da Bahia — visitando 20 comunidades indígenas e quilombolas.
Não ia à procura de histórias. Ia ao encontro de territórios vivos de sabedoria.
Cada comunidade recebeu-me não com discursos ou formalidades, mas com alimento, ritmo e memória. Partilharam comigo as suas dores — grilagem, águas contaminadas, línguas silenciadas — mas também partilharam os seus sonhos.
E isso mudou tudo.
No Maranhão, sentei-me com mulheres que há gerações protegem o babaçu. Mostraram-me que resistir também pode ser plantar, cozinhar, ensinar.
Na Bahia, ouvi tambores que falam de realeza, de exílio e de regresso.
E no Sul, vi escolas destruídas pelas cheias e corações ainda em processo de cura — mas também jovens negros a replantar, regenerar e acreditar.
O que encontrei não foi apenas dor. Foi presença. Uma força ancestral que resiste a tornar-se estatística ou objecto de caridade.
Falamos muito de “soluções climáticas” em reuniões e conferências.
Mas e se as comunidades da linha da frente forem a própria solução?
E se a reparação não for caridade, mas um acto de devolução — de recursos, de dignidade — a quem já cuida da vida?
Esta jornada recordou-me que a justiça tem ritmo. Nem sempre é rápido. Nem sempre é ruidoso. Mas é constante — como um tambor que nunca deixa de bater.
A caminho da COP30, não levo apenas notas. Levo vozes.
Vozes que dizem: não estamos à espera de salvação. Já estamos a tecer o futuro.
O convite é simples:
Não amplifiques apenas estas vozes. Segue a sua liderança.
A cor que nos divide: o impacto do colorismo em países de maioria negra
“Cresci com uma mãe que exaltava a minha negritude, que me ensinou a amar-me como sou, a valorizar cada detalhe do meu ser. Foi ela quem me apresentou figuras marcantes da história negra, quem me encheu de poder e orgulho, mesmo quando o mundo lá fora insistia em me apagar. Incentivou-me a fazer os meus dreads, lembrando-me de que fazem parte da nossa história de resiliência, resistência e beleza ancestral. Ainda assim, mesmo com essa base sólida, enfrentei olhares julgadores, comentários enviesados e tentativas constantes de me moldar a padrões que nunca foram feitos para mim padrões construídos por outros, que tentavam convencer-me de que precisava de ser ajustada para ser aceite”. O testemunho, escrito na primeira pessoa, é da moçambicana Shira Cátina Guambe que, a partir da experiência “como mulher negra retinta, e do contacto com diversas realidades”, propõe “uma análise crítica sobre as heranças coloniais, os padrões de beleza eurocentrados, e a invisibilidade que persiste nas relações sociais e afetivas”. O resultado lê-se no texto aqui publicado.
“Cresci com uma mãe que exaltava a minha negritude, que me ensinou a amar-me como sou, a valorizar cada detalhe do meu ser. Foi ela quem me apresentou figuras marcantes da história negra, quem me encheu de poder e orgulho, mesmo quando o mundo lá fora insistia em me apagar. Incentivou-me a fazer os meus dreads, lembrando-me de que fazem parte da nossa história de resiliência, resistência e beleza ancestral. Ainda assim, mesmo com essa base sólida, enfrentei olhares julgadores, comentários enviesados e tentativas constantes de me moldar a padrões que nunca foram feitos para mim padrões construídos por outros, que tentavam convencer-me de que precisava de ser ajustada para ser aceite”. O testemunho, escrito na primeira pessoa, é da moçambicana Shira Cátina Guambe que, a partir da experiência “como mulher negra retinta, e do contacto com diversas realidades”, propõe “uma análise crítica sobre as heranças coloniais, os padrões de beleza eurocentrados, e a invisibilidade que persiste nas relações sociais e afetivas”. O resultado lê-se no texto aqui publicado.
Shira Cátina Guambe, assina esta reflexão
Texto de Shira Cátina Guambe
Falar sobre racismo estrutural é, hoje, um debate inevitável em qualquer sociedade. Mas no próprio universo negro, há uma ferida silenciosa, muitas vezes negligenciada: o colorismo. Esta forma de discriminação, baseada na tonalidade da pele no próprio grupo racial, continua a afetar profundamente como nos vemos, nos relacionamos e somos tratados mesmo em países de maioria negra. A questão que se impõe é simples, mas dolorosa: como é possível que, mesmo onde somos maioria, sejamos vítimas de uma lógica que nos hierarquiza pela proximidade à brancura?
Colorismo: definição e legado
O termo colorismo foi popularizado pela escritora e ativista norte-americana Alice Walker, que o definiu como “o preconceito ou discriminação contra indivíduos com pele mais escura, geralmente entre pessoas do mesmo grupo étnico ou racial”. Embora nascido no contexto afroamericano, o colorismo é um fenómeno global e persistente.
Não é somente uma questão de tom de pele. É um reflexo de séculos de dominação colonial, onde tudo o que se aproximava do europeu era considerado superior: desde a cor da pele, ao cabelo, ao nariz, aos lábios, à estrutura corporal. É uma herança que atravessa gerações e geografias, e que continua a moldar o modo como construímos valor, beleza e estatuto.
Por mais insano que pareça, esta lógica persiste ainda hoje, mesmo em países onde a maioria da população é negra. Em vez de desaparecer, o colorismo ganhou novas roupagens e adaptou-se às dinâmicas atuais de poder, consumo e representação.
Quando a cor da pele se torna critério: os impactos reais do colorismo
O colorismo não se limita ao campo da estética. Infiltra-se silenciosamente em todas as esferas da vida: nas oportunidades profissionais, na forma como somos atendidos nos serviços públicos, nas escolhas afetivas, na representação nos meios de comunicação e até nas nossas próprias aspirações.
Em muitos países africanos, incluindo o meu, não é raro vermos pessoas de pele mais clara em posições de maior destaque, sobretudo em áreas como a comunicação, moda, publicidade ou atendimento ao público. Em Moçambique, por exemplo, basta assistir a uma sequência de anúncios televisivos ou folhear uma revista para perceber que os rostos escolhidos para representar o “ideal” moçambicano tendem a ter tons de pele mais claros e traços mais próximos dos padrões eurocêntricos. O mesmo se observa em Angola, no Senegal, ou mesmo no Brasil, países com histórias distintas, mas atravessados pelo mesmo legado.
Isto não é coincidência. Segundo um estudo da Universidade da Cidade do Cabo, pessoas de pele mais clara, em contextos urbanos africanos, têm maior probabilidade de aceder a cargos bem remunerados e a serviços de saúde privados. Embora os dados variem consoante o país, o padrão é reconhecível: a tonalidade da pele continua a funcionar como um filtro social um privilégio invisível para uns, uma barreira camuflada para outros.
Contradições e invisibilidade: entre heranças coloniais e padrões eurocentrados
“Ela tem boa cor”, dizem, a elogiar uma mestiça. “O teu cabelo é duro, devias usar relaxante.” “Sou escuro, mas tenho hábitos de brancos.” Quem cresceu em contextos africanos ou afro-diaspóricos provavelmente já ouviu (ou disse) alguma destas frases. À primeira vista, parecem inofensivas. Mas carregam em si séculos de invisibilidade, de negação, de reconfiguração forçada da identidade negra.
São frases que mostram como a colonização deixou marcas profundas. Afinal, é um povo que foi anulado por séculos e levado a crer que os seus traços são feios e vulgares, que o seu cabelo é ridículo e pobre, que as curvas das mulheres negras são excessivas e traiçoeiras, que o nariz largo é deselegante. Tudo isso visando encaixar nos padrões da nova sociedade a colonial e afastar-se de tudo o que revelava a sua origem.
E é aqui que mora o perigo: estas ideias ainda enchem o nosso mundo e esvaziam a nossa essência. Porque muitos negros retintos, nascidos em África, sentem a necessidade de mudar a sua aparência para se tornarem socialmente mais aceites. Hoje, com míseras moedas, é possível comprar cremes que prometem “clarear” a pele. O mesmo se aplica ao cabelo: há uma infinidade de produtos para alisar, extensões e wigs, que poderiam ser usados como opção estética, mas que se tornam uma dependência disfarçada, uma exigência para “pertencer”.
O silêncio não nos serve: entre consciência e mudança
Falar sobre colorismo, especialmente dentro da nossa própria comunidade, não é confortável. Há silêncios que se tornaram regra, e feridas que aprendemos a disfarçar com humor ou resignação. Mas quanto mais ignoramos, mais normalizamos e mais longe ficamos de nos ver por inteiro.
Como mulher negra retinta, reconheço que sou privilegiada por ser consciente da minha identidade e isso devo, na maioria, à minha mãe. Cresci com uma mãe que exaltava a minha negritude, que me ensinou a amar-me como sou, a valorizar cada detalhe do meu ser. Foi ela quem me apresentou figuras marcantes da história negra, quem me encheu de poder e orgulho, mesmo quando o mundo lá fora insistia em me apagar. Incentivou-me a fazer os meus dreads, lembrando-me de que fazem parte da nossa história de resiliência, resistência e beleza ancestral. Ainda assim, mesmo com essa base sólida, enfrentei olhares julgadores, comentários enviesados e tentativas constantes de me moldar a padrões que nunca foram feitos para mim padrões construídos por outros, que tentavam convencer-me de que precisava de ser ajustada para ser aceite.
Mas talvez o impacto mais profundo nem seja o externo é o que acontece por dentro. O colorismo interiorizado, aquele que fere a auto-estima, é provavelmente o mais doloroso. Já ouvi, mais de uma vez, comentários como: “Fulana tem o útero limpo, vê-se pelo facto de o filho ter nascido clarinho.” Ou: “O teu cabelo nem parece ruim” como se o facto de parecer “menos crespo” fosse um elogio. E ainda aquele clássico: “Se fosses clara, eras muito mais bonita.” São frases que se dizem com naturalidade, mas que carregam séculos de rejeição, de comparação, de desvalorização dos traços negros.
Acresce a isto o fenómeno, infelizmente frequente, de vermos homens negros que se sentem vitoriosos ou “evoluídos” quando conseguem relacionar-se com mulheres brancas ou mestiças como se o amor estivesse também submetido a um código de validação racial. Basta observar o padrão em muitos atletas, músicos ou figuras públicas negras que, ao atingirem certo estatuto social ou económico, optam por estar com mulheres de pele mais clara, como se isso simbolizasse uma espécie de ascensão. Palavras, escolhas e silêncios que vão minando a identidade, como gotas constantes numa rocha frágil.
Encerrar para começar: o desafio de reimaginar-nos
Desconstruir o colorismo é um trabalho de todos os dias e de todos nós. Não basta somente culpar o sistema ou recordar as feridas do passado. É urgente olharmos para o interior da nossa comunidade e percebermos como continuamos a reproduzir, muitas vezes sem querer, lógicas que nos dividem, que nos hierarquizam, que nos enfraquecem. Precisamos de criar espaços onde todas as tonalidades de pele negra sejam valorizadas, onde o cabelo crespo seja celebrado e não tolerado, onde as crianças negras cresçam sem precisar de se comparar ou esconder.
Talvez não consigamos mudar tudo de uma vez. Mas podemos começar com o que dizemos, com o que partilhamos, com o que calamos. Podemos começar por escutar mais, por educar-nos mutuamente, por resgatar a beleza que sempre foi nossa e que nunca deveria ter sido colocada em dúvida.
No fundo, trata-se de reimaginar o que significa ser negro num mundo que tantas vezes tentou dizer-nos o contrário. E nessa reimaginação, há espaço para orgulho, para coragem e para cura.
O racismo pelo olhar de uma jovem: “Tornei-me negra quando cheguei a Portugal”
Valdeth Dala nasceu e cresceu em Angola, onde viveu até 2023, quando se mudou com a família para Portugal. A experiência confrontou-a com a brutalidade do racismo, realidade sobre a qual a jovem de 19 anos reflecte neste texto, inspirada no caso de Maria Luemba.
Valdeth Dala nasceu e cresceu em Angola, onde viveu até 2023, quando se mudou com a família para Portugal. A experiência confrontou-a com a brutalidade do racismo, realidade sobre a qual a jovem de 19 anos reflecte neste texto, inspirada no caso de Maria Luemba.
Texto de Valdeth Dala
Quando eu me mudei com a minha família para Portugal em 2023, eu percebi que o racismo não só existe, como é uma questão muito séria. Percebi que a realidade é ainda mais brutal do que qualquer filme representa. Percebi que ainda vivemos num mundo em que o negro é discriminado, agredido, menosprezado, e julgado simplesmente por ser negro.
Nasci e cresci em Angola, um país com uma população maioritariamente negra, onde o racismo é arquivado em livros de História, e tido apenas como parte de um passado inconveniente.
Ao longo da minha adolescência, comecei a acompanhar filmes que abordavam, retratavam, denunciavam e contestavam o racismo no período da escravidão, no período colonial e pós-colonial, como por exemplo: “12 Anos Escravo”, “As Serviçais”, “Mandela: Longo Caminho Para Liberdade”, “O Ódio que Semeias”, “Foge”.
Mas, nenhum filme me preparou para a realidade que encontrei cá em Portugal, onde, no dia 12 de Junho, Maria Luemba, uma menina angolana de 17 anos, foi encontrada morta em sua residência, numa vila perto de Aveiro.
As autoridades apontaram para um suicídio, porém os familiares contestam essa versão. Há, inclusivamente, suspeitas de homicídio, implicando um vizinho com desavenças anteriores com a família.
Esse caso gerou grande comoção junto da comunidade negra – mas não em toda a sociedade –, e culminou num protesto realizado no último domingo, 29 de junho.
Mas o que o caso Maria Luemba tem que ver com racismo? Responderei a essa questão nos parágrafos seguintes.
A forma como a investigação à morte de Maria Luemba começou por ser conduzida levanta dúvidas sobre a atuação policial, com fortes indícios de racismo institucional.
Aliás, desde o início houve falta de informações por parte da polícia, remetida ao silêncio.
Por outro lado, a imprensa só passou a cobrir o caso após a mobilização por parte de coletivos negros e protestos organizados nas redes sociais.
Infelizmente, o caso Maria Luemba não é único. São várias as pessoas negras agredidas, oprimidas e assassinadas em Portugal.
Odair Moniz, cabo-verdiano de 43 anos, foi morto a tiro por um agente da PSP durante uma perseguição na Cova da Moura, em outubro de 2024. Cláudia Simões, mulher angolana, foi agredida violentamente por elementos da PSP na Amadora, em janeiro de 2020. Elson Sanches, conhecido como “Kuku”, era um jovem português negro de 14 anos e foi morto a tiro por um agente da PSP durante uma perseguição no antigo bairro de Santa Filomena, em 2009. Luís Giovani Rodrigues, jovem cabo-verdiano de 21 anos, morreu na sequência de uma agressão racista em Bragança, ocorrida em dezembro de 2019.
É enorme a lista de pessoas cujas mortes, opressões, agressões e abusos sofridos não recebem a devida atenção por serem negras, imigrantes ou de contextos socioeconómicos desfavorecidos.
Nos últimos dias, ouvi de um amigo que o sistema já era do jeito que é mesmo antes de eu nascer, e que tentar mudá-lo ou ir contra ele é como tentar remar contra uma maré, que sempre acaba por vencer. A seguir, acrescentou: “É assim, só nos resta aceitar”.
Ele não é a primeira pessoa que eu ouço a dizer isso, e sei que não é a única pessoa a pensar assim. Na verdade, são várias as pessoas que pensam e dizem: “O racismo sempre existiu e sempre existirá”, ou então “O racismo sempre existirá na sociedade, o que nos resta é nos conformarmos com isso”.
Mas como posso me conformar com um sistema que vê a minha cor como arma?
Assim como Grada Kilomba escreveu “me tornei negra quando cheguei aos EUA”, eu também posso afirmar que me tornei negra quando cheguei a Portugal. Foi necessário sair do meu país, da minha bolha, para entender que o racismo não é passado — é presente, mas não pode ser futuro.
Não posso me conformar com um sistema que continuamente agride, oprime e mata pessoas como eu. Poderia ser eu ou a minha irmã no lugar da Maria Luemba. Poderia ser a minha mãe no lugar da Claúdia Simões. Poderia ser o meu irmão no lugar de Elson Sanches. Poderia ser o meu pai no lugar de Odair Moniz. Então, eu digo não. Não posso simplesmente aceitar a falência do sistema. Não posso simplesmente me conformar com uma sociedade racista.
O que está em causa não são apenas casos de mortes violentas, agressão, opressão de pessoas negras, mas sim a forma como o sistema reage – ou se cala – quando a vítima não se enquadra no perfil de “vítima ideal” construído pela sociedade.
Que a justiça por todas as pessoas aqui mencionadas — e também por aquelas que não foram mencionadas — seja feita. Que o sistema mude e melhore, para que as próximas gerações não tenham que lutar mais essa luta.
Faço do sonho de Martin Luther King Jr. meu sonho.
“Tenho um sonho: que os meus quatro filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de pele, mas pelo seu caráter.” Martin Luther King Jr.
Judaico-Cristão? A História apagada por trás de uma expressão conveniente
A empresária de impacto social Myriam Taylor reflecte sobre o conceito de “judaico-cristianismo”, neste artigo de opinião que o Afrolink publica. “Após o Holocausto, e com a fundação do Estado de Israel em 1948, as democracias ocidentais – sobretudo os Estados Unidos – começaram a usar a expressão “judaico-cristã” para justificar alianças geopolíticas, especialmente durante a Guerra Fria”, nota a activista pelos Direitos Humanos. “O termo tornou-se uma ferramenta de propaganda”, prossegue Myriam, assinalando que o mesmo associa “valores como liberdade, moralidade e democracia a uma suposta herança comum judaico-cristã — em oposição ao comunismo ateu ou ao “mundo islâmico””. Mais do que identificar o problema, a empresária aponta a solução: “Abrir caminho para uma teologia da justiça que também enfrente a opressão dos palestinianos, o racismo religioso e a exclusão dos outros povos da narrativa de salvação”.
A empresária de impacto social Myriam Taylor reflecte sobre o conceito de “judaico-cristianismo”, neste artigo de opinião que o Afrolink publica. “Após o Holocausto, e com a fundação do Estado de Israel em 1948, as democracias ocidentais – sobretudo os Estados Unidos – começaram a usar a expressão “judaico-cristã” para justificar alianças geopolíticas, especialmente durante a Guerra Fria”, nota a activista pelos Direitos Humanos. “O termo tornou-se uma ferramenta de propaganda”, prossegue Myriam, assinalando que o mesmo associa “valores como liberdade, moralidade e democracia a uma suposta herança comum judaico-cristã — em oposição ao comunismo ateu ou ao “mundo islâmico””. Mais do que identificar o problema, a empresária aponta a solução: “Abrir caminho para uma teologia da justiça que também enfrente a opressão dos palestinianos, o racismo religioso e a exclusão dos outros povos da narrativa de salvação”.
Texto de Myriam Taylor
Nos últimos anos, ouvimos cada vez mais referências à chamada “tradição judaico-cristã” nos púlpitos, nos discursos políticos e até em documentos oficiais de diálogo inter-religioso. Em Portugal, esta linguagem chega tardiamente, sem que se questione suficientemente a sua origem, o seu uso político, e as suas consequências para uma teologia fiel à verdade histórica e à justiça inter-religiosa.
Mas será que a expressão “judaico-cristã” faz parte da tradição litúrgica da Igreja? E que teologia sustenta essa linguagem? A resposta surpreende: nenhuma liturgia tradicional portuguesa, nem os documentos magisteriais anteriores ao século XX, alguma vez definiram a Igreja como “judaico-cristã”.
Pelo contrário, durante séculos, o cristianismo foi construído em oposição ao judaísmo, muitas vezes alimentando o antissemitismo. A reconciliação, quando veio, foi tardia e necessária. O Concílio Vaticano II foi um ponto de viragem, com a declaração Nostra Aetate a rejeitar formalmente a ideia de culpa coletiva do povo judeu na morte de Cristo. Foi nesse contexto de reparação que, no mundo anglo-saxónico, se começou a falar em “herança judaico-cristã” como ponte de diálogo.
Contudo, essa ponte não foi construída apenas com tijolos de reconciliação espiritual. Foi também erguida sobre interesses políticos e estratégicos. Após o Holocausto, e com a fundação do Estado de Israel em 1948, as democracias ocidentais — sobretudo os Estados Unidos — começaram a usar a expressão “judaico-cristã” para justificar alianças geopolíticas, especialmente durante a Guerra Fria. O termo tornou-se uma ferramenta de propaganda, associando valores como liberdade, moralidade e democracia a uma suposta herança comum judaico-cristã — em oposição ao comunismo ateu ou ao “mundo islâmico”.
No campo religioso, a teologia cristã dispensacionalista, popular entre evangélicos norte-americanos, ajudou a alimentar o sionismo político, com interpretações apocalípticas que viam o retorno dos judeus à Palestina como parte do “plano divino”. A instrumentalização do sofrimento do povo judeu, transformando-o em aliado estratégico no tabuleiro global, deu ao termo “judaico-cristão” um uso não inocente.
Em Portugal, esta linguagem chegou importada, mas sem crítica. Começou a aparecer em homilias, documentos catequéticos e até em textos institucionais, como se fosse parte orgânica da nossa história. Mas Portugal foi um dos países mais violentos na repressão do povo judeu: com a expulsão dos judeus sefarditas, a imposição forçada da conversão, e os autos-de-fé da Inquisição. Falar em “tradição judaico-cristã” sem reconhecer essa história de violência é reescrever o passado com tinta ideológica.
Além disso, ao insistirmos na aliança “judaico-cristã”, silenciamos outras heranças igualmente fundadoras da experiência de fé cristã: a matriz africana da Igreja primitiva (Egito, Etiópia), o papel das comunidades árabes-cristãs, a contribuição do pensamento muçulmano para a filosofia cristã medieval, e os elos espirituais com povos indígenas que hoje ainda vivem a fé de forma encarnada.
Precisamos de uma teologia mais honesta, mais plural e mais descolonizada. Não basta repetir fórmulas novas como se fossem antigas. É necessário perguntar: a quem serve essa linguagem? O que encobre? E o que exclui?
A reconciliação entre cristãos e judeus é um imperativo moral e espiritual. Mas ela deve ser feita com verdade, não com slogans. E deve abrir caminho para uma teologia da justiça que também enfrente a opressão dos palestinianos, o racismo religioso e a exclusão dos outros povos da narrativa de salvação.
Falar de “judaico-cristianismo” sem senso crítico é repetir a liturgia do poder. E a liturgia do poder não liberta. Apenas disfarça.
Contra a retirada abusiva de crianças às suas famílias, criminalizadas pela pobreza
Sem qualquer notificação, em claro incumprimento do que a lei determina, Carol Archangelo e Carlos Orleans, oriundos do Brasil e residentes no distrito de Viseu, depararam-se com a retirada dos filhos, encaminhados, a partir da escola, para uma família de acolhimento. Já em Lisboa, a são-tomense Ana Paula dos Santos viu uma situação de despejo, executada pela Câmara Municipal de Loures, ser usada como arma para a separar dos filhos, incluindo um recém-nascido. Casos como estes repetem-se um pouco por todo o país, revelando um padrão por parte do Estado: de racismo, xenofobia, e criminalização da pobreza. O problema vem sendo denunciado há anos, sem que uma verdadeira mudança ocorra, realidade que a antropóloga Rita Cássia Silva pretende transformar. Para isso propõe, por exemplo, “criar um fundo nacional de apoio às mulheres e crianças, direccionando às famílias os valores financeiros entre 1.100 e 3.300 euros mensais que são destinados aos centros de acolhimento de crianças e jovens (instituições privadas e/ou religiosas)”.
Sem qualquer notificação, em claro incumprimento do que a lei determina, Carol Archangelo e Carlos Orleans, oriundos do Brasil e residentes no distrito de Viseu, depararam-se com a retirada dos filhos, encaminhados, a partir da escola, para uma família de acolhimento. Já em Lisboa, a são-tomense Ana Paula dos Santos viu uma situação de despejo, executada pela Câmara Municipal de Loures, ser usada como arma para a separar dos filhos, incluindo um recém-nascido. Casos como estes repetem-se um pouco por todo o país, revelando um padrão por parte do Estado: de racismo, xenofobia, e criminalização da pobreza. O problema vem sendo denunciado há anos, sem que uma verdadeira mudança ocorra, realidade que a antropóloga Rita Cássia Silva pretende transformar. Para isso propõe, por exemplo, “criar um fundo nacional de apoio às mulheres e crianças, direccionando às famílias os valores financeiros entre 1.100 e 3.300 euros mensais que são destinados aos centros de acolhimentos de crianças e jovens (instituições privadas e/ou religiosas)”.
por Rita Cássia Silva, antropóloga, artista-pesquisadora, ativista de Direitos Humanos, antirracista
Carta aberta – A salvaguarda dos direitos fundamentais e humanos das crianças e jovens junto às suas famílias de origens e a manutenção das suas identidades culturais em Portugal tem de ser um dos pilares mais importantes do Estado Português
Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa, Professor Marcelo Rebelo de Sousa
Exmos. (as) Senhores (as) Parlamentares da Assembleia da República Portuguesa, Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias
Todas as Entidades portuguesas competentes e personalidades relevantes das áreas da Justiça; Educação; Trabalho, Solidariedade e Segurança Social
Promoção dos Direitos das Crianças e Jovens; Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género; Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.
É com preocupação e indignação que reflito sobre os filhos do casal Carol Archangelo e Carlos Orleans ambos naturais do Brasil, que denunciaram recentemente estarem a ser vítimas de xenofobia e perseguição institucional no exercício da maternidade e paternidade dos seus filhos, por parte da CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, entidade similar ao Conselho Tutelar no Brasil) de São Pedro do Sul, em Viseu, Portugal. “Não é você que manda nos seus filhos, nem você que decide por eles. E você tem que engolir isso!”, “Fui ameaçado lá, inclusive em ser preso se alterasse o tom de voz" (sobre o tratamento recebido pela Direção da CPCJ de São Pedro do Sul).
É também com preocupação e indignação que reflito sobre as filhas e o filhinho de Ana Paula dos Santos, natural de São Tomé e Príncipe. Conforme compreendi através das informações tornadas públicas nos meios de comunicação portugueses e pelas associações e movimentos civis, a família tem sofrido violência institucional patrimonial e também psicológica, uma vez que a casa em que morava foi demolida pela Câmara Municipal de Loures e, até ao prezado momento, não lhe foi concedido nenhum realojamento, mesmo que o concelho de Loures tenha mais de 9.000 casas vazias. Reflito sobre como uma entidade como a Câmara Municipal de Loures não demonstra ter uma responsabilidade social efectiva nas vidas das pessoas que foram atingidas por ela e sobre como isto impacta a sociedade em que vivemos nos tempos correntes. Uma vez que há mais famílias a vivenciar situações destas sem que haja responsabilidades por parte da Câmara.
Segundo as informações tornadas públicas por meio das redes sociais e dos demais meios de comunicação no Brasil e em Portugal, as crianças filhas do casal brasileiro Carol Archangelo e Carlos Orleans foram levadas da escola por profissionais do ISS (Instituto da Segurança Social) em meados do mês de março do corrente ano, sem que mãe e pai tivessem conhecimento algum, diretamente para uma família de acolhimento. No entanto, as crianças não eram maltratadas por seus pais. Estavam a ser acompanhadas por uma medida de promoção e proteção pela CPCJ junto aos pais. Esta situação terá ocorrido devido a uma sinalização inicial que foi feita por uma professora numa escola, quando a criança mais pequena tinha 4 anos de idade e demonstrava estar cansada. Segundo denúncia da mãe das crianças, houve um documento escrito por duas pessoas com manifesto preconceito: “Demonstraram sempre que não gostavam da gente, por um julgamento pelo nosso estereótipo e profissão”.
Tendo em consideração que crianças são seres humanos em pleno desenvolvimento, e que têm as suas particularidades comportamentais, que deveriam ser devidamente respeitadas, principalmente em muitas das escolas portuguesas, onde crianças imigrantes e/ou filhas de pessoas com percursos de migração, crianças com NEE (necessidades educacionais especiais) e crianças com deficiência têm vindo a ser maltratadas, discriminadas e negligenciadas por parte de profissionais da educação, reflito se esta criança não estaria a ser discriminada pelo facto dos seus pais serem tatuadores e terem a nacionalidade brasileira. É facto que a profissão de tatuador em Portugal gera preconceitos sociais, porque a prática da tatuagem no senso comum é interpretada ora associada com contextos de criminalidade, ora associada com contextos culturais dos povos não-europeus. Algo herdado do pensamento científico europeu a partir do século XIX. No entanto, a tatuagem é uma das mais antigas expressões humanas, podendo preceder à palavra.
Tendo em consideração a LPCJP (Lei de Proteção às Crianças e Jovens em Perigo), artigos 84.º, 85.º, 86.º, 94.º, 103.º, 104.º, 107.º e 114.º e a CSDC (Convenção Sobre os Direitos das Crianças), artigos 5.º (orientação da criança); artigo 12.º (opinião da criança); artigo 17.º (acesso à informação) e artigo 18.º (responsabilidade parental), tanto as crianças como os seus representantes legais, no caso específico de Carol Archangelo e Carlos Orleans, mãe e pai das crianças, deveriam ter sido institucionalmente informados sobre todos os procedimentos relacionados com a medida de promoção e proteção das crianças aplicada pela CPCJ de São Pedro do Sul, Viseu. Ora, mãe e pai denunciaram que ficaram aterrorizados quando receberam a notícia por parte de agentes da polícia local sobre a retirada institucional dos seus filhos, a partir da escola. Eles não foram informados institucionalmente que havia a possibilidade dos seus filhos serem encaminhados para uma família de acolhimento.
Reflito que se não havia maus-tratos familiares contra as crianças, certamente as crianças vivenciaram e estão ainda a vivenciar o trauma de estarem a ser privadas das suas principais referências afectivas sem que compreendam o porquê de tal acontecimento. Este tipo de procedimento não coloca as crianças em perigo psicologicamente? Não potencializa doenças? Li que após terem sido levadas da escola, as crianças passaram quatro dias sem ver a mãe e o pai e só estiveram com eles durante 45 minutos.
Considero que tais procedimentos devem ser devidamente investigados pelas entidades portuguesas competentes na matéria e devidamente acompanhados pelos Consulados Gerais do Brasil em Portugal. As famílias não podem ser discriminadas institucionalmente em situações que envolvem a necessidade de criação de estratégias e entendimento mútuo em prol do bem-estar de crianças e jovens, não podem ser violentadas em seus direitos fundamentais e humanos.
Mãe e pai, Carol Archangelo e Carlos Orleans, são pessoas trabalhadoras, brasileiras, como inúmeras famílias brasileiras que vêm para Portugal criar melhores condições de vida e viver sem o perigo de enfrentar violências no quotidiano urbano das grandes e pequenas cidades no Brasil. Trabalham em Portugal e contribuem para o desenvolvimento económico e sociocultural do país através da arte realizada no exercício das suas profissões enquanto tatuadores.
Integram a comunidade brasileira que, juntamente com comunidades imigrantes de outros países sul-americanos, africanos, asiáticos, europeus, sustentam o sistema de segurança social português. Nenhuma família, nem imigrante, nem natural de Portugal, deveria vivenciar situações traumatizantes como esta.
Quanto às violências patrimonial, psicológica e institucional que estão a ser desferidas pela Câmara Municipal de Loures contra a mãe Ana Paula dos Santos e a sua família, é preciso refletir que além de terem ficado sem casa, Ana Paula estava grávida e vivenciou com as suas crianças o impensável: ameaças institucionais de que haveria uma separação familiar por parte da CPCJ e que a mãe não sairia da maternidade com o seu filho nascituro nos braços se não tivesse uma morada. As assistentes sociais deram-lhe um prazo de 8 dias para que ela conseguisse uma casa em condições para toda a sua família.
Em um país onde o salário mínimo mensal é de 870€ e o arrendamento de um T2 no concelho de Loures não custa menos que um salário mínimo, com exigências de pagamentos de uma a três rendas adiantadas enquanto pagamento de caução e existência de uma pessoa fiadora, como uma mulher trabalhadora, mãe de família pode se governar? Há neste momento uma constante pressão por parte das assistentes sociais do ISS (Instituto de Segurança Social Portuguesa) para que Ana Paula consiga uma casa. Ana Paula e a sua família estão ainda salvaguardadas numa pensão assegurada pelo ISS, localizada fora do concelho de Loures e sem condições (na pensão não se pode cozinhar, só dormir). As violências psicológica, patrimonial e institucional que foram iniciadas durante o período do pré-parto da mãe Ana Paula dos Santos, auxiliar efetiva num lar de idosos, continuam na fase do pós-parto. Ana Paula é uma mulher trabalhadora com percurso de migração para Portugal. É muito importante que estas violências parem de ser desferidas. Ana Paula dos Santos e a sua família, bem como outras famílias que estão a vivenciar o mesmo, necessitam de paz e de soluções que possam salvaguardá-las nos seus direitos fundamentais e humanos.
Os problemas de vulnerabilidades sociais, como violência doméstica, falta de recursos financeiros, falta de rede de apoio familiar, desemprego, falta de habitação, não podem ser critérios para haver separações familiares institucionalmente. Muito menos que permitam que mulheres parturientes saiam das maternidades portuguesas sem os seus filhos e filhas nos braços, como já aconteceu num passado recente e como infelizmente continua a acontecer. Tais problemáticas devem ser resolvidas através da implementação de políticas públicas que possam potencializar o fortalecimento das mulheres e famílias, para que as crianças não tenham de enfrentar o aprofundamento da vivência da pobreza material e do adoecimento psíquico em seus corpos, com a perda das suas principais referências afetivas e, em muitos casos, com a perda das suas identidades culturais. Retiradas de crianças às mulheres-mães, pais e famílias através de procedimentos irregulares, sem factos comprovados de violências familiares e com criminalização da pobreza, reproduzem violências coloniais e são práticas que devem ser devidamente erradicadas.
Face às situações que estão a ocorrer é relevante recordar que faz exatamente sete anos, neste ano de 2025, que um coletivo formado por ilustres personalidades com diferentes trajetórias de vida, naturalidades, nacionalidades, profissões, bem como organizações da sociedade civil, lutaram perante a Assembleia da República Portuguesa – Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, para que o sistema de proteção à infância e juventude em Portugal pudesse não ter falhas que impedissem crianças e jovens de crescerem saudavelmente junto aos seus familiares. Anabela da Piedade, Dr. António Garcia Pereira, Dr. Gameiro Fernandes, Dra. Rita Cássia Silva, Sra. Amélia dos Santos, Alexandra Borges, Judite França, Ana Vilma Maximiano, Dra. Dulce Galvez, Paula Sequeira, Francisca Magalhães de Lemos, Anabela Caratão, Cristina Bártolo, Nádia Penas. Mulheres-mães de origens portuguesas, brasileiras e africanas, homens-pais, todas e todos tornados vítimas de violências institucionais atrozes. Amarca – Associação e Movimento de Alerta à Retirada de Crianças e Jovens, Não Adoto Este Silêncio – Movimento Verdade, UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, Dignidade – Associação para os Direitos das Mulheres e Crianças, APMJ – Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
Portugal passou por um acordar através do conhecimento tornado público nos meios de comunicação portugueses sobre situações de violências institucionais desferidas contra crianças e jovens, mulheres-mães (maioritariamente), avós, homens-pais, famílias que estavam a perder as guardas dos seus filhos e filhas, que, por sua vez, estavam a ser institucionalizados indevidamente ou entregues pela justiça a homens-pais agressores de mulheres e crianças. Foram detetadas práticas de escritas de relatórios sociais sem factos comprovados, relatórios psicológicos caluniosos, escritas e discursos discriminatórios, racistas, xenófobos, misóginos, perseguições institucionais... Tais demandas potencializaram um debate televisivo, a primeira série informativa da televisão portuguesa, reportagem jornalística, jornalismo de investigação na TV pública, diferentes modos de denúncias, matérias jornalísticas, uma petição cidadã com mais de 5.000 assinaturas (Não Adoto Este Silêncio – adoções ilegais da IURD e abertura de uma Comissão de Inquérito Parlamentar), reflexões, entre outras iniciativas.
Parece-me salutar que seja da responsabilidade da Assembleia da República Portuguesa - Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, a formação de uma equipa investigativa formada por especialistas independentes e diversos culturalmente para investigar os procedimentos irregulares no âmbito de separações familiares no sistema de proteção de crianças e jovens. Conforme sugestão do ilustre Deputado António Filipe, do PCP (Partido Comunista Português), em 2018, na sua intervenção no âmbito da petição N.º460/XIII (3.ª).
Como consequências das lutas civis no âmbito da proteção de crianças e jovens em Portugal perante violações de direitos fundamentais e humanos das crianças e famílias, considero ser relevante que mantenhamos as nossas memórias bem lúcidas e que as organizações formadas por pessoas das comunidades imigrantes tenham acesso ao conhecimento:
A nível governamental, o Presidente de Portugal, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou a Lei n.º 39/2019, 2019-06-18. Um projeto Lei que foi proposto na Assembleia da República, por parte do PCP (Partido Comunista Português), após a audição no âmbito da Petição N.º 460/XIII/3. Todos os partidos políticos portugueses votaram a favor, com a surpreendente abstenção do PS (Partido Socialista). Na prática, profissionais como juízes, procuradores, assistentes sociais, psicólogos, advogados, dirigentes religiosos, entre outros, não podem ser membros dos órgãos sociais de centros de acolhimentos de crianças e jovens considerados como estando em perigo e trabalharem em seus processos, relatórios sociais e outros documentos de crianças e jovens que vão ser colocados nestes mesmos centros de acolhimento. No entanto, é preciso ter umaespecial atenção, porque conforme o próprio Presidente Marcelo refletiu, a Lei poderia ter ido mais longe ao abranger também os profissionais técnico das instituições visadas que são quem frequentemente está em contacto directo com as situações em análise.
O Estado Português foi condenado pelo TEDH – Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, devido ao processo de Anabela Caratão, cidadã de origem portuguesa que foi vítima de violência doméstica, e que teve os seus dois filhos bebés gémeos separados dela e entre si pela CPCJ, dentro de um hospital no concelho de Loures. Anabela Caratão, que era artista plástica, ficou totalmente impedida de conviver com os seus filhos e quando lhe encaminharam para começar a fazer visitas assistidas por profissionais da assistência social, a entidade onde as tais visitas deveriam ocorrer cobrou-lhe financeiramente para que Anabela Caratão pudesse ver o próprio filho.
Houve a condenação de duas profissionais da assistência social do ISS – Instituto da Segurança Social, que foram responsáveis pela prática da retirada das filhas de Ana Vilma Maximiano, cidadã de origem portuguesa que foi vítima de violência doméstica e ameaçada de ter as suas filhas institucionalizadas. No entanto, encaminharam duas crianças ao agressor de Ana Vilma e a outra criança a um progenitor totalmente ausente, desvinculado afetivamente da criança. Ana Vilma Maximiano que era funcionária pública, fez greve de fome em frente ao Palácio da Presidência da República, em Lisboa, a fim de denunciar as violências institucionais que estavam a ser desferidas contra as suas filhas e contra si, e fundou, com outras mulheres – mães e famílias vítimas de violências privadas e/ou institucionais –, a associação civil AMARCA – Associação de Alerta à Retirada de Crianças e Jovens.
Em 2021, ainda no rescaldo da pandemia de COVID-19, com o apoio da DGArtes e de entidades parceiras portuguesas (Apuro, Femafro, Teatro Bocage), mulheres-mães imigrantes naturais do Brasil, de Portugal e de África, que foram vítimas de violência doméstica e institucional por parte do Estado Português e do Estado Brasileiro, puderam denunciar tais violências através da ficção. O projeto Epifanias Artes: audioblogue, com e para pessoas que sonham igualdade, lançou uma série de cinco performances radiofónicas cujas transmissões em direto de cada um dos cinco episódios foram seguidas de conversações aprofundadas com ilustres personalidades da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Algo que foi inovador em Portugal, dado que mulheres tornadas vítimas de violências institucionais são quase sempre silenciadas e invisibilizadas pelas instituições. Esta intervenção gerou um relatório onde propus ao governo português sugestões de boas práticas como: criar a possibilidade das mães, se assim o quiserem, poderem acompanhar seus filhos e filhas pequenos durante os primeiros anos de vida (1 - 4), anos estes que são cruciais para o desenvolvimento da saúde na infância, tendo como exemplo os países nórdicos; erradicar a prática de privação materna institucional com a desvinculação materno-afetiva entre mães e filhos – violência de género e violência contra a criança, dado que se trata de uma prática secular; criar legislação para criminalização de práticas de escritas de relatórios sociais e/ou psicológicos caluniosos, omissos, racistas, xenófobos e/ou discriminatórios contra mulheres e crianças, e no geral; possibilitar a implementação de financiamento para a criação de redes comunitárias para que crianças possam ser cuidadas por pessoas em que mães, pais e encarregados de educação conheçam e confiem, durante os seus períodos laborais; salvaguardar as crianças de situações de pobreza extrema e outras violências, aquando de situações de desemprego das suas mães e famílias: nenhuma mulher deveria ficar sem ter acesso ao apoio social de um valor básico de sobrevivência que lhe permita sobreviver com os seus filhos e filhas; salvaguardar crianças e mulheres em situações que estejam a vivenciar algum tipo de vulnerabilidade social e a necessitar de habitação. Mães e filhos não podem ser colocados na rua, como pudemos observar através das redes sociais e da comunicação social, durante o período de pandemia/sindemia, nem mulheres podem parir sem assistência alguma, na rua e serem criminalizadas, como no caso da jovem mulher cabo-verdiana Sara Furtado, entre outras sugestões.
Apesar de ter recebido a confirmação de receção do relatório por parte do Gabinete do Primeiro – Ministro, na altura, Dr. António Costa, até o prezado momento não disponho de informações sobre os debates políticos que deveriam existir em torno das temáticas outrora apresentadas e que continuam a suscitar profundas reflexões, uma vez que mulheres, crianças e famílias continuam a ser separadas devido às práticas seculares que são inconcebíveis neste nosso século.
A região norte de Portugal, onde o casal brasileiro Carol Archangelo e Carlos Orleans reside, é emblemática no que diz respeito às práticas de revitimizações de mulheres e crianças, tornadas vítimas de violências privadas e/ou institucionais. Vergonhosos tratamentos decorreram no Norte, contra as cidadãs brasileiras ex-vítimas de violência doméstica: Liliane Fraga, Adriana Botelho e Karine Ribeiro. Desde a retirada da criança, ainda sendo amamentada pela mãe, por parte da CPCJ, para entrega à família de homem agressor, passando por expulsão de casa com ajuda da força policial e retirada de criança com alegações de juiz a dizer que não sabia se a mãe de nacionalidade brasileira era de “favela” ou “empresária”, até sequestro de criança do Brasil para Portugal. Seria fundamental que o Governo português se atentasse de facto aos modos ignóbeis com que muitas das mulheres e crianças e famílias de nacionalidade brasileira ou com dupla nacionalidade têm vivenciado em seus corpos por parte de instituições. Até o prezado momento não há conhecimento por parte de organizações civis feministas brasileiras, organizações de direitos humanos ou pelo Instituto Maria da Penha que mulheres e crianças de nacionalidade portuguesa sejam torturadas psicologicamente, fisicamente e/ou patrimonialmente no Brasil.
Por fim, como é de conhecimento público, o Estado Português faculta aos centros de acolhimentos de crianças e jovens considerados em perigo, valores financeiros entre 1.100 e 3.300 euros mensais por cada criança/jovem a viver em instituições. O Plano de Ação de Garantia à Infância (2022-2030), lançado pelo governo português, liderado pelo PS, em Janeiro de 2023, preconiza a promoção dos direitos das crianças tendo em vista a melhoria da educação, saúde, segurança e proteção, a fim de que possam crescer em ambientes familiares e sociais saudáveis. Para tal, assume o objetivo de desinstitucionalização das crianças e jovens progressivamente. Bem como, a necessidade de haver famílias de acolhimentos ao invés de centros de acolhimentos em Portugal (uma responsabilidade que certamente vai ao encontro dos encaminhamentos da ONU, em relatórios sobre as consequências das institucionalizações na saúde mental das crianças, jovens e adultos).
Pergunto-vos se ao criar um fundo nacional de apoio às mulheres e crianças, direcionando às famílias os valores financeiros entre 1.100 e 3.300 euros mensais que são destinados aos centros de acolhimento de crianças e jovens (instituições privadas e/ou religiosas), o Estado Português não estará a potencializar a dignificação das famílias, salvaguardando o direito das crianças às suas famílias de origens, às suas identidades culturais, o direito das mulheres a viver com plenitude a maternidade, não potencializará a confiança social nas instituições do Estado? O desenvolvimento da saúde coletiva, ao invés de doenças psicossomáticas?
Pergunto-vos se ao criar um plano de formação nacional obrigatório para todas as pessoas profissionais das áreas da assistência social, justiça, psicologia, educação, entre outras, onde possam acessar aos conhecimentos sobre origens e consequências do racismo, da xenofobia, da discriminação de género, da aporofobia, do classismo, da discriminação religiosa, da revitimização de violências, o Estado Português não estará a potencializar uma consciencialização coletiva sobre ética, direitos fundamentais, direitos humanos, deveres e a aprendizagem de metodologias não excludentes?
Estamos a normalizar a barbárie: entre a indignação pontual e o silêncio estrutural
Num “gesto provocador”, conforme o apresenta, a empresária de impacto social, Myriam Taylor, perguntou ao ChatGPT: “Se fosses o diabo, como destruirias a Humanidade?”. A resposta, conta-nos, foi clara: “Através da erosão da empatia, da glorificação do ego, da divisão, da normalização da injustiça, da destruição da confiança e da apatia perante o sofrimento”. Mais do que notar que é “exatamente o caminho que estamos a seguir”, neste artigo de opinião Myriam aponta soluções. “O desafio é claro e urgente: precisamos de resgatar a ideia de coletivo. De voltar a ensinar – em casa, nas escolas, nos media – que a liberdade e a justiça não são bens individuais. Que sem compaixão, sem responsabilidade partilhada, não há sociedade possível”.
Num “gesto provocador”, conforme o apresenta, a empresária de impacto social, Myriam Taylor, perguntou ao ChatGPT: “Se fosses o diabo, como destruirias a Humanidade?”. A resposta, conta-nos, foi clara: “Através da erosão da empatia, da glorificação do ego, da divisão, da normalização da injustiça, da destruição da confiança e da apatia perante o sofrimento”. Mais do que notar que é “exatamente o caminho que estamos a seguir”, neste artigo de opinião Myriam aponta soluções. “O desafio é claro e urgente: precisamos de resgatar a ideia de coletivo. De voltar a ensinar – em casa, nas escolas, nos media – que a liberdade e a justiça não são bens individuais. Que sem compaixão, sem responsabilidade partilhada, não há sociedade possível”.
Myriam Taylor perguntou ao ChatGPT: “Se fosses o diabo, como destruirias a Humanidade?”
Texto de Myriam Taylor
Vivemos tempos de distanciamento emocional profundo. Um tempo em que o grito coletivo foi substituído por um scroll distraído. Onde a empatia deixou de ser um impulso natural para se tornar uma raridade. Onde o sucesso é medido pelo isolamento vitorioso, e não pela construção partilhada.
Estamos a educar crianças e jovens para o desempenho, não para a consciência. Ensinamos a competir, não a cooperar. A destacar-se, não a cuidar. E o resultado está à vista: uma sociedade muitas vezes incapaz de reagir com profundidade e continuidade à dor do outro.
Na semana passada, Portugal foi confrontado com um crime chocante: uma menor foi violada por três jovens que filmaram o ato e partilharam as imagens nas redes sociais. O caso foi amplamente noticiado e houve manifestações de indignação pública – por parte de cidadãos, organizações e plataformas de direitos humanos. No entanto, esta comoção, apesar de genuína, esbate-se rapidamente na espuma dos dias. Falta-nos continuidade, estruturas de proteção eficazes e um grito coletivo que dure mais do que um ciclo de notícias.
Este caso não é uma exceção. É um reflexo. O mesmo padrão repete-se em escala global. Em Gaza, mulheres e crianças são massacradas todos os dias, com o mundo a assistir. No Congo, mulheres continuam a ser vítimas de violência sexual extrema como arma de guerra, e crianças são exploradas como mão de obra escrava na extração de coltan e outros recursos que alimentam os nossos dispositivos digitais. Há indignações pontuais, sim – mas o que se impõe é um silêncio estrutural, normalizador.
A barbárie já não choca como deveria. Está a ser digerida em pequenas doses – e isso é perigosíssimo. Porque a barbárie instala-se não com gritos, mas com ausências: de cuidado, de mobilização, de responsabilização.
Quando educamos apenas para o “eu”, matamos o “nós”. E quando o “nós” desaparece, deixamos de reconhecer a dor do outro como nossa.
O desafio é claro e urgente: precisamos de resgatar a ideia de coletivo. De voltar a ensinar – em casa, nas escolas, nos media – que a liberdade e a justiça não são bens individuais. Que sem compaixão, sem responsabilidade partilhada, não há sociedade possível.
Esta inquietação levou-me, num gesto provocador, a perguntar ao ChatGPT: “Se fosses o diabo, como destruirias a Humanidade?”. A resposta foi clara: através da erosão da empatia, da glorificação do ego, da divisão, da normalização da injustiça, da destruição da confiança e da apatia perante o sofrimento. Soa familiar? Porque é exatamente o caminho que estamos a seguir.
Mas ainda há tempo. Este texto não é só um grito. É um apelo. Que sejamos vizinhos atentos, cidadãos ativos, educadores conscientes. Que não deixemos o horror passar como mais um vídeo no feed.
Estamos num ponto de viragem. Somos todos chamados a tomar uma posição. Em que lado escolhemos estar?