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David J. Amado: “Preferia ser atacado e até morrer como sou, do que viver como alguém que não sou”

“A Água Me Leva” é o mais recente filme de David J. Amado, tendo estreado em março em Lisboa, no Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, no âmbito do projeto “Democracy em in Action”. Seguiram-se outras exibições na Casa Capitão e na Associação Passa Sabi, a que se junta uma nova no próximo sábado, 2 de maio, na Rádio Quântica. Após ter assistido à última apresentação, o Afrolink encontrou-se com o produtor, bailarino, e artista na Fundação Gulbenkian. Uma oportunidade para falarmos sobre esta curta-metragem, que vai fazer parte de um projeto maior, intitulado “Depois do Norte”, mas também para conversarmos sobre o livro “Desprotegidos”, que se prepara para lançar.

“A Água Me Leva” é o mais recente filme de David J. Amado, tendo estreado em março em Lisboa, no Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, no âmbito do projeto “Democracy in Action”. Seguiram-se outras exibições na Casa Capitão e na Associação Passa Sabi, a que se junta uma nova no próximo sábado, 2 de maio, às 18h, na Rádio Quântica. Após ter assistido à última apresentação, a repórter Naya Chardon encontrou-se com o produtor, bailarino e artista na Fundação Gulbenkian. Uma oportunidade para falarem sobre a curta-metragem, que vai fazer parte de um projeto maior, intitulado “Depois do Norte”, mas também para conversarem sobre o livro “Desprotegidos”, que David se prepara para lançar.

David J. Amado, com Pedro Kussy (de costas), na curta-metragem “A Água Me Leva”

Por Naya Chardon*

Comecemos por perceber a história de David J. Amado. Em Portugal há nove anos, o bailarino já viveu nas Caraíbas, no Brasil, e em várias cidades dos Estados Unidos, Nova Iorque incluída, onde estudou música na Columbia University.

Conta que todos os locais o influenciaram, seja no trabalho artístico, em concreto na carreira na dança, ou na vida pessoal. Uma das razões pela qual viajou tanto tem que ver com o interesse por estilos de dança considerados mais “elitistas”, e muitas vezes menos acessíveis em zonas do sul global, onde nasceu. É o caso da dança clássica, em que se especializou, lançando, no ano passado, o projeto “Ballet para Todos”, que proporciona aulas gratuitas para jovens e crianças em comunidades marginalizadas. Mais do uma forma de expressão, David vê na dança clássica, um caminho para  aprender a ter controlo sobre o próprio corpo, ou seja, uma capacidade de empoderamento.

“ A [música] é a minha base porque, antes de tudo, seja dança, seja cinema, seja teatro, eu preciso sentir alguma coisa no meu corpo em termos de ritmo.”

Autor do livro “Desprotegidos”, que está em fase de pré-lançamento e tem publicação prevista para maio, David também assina o filme “A Água Me Leva”, explorando, nestes dois projetos, o empoderamento e autonomia corporal.

O Corpo Estereotipado

Em “Desprotegidos”, o corpo negro masculino representa um dos temas centrais, com a partilha da experiência de abuso sexual entre homens. Através de cinco protagonistas, a obra mostra o percurso de redescobrir a individualidade após ter passado por um trauma; ao mesmo tempo que, na voz dos personagens, integra português europeu, português do Brasil e crioulo da Guiné-Bissau. Esta pluralidade linguística não é apenas uma consequência das diversas culturas à qual o bailairino foi exposto — é um exemplo de como o livro procura uma universalização da dor que ultrapassa fronteiras.

“Quando a pesquisa começa, eles [os cinco protagonistas] são bem estereotipados, mas ao longo do livro, as camadas de máscaras começam a cair; o público e também os personagens conseguem se ver mais autenticamente. [...] Eles conseguem perceber: existe uma identidade por trás dessa persona estereotipada de ser raivoso, forte, dissociado, fetichizado, ou domesticado. Há uma outra pessoa atrás disso.”

Embora o recurso a personagens fictícias permita ao autor distanciar-se da sua própria história, a metáfora da “ecdise” — o processo pelo qual os répteis abandonam a sua pele — introduz um movimento inverso: o de revelação.

“Essa ideia de ver uma cobra ou uma aranha sair da sua pele, e em que a pele deixada para atrás tem o mesmo formato do corpo antigo, sempre foi muito interessante para mim. Porque eu penso na maneira como muitas pessoas, não só homens gays e negros, usam tanta coisa, seja roupa, seja outras pessoas, como pele para proteger o que está ali dentro. Então, essa pele que todos os personagens estão a usar no início da peça é o estereótipo. Mas eu sou o tipo de pessoa que preferia ser atacado e até morrer como sou, do que viver como alguém que não sou.”

Desmascarar os personagens permite ao leitor aceder a fragmentos introspetivos e vulneráveis do autor, que explica como já tentou esconder-se vivendo “dentro dos estereótipos”, devido, nomeadamente, à proteção que isso oferece.

“É minha história, mas ao mesmo tempo não é. Então eu penso nas máscaras que uso, porque sou todos os cinco.”

Influências Externas: Coreopoema e Ntozake Shange

O uso de cinco personagens fictícias também faz referência ao livro for colored girls who have considered suicide when the rainbow is enuf”, de Ntozake Shange, que acompanha sete mulheres negras queer e é escrito no estilo original do “coreopoema” que, explica David, é uma peça de teatro feita de poemas, mas com coreo. Então, é uma história com início, meio e fim, mas contada com poesia e dança.”

Após se ter conectado com essa obra na escola, David foi enormemente influenciado por ela em “Desprotegidos”, mas também em “A Água Me Leva”, que foi desenvolvido com base nesse conceito de “coreopoema”, incorporando dança e poesia numa experiência audiovisual, imaginada pela visão artística do autor.

“Todos os meus projetos são, de alguma maneira, multidisciplinares ou transdisciplinares. Mesmo sendo cinema, por exemplo, é um filme de dança com poesia que começou com ritmo, porque poesia também é musical.”

“Esses Davids que eu tenho sido, ainda são”

A curta-metragem, tal como o livro, destacam-se por temas de autorrepresentação e uma identidade cíclica, ou seja, a ideia de que o crescimento não é linear, e que a nossa identidade inclui, simultaneamente, todas as versões do que somos. 

“Essa ideia da criança existe em tudo que eu faço, porque eu não acredito muito nessa ideia da criança interior, porque a criança que eu era ainda está ao meu lado. Eu a levo comigo. [...] Eu tenho todas as idades que tenho tido na minha vida. [...] Esses Davids que eu tenho sido ainda são.”

Água, Travessias & Depois do Norte
Como o título denuncia, uma das forças maiores do filme é a água, elemento que, para David, representa várias mensagens diferentes, tanto simbólicas como literais. Em primeiro lugar, existem as travessias transatlânticas de negros durante a escravidão, e o trauma geracional associado à água que acompanha essa viagem. 

“Eu venho de um povo que foi levado pelas águas contra a sua vontade, mas também venho de muitas pessoas que foram levadas pelas águas com a esperança de algo maior e melhor para suas vidas.”

No livro, a ideia de travessia é mais metafórica, tendo que ver com os obstáculos que os personagens têm de enfrentar. No filme, também há um sentido metafórico de travessia, mas é especificamente ligado à água. O movimento natural deste elemento, explica David, não é um conceito preto ou branco, de bom ou de mau, mas mais uma ponte de transição.

“Confiar no fluxo da minha vida [e tomar] a decisão de sair, de sair de um estado, de sair de um lugar físico, de sair de um lugar mental e psicológico e atravessar. Então, a decisão é comigo mesmo. Eu decido sair, mas depois disso, eu tenho de confiar nas águas para me levarem à terra firme.”

“A Água me Leva” faz parte de um projeto maior intitulado “Depois do Norte”, que Amado quer desenvolver ainda mais, usando os outros elementos da Natureza: terra, ar e fogo. Uma das suas visões é ter quatro salas de exibição, cada uma representando um elemento. A ideia principal do projeto é a travessia do Norte para o Sul global, questionando a ideia do Norte como destino final e propondo, em vez disso, um regresso consciente ao Sul. Tendo vivido em ambos, o David espera direcionar este projeto para o Sul, partilhando o seu trabalho lá, e completar essa travessia através da arte.

*com edição de Paula Cardoso

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Afrolink junta-se à Casa Capitão, com Mercado, O Tal Podcast, Cinema e Exposição

No próximo Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, que se assinala a 21 de Março, o Afrolink junta-se à Casa Capitão, para um sábado de consciencialização e celebração. O programa tem como mote o poema “Deixa Passar o meu Povo”, da moçambicana Noémia de Sousa, numa homenagem que evoca o centenário do seu nascimento, e comemora também o Dia Mundial da Poesia, igualmente assinalado a 21 de Março. Entre a luta anti-racista e a poesia, as actividades começam às 11h, com uma edição especial do Mercado Afrolink, e terminam às 20h, com um tributo à presença negra em Portugal, decorrente da última comemoração do “Black History Month”.  Pelo caminho, teremos um episódio ao vivo de O Tal Podcast, seguido de uma sessão de curtas-metragens, encerrada numa conversa com os autores, integrada no projecto “Democracy in Action”. A entrada é livre, e o repto colectivo: “Deixa Passar o meu Povo”, poetizava Noémia de Sousa, inspirando-nos a reconhecer os marcos racistas do passado, a confrontar as marcas raciais do presente, e a assumir as nossas vozes para contar e cantar os amanhãs! Em união. Vamos!

No próximo Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, que se assinala a 21 de Março, o Afrolink junta-se à Casa Capitão, para um sábado de consciencialização e celebração. O programa tem como mote o poema “Deixa Passar o meu Povo”, da moçambicana Noémia de Sousa, numa homenagem que evoca o centenário do seu nascimento, e comemora também o Dia Mundial da Poesia, igualmente assinalado a 21 de Março. Entre a luta anti-racista e a poesia, as actividades começam às 11h, com uma edição especial do Mercado Afrolink, e terminam às 20h, com um tributo à presença negra em Portugal, decorrente da última comemoração do “Black History Month”.  Pelo caminho, teremos um episódio ao vivo de O Tal Podcast, seguido de uma sessão de curtas-metragens, encerrada numa conversa com os autores, integrada no projecto “Democracy in Action”. A entrada é livre, e o repto colectivo: “Deixa Passar o meu Povo”, poetizava Noémia de Sousa, inspirando-nos a reconhecer os marcos racistas do passado, a confrontar as marcas raciais do presente, e a assumir as nossas vozes para contar e cantar os amanhãs! Em união. Vamos!

No próximo dia 21 de Março, todos os encontros passam pela Casa Capitão

Na obra “De Todos se faz um País”, Oscar Monteiro, um dos históricos da luta de libertação que afirmou e firmou a Independência de Moçambique, lembra-nos a força política da poesia.

“Ela exalta para a acção, ilumina, com o brilho intenso de um relâmpago, um momento da luta. É uma canção de combate”, assinala a determina altura, referindo-se ao papel da “poesia panfletária”, que contrapõe ao da “poesia intimista”, descrita como duradoura e permanente.

“Ela penetra, molda, pelo sentimento, a maneira de ser, intimiza-se e funde-se com o leitor, leva-nos mais longe, leva-nos por toda a vida. Valores e maneiras de pensar, sentimentos que, quando incorporados em nós, não saem com a facilidade com que sai a palavra ou o poema externo. Nesse sentido, fica-se poeta para toda a vida. E isso explica outros comportamentos, constância, ética, sentido dos outros”.

Recordo as palavras de Oscar Monteiro por encontrar nelas o agregador que, no próximo dia 21 de Março, junta o Afrolink à Casa Capitão para um sábado de celebração e consciencialização.

Além de assinalarmos o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, nessa data comemoramos o Dia Mundial da Poesia, pretexto para ‘umbilicar’ o programa ao poema “Deixa Passar o meu Povo”, da moçambicana Noémia de Sousa.

A homenagem à chamada “mãe dos poetas moçambicanos”, no ano em que celebramos o centenário do seu nascimento, serve de mote às reflexões que queremos despertar, e às acções que esperamos influenciar.

A proposta começa às 11h, com a abertura de portas do Mercado Afrolink, e estende-se até às 20h.

Até lá, lembramos que o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial foi instituído pela Organização das Nações Unidas em 1966, em memória das vítimas do massacre de Sharpeville, ocorrido seis anos antes, na África do Sul do apartheid.

A barbárie, protagonizada pela polícia e encerrada com 69 mortes e 186 feridos, ocorreu durante um protesto pacífico contra a chamada Lei do Passe, que obrigava a população negra a andar com um cartão, indicando os locais onde era permitida a sua circulação.

Mais de seis décadas depois do crime racista, as fronteiras raciais continuam a distanciar a Humanidade.

Esta programação também é um passo para nos aproximarmos. Confira tudo o que não pode perder.

Mercado Afrolink - O Regresso

Horário: 11h00 – 20h00

Espaço: Anexo/Unicorn Stage 

“Os passos das pessoas que andaram juntas nunca se apagam”, lembra-nos um provérbio africano que transmite a importância da união, princípio-guia que a plataforma editorial Afrolink implementa desde o primeiro dia, e que aplica à sua comunidade empreendedora.

A novidade constrói-se a partir do Mercado Afrolink, lançado em 2021 na antiga Casa Capitão, que, agora renovada, se volta a abrir a esta rede de pertença.

Mostra digital da Exposição “Black History Month”

Horário: 11h – 20h, com visita comentada das 19h40 às 20h

Espaço: Anexo/Unicorn Stage 

Em exibição ao longo do dia, no mesmo espaço onde decorre o Mercado Afrolink, a mostra digital da exposição "Black History Month" celebra a presença negra em Portugal e o seu contributo, a partir do reconhecimento de figuras que marcaram e continuam a marcar a História do país.

A colecção resulta de uma iniciativa da Embaixada do Canadá em Portugal, realizada com a parceria da AIMA - Agência para a Integração, Migrações e Asilo, reunindo 12 retratos dos artistas Jacquie Comrie, Brian Amadia e Kando.

A partir das 19h40, teremos uma visita comentada, prestando tributo a cada uma das figuras representadas, num momento para retratar o passado, reconhecer o presente e reparar o futuro.

Os 12 retratos criados para a exposição “Black History Month” estão agora em mostra digital

Casa Capitão convida O Tal Podcast

Horário: 16h00 – 17h30

Espaço: Primeiro Andar 

Com o tema “Desfazer o silêncio, confrontar o ruído, e assumir o lugar de fala”, as anfitriãs Paula Cardoso e Georgina Angélica recebem José Rui Rosário, criador d’ “O Lado Negro da Força”, e Justino Sacalumbo, host do “Despertador Podcast”, para um episódio ao vivo d’ O Tal Podcast.

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião.

Paula Cardoso, à esquerda, e Georgina Angélica, autoras d’ O Tal Podcast

Sessão de cinema “Democracy in Action” –  “Manifestos de Vidas Negras”

Horário: 18h00 – 19h30

Espaço: Sótão 

Aoaní, David J. Amado, Elísio Bajone, Indi Mateta e Josiana Cardoso cruzam olhares e experiências no grande ecrã, com curtas-metragens inéditas que nos guiam por histórias ainda por contar, e memórias por documentar.

Esta mostra resulta de um workshop conduzido por Michèle Stephenson e Joe Brewster, da Rada Studio New York, e insere-se no projeto “Democracy in Action”, que está a ser desenvolvido por um consórcio europeu, integrado, em Portugal, pelo CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG.

Depois da exibição, haverá espaço para uma conversa, com a presença dos autores e condução da jornalista Margarida Valença.

As curtas que serão apresentadas resultam de um workshop conduzido por Michèle Stephenson e Joe Brewster, da Rada Studio New York, enquadrado no projecto “Democracy in Action”

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