Ausência que é Resistência - memórias de quando África boicotou o Mundial de Futebol
Nesta semana em que se disputa a final do Campeonato do Mundo de Futebol, marcada, fora das quatro linhas, pelos protestos contra as políticas dos EUA e da FIFA, recordamos que, na contracorrente dos conformismos e medos que se alimentam e instigam aqui e ali, sempre houve quem tivesse resistido e combatido. Como as selecções africanas que, em bloco, recusaram participar no Mundial de Inglaterra de 1966, reconhecendo que o que estava em jogo, muito mais do que uma competição, era a dignidade de um continente inteiro. Olhando para esse exemplo, e perante um estado global de resignação e apatia que normaliza os crimes Trumpistas, importa reavivar a importância do boicote como via de contestação e transformação.
Kwame Nkruman ao centro, e Ohene Djan à sua direita
O recorde não passou despercebido: pela primeira vez desde a edição inaugural do Campeonato do Mundo de Futebol, 10 selecções africanas disputaram a prova, presença indissociável de outro marco histórico – também de forma inédita, o acesso à competição foi alargado a 48 países, quando, desde 1998, estava circunscrito a 32.
Feitas as contas aos apuramentos, Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão estrearam-se neste Mundial, proeza que muitos começaram por desvalorizar, atribuindo-a mais à nova matemática da qualificação do que ao mérito dos qualificados.
Nada de novo, portanto, se tivermos em conta que, ao longo da História, qualquer que seja o domínio de intervenção, todos incluem manobras de apagamento dos contributos negros.
É por isso sem surpresa que, ao ouvirmos falar do apuramento recorde de 10 selecções africanas para o Mundial, nada ouçamos sobre como o continente influenciou, com um boicote em bloco, uma maior abertura na competição.
Aconteceu em 1966, no Mundial de Inglaterra, e marcou um posicionamento que, a avaliar pelo pouco ou nada que sabemos dele, parece que nunca existiu.
O que sabemos é que o “esquecimento” está longe de ser acidental – permite sustentar a narrativa eurocêntrica e supremacista de uma África subserviente, sem consciência nem agência.
O que também sabemos é que os factos contam outra História, desmontando as distorções e manipulações de menorização de um continente, que resiste, desde sempre, a invasões, exploração de recursos e assassinato de qualquer possibilidade de liderança soberana.
No futebol não tem sido diferente, como demonstra Paul Darby, no livro “Africa, football, and FIFA: politics, colonialism, and resistance” – (“África, futebol e FIFA: política, colonialismo e resistência)” –, importante testemunho do tanto que continua por conhecer e reconhecer.
Dignidade em vez de humilhação, com a força de Kwame Nkrumah, Yidnekatchew Tessema e Ohene Djan
Antes do boicote ao Mundial de Inglaterra, por exemplo, as federações africanas contestaram a proximidade da FIFA e do seu então presidente, Stanley Rous, ao regime racista do apartheid, posicionamento que foi determinante para travar as tentativas da África do Sul de contornar a sua suspensão da prova.
Aos protestos contra o apartheid juntou-se a oposição às regras de qualificação – vistas como humilhantes –, traduzidas no boicote concertado das 15 equipas de África que poderiam ter disputado o apuramento a Inglaterra.
Em causa estava uma ‘convocatória’ profundamente colonial: das 16 vagas disponíveis, 10 estavam automaticamente reservadas para países europeus, quatro para representantes da América do Sul, uma para a América Central e América do Norte, incluindo o Caribe, e a derradeira vaga teria de ser disputada por três continentes – África, Ásia e Oceania.
A distribuição, assumidamente desequilibrada, exigia um absurdo e dispendioso plano de viagens – incomportável para as diferentes federações –, alinhado para favorecer o velho continente, e manter o resto do mundo sob a sua dominação.
Mas, antes como agora, a sanha colonialista veio embrulhada em propagandas de mérito: segundo o presidente da FIFA, Stanley Rous, os continentes africano e asiático ainda teriam muito a provar antes de tirar o lugar aos pesos-pesados da Europa.
O olhar enviesadamente racista, incapaz de reconhecer – e aliviar – o peso do colonialismo nessa avaliação, deu impulso ao boicote, que teve no etíope Yidnekatchew Tessema e no ganês Ohene Djan duas forças motrizes, suportadas pelo então Presidente do Gana, Kwame Nkrumah.
E nem foi preciso esperar outro Mundial para perceber que a ausência de equipas africanas da competição de 1966 se revelou profundamente acertada: dois anos depois da final de Inglaterra, conquistada pela anfitriã, a FIFA anunciava a decisão de garantir a África um lugar na prova, presença que se foi renovando e expandindo.
Agora, seis décadas depois do boicote, prenuncia-se mais um reforço de países africanos nos relvados, a partir de um novo alargamento do Campeonato do Mundo, de 48 para 64 selecções.
A possibilidade, antecipada pela FIFA, promete suscitar novos movimentos de resistência, já depois de, na presente edição, várias vozes terem contestado o formato. Foi o caso do seleccionador do Gana, Carlos Queiroz, para quem “a quantidade de equipas que se podem classificar para esta competição pode transformá-la em algo vulgar e comum”.
Questionando o valor de um Mundial disputado por mais países, o técnico tornou-se, com a sua opinião, um bom representante de velhas fronteiras coloniais, visíveis até no lugar que ocupa – o de homem branco aos comandos de uma selecção negra.
Mas isso Queiroz não questiona. Poucos o fazem, aliás.
“O futebol africano precisa de fazer uma escolha”
É assim que, sem qualquer problematização, encontrámos, nas 48 selecções apuradas para este Mundial, apenas três treinadores negros: Emerse Faé à frente da Costa do Marfim, Pape Thiaw nas orientações ao Senegal e, a liderar Cabo Verde, Pedro Leitão Brito, mais conhecido por Bubista.
Esta minoria negra nos comandos técnicos contrasta com a maioria negra que vemos nos relvados, evidenciando um problema há muito identificado, e que foi tema numa das conversas d’ “O Tal Podcast”. No caso, com o treinador Blessing Lumueno, que reflecte sobre como as ‘regras tácitas do futebol’ continuam a manter profissionais negros fora de jogo: “O jogador negro é conhecido por não pensar o jogo. Portanto, o treinador negro, como é que vai conseguir pensá-lo?”.
A realidade discriminatória está retratada no estudo daBlack Footballers Partnership (Parceria de Futebolistas Negros), focado na realidade da Primeira Liga inglesa. Segundo a pesquisa, os jogadores negros têm 50% menos probabilidades do que os colegas não-negros de prosseguirem para as equipas técnicas. Além disso, os treinadores negros, sejam eles principais ou adjuntos, têm 41% mais probabilidades de serem despedidos.
“As probabilidades de [jogadores negros] entrarem são menores. Se entrarem, têm menos hipóteses de ser promovidos e, se forem promovidos, têm mais probabilidade de serem demitidos”, concluiu Stefan Szymanski, um dos autores da pesquisa, rematando: “Gostaria de saber que outra explicação têm para isto, que não seja o racismo”.
Não temos, e também por isso, recuperamos os ensinamentos de Yidnekatchew Tessema. Além do papel central que assumiu no boicote de África ao Mundial de 1966, o etíope notabilizou-se na liderança da CAF - Confederação Africana de Futebol, onde apontou e abriu caminhos de mudança.
“O futebol africano precisa fazer uma escolha!”, sublinhava Tessema, atento ao êxodo do talento africano para as ligas europeias. “Ou mantemos os nossos jogadores em África, com a determinação de um dia alcançar o topo das competições internacionais e devolver ao povo africano a dignidade que tanto almeja; ou abrimos mão de qualquer ambição, e permitimos que os nossos melhores talentos deixem os seus países, permanecendo como eternos fornecedores de matéria-prima para as nações de elite”.
Neste cenário extractivista, antecipou Tessema, a afirmação do futebol africano estará sempre comprometida. “Quando os países ricos nos tiram os nossos melhores talentos, inclusive por meio da naturalização, não devemos esperar deles qualquer atitude de cavalheirismo em defesa do futebol africano”.
Devemos, isso sim, posicionarmo-nos, e retomar o caminho de quem lutou pelas nossas Independências. Com consciência, resistência e agência. Porque “o futebol africano precisa fazer uma escolha!”.