HISTÓRIAS

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Uma editora que só publica autores negros? Bem-vinda, Kiala! 

Olhamos para os catálogos dos grupos editoriais, percorremos a programação dos festivais literários, lemos páginas de divulgação e crítica de novos autores e o cenário mantém-se e ostensivamente branco. Da cor do país, dizem uns, rejeitando pintar Portugal a vários tons, sobretudo se estivermos a falar dos mais escuros. A recém-lançada Kiala assume o compromisso de destoar desta palete monocromática, agregando ao mundo editorial não apenas cores que não estão, mas cores que não se quer que estejam. Às páginas tantas, talvez se consiga perceber que o problema não é a Kiala existir. O problema é ter de existir. Eu que vos diga...e digo. 

Olhamos para os catálogos dos grupos editoriais, percorremos a programação dos festivais literários, lemos páginas de divulgação e crítica de novos autores e o cenário mantém-se ostensivamente branco. Da cor do país, dizem uns, rejeitando pintar Portugal a vários tons, sobretudo se estivermos a falar dos mais escuros. A recém-lançada Kiala assume o compromisso de destoar desta palete monocromática, agregando ao mundo editorial não apenas cores que não estão, mas cores que não se quer que estejam. Às páginas tantas, talvez se consiga perceber que o problema não é a Kiala existir. O problema é ter de existir. Eu que vos diga...e digo. 

Lá atrás, muito antes de me passar pela cabeça escrever e publicar livros, a minha amiga Inês, à época também colega de redacção, fez o que é bem reconhecida por fazer: funcionou como um algoritmo humano, programado para aproximar pessoas. 

De um lado estávamos nós, jornalistas com muitos caracteres de escrita para contratualizar, do outro uma pequena, porém promissora, empresa do sector editorial, que andava a causar furor não apenas pelo catálogo, mas pelos serviços que oferecia, na altura inovadores. 

À boa maneira portuguesa, lá se combinou um café de possibilidades, encerrado com o compromisso de envio de propostas por e-mail. O desafio era, aos meus olhos, bastante apetecível: escrever obras de bolso de não-ficção, sobre temas que despertassem interesse e curiosidade, e se pudessem arrumar em lógicas facilmente vendáveis.

Tudo isso aconteceu há uns bons 15 anos, mas, por mais tempo que passe, sinto que nunca me vou esquecer da sensação de desconforto com que saí daquele encontro – como se estivesse ali a mais, sem qualquer possibilidade de ser vista ou ouvida. 

Convenci-me de que seria impressão minha, e de que apenas havia uma maior afinidade do 'angariador' com as outras pessoas. Porque, nos antípodas do que se vomita por aí, as pessoas negras não passam a vida a ver racismo em tudo. Bem pelo contrário, lidar com o sentimento de desumanização associado à violência racista é de tal forma pesado, que – por mim falo – esse é o último cenário que quero considerar. 

Aliás, a cada exclusão racista que vivi, sempre quis acreditar que estaria enganada. "Não, não pode ser. Isso não faz qualquer sentido. Esta pessoa não me está a ignorar por causa da minha cor de pele". Agarrada a esta crença de sobrevivência, cumpri o que estava combinado. 

Entusiasmada com o projecto, pus logo as minhas ideias a trabalhar na construção de uma lista com uma dezena de propostas. O exercício não era muito diferente daquele que, todas as semanas, aperfeiçoava nas reuniões de planeamento editorial.  

Basicamente, teria de encontrar temas que se pudessem estender muito além das palavras que cabem num artigo, e, ao mesmo tempo, fossem capazes de surpreender – num registo misterioso, insólito e/ou revelador. 

Se a memória não me atraiçoa, a conversa passou pelo livro "Histórias de um Portugal Assombrado", da jornalista Vanessa Fidalgo, que começou por escrever uma reportagem sobre o assunto. 

Dizia eu, uns parágrafos antes, que me senti excluída, mas, na esperança de me ter enganado, lá enviei a minha quota-parte. Recordo-me de ter sido a primeira a fazê-lo – porque íamos falando sobre o processo –, e também a única a ficar sem resposta. Zero, nicles, nada. Nem sequer um "obrigada pela sua participação". 

Como em tantas outras situações, calei a minha revolta e segui caminho, não sem ter de testemunhar a marcação de mais cafés de conversa, aí já sem a minha indesejada presença negra. 

"Mas quem é que escreveu?" 

Anos mais tarde, já com o meu primeiro livro escrito, ilustrado e quase paginado, bati à porta de todas as editoras que me ocorreu interpelar. Estariam interessadas num livro protagonizado por heroínas e heróis negros? O primeiro do género em Portugal? 

Na única resposta que recebi, após cerca de 10 contactos, o desinteresse revelou-se estrutural. "Neste momento o plano editorial para os próximos dois anos está completamente preenchido, não se prevendo a inclusão de novas linhas editoriais", adiantaram-me, com uma nota de desencanto à mistura. "O mercado editorial está muito difícil, e as apostas das editoras acabam por se centrar no licenciamento internacional". 

Procurei apoio no então ACM – Alto Comissariado para as Migrações, também fui parar à CPLP e, pelo caminho, os planos de publicação da "Força Africana" passaram ainda pela inscrição numa conferência intitulada "Every Stories Matter", precedida de um concurso com o mesmo nome, no qual tinta testado a minha sorte. Sem sucesso. 

Paguei 30 euros para assistir à conferência, fiz questão de dizer que o valor era tudo menos inclusivo – pressuposto acoplado ao programa – e não hesitei nas abordagens. Em modo "pitch", interpelei uma das oradoras, fundadora de uma editora reconhecida e premiada pelo catálogo infantojuvenil, categoria na qual tenho três livros publicados, e outros três por publicar. 

Aproveitando o mote do encontro, apresentei a "Força Africana", quis saber como lhe poderia fazer chegar algumas páginas, e, embora tenha começado a conversa por declarar a minha autoria, no final tive de ouvir: "Mas quem é que escreveu?". Dei o benefício da dúvida que raramente me é dado – talvez a pessoa estivesse distraída às minhas primeiras palavras –, mas o olhar de desdém que se seguiu à minha resposta precipitou o fim de qualquer possibilidade de entendimento. 

Mas não sem antes se dar ao esforço de me explicar que tinha desafiado algumas figuras públicas negras a escrever para crianças. Ou seja, a mui aliada persona já tinha feito a sua parte pela inclusão, e o problema, estava-se mesmo a ver, é que a malta não sabe agradecer e aproveitar as oportunidades. 

O olhar condescendente explica, por exemplo, que, ao contrário das outras autoras que integram a mesma casa literária, a escritora Olinda Beja nunca tenha sido "agraciada", nas apresentações dos livros que vai publicando, com a presença da sua editora. 

A ausência, partilhada na Bienal “What's Beyond That Border”, recém-realizada em Viseu, evidencia o lugar marginal a que são relegadas as autorias negras, mesmo quando conseguem entrar no mercado. 

Pensemos ainda na obra seminal de Grada Kilomba, "Memórias da Plantação - Episódios de Racismo Quotidiano", publicada em Portugal em 2019, mais de uma década depois de ter sido lançada na Alemanha, em 2008. 

Acrescentemos James Baldwin à reflexão: o seu romance de estreia, "Go tell it on the Mountain" ("Se o disseres na montanha"), chegou ao país 65 anos depois de ter sido lançado. 

Idem para “The bluest eye” ("O Olhar mais azul"), de Tony Morrison, aqui publicado em 2023, mais de cinco décadas após ganhar vida. 

Se referências literárias negras e consagradas enfrentam estas barreiras, o que dizer dos novos autores? Por tudo isso e tanto mais, tenhamos a capacidade de ver e reconhecer que o problema não é a Kiala existir. O problema é ter de existir. 

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Em 2019 começou por partilhar sugestões de livros, e reflexões sobre a falta de diversidade, autoral e temática, no mundo editorial. De conteúdo em publicação, desbravou páginas, capítulos e títulos, popularizando-se como a autora do “Quem me Lera”, projecto que se tornou assinatura e marca digital. Tradutora, revisora e editora, Elga Fontes lidera agora uma nova chancela – a Kiala – onde o catálogo e a sua produção se constroem a partir de talentos negros. O Afrolink apresenta-lhe esta novidade, que se estreia no mercado com a obra “Feminismo na Periferia”, já à venda, e com apresentação marcada para as 18h30 de 11 de Junho, na Casa do Comum, em Lisboa.

Em 2019 começou por partilhar sugestões de livros, e reflexões sobre a falta de diversidade, autoral e temática, no mundo editorial. De conteúdo em publicação, desbravou páginas, capítulos e títulos, popularizando-se como a autora do “Quem me Lera”, projecto que se tornou assinatura e marca digital. Tradutora, revisora e editora, Elga Fontes lidera agora uma nova chancela – a Kiala – onde o catálogo e a sua produção se constroem a partir de talentos negros. O Afrolink apresenta-lhe esta novidade, que se estreia no mercado com a obra “Feminismo na Periferia”, já à venda, e com apresentação marcada para as 18h30 de 11 de Junho, na Casa do Comum, em Lisboa.

Sem meias-palavras, Elga Fontes anuncia ao que vem: “Contribuir para o alargamento da forma como nós, enquanto cidadãos portugueses em concreto, conseguimos ver e imaginar o mundo”.  A proposta constrói-se sob a chancela da Kiala, editorialmente dedicada à publicação de autores negros, e confronta-se, desde a primeira letra, com a estreiteza e incoerência de perspectivas que pretende dilatar.

Se por um lado há quem se apresse a condenar o projecto ao fracasso – “A maior parte do vosso público-alvo é analfabeto ou não quer saber minimamente de leitura, a não ser que seja o manual de instruções de como ‘montar’ um barco de borracha para invadir a Europa” – , por outro lado não falta quem veja nele uma ameaça tão grande que justifique a apresentação de uma queixa ao Provedor de Justiça.

Lembrando que o mercado está cheio de editoras que se dedicam a géneros literários específicos, especializando-se, por exemplo, em obras religiosas ou feministas, Elga, que é tradutora e revisora, sublinha que a Kiala tem de ser vista à luz dessa liberdade curatorial.

“Acho importante frisar isto: o facto de publicarmos exclusivamente livros de pessoas negras, não impede quem não o seja de participar no mercado editorial”.

Apesar da obviedade, depressa os protestos se alastraram por artigos de opinião, caixas de comentário e mensagens privadas em redes sociais, numa voragem de reacções em que, sem surpresa, as formulações racistas – como aquela que partilhámos há um par de parágrafos – , são a via escolhida para contestar o alegado racismo da Kiala.

“Para quem não estudou geografia, Portugal é um estado soberano cujo território fica no continente europeu, não em África”, lê-se num dos comentários, em que se apregoa o carácter branco da população lusa.  “É esta a sua matriz populacional, que não é alterada pelo facto de viverem no país alguns pretos, amarelos, mestiços ou às riscas”, prossegue a mensagem, exigindo “mais respeito pela casa do hospedeiro”.

“Feminismo na Periferia” e “A morte de Vivek Oji” inauguram a Kiala

O pensamento, cristalizado na fantasia de uma identidade racial monocromática, e na ideia de que pessoas não brancas são apenas paisagem social – sem o direito a afirmar as suas subjectividades –, explica bem a importância de uma editora com o foco curatorial da Kiala. 

“Esperamos que os nossos livros consigam inspirar os leitores, abrir espaço para outras formas de pensar e combater a facilidade com que ainda se desumanizam pessoas negras”.

A esperança, partilhada numa das publicações da chancela no Instagram, ganha corpo com o lançamento da obra  “Feminismo na Periferia”, de Mikki Kendall, já disponível para venda, e com apresentação marcada para as 18h30 de 11 de Junho, na Casa do Comum.

Segue-se, em Novembro, “A morte de Vivek Oji”,  da autoria de Akwaeke Emezi, que encerra o catálogo de publicações anunciadas para este primeiro ano de vida.

“Acho que estes dois livros entram muito bem nos dois verbos que queremos conjugar: ver e imaginar”, assinala Elga, antes de assinalar as diferenças entre títulos. “‘Feminismo na Periferia’ é, no grande plano das coisas, mais um sobre feminismo, só que é dos poucos traduzidos em Portugal que fala numa perspectiva interseccional”, aponta, acrescentando: “Fala sobre feminismo tendo como objecto principal, digamos assim, pessoas negras, pessoas periféricas, pessoas que tendem a ser excluídas dos ideais e do movimento feminista na prática”. 

Já a obra “A morte de Vivek Oji”, nota a tradutora, centra-se “numa pessoa negra, nigeriana, que se debate muito com a identidade de género, tema que ainda é escassamente abordado em Portugal”. Isto porque, apesar de existirem no país algumas publicações sobre pessoas trans e identidade de género, Elga explica que poucas reflectem a realidade de pessoas negras em contextos africanos ou afrodescendentes.

Confiante no poder transformador das leituras, a coordenadora da Kiala sublinha que os livros permitem “imaginarmo-nos enquanto agentes activos da sociedade que queremos construir, e na qual queremos viver”.

Por exemplo, em “Feminismo na Periferia”, a autora parte da própria experiência, marcada por violência, pobreza e hipersexualização, para, destaca-se na sinopse, analisar “temas como direitos reprodutivos, experiências de abuso, cultura popular e saúde mental”. Ao fazê-lo, prossegue o epítome, Mikki Kendall confronta falhas. “As correntes feministas convencionais raramente encaram a satisfação das necessidades básicas como uma questão feminista e, demasiadas vezes, concentram-se não na sobrevivência das muitas, mas no aumento dos privilégios de poucas. Essa miopia, alimentada por divisões internas e pelo privilégio étnico-racial e de classe, fragiliza a solidariedade entre mulheres e deixa, sobretudo, as mulheres negras e periféricas à margem”.

O poder inclusivo e combativo da literatura

Conseguimos ver melhor, a partir deste e de outros olhares de denúncia?

“Os livros dão-nos acesso a diferentes vivências, a partes de nós que se calhar não conseguimos ver no dia-a-dia, ou que temos dificuldade em partilhar com outras pessoas”, e assumem “um papel importantíssimo na definição da cultura e de uma sociedade mais igualitária e justa para todos”.

Desde logo, a literatura tem o poder de influenciar a linguagem que usamos. Na Kiala, o livro de estilo distingue-se por integrar a explicitação de como usar o sistem ELO, de linguagem neutral, ao mesmo tempo que lista uma série de termos a evitar, enunciando os substitutos.

“Pessoa negra em vez de preto, Estados Unidos da América, em vez de apenas América”.

E porque as palavras importam, Elga partilha como construiu o nome da chancela que agora coordena.

“Já tinha o nome na cabeça, mas ainda tive um processo de pesquisa. Kiala tem origens no kimbundu que é um língua bantu de Angola, e, nesse contexto, significa luz ou trazer luz”, explica, sem perder de vista outros sentidos.

“Em diferentes contextos culturais, pode ser lugar de alento, o lugar onde a galinha põe os ovos, e até líder de um grupo de pessoas que vão ser circuncidadas”, ilustra a editora, rendida ao reportório de possibilidades. 

“Achei engraçado que poderíamos adoptar também esse sentido metafórico da literatura negra, que pode ter diversos significados de acordo com diversas interpretações. É uma coisa viva por si só, não é homogénea”.

Bem vistas e revistas as leituras, Kiala tornou-se incontornável e, sendo indissociável do trabalho de Elga que se reconhece como angolana, nascida em Portugal – , é à identidade bantu que vai buscar a raiz.

 “Querendo ou não, é uma marca que está muito associada à minha imagem, enquanto mulher negra que tem tentado trazer uma maior diversidade para o meio editorial”.

O compromisso, iniciado em 2019, com o lançamento da página “Quem me Lera”, estende-se agora além das recomendações literárias. 

E, muito mais do que uma chancela dedicada à publicação de autores negros, a Kiala distingue-se por abrir portas a profissionais negros, nomeadamente para design e paginação.

“O nosso principal objectivo neste momento é tornar a editora sustentável algo que, por si só, já é bastante difícil neste sector, tão pequenino, com poucos apoios, e onde é tão caro publicar livros”.

O desafio acentua-se a partir do reconhecimento que “a maior parte das pessoas não compra livros, não gosta de ler, e não tem hábitos de leitura”.

Também por isso, a estratégia de afirmação da Kiala deverá passar pela articulação com outros projectos, igualmente alinhados com a divulgação da literatura negra, permitindo queo ciclo de vida de cada obra se prolongue para além da publicação.

“Queremos ir crescendo, mas não vamos crescer sozinhos”, pontua Elga, reafirmando a  vocação colectiva e combativa da nova chancela. 

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