HISTÓRIAS
David J. Amado: “Preferia ser atacado e até morrer como sou, do que viver como alguém que não sou”
“A Água Me Leva” é o mais recente filme de David J. Amado, tendo estreado em março em Lisboa, no Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, no âmbito do projeto “Democracy em in Action”. Seguiram-se outras exibições na Casa Capitão e na Associação Passa Sabi, a que se junta uma nova no próximo sábado, 2 de maio, na Rádio Quântica. Após ter assistido à última apresentação, o Afrolink encontrou-se com o produtor, bailarino, e artista na Fundação Gulbenkian. Uma oportunidade para falarmos sobre esta curta-metragem, que vai fazer parte de um projeto maior, intitulado “Depois do Norte”, mas também para conversarmos sobre o livro “Desprotegidos”, que se prepara para lançar.
“A Água Me Leva” é o mais recente filme de David J. Amado, tendo estreado em março em Lisboa, no Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, no âmbito do projeto “Democracy in Action”. Seguiram-se outras exibições na Casa Capitão e na Associação Passa Sabi, a que se junta uma nova no próximo sábado, 2 de maio, às 18h, na Rádio Quântica. Após ter assistido à última apresentação, a repórter Naya Chardon encontrou-se com o produtor, bailarino e artista na Fundação Gulbenkian. Uma oportunidade para falarem sobre a curta-metragem, que vai fazer parte de um projeto maior, intitulado “Depois do Norte”, mas também para conversarem sobre o livro “Desprotegidos”, que David se prepara para lançar.
David J. Amado, com Pedro Kussy (de costas), na curta-metragem “A Água Me Leva”
Por Naya Chardon*
Comecemos por perceber a história de David J. Amado. Em Portugal há nove anos, o bailarino já viveu nas Caraíbas, no Brasil, e em várias cidades dos Estados Unidos, Nova Iorque incluída, onde estudou música na Columbia University.
Conta que todos os locais o influenciaram, seja no trabalho artístico, em concreto na carreira na dança, ou na vida pessoal. Uma das razões pela qual viajou tanto tem que ver com o interesse por estilos de dança considerados mais “elitistas”, e muitas vezes menos acessíveis em zonas do sul global, onde nasceu. É o caso da dança clássica, em que se especializou, lançando, no ano passado, o projeto “Ballet para Todos”, que proporciona aulas gratuitas para jovens e crianças em comunidades marginalizadas. Mais do uma forma de expressão, David vê na dança clássica, um caminho para aprender a ter controlo sobre o próprio corpo, ou seja, uma capacidade de empoderamento.
“ A [música] é a minha base porque, antes de tudo, seja dança, seja cinema, seja teatro, eu preciso sentir alguma coisa no meu corpo em termos de ritmo.”
Autor do livro “Desprotegidos”, que está em fase de pré-lançamento e tem publicação prevista para maio, David também assina o filme “A Água Me Leva”, explorando, nestes dois projetos, o empoderamento e autonomia corporal.
O Corpo Estereotipado
Em “Desprotegidos”, o corpo negro masculino representa um dos temas centrais, com a partilha da experiência de abuso sexual entre homens. Através de cinco protagonistas, a obra mostra o percurso de redescobrir a individualidade após ter passado por um trauma; ao mesmo tempo que, na voz dos personagens, integra português europeu, português do Brasil e crioulo da Guiné-Bissau. Esta pluralidade linguística não é apenas uma consequência das diversas culturas à qual o bailairino foi exposto — é um exemplo de como o livro procura uma universalização da dor que ultrapassa fronteiras.
“Quando a pesquisa começa, eles [os cinco protagonistas] são bem estereotipados, mas ao longo do livro, as camadas de máscaras começam a cair; o público e também os personagens conseguem se ver mais autenticamente. [...] Eles conseguem perceber: existe uma identidade por trás dessa persona estereotipada de ser raivoso, forte, dissociado, fetichizado, ou domesticado. Há uma outra pessoa atrás disso.”
Embora o recurso a personagens fictícias permita ao autor distanciar-se da sua própria história, a metáfora da “ecdise” — o processo pelo qual os répteis abandonam a sua pele — introduz um movimento inverso: o de revelação.
“Essa ideia de ver uma cobra ou uma aranha sair da sua pele, e em que a pele deixada para atrás tem o mesmo formato do corpo antigo, sempre foi muito interessante para mim. Porque eu penso na maneira como muitas pessoas, não só homens gays e negros, usam tanta coisa, seja roupa, seja outras pessoas, como pele para proteger o que está ali dentro. Então, essa pele que todos os personagens estão a usar no início da peça é o estereótipo. Mas eu sou o tipo de pessoa que preferia ser atacado e até morrer como sou, do que viver como alguém que não sou.”
Desmascarar os personagens permite ao leitor aceder a fragmentos introspetivos e vulneráveis do autor, que explica como já tentou esconder-se vivendo “dentro dos estereótipos”, devido, nomeadamente, à proteção que isso oferece.
“É minha história, mas ao mesmo tempo não é. Então eu penso nas máscaras que uso, porque sou todos os cinco.”
Influências Externas: Coreopoema e Ntozake Shange
O uso de cinco personagens fictícias também faz referência ao livro “for colored girls who have considered suicide when the rainbow is enuf”, de Ntozake Shange, que acompanha sete mulheres negras queer e é escrito no estilo original do “coreopoema” que, explica David, é “uma peça de teatro feita de poemas, mas com coreo. Então, é uma história com início, meio e fim, mas contada com poesia e dança.”
Após se ter conectado com essa obra na escola, David foi enormemente influenciado por ela em “Desprotegidos”, mas também em “A Água Me Leva”, que foi desenvolvido com base nesse conceito de “coreopoema”, incorporando dança e poesia numa experiência audiovisual, imaginada pela visão artística do autor.
“Todos os meus projetos são, de alguma maneira, multidisciplinares ou transdisciplinares. Mesmo sendo cinema, por exemplo, é um filme de dança com poesia que começou com ritmo, porque poesia também é musical.”
“Esses Davids que eu tenho sido, ainda são”
A curta-metragem, tal como o livro, destacam-se por temas de autorrepresentação e uma identidade cíclica, ou seja, a ideia de que o crescimento não é linear, e que a nossa identidade inclui, simultaneamente, todas as versões do que somos.
“Essa ideia da criança existe em tudo que eu faço, porque eu não acredito muito nessa ideia da criança interior, porque a criança que eu era ainda está ao meu lado. Eu a levo comigo. [...] Eu tenho todas as idades que tenho tido na minha vida. [...] Esses Davids que eu tenho sido ainda são.”
Água, Travessias & Depois do Norte
Como o título denuncia, uma das forças maiores do filme é a água, elemento que, para David, representa várias mensagens diferentes, tanto simbólicas como literais. Em primeiro lugar, existem as travessias transatlânticas de negros durante a escravidão, e o trauma geracional associado à água que acompanha essa viagem.
“Eu venho de um povo que foi levado pelas águas contra a sua vontade, mas também venho de muitas pessoas que foram levadas pelas águas com a esperança de algo maior e melhor para suas vidas.”
No livro, a ideia de travessia é mais metafórica, tendo que ver com os obstáculos que os personagens têm de enfrentar. No filme, também há um sentido metafórico de travessia, mas é especificamente ligado à água. O movimento natural deste elemento, explica David, não é um conceito preto ou branco, de bom ou de mau, mas mais uma ponte de transição.
“Confiar no fluxo da minha vida [e tomar] a decisão de sair, de sair de um estado, de sair de um lugar físico, de sair de um lugar mental e psicológico e atravessar. Então, a decisão é comigo mesmo. Eu decido sair, mas depois disso, eu tenho de confiar nas águas para me levarem à terra firme.”
“A Água me Leva” faz parte de um projeto maior intitulado “Depois do Norte”, que Amado quer desenvolver ainda mais, usando os outros elementos da Natureza: terra, ar e fogo. Uma das suas visões é ter quatro salas de exibição, cada uma representando um elemento. A ideia principal do projeto é a travessia do Norte para o Sul global, questionando a ideia do Norte como destino final e propondo, em vez disso, um regresso consciente ao Sul. Tendo vivido em ambos, o David espera direcionar este projeto para o Sul, partilhando o seu trabalho lá, e completar essa travessia através da arte.
*com edição de Paula Cardoso
Welket Bungué: “Sou sujeito e objeto daquilo que estou a registar”
"Contemplação Impasse Tentativa” é o mais recente filme de Welket Bungué, estreado em Outubro do ano passado em Portugal, no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa. Com a Guiné-Bissau como palco, a curta-metragem transporta-nos para a atualidade do caos de uma feira, epicentro de uma série de observações sobre o passado político, marcado pela luta de libertação, e a presente governação, manchada de autoritarismo. Cinquenta e dois anos depois da Independência, o que o povo diria a Amílcar Cabral diante da questão: “Como é que veem o país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. Sem perder de vista o olhar sobre o futuro, Welket usa o cinema como resistência, e faz do telemóvel uma força de intervenção. Para conhecer nesta conversa conduzida pela estudante Naya Chardon, de 16 anos, que partilha com o Afrolink, o resultado de um encontro com o ator, performer, modelo e realizador.
"Contemplação Impasse Tentativa” é o mais recente filme de Welket Bungué, estreado em Outubro do ano passado em Portugal, no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa. Com a Guiné-Bissau como palco, a curta-metragem transporta-nos para a atualidade do caos de uma feira, epicentro de uma série de observações sobre o passado político, marcado pela luta de libertação, e a presente governação, manchada de autoritarismo. Cinquenta e dois anos depois da Independência, o que o povo diria a Amílcar Cabral diante da questão: “Como é que veem o país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. Sem perder de vista o olhar sobre o futuro, Welket usa o cinema como resistência, e faz do telemóvel uma força de intervenção. Para conhecer nesta conversa conduzida pela estudante Naya Chardon, de 16 anos, que partilha com o Afrolink, o resultado de um encontro com o ator, performer, modelo e realizador.
Welket Bungué, fotos de Kristin Berhge
Por Naya Chardon*
Entre poesia e paisagens pitorescas, o telemóvel de Welket Bungué atravessa o caos de uma feira guineense – a Lumo –, protegido por uma manta de invisibilidade. "Contemplação Impasse Tentativa" nasce ali, nesse olhar que observa sem ser visto — uma metáfora para fazer cinema num país onde ver é, em si, um ato político.
Mas quem é Welket Bungué?
Ator, performer, modelo e realizador, Welket Bungué nasceu na Guiné-Bissau em 1988, tem atuado em vários projetos, cofundou a produtora KUSSA, e escreveu o livro “Corpo Periférico”. Mais conhecido pelo papel principal que interpretou em “Berlin Alexanderplatz” (2020), Welket também realizou “Memória”, sobre Amílcar Cabral.
Em Novembro passado, numa das suas últimas passagens por Lisboa – enquadrada numa intensa rotina de filmagens e viagens – encontrámo-nos na Fundação Calouste Gulbenkian para uma conversa.
Sem reservas, Welket revelou como a arte sempre foi uma forma de se exprimir, pessoal e politicamente; e descreveu a sua metodologia como sendo de autorrepresentação: o ato de o próprio sujeito periférico se filmar, narrar e pensar, em vez de ser apenas objeto do olhar de outros.
"As imagens são filmadas enquanto ponto subjetivo, porque na minha obra eu sou sujeito e objeto daquilo que estou a registar", concretiza o cineasta.
“Contemplação Impasse Tentativa”, o seu mais recente projeto, permite observar como o realizador passa das palavras à ação.
Estreado no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa, no final do ano passado, o filme serve de mote para esta conversa, na qual abordámos temas como identidade, e refletimos sobre o cinema como ferramenta de resistência política.
Começámos pelo nome da produção: porquê “Contemplação Impasse Tentativa”?
Welket explica que, embora as três palavras se sustentem autonomamente, juntas ganham importância reforçada. "São convergentes, têm também como objetivo abrir uma perceção mais ampla e crítica sobre o filme".
Apresentando uma a uma, o realizador nota que "Contemplação" deve ser entendida não só no seu significado literal, mas também como conceito abstrato: enquanto movimento de sair de si próprio para ver as coisas acontecerem, com um olhar não-intrusivo.
Já o termo "Impasse" refere-se à situação política na Guiné-Bissau, gerida sob evidentes tendências autocráticas, e em que não se sabe se o país está a viver numa democracia ou numa ditadura.
Nem de propósito, uma das cenas centrais do filme acontece na feira de Lumo, onde a negligência de um trabalhador do Estado leva a que estacione a viatura num lugar indevido, interrompendo o negócio de todos, e gerando uma grande desordem.
“Foi apenas um carro, mas desestabilizou tudo”, nota o também ator, sublinhando a consequência: “As pessoas têm de trabalhar muito para tentar corrigir uma coisa que não foi provocada por elas”.
Não será assim demasiadas vezes? Welket assinala que, nesse cenário, o impasse é uma metáfora para o impasse em que o seu país se encontra, sem saber se vai andar "para a frente, para trás ou para o lado".
Finalmente, a palavra "Tentativa" traduz o sentimento rebelde e otimista de persistir, expressão de uma resiliência capaz de transportar o povo do país para "um lugar melhor."
A Manta de Invisibilidade
Enquadrado o título do filme, a conversa retorna ao primeiro conceito – de “Contemplação” –para adicionar um olhar concreto a essa ideia abstrata, possível a partir da figura do "missionário invisível".
“Era preciso que houvesse um olhar não intrusivo, para que pudéssemos testemunhar realmente o que está a acontecer no país, como as pessoas estão a lidar com tudo", explica o cineasta, acrescentando que aí reside o manto de invisibilidade que acompanha a câmara enquanto se filma.
Por isso, mais do que uma invenção cinematográfica, o “missionário invisível” é a projeção do próprio realizador, que põe em prática o método de autorrepresentação. Além disso, num contexto como o guineense, no qual a crítica pública é reprimida, a câmara invisível oferece a vantagem de se mover livremente, conseguindo ver, escutar e registar o que não pode ser dito.
Regressar em imagens
O processo vai-se revelando, na autodescoberta que tem sido o reencontro do realizador com as origens, iniciado em 2019, quase três décadas depois da saída da Guiné, em 1991. A essa primeira viagem seguiram-se outras, roteiro onde se destaca o regresso a Xitole, a sua localidade-berço.
Aconteceu em 2023, e envolveu um improviso sobre rodas: para poder registar e capturar esse momento, Welket, que seguia de autocarro, teve de pedir ao condutor para desencascar uma paragem.
"Houve um fracasso, no sentido em que embora o autocarro passasse por lá, Xitole não era uma paragem da viagem".
O "áudio" em audiovisual
A par do registo visual, Welket firma créditos no registo sonoro, compilando anos de viagem num mosaico audiovisual. Não estranha, por isso, que em “Contemplação Impasse Tentativa” encontremos imagens de arquivo, que vão muito além da Guiné-Bissau. É o caso do mar em São Tomé e Príncipe, da vista aérea de Portugal, ou dos planos da Nigéria e da Alemanha, todos extraídos de uma compilação seleta das suas idas e vindas.
‘Arrumadas’ as imagens, qual será o raciocínio que guia os diversos sons do filme? Por cada escolha, há uma intencionalidade, garante o realizador, sem descurar um único áudio. Seja o canto dos pássaros, o movimento do mar em São Tomé e Príncipe, ou a voz-off que lê a poesia do seu pai, Paulo T. Bungué.
“Cabral” é um dos poemas que se ouve na produção, aponta Welket, explicando que o mesmo representa uma homenagem a Amílcar Cabral.
Mais do que cuidar da escolha dos sons, o guineense sublinha a importância de afinar a edição: as alterações técnicas permitiram-lhe "deslocar as pessoas para um outro lugar" – o de contemplação.
"Embora fale na primeira pessoa, há a intenção de que a voz pareça também consciência”.
Cabral em eco: cinema entre memória e revolução
“Contemplação Impasse Tentativa” aborda vários temas políticos, seja direta ou indiretamente. Ao longo do filme, encontramos, por exemplo, alusões e homenagens a Amílcar Cabral, líder da luta pela independência contra o domínio colonial português, em Cabo Verde e na Guiné-Bissau.
A determinada altura, a ação encaminha-nos para um exercício de imaginação de uma pergunta que Cabral poderia fazer: “Como é que vocês veem o vosso país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”.
Com esta proposta, Cabral deixa de ser apenas uma figura histórica para tornar-se consciência coletiva.
"Qual é a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos e cidadãs, quando abrimos mão dos nossos direitos ou desacreditamos no sistema eleitoral democrático, que é o que se passa no país? É muito difícil ter-se um posicionamento político, porque há quase sempre represálias”, lamenta o guineense, prosseguindo: “Sem falar na questão dos recursos para poderes viver, para te poderes deslocar. Essas coisas acabam por suplantar o desejo de ser criativo".
As mensagens políticas ressaltam igualmente no diálogo que os poemas de Paulo T. Bungué criam através do tempo: entre o sonho revolucionário dos anos 1970 e o presente autoritário de um país em busca de voz.
Filmando o silêncio, o cineasta faz o país responder sem palavras.
"Por isso é que o filme manda uma pessoa invisível, que possa andar pelo país. [Sob este regime] já não temos manifestações públicas livres no país. Tu não podes ir agora para a rua com panfletos a dizer ‘Somos mais a favor dos direitos das mulheres, ou somos mais a favor dos direitos para a educação’. Não podes. Porque eles vão usar a polícia de intervenção rápida; vão disparar balas de borracha e jatos de água quente contra a população para a desmobilizar. Por isso é que o filme manda uma pessoa invisível, que possa andar pelo país — o governo não sabe que ele está lá, o povo também não sabe".
Pequenos ecrãs, grandes revoluções: um novo cinema guineense
Atento à realidade, Welket acredita que para criar uma indústria cinematográfica na Guiné-Bissau, que vê hoje como mínima, é preciso reinventar a arte, e recorrer aos telemóveis. O artista nota que cineastas como Flora Gomes ou Sana Na N'Hada têm produzido filmes desde o final dos anos 80 com as câmaras típicas, mas defende que para tornar o cinema mais acessível e democratizante - enquanto ferramenta de expressão política –, é preciso aprender a contar histórias usando o dispositivo móvel.
"Tendo em conta a conjuntura política em que vivemos, acredito que há muita coisa que precisa ser denunciada ou documentada para que possa haver um tratamento apropriado nos próximos anos. E o telemóvel é que o pode fazer. Usar os dispositivos móveis pode capacitar pessoas com um instrumento que pode mudar vidas."
Entre as histórias que devem ser contadas, o realizador inclui as que têm sido invisibilizadas, lembrando que é preciso desocultar vários capítulos do passado. O cineasta recorda, por exemplo, que durante a sua primeira viagem à Guiné-Bissau, ao conhecer o Memorial da Escravatura e Tráfico Negreiro de Cacheu, percebeu que teria de se comprometer com "um retorno mais pragmático e recorrente ao país, para poder resgatar novas histórias e contribuir para uma reinvenção do cinema guineense”.
“Contemplação Impasse Tentativa” é indissociável dessa consciência. No filme, Welket recorre à herança poética paterna como forma de manter viva a memória da libertação e promover esperança para uma sociedade onde a arte é também uma responsabilidade cívica.
Enraizado entre a memória de Cabral e o futuro de uma nova geração armada de telemóveis, o realizador usa o cinema como resistência, e incentiva outros a fazerem o mesmo.
*com edição de Paula Cardoso
Michèle Stephenson e Joe Brewster: “O filme é política. Queremos apoiar um movimento em que os afrodescendentes não implorem para ser vistos”
A autores de documentários premiados, como “Going to Mars - The Nikki Giovanni Project”, ou “American Promise”, Michèle Stephenson e Joe Brewster estiveram em Lisboa no âmbito do projecto “Democracy in Action”, que está a ser desenvolvido por um consórcio europeu, integrado, em Portugal, pelo CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG. Mais do que darem a conhecer o seu trabalho, exibido em sessões de cinema no Centro Cultural Cabo Verde, e no espaço Mbongi 67, Michèle e Joe conduziram uma formação intensiva em vídeo-documentário, exclusivamente dirigida a videomakers africanos e afrodescendentes. A experiência, que o Afrolink seguiu de perto, cumpre um dos propósitos maiores da dupla de cineastas: apoiar, local e globalmente, projectos de criadores negros emergentes.
O território da ficção desviou o cineasta Joe Brewster para o caminho da não-ficção. “Aprendi como o sistema não abraçava as nossas histórias, como não me ia deixar contar o que eu queria contar. Então, tive de fazer ajustes”. Há muito ‘convertido’ à arte do documentário, Joe aprimora-a há décadas ao lado da companheira Michèle Stephenson que, ao trocar uma carreira na Justiça pelos planos de cinema, somou à parceria de vida com Joe uma sólida aliança profissional. Fundadores da Rada Studio New York, e autores de documentários premiados, como “Going to Mars - The Nikki Giovanni Project”, ou “American Promise”, Michèle e Joe estiveram em Lisboa no âmbito do projecto “Democracy in Action” (DiA), que está a ser desenvolvido por um consórcio europeu, integrado, em Portugal, pelo CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG. Mais do que darem a conhecer o seu trabalho, exibido em sessões de cinema no Centro Cultural Cabo Verde, e no espaço Mbongi 67, Michèle e Joe conduziram uma formação intensiva em vídeo-documentário, exclusivamente dirigida a videomakers africanos e afrodescendentes. A experiência, que o Afrolink seguiu de perto, como parceiro do DiA, cumpre um dos propósitos maiores da dupla de cineastas: apoiar, local e globalmente, projectos de criadores negros emergentes. A missão concretiza-se através da ONG Rada Collaborative, uma extensão do seu estúdio em Nova Iorque, criado com um foco irremediavelmente político. “Estamos a fazer filmes que queremos ver, e não estão a ser feitos pelas comunidades brancas”, assinala Michèle, enquanto Joe lembra a importância de cada comunidade encontrar a sua voz. “Nunca faríamos um documentário sobre Portugal”, sublinha, defendendo que cabe à comunidade negra no país dar esse passo. “Queremos apoiar um movimento em que os afrodescendentes não implorem para ser vistos, em que não procurem uma razão para justificar a sua presença, porque eles construíram este país”.
Foto de Marianna Rios/CEsA, com Michèle Stephenson e Joe Brewster, na formação em Lisboa
Despida de crónicas e históricas narrativas de branqueamento, Lisboa apresenta-se inteira aos olhos da dupla de cineastas Michèle Stephenson e Joe Brewster: “É uma cidade bastante negra”, converge o casal.
Sob este ângulo partilhado, poderá a capital portuguesa transformar-se num pólo de produção da Rada Studio New York, casa que fundaram para valorizar, humanizar e projectar no grande ecrã a História, Cultura e vidas negras?
Aconteça o que acontecer, Joe é peremptório num destino: “Nunca faríamos um documentário sobre Portugal”, sublinha, defendendo que cabe à comunidade negra no país dar esse passo. “Queremos apoiar um movimento em que os afrodescendentes não implorem para ser vistos, em que não procurem uma razão para justificar a sua presença, porque eles construíram este país”.
O processo de sustentação começou a ganhar vida em meados de Junho, num workshop intensivo de vídeo-documentário, exclusivamente dirigido a videomakers africanos e afrodescendentes.
A experiência, nota Michèle, reforçou o compromisso colectivo que, desde as primeiras cenas, acompanha a acção da Rada Studio.
“Não se trata apenas de ensinar sobre como contar histórias, mas de criar uma comunidade de solidariedade, e também um sentido mais forte de agência, de ‘eu sou suficiente’, ‘eu posso fazer isso’, ou ‘eu tenho algo para contar’”.
O impacto, assinala a cineasta, mede-se bem pelas palavras de uma das participantes.
“Disse que aprendeu mais nos três dias que passou com este grupo, do que nos nove meses em que participou de uma outra formação em cinema”.
Desbloqueadores e amplificadores de vozes
A diferença salta à vista: no outro lado era a única mulher negra, e nunca se sentia suficientemente confortável para falar sobre a sua história; nesta capacitação sentiu-se vista, ouvida e acolhida, o que lhe permitiu desbloquear a voz.
O testemunho vai ao encontro do que Michèle e Joe têm observado, não apenas nos EUA, mas em todas as geografias por onde têm actuado.
Justamente por isso, a dupla de cineastas estendeu as suas operações à Rada Collaborative, organização sem fins lucrativos que se destina a apoiar, local e globalmente, projectos de criadores negros emergentes.
“Queremos assumir um compromisso de longo prazo, porque essas coisas levam tempo. Desde logo para as pessoas encontrarem a sua voz, e se sentirem confiantes nas histórias que estão a contar”, explica Michèle, já calejada nos ritmos cinematográficos de produção, exaustão e também alguma frustração.
Hoje com vários documentários premiados, a cineasta não descura a passagem de testemunho. “Há um papel histórico nisso”, considera, lembrando que a ausência ou apagamento de narrativas, argumentistas e realizadores negros acaba por desincentivar a entrada de profissionais afrodescendentes nesta indústria. “O padrão é sermos invisíveis”, aponta, enquanto Joe partilha como encontrou o seu lugar no cinema.
Iniciado na ficção, universo no qual chegou a assinar um par de produções, o parceiro de vida e de trabalho de Michèle alterou a rota a partir de um repto inesperado.
“Ela decidiu que ia fazer documentários”, conta, recuando cerca de três décadas nesta história.
Até aí ao serviço da Justiça, com intervenção na área dos Direitos Humanos, a cineasta acabou por incentivar a adiada especialização do marido na não-ficção.
“Na realidade, fui para Nova Iorque estudar documentário, mas morava no centro da cidade com muitos artistas, cineastas, actores e actrizes, e todos faziam ficção. Então, foi isso que fiz: comecei a escrever guiões”.
O hábito foi fazendo o monge, e, ao mesmo tempo, beliscando a fé na arte.
“Estava desencantado, porque na ficção passamos a maior parte do tempo a angariar fundos e, depois, há um período intenso em que se faz o filme”, adianta Joe, explicando que nesse percurso esbarrou com sólidas barreiras raciais.
“O dinheiro que se consegue depende muito do olhar com que se escreve, e normalmente tem que se escrever com um olhar branco, para que os personagens não ofendam a população dominante”.
Documentar para constar
O reconhecimento de que as regras da indústria cerceavam a sua liberdade criativa e possibilidades de expressão, favoreceu a entrega aos documentários.
“Aprendi como o sistema não abraçava as nossas histórias, como não me ia deixar contar o que eu queria contar. Então, tive de fazer ajustes. E como eu amo o ofício, comecei a vê-lo de forma diferente”.
Em vez de se debater com a ideia de uma “arte branca”, Joe rendeu-se “à arte de contar histórias”, uma das mais preciosas heranças africanas.
“O que um griot faz? Ele conta a sua história, a nossas histórias. Então, vejo-as como parte de uma necessidade cultural da qual fomos privados”.
O resgate da tecnologia ancestral permitiu ao cineasta perceber, de forma bem concreta, que não queria assinar produções de super-heróis.
“Os filmes mais poderosos são sobre uma empregada doméstica que basicamente cuida dos seus filhos e os ama, ou sobre alguém que está a passar por dificuldades, como o pai que está a tentar criar os filhos e manter a sua dignidade”.
Michèle reforça a ideia: “Estamos a fazer filmes que queremos ver, e não estão a ser feito pelas comunidades brancas. As histórias têm uma ressonância, porque vemos as nossas vidas no ecrã”.
Certeza americana
A força do efeito-espelho tornou-se especialmente expressiva a partir de “American Promise” que, ao longo de uma dúzia de anos, registou os desafios, marcadamente raciais, enfrentados por Michèle e Joe na educação de Idris, o filho de ambos.
“Pais negros de todo o país apareciam e levavam os seus filhos e os filhos dos seus filhos. Era quase um culto”, nota Joe, de volta ao 2013 de lançamento do documentário, que também acompanhou os embates vividos pelo melhor amigo de Idris.
A par da aceitação do público “American Promise” arrebatou várias distinções, com destaque para o prémio especial do júri no Festival de Sundance.
O amplo reconhecimento robusteceu a capacidade de Michèle e Joe financiarem as suas produções, habilidade que se revela cada vez mais vital, face a sucessivos retrocessos políticos, particularmente nefastos para projectos que representam comunidades sub-representadas e historicamente discriminadas.
“Trump quer que a sua narrativa domine, e está a silenciar todas as outras porque se sente ameaçado por elas”, assinala Michèle, defendendo que esta realidade pede compromisso redobrado.
“Temos de compreender que há um poder nisso: de nos arriscarmos a contar as nossas histórias. E não devemos ignorar o impacto que as histórias que escolhemos contar podem ter daqui a 20, 30, 40 anos”.
A partir desta consciência social, Joe acredita que há caminho para reverter os ataques às liberdades.
“Angariámos uma quantia enorme de dinheiro para um dos nossos filmes, provavelmente apenas porque as pessoas sabem que vai ser mais difícil de financiar. Então, investiram intencionalmente em Paul Robeson porque querem que a história seja divulgada. Mas todos os outros projectos estão a angariar metade do dinheiro que já deveriam ter angariado”.
Sejam quais forem os apertos e as folgas financeiras, a dupla de cineastas lembra a importância de construir audiências.
“Não nos limitamos a fazer o filme e a dar como certo que o nosso público negro vai aparecer”, diz Michèle, defendendo que “é preciso angariar fundos para o seu envolvimento, investir tempo na divulgação e nas exibições comunitárias, que se sabe serem necessárias para criar esse diálogo, e para que as pessoas se vejam a si mesmas”.
Nesse caminho, acrescenta Joe, impõe-se não perder o foco. “Estamos sempre a tentar descobrir quais as melhores histórias para contar, sabendo que não se pode contar todas”, aponta, realçando o dever de resistir, insistir e persistir. “O filme é política de muitas maneiras”.