HISTÓRIAS
Eva Cruzeiro: “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop na Assembleia da República”
Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.
Depois de ter dado muito que falar como a grande sensação das listas do PS às últimas Legislativas, Eva Cruzeiro destaca-se como uma das deputadas mais ativas da Assembleia da República, no combate à extrema-direita parlamentar. Firme nas suas intervenções, a também rapper, ativista e investigadora recebeu o Afrolink na ‘Casa da Democracia’, para uma entrevista conduzida por Margarida Valença, em que fala do seu papel na política e do impacto do seu mandato, ao mesmo tempo que reflete sobre o enfraquecimento dos partidos tradicionais, e a responsabilidade dos democratas e da comunicação social para a polarização e normalização do discurso de ódio. Sem recuos, afirma: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto”.
Eva Cruzeiro
Entrevista de Margarida Valença
Eva Cruzeiro, conhecida como Eva Rap Diva, tem sido um dos nomes mais falados da política portuguesa, nos últimos meses. Num momento em que a distância entre eleitos e eleitores parece aumentar, e em que a democracia é frequentemente descrita como mais frágil e polarizada, a deputada eleita pelo PS por Lisboa, em maio do ano passado, destaca-se por um percurso fora das elites político-partidárias e por uma forma de comunicar mais acessível, recorrendo também às plataformas digitais para fazer passar a sua mensagem.
Rapper, ativista e investigadora luso-angolana, cresceu na Arrentela, viveu vários anos em Angola e construiu uma carreira na música antes de entrar na política institucional. Pelo caminho, trabalhou em call centers e no atendimento ao público, e até mesmo em setores como a camionagem e a construção civil. Mais tarde, regressou à academia para estudar Ciência Política e Relações Internacionais, fazendo depois pós-graduações em Gestão Financeira e em Direitos Humanos.
Foi na Assembleia da República que nos encontrámos para esta conversa. Ao longo da entrevista, Eva Cruzeiro fala da entrada na política enquanto outsider, do impacto que sente que o seu mandato tem tido, e da forma como olha para o enfraquecimento dos partidos tradicionais num contexto de crescimento da extrema-direita. Defende que a política precisa de mais pessoas que tenham os “pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las”, e critica uma excessiva teorização das decisões públicas: “Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais têm apenas um conhecimento teórico.”
Insiste também na importância de comunicar a política de uma forma que chegue a todas as pessoas. “A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do Parlamento tem que perceber”, afirma, explicando que só quando consegue traduzir uma proposta para o quotidiano sente que está realmente a comunicar bem.
A conversa passou ainda pelos ataques de que tem sido alvo no espaço público e parlamentar, e pela forma como avalia a resposta das instituições democráticas face à normalização de discursos de ódio e de narrativas da extrema-direita. “Eu culpo os democratas”, diz, argumentando que essa normalização acontece quando não há uma reação firme aos primeiros sinais. Para a deputada, a ausência de resposta clara por parte dos partidos e das instituições abre espaço à legitimação de posições que atacam direitos e minorias. Pessoalmente, admite que este combate pode ter impacto, mas diz estar preparada para o enfrentar: “Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar.”
Há também espaço para regressar à música e ao lugar que o hip-hop continua a ocupar na sua vida. “É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República”, afirma, lembrando: “O hip-hop formou-me, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto.”
Como é que o teu interesse e a relação com a política foi evoluindo até seres deputada?
Desde miúda que sempre me interessei e gostei de política, mas não de uma forma estruturada. Tinha questões que achava que precisavam de ser contestadas, que podiam ser mais bem resolvidas, que podiam ter mais atenção. Mas era só isso. Ideologicamente, sempre tive uma educação muito de esquerda por parte da minha família. A minha avó, que é a matriarca da família, é uma mulher de esquerda. A minha mãe também, sendo mais ao centro. O meu pai que me criou – o meu padrasto – é um homem do Partido Socialista há muitas décadas. Sempre participou muito nas coisas do partido, mas nunca nos levou para esse mundo. Foi sempre um militante de base. Nunca ocupou posições de relevância nem teve aspirações políticas. Tive uma educação muito aberta no que toca à política. O meu pai e a minha mãe nunca me tentaram dizer “tens que gostar disto” ou “tens que escolher isto ou aquilo”. Quando me mudo para Angola, com 20 anos, é o próprio contexto que me faz ganhar uma ligação mais forte à política. Começo a compreender a importância de intervir politicamente na sociedade, através da minha arte e da minha participação cívica. Isso acaba por influenciar aquele que é o meu pensamento e a minha visão política para Portugal, e é aí que começo a estruturar-me melhor.
O curso surgiu quando, no meio disto?
Mais tarde decidi que queria estudar. Havia coisas que eu não compreendia e achava que uma licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais iria passar a fazer mais sentido para mim. Claro que, depois de a fazer, passei a perceber melhor muitas dessas questões, mas na altura em que estudei já era politicamente uma pessoa bastante sólida nas minhas ideias, na minha visão e na minha mundividência. Sempre tive muito interesse em Finanças. Fiz uma pós-graduação em Gestão Financeira para aprofundar os meus conhecimentos nessa área. Fui alguém que começou a aprender cedo, e sempre achei que o contabilista, o financeiro, as pessoas com quem eu trabalhava nesse setor, estavam muitas vezes a dar voltas e eu não conseguia perceber determinadas movimentações e decisões que eram tomadas. Então fui estudar para compreender melhor. Eu sou muito assim: não quero saber se um tema é sobre medicina, ambiente ou construção. Quando tenho dúvidas sobre uma matéria, vou estudá-la de forma aprofundada e ponto final. Acho que o que me aconteceu com as Finanças – e foi algo que mudou muito a minha vida – foi ganhar uma educação financeira sólida. Isso ajuda-nos a estruturar a nossa gestão pessoal. O bem-estar das pessoas está também muito ligado à questão financeira. Também estudei Direitos Humanos nesse sentido. Queria aprofundar mais. Para fazer advocacy é importante estarmos bem informados, por isso fiz uma pós-graduação em Direitos Humanos. Estudei desenvolvimento recentemente, em Londres, e agora estou a fazer um doutoramento. Tudo na busca de mais respostas e de me sentir mais segura para abordar determinadas matérias.
Agora que já levas algum tempo de mandato, e olhando para o contexto e as ideias com que chegaste, o que é que, por dentro, percebes como as maiores dificuldades? E que balanço fazes do que tem sido mais desafiante e mais gratificante?
Nós precisamos de pessoas mais executivas na política. Os políticos de carreira, os tecnocratas, são muito importantes, mas acho que precisamos também de mais pessoas com os pés no chão, do dia-a-dia, que conheçam as coisas por fazê-las e vivê-las. Temos muita gente que decide sobre matérias sobre as quais tem apenas um conhecimento teórico, ou com as quais não tem uma ligação próxima. Decidem sobre a vida de pessoas de certas profissões, sobre áreas geográficas que não conhecem, onde não estão, que não vivenciam. Percebo que quem chega a cargos de decisão e de poder possa estar mais ligado ao trabalho político em si, mas o trabalho de campo faz muita diferença. E isso não é um problema da esquerda nem da direita. É um problema do sistema político português. Isso tem feito com que algumas políticas públicas não sejam desenhadas da forma mais adequada. É isso também que leva a que, em alguns casos, na sua advocacy política, não se consiga fazer a abordagem mais adequada para chegar a soluções verdadeiramente eficientes e eficazes para as pessoas que delas precisam.
Nesse sentido, o que é que sentes que pessoalmente tens acrescentado, sendo uma pessoa outsider?
Acho que trago um bocado isso. Já vivi dentro e fora de Portugal muitos anos. Cresci aqui e, nos últimos anos em que cá estive, vivi sempre como uma pessoa que partilha o dia-a-dia de qualquer português. A minha convivência social é com pessoas que não estão ligadas à política. Tenho amigas na Buraca, que vivem em Cascais ou em Oeiras, na Margem Sul, no Porto, em Gaia, ou no Alentejo, em Grândola. Visito essas pessoas, durmo em casa delas, elas dormem na minha, vamos a festivais juntas, vamos a restaurantes. Tenho um irmão que vive na Guarda, numa aldeia onde ele e a esposa são dos mais jovens, depois de terem vivido 10 anos em Londres e decidido voltar para o interior de Portugal. Nos últimos anos estive em todos esses lugares como uma pessoa comum. Acho que tenho uma leitura do território, da sociedade e dos problemas um pouco diferente de quem esteve dedicado 100% à política – com muitas aspas, porque não é só o trabalho político que é feito pelos atores políticos. O trabalho político é sério, difícil, exige muito empenho, muito estudo e muita escuta, e muitos intervenientes políticos fazem-no. Mas há um outro mundo que enriquece muito a política quando entra nela. Com toda a modéstia, acho que acabo por trazer um pouco disso.
Diria que há também duas coisas relevantes na forma como te expressas: uma certa leveza, e acessibilidade na linguagem que usas. Isso é intencional?
É. Uma das melhores coisas que me aconteceu quando fui fazer o mestrado em Inglaterra foi tê-lo feito em inglês. Há muitos termos técnicos da economia política que aprendi e trabalhei em inglês. De forma natural, não os trago diretamente para a língua portuguesa. E como tenho o domínio deles em inglês, quando os transporto para o português faço-o de uma forma muito mais suave do que, se calhar, outras pessoas que estudaram as mesmas matérias em português, ou do que eu própria faria se estivesse a falar em inglês. Mas também influenciou o facto de ter feito a minha carreira musical em Angola. Quando comecei a tornar-me muito conhecida em Angola, percebi que havia termos na minha linguagem que eram barreiras. Inclusive o sotaque português, e o facto de falar muito rápido eram um problema. Já aí, há 10 anos, tive que fazer um esforço para falar mais devagar, usar termos mais acessíveis e até linguagem mais próxima do dia-a-dia, para me aproximar das pessoas. Esse exercício acaba por nos ensinar a fazer da língua algo que nos une e aproxima. Isto não é algo totalmente natural para mim. É um esforço que faço nos debates na televisão, nas entrevistas, é uma prática diária. Porque não me interessa passar a ideia de intelectual. Interessa-me passar a ideia, que acho que é aquilo que eu sou, de uma pessoa como qualquer outra, que quer ser ouvida e entendida por qualquer outra pessoa.
Isso é algo que muitas vezes afasta as pessoas da política: esta noção de que se fala em “politiquês” ou “economiquês”. Muitas vezes as pessoas até têm interesse, mas sentem que aquilo que ouvem na política, ou mesmo na comunicação social, está codificado numa linguagem inacessível. Há uma barreira entre querer perceber um assunto e conseguir realmente compreendê-lo. Ao mesmo tempo, há temas que são complexos e que, quando se simplificam demasiado, podem perder rigor. Como é que se garante esse equilíbrio?
O convívio com as pessoas comuns do dia-a-dia ajuda-nos a fazer isso. Por exemplo, eu falo de propostas com a minha avó. E ela faz-me perguntas em que, por vezes, o primeiro sentimento que eu tenho é “como é que ela não sabe?”. Não exteriorizo isso, obviamente. Mas penso: eu é que comuniquei mal. Então procuro explicar de uma forma que entenda. E só quando ela percebe é que sei que estou a falar bem sobre o tema. A minha avó tem que perceber, a minha vizinha tem que perceber. A senhora das limpezas do parlamento tem que perceber. O senhor da oficina onde levo o meu carro a fazer a manutenção tem que entender. Um exemplo é o pacote laboral. No meu dia-a-dia, tenho falado com pessoas, e muita gente diz: “Temos que lutar pelos nossos direitos trabalhistas”. E eu pergunto: “Mas qual é a coisa do pacote laboral que está errada?”. E muita gente não consegue explicar. Entretanto, fiz um vídeo num centro comercial, no Colombo, sobre o banco de horas. Naquele vídeo expliquei, de uma forma muito básica e prática, o que é que pode acontecer se esta nova proposta para o banco de horas, que está neste pacote laboral, passar. Aquele foi um dos vídeos com mais visualizações do meu Instagram, Facebook e TikTok. Já passou um milhão de visualizações, e é um vídeo a falar sobre uma proposta concreta deste governo, em relação à qual estou contra. E as pessoas começaram a partilhar, porque perceberam de que forma iam ficar prejudicadas. Claro que nem sempre a gente consegue explicar. Eu estou nesse exercício constante de me melhorar nesse sentido. E essa melhoria consigo fazer com o contacto direto com as pessoas, que para mim é fácil, porque o meu meio já é um meio de pessoas que não são políticas, dos meus amigos, etc. Não tenho um amigo próximo que seja um ator político e uma pessoa com uma carreira na política: a maior parte dos meus amigos são pessoas super comuns, umas com mais formação, outras com menos. Os meus amigos da escola continuam a ser os mesmos. Então sou obrigada a ter essa convivência com todas essas pessoas.
Estamos a viver um momento em que as democracias estão em crise. Há um lado relevante na renovação dos atores políticos, mas, para além disso, o que consideras necessário mudar ou repensar no espaço onde atuas? Por exemplo, o próprio PS, como muitos partidos de centro-esquerda e centro-direita na Europa, tem vindo a enfraquecer. Qual a tua análise sobre as razões desse fenómeno, e o que pode ser feito para o contrariar?
Algumas propostas de uma certa esquerda surgiram sem o devido enquadramento, informação e trabalho de educação à sua volta. E isso acabou por distanciar essa esquerda das pessoas. Por exemplo, quando falamos de racismo, não basta dizer que ser racista é mau. É preciso contextualizar: de onde parte o racismo, porque é que existe, o que gera numa sociedade. As próprias pessoas, através de um pensamento crítico treinado e estruturado pela educação, devem chegar à conclusão de que o racismo é negativo. Como esse trabalho não foi feito de forma consistente, hoje não temos ferramentas suficientes para responder, de forma eficaz, quando aparecem pessoas a perguntar “qual é o problema de ser racista?”, “qual é o problema de chamar preto a um preto?”, “qual é o problema de eu dizer o que penso”. Vivemos numa estrutura que fomenta o racismo, e há quem se aproveite disso para dividir e capitalizar politicamente. As pessoas não foram devidamente informadas, formadas e educadas para lidar com este fenómeno. O mesmo aconteceu com a misoginia. Durante décadas, falou-se dos direitos das mulheres, da igualdade e da diversidade, repetindo-se que é errado haver discriminação, ou que um homem ganhe mais do que uma mulher. Mas muitas mulheres e muitos homens não compreendem verdadeiramente o que está em causa nessa luta. Há uma certa esquerda que acha que tudo isto é óbvio. Mas não basta parecer óbvio. As mulheres ganharem menos pode parecer evidentemente injusto, mas nem sempre se explicou porquê. E depois surge um charlatão ou uma charlatona a dizer: “As mulheres ficam grávidas, o patrão tem que pagar o salário nesse período, portanto é normal que ganhem menos porque podem dar menos lucro.” Um argumento destes pode parecer ridículo para alguém à esquerda, mas não é ridículo se houver quem acredite nele. Não é ridículo se conseguir provocar retrocessos na luta pelos direitos das mulheres. Ridículo é não termos preparado as pessoas para compreender por que razão esse argumento não faz sentido numa sociedade democrática e liberal como a nossa.
Há um certo moralismo à esquerda?
Claro. A moralidade não é um problema quando vem acompanhada de informação. Quando não vem, pode tornar-se repressiva. Este trabalho de ajudar as pessoas a compreender o porquê de determinadas causas, e porque é que vale a pena lutar por elas falhou em muitos casos. Em relação a várias questões foi bem feito. A esquerda, a nível global, tem vitórias, avanços e transformações sociais incríveis. Mas houve também muito que poderia ter sido mais bem trabalhado. Acredito que parte do crescimento da direita resulta disso. Mas também há um fator cíclico nas sociedades. Não tem sido possível garantir que todos se sintam satisfeitos, e essa insatisfação, essa frustração acumulada, leva muitas pessoas a mudar a sua visão política. Agora há muita gente a deslocar-se para a direita. Acredito que, daqui a alguns anos, depois desta fase, possa haver um novo movimento de aproximação à esquerda. Porque não vejo perfeição absoluta em nenhum dos lados. Não acredito que a esquerda seja perfeita e a direita totalmente imperfeita, ou vice-versa. É por isso que me posiciono ao centro, com tudo o que isso tem de problemático. Sou uma pessoa de centro-esquerda, consciente das suas virtudes, mas também das suas lacunas.
E quais são?
Sou de centro-esquerda, defendo a minha visão, então deixo as críticas para quem não gosta dessa visão.
A extrema-direita tem vindo a ganhar muita força a nível parlamentar. Desde que começaste o teu mandato, já te mandaram “para a tua terra” no Parlamento. Num programa de comentário com a deputada Madalena Cordeiro sobre este episódio, ela dizia: “A Eva não é da Arrentela? Então era só dizer que era da Arrentela”. Noutro programa, com a deputada Rita Matias, a propósito das presidenciais, ouviu-se coisas como: “De repente parece que estamos ali as duas na Arrentela a falar no bairro.” Ou ainda, quando falavas da expressão “três Salazares” usada por André Ventura, Rita Matias respondeu: “É uma expressão popular. Pois, porque a Eva passou 15 anos em Angola e por isso não sabe o que é que os portugueses sentem na vida real. Tem que estar mais em Portugal.” Coisas que antes chocariam, como as declarações de André Ventura, em 2017, sobre a comunidade cigana, hoje tornaram-se quase banais, parte do dia-a-dia. Como é que isto te faz sentir e que peso tem no teu quotidiano, em plenário? Como lidas com este discurso tóxico crescente?
Eu culpo os democratas. Os grandes partidos da nossa democracia são quem eu culpo por isso ter evoluído, e para nós termos retrocedido para este estágio. Mas também culpo a comunicação social. Estes são os maiores responsáveis. Claro que existe um contexto histórico e social que facilita a passagem desse tipo de narrativas ao longo do tempo, mas a normalização não é feita quando o PS ou PSD dizem “ah, isto é normal”. A normalização é feita quando alguém faz um ataque racista, por exemplo, e está toda uma sala a assistir, escandalizam-se, mas continuam a dialogar com aquela pessoa. Imaginemos que estamos numa sala e, sem autorização, um homem toca no peito de uma mulher. Se apenas olharmos e dissermos “isto é errado, é assédio”, e continuarmos a conversa, na vez seguinte ele vai pôr a mão outra vez. E depois outra. E vamo-nos habituando a que aquele homem seja um abusador e deixamos passar. A normalização faz-se assim. Faz-se na reação aos primeiros sinais. Se não houver logo uma punição que corte e mostre que aquilo não é permitido, aquilo vai entrando, como se puséssemos uma vaselina. Quando damos conta, já dominou o espaço e já se normalizou. Quando aparece o André Ventura, e faz-se sinalizações de qual era a sua matriz e base ideológica, e as nossas instituições o permitiram, abriu-se a porta para aquilo que temos hoje em dia. Quem permite que aquilo permaneça e dialoga com eles abre a porta. Podem dizer: “Mas tu também debates com a Rita Matias.” Sim, mas eu desconstruo a narrativa dela. Ninguém tem dúvidas de que ela não sai ilesa desses ataques quando os faz. Eu já encontro este fenómeno instalado. Mas há anos podia ter sido travado. E não é uma postura de censura. Quando prendemos um violador, não estamos a censurar o violador. Estamos a proteger as vítimas e a repor a ordem. A minha pergunta é: as pessoas vítimas de racismo, xenofobia e discurso de ódio estiveram a ser protegidas? Parece-me que não.
Se a liberdade de expressão de alguém está a atacar a dignidade de outras pessoas e ninguém faz nada, isso não é apenas liberdade de expressão. É um sistema que não está a proteger quem tem que proteger. Depois, a comunicação social também é cúmplice. Esta fase de crescimento da extrema-direita coincide com uma fase frágil da comunicação social. Com o crescimento da internet, as plataformas digitais e os canais de YouTube estão a crescer muito. A comunicação social portuguesa tradicional tem de pensar em como se reinventar, e faz um caminho mais fácil: agarrar audiências através do choque e da polarização. Não porque tenha criado melhor entretenimento, ou melhores formas de fazer jornalismo e de informar de maneira mais apelativa, mas porque abre espaço a uma extrema-direita radical, que faz um discurso que choca, que polariza, e que capta o interesse das pessoas. E não capta apenas o interesse de quem é da extrema-direita. Capta também o interesse de quem transforma isso no seu novo entretenimento.
Até pessoas de esquerda, quando ouvem dizer que o líder da extrema-direita vai à televisão, muitas vezes vão ver, às vezes só para ver aquele horror. Hoje, o horror traz audiências à comunicação social. É por isso que vemos horas de Gaza, horas da Ucrânia, horas de terramotos e de desgraças. Esse horror gera audiência. E eu não vi, até agora, ninguém na comunicação social a discutir seriamente outras formas de captar a atenção das pessoas. Também não vi, ao nível das nossas instituições, uma discussão sobre como, através da informação, da educação e das novas tecnologias, podemos mobilizar a atenção das pessoas para outras coisas, através de outros sentimentos que não apenas o choque, o horror, a fomentação do ódio e da polarização. Será que, através de outro tipo de ação, de outro tipo de estímulo, conseguimos audiência? Estamos numa fase em que parece que acreditamos que só isto resulta na comunicação, porque nem sequer houve, pelo menos do que é do meu conhecimento, um verdadeiro esforço para procurar outros caminhos que mantenham a comunicação social relevante e interessante para o povo português.
E, a nível emocional, como é viver diariamente com a sensação de que a democracia está mais frágil do que alguma vez esteve desde o 25 de Abril? Assistir a isso em primeira mão, lidar com esses protagonistas no dia-a-dia, num contexto em que a banalização do ataque se estende do Parlamento ao comentariado?
Ainda não parei para fazer uma grande análise ou reflexão sobre as minhas emoções. Acho que as pessoas que estão na frente de combate têm que, de certa forma, desumanizar-se e perceber que atrás delas existem milhares de pessoas que precisam que elas façam uma luta bem feita. As pessoas que sofrem com o crescimento da extrema-direita, que são desumanizadas, humilhadas, que veem os seus direitos limitados, e são gratuitamente atacadas por quem as instrumentaliza para ganhar votos, são muito mais do que eu e, em conjunto, muito mais importantes do que eu, e são a minha principal preocupação. Se sair daqui emocionalmente destruída, será um dano colateral com o qual estou preparada para lidar. Alguém tem que fazer este trabalho. Não é fácil, mas os danos emocionais que eu possa sofrer valem a pena pela luta que estamos a fazer. Se tenho a oportunidade de ser eu a fazê-la, então fá-lo-ei sem medo do impacto que estes embates diários e a violência que esta gente traz, para o Parlamento e para a sociedade, possam ter em mim.
Vens do hip-hop, movimento que em Portugal foi crucial na afirmação do discurso e narrativas antirracistas, com protagonistas como o General D ou o Chullage, que intervieram de forma assertiva numa altura em que esses discursos eram completamente marginais. Sentes que estás a continuar esse legado? Há simbolismo em haver alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República?
É de um enorme simbolismo ter alguém do hip-hop a ocupar um espaço na Assembleia da República. O hip-hop tem sido um dos maiores espaços de ativismo político na sociedade portuguesa. Eu cresci na Arrentela até uma parte da minha vida, e comecei a ouvir Chullage e Red Eyes Gang muito cedo. Obviamente que isso mexeu comigo e ajudou a definir a pessoa que sou hoje. Sou muito grata, e ainda não tive a oportunidade de falar sobre isso e agradecer da forma adequada, mas o Chullage, o Boss AC, os Black Company, os TWA, os The Blazz e muitos outros artistas que ouvi há muitos anos foram muito importantes para aquilo em que me tornei. Há pouco falávamos da parte psicológica de lidar com estes ataques, mas também tenho que dizer que o hip-hop me formou, blindou-me, fortificou-me e preparou-me muito bem para lidar com tudo isto. Acredito que há uma grande probabilidade de sair ilesa por causa da escola hip-hop. Não posso dizer que sou a continuação do legado do Chullage ou do General D. Acho que seria muita arrogância da minha parte.
Digo no sentido de seres uma representante do movimento
Sim. Vejo o que fiz no hip-hop como a grande obra da minha vida. Se não viver muito mais, tudo o que fiz é suficiente para ir para onde eu for orgulhosa do meu percurso. O meu lugar no hip-hop fala por si. Consegui quebrar barreiras espetaculares. Hoje em dia, as pessoas encontram-me e dizem: “Ah, tornaste-te deputada. Uau.” E eu penso: eu já sou a Eva Rap Diva há muito tempo, e aquilo que fiz enquanto Eva Rap Diva já era muito “uau”. Ser deputada é uma grande responsabilidade, claro, mas eu já ando a fazer coisas “uau” há muito tempo. Muitas pessoas em Portugal não têm noção da dimensão do trabalho que fiz, mas no hip-hop deixo um legado do qual me orgulho. Talvez um dia alguém queira estudar e perceber como é que uma mulher como eu chegou ao hip-hop da forma como chegou, o que fez. E se existe hoje uma geração de rappers mulheres na lusofonia, pelo que sei e pelo que oiço dizer, também vem dessa influência da Eva Rap Diva. E isso deixa-me orgulhosa, com um sentido claro de missão cumprida.
Nos últimos anos, assistimos a uma afirmação muito forte de artistas lusófonos e afrodescendentes, por exemplo, os Calema a encherem o Estádio da Luz, ou o “Nova Lisboa” do Dino D’Santiago a ganhar um palco enorme, trazendo para o centro do debate questões como o racismo e a inclusão. Como é que vês este momento da música, e do hip-hop em particular, nesse contexto?
Há uma polarização na nossa sociedade que tem a ver com as expectativas que as pessoas tinham daquilo que seria a democracia, a Europa, Portugal na Europa, a globalização. O acesso de todos ao Serviço Nacional de Saúde, a uma educação e a uma vida plena, próspera, com bem-estar. E depois há a questão que a extrema-direita traz, que é a questão identitária, racial e nacionalista. Temos que diferenciar uma coisa da outra, porque há muita gente que defende a extrema-direita e depois fica a ouvir kizomba dias e dias a fio. Culturalmente, e a nível social, nós estamos mesmo todos juntos e misturados. Mas há depois quem agarre a frustração das expectativas e ponha tudo no mesmo saco. E há muita gente que acaba por ficar dentro desse saco porque realmente quer agarrar-se a alguma coisa. Mas a música e a arte demonstram que Portugal é mesmo este país dos Calema, do Dino D’Santiago, da Eva Cruzeiro, da Amália, do Slow J, da Ana Moura, da Carolina Deslandes e do Sérgio Godinho. Este é um Portugal de várias gentes, com várias formas de comunicar, de cantar, de dançar, de falar, de viver e de sentir. Acho que a música acaba por ser a prova factual disso. Os artistas mais ouvidos em Portugal, nos últimos anos, são jovens negros afrodescendentes. Olha que maravilhoso que isto é. Isto é o que nos define. É o que a gente segue, o que a gente ouve, o que a gente compra, o que a gente comemora. E é este Portugal que temos que lembrar que existe, e que nós somos. Não é todas as outras coisas que andam por aí a tentar fazer parecer que o país é: um Portugal dividido, que isola, discrimina, humilha e fere a dignidade das pessoas, só por causa da sua cor de pele ou da sua orientação sexual. Esse não é o nosso Portugal. Isso é um Portugal que eles estão a querer que o nosso Portugal seja. E nós vamos resistir a isso.
Mas porque é que achas que há este gap entre o mundo da arte e outras esferas?
O problema é que eu não acho que exista esse gap. De um modo geral, a sociedade portuguesa vive e celebra essa mistura. Há uma minoria que expressa outro tipo de sentimentos: de ódio, por exemplo. Mas, mesmo junto dessa minoria, há pessoas que não têm propriamente um conflito cultural. O que têm são outras frustrações, outras manifestações de descontentamento, muitas vezes ligadas a questões económicas ou sociais, que acabam por se sobrepor a isso. Esquecem o facto de serem culturalmente próximos de um mundo imenso que é Portugal, e agarram-se à extrema-direita por causa dessas outras questões que, naquele momento, lhes parecem mais urgentes. Mas se fores falar com essas pessoas, com calma, percebes que não têm problema nenhum em estar ligadas a outras culturas e em celebrá-las no seu dia-a-dia. Há uma minoria, sim, que rejeita aquilo a que chama “cultura portuguesa”, quando tudo o que estivemos a falar é cultura portuguesa. O Slow J é cultura portuguesa. O Prodígio é cultura portuguesa. O T-Rex é cultura portuguesa. O Plutónio é cultura portuguesa. A Capicua é cultura portuguesa. Depois há quem queira dizer que não. Mas como é que eu vou distinguir o Valete do Sam The Kid no que toca à cultura portuguesa? Ambos são cultura portuguesa. Nós é que temos que começar a afirmar isso claramente: o Valete é cultura portuguesa, a Ana Moura é cultura portuguesa, o Sam The Kid é cultura portuguesa, o Slow J é cultura portuguesa, o Dino D’Santiago é cultura portuguesa. “Ah, mas ele também é cabo-verdiano.” Também é cultura portuguesa. A Sara Tavares é cultura portuguesa. Não me interessa onde se inspirou. Ninguém foi perguntar ao Sérgio Godinho em quem é que ele se inspirou. E, se forem perguntar, provavelmente não chegaremos tão longe na análise como chegamos quando falamos de artistas negros e vice-versa. Quando vamos a outros países, africanos ou da América Latina, encontramos pessoas que dizem que se inspiraram no Sérgio Godinho ou noutros artistas portugueses. Isso sempre existiu e nunca incomodou ninguém. Qual é o incómodo agora?
Em nome da liberdade, não da repressão: uma resposta feminista à proibição da burca
O Parlamento aprovou hoje, na generalidade, o projecto de lei que proíbe o uso, em espaços públicos, de “de roupas destinadas a ocultar ou a obstaculizar a exibição do rosto", designação onde se incluem as burcas. A proposta, do Chega passou com o apoio do PSD, Iniciativa Liberal e CDS e contou com votos contra do PS, Livre, PCP e Bloco de Esquerda. PAN e JPP abstiveram-se. “Enquanto mulher feminista e deputada socialista”, Eva Cruzeiro explica, neste artigo de opinião que o Afrolink publica, porque se recusa “a aceitar que a emancipação das mulheres seja invocada para legislar contra elas”. “Esta medida não protege as mulheres muçulmanas, silencia-as. Não promove liberdade, impõe exclusão. Não defende os seus direitos, criminaliza a sua diferença”.
O Parlamento aprovou hoje, na generalidade, o projecto de lei que proíbe o uso, em espaços públicos, de “de roupas destinadas a ocultar ou a obstaculizar a exibição do rosto", designação onde se incluem as burcas. A proposta, do Chega passou com o apoio do PSD, Iniciativa Liberal e CDS e contou com votos contra do PS, Livre, PCP e Bloco de Esquerda. PAN e JPP abstiveram-se. “Enquanto mulher feminista e deputada socialista”, Eva Cruzeiro explica, neste artigo de opinião que o Afrolink publica, porque se recusa “a aceitar que a emancipação das mulheres seja invocada para legislar contra elas”. “Esta medida não protege as mulheres muçulmanas, silencia-as. Não promove liberdade, impõe exclusão. Não defende os seus direitos, criminaliza a sua diferença”.
Texto de Eva Cruzeiro
A aprovação do projeto que proíbe o uso da burca em espaço público, apresentado pelo Chega e viabilizado pelos votos do PSD, da Iniciativa Liberal e do CDS, constitui um grave retrocesso nos valores de liberdade, igualdade e inclusão que devem sustentar qualquer democracia plural.
Enquanto mulher feminista e deputada socialista, recuso-me a aceitar que a emancipação das mulheres seja invocada para legislar contra elas. Esta medida não protege as mulheres muçulmanas, silencia-as. Não promove liberdade, impõe exclusão. Não defende os seus direitos, criminaliza a sua diferença.
A imposição sobre o modo como as mulheres se vestem, seja por obrigatoriedade ou por proibição, é sempre uma forma de controlo sobre os seus corpos. Quando o Estado define o que uma mulher pode ou não usar, está a perpetuar o mesmo tipo de opressão que, em outras geografias, condenamos.
Não podemos permitir que o feminismo seja instrumentalizado por discursos da extrema-direita para justificar medidas islamofóbicas. A luta feminista é, e sempre será, uma luta pela liberdade de todas as mulheres, incluindo as que não se enquadram nos padrões culturais ocidentais. O verdadeiro feminismo não impõe libertações por decreto. Escuta, respeita e apoia.
Proibir a burca coloca as mulheres muçulmanas numa encruzilhada injusta. Ou abandonam os seus princípios religiosos e culturais ou são excluídas da vida pública. Para muitas, isso poderá significar deixar de sair à rua, deixar de estudar ou de trabalhar. Em vez de promover integração, esta medida acentua a invisibilização.
Este não é um debate sério sobre segurança, é uma falsa solução para problemas que não se resolvem com proibições. É também um ataque à liberdade religiosa, à autodeterminação e à dignidade de milhares de mulheres que fazem parte da nossa sociedade.
Quantas mulheres portuguesas muçulmanas foram ouvidas na construção desta proposta? Quantas foram chamadas a opinar sobre uma medida que afetará diretamente as suas vidas?
Há quem diga que estas mulheres muçulmanas não conseguem denunciar ou reclamar por causa das condicionantes religiosas, culturais, familiares ou da dependência económica. Mas o mesmo acontece com muitas mulheres cristãs que, em contexto de violência doméstica ou até de violação dentro do casamento, também permanecem em silêncio, por medo, por vergonha, por isolamento ou por pressão social. E nem por isso propomos proibir o casamento cristão ou legislar contra a vida familiar tradicional. O que fazemos, ou deveríamos fazer, é garantir apoio, criar condições reais de autonomia, ouvir as mulheres e agir com responsabilidade. Isso implica desenvolver políticas públicas de informação e consciencialização, investir em canais seguros de denúncia e reforçar redes de apoio psicológico, jurídico, habitacional e económico, tanto do Estado como da sociedade civil. Só assim podemos criar alternativas concretas de libertação, em vez de impor restrições que apenas reforçam o isolamento e o estigma.
Se há mulheres a usar burca contra a sua vontade em Portugal, é nosso dever agir, como agimos em relação a qualquer forma de opressão. Para isso, devemos reforçar mecanismos de apoio, criar linhas de denúncia seguras, investir em respostas de proteção e empoderamento. Mas quando existem mulheres que usam burca por sua livre e consciente vontade e lhes é proibido fazê-lo, estamos a limitar a sua liberdade.
Pessoalmente, posso não me rever no uso da burca. Mas os meus gostos, convicções ou referências culturais não podem justificar a imposição de normas sobre os outros. E o mesmo se aplica em sentido inverso. Liberdade é isso, o direito de cada um existir plenamente, desde que sem causar dano ao outro.
Devemos apoiar todas as mulheres, e não legislar contra algumas. Precisamos de mais escuta e menos imposição. Mais inclusão e menos exclusão. E, acima de tudo, mais compromisso com uma sociedade onde todas as mulheres possam viver com dignidade, autonomia e respeito.