HISTÓRIAS
Welket Bungué: “Sou sujeito e objeto daquilo que estou a registar”
"Contemplação Impasse Tentativa” é o mais recente filme de Welket Bungué, estreado em Outubro do ano passado em Portugal, no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa. Com a Guiné-Bissau como palco, a curta-metragem transporta-nos para a atualidade do caos de uma feira, epicentro de uma série de observações sobre o passado político, marcado pela luta de libertação, e a presente governação, manchada de autoritarismo. Cinquenta e dois anos depois da Independência, o que o povo diria a Amílcar Cabral diante da questão: “Como é que veem o país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. Sem perder de vista o olhar sobre o futuro, Welket usa o cinema como resistência, e faz do telemóvel uma força de intervenção. Para conhecer nesta conversa conduzida pela estudante Naya Chardon, de 16 anos, que partilha com o Afrolink, o resultado de um encontro com o ator, performer, modelo e realizador.
"Contemplação Impasse Tentativa” é o mais recente filme de Welket Bungué, estreado em Outubro do ano passado em Portugal, no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa. Com a Guiné-Bissau como palco, a curta-metragem transporta-nos para a atualidade do caos de uma feira, epicentro de uma série de observações sobre o passado político, marcado pela luta de libertação, e a presente governação, manchada de autoritarismo. Cinquenta e dois anos depois da Independência, o que o povo diria a Amílcar Cabral diante da questão: “Como é que veem o país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. Sem perder de vista o olhar sobre o futuro, Welket usa o cinema como resistência, e faz do telemóvel uma força de intervenção. Para conhecer nesta conversa conduzida pela estudante Naya Chardon, de 16 anos, que partilha com o Afrolink, o resultado de um encontro com o ator, performer, modelo e realizador.
Welket Bungué, fotos de Kristin Berhge
Por Naya Chardon*
Entre poesia e paisagens pitorescas, o telemóvel de Welket Bungué atravessa o caos de uma feira guineense – a Lumo –, protegido por uma manta de invisibilidade. "Contemplação Impasse Tentativa" nasce ali, nesse olhar que observa sem ser visto — uma metáfora para fazer cinema num país onde ver é, em si, um ato político.
Mas quem é Welket Bungué?
Ator, performer, modelo e realizador, Welket Bungué nasceu na Guiné-Bissau em 1988, tem atuado em vários projetos, cofundou a produtora KUSSA, e escreveu o livro “Corpo Periférico”. Mais conhecido pelo papel principal que interpretou em “Berlin Alexanderplatz” (2020), Welket também realizou “Memória”, sobre Amílcar Cabral.
Em Novembro passado, numa das suas últimas passagens por Lisboa – enquadrada numa intensa rotina de filmagens e viagens – encontrámo-nos na Fundação Calouste Gulbenkian para uma conversa.
Sem reservas, Welket revelou como a arte sempre foi uma forma de se exprimir, pessoal e politicamente; e descreveu a sua metodologia como sendo de autorrepresentação: o ato de o próprio sujeito periférico se filmar, narrar e pensar, em vez de ser apenas objeto do olhar de outros.
"As imagens são filmadas enquanto ponto subjetivo, porque na minha obra eu sou sujeito e objeto daquilo que estou a registar", concretiza o cineasta.
“Contemplação Impasse Tentativa”, o seu mais recente projeto, permite observar como o realizador passa das palavras à ação.
Estreado no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa, no final do ano passado, o filme serve de mote para esta conversa, na qual abordámos temas como identidade, e refletimos sobre o cinema como ferramenta de resistência política.
Começámos pelo nome da produção: porquê “Contemplação Impasse Tentativa”?
Welket explica que, embora as três palavras se sustentem autonomamente, juntas ganham importância reforçada. "São convergentes, têm também como objetivo abrir uma perceção mais ampla e crítica sobre o filme".
Apresentando uma a uma, o realizador nota que "Contemplação" deve ser entendida não só no seu significado literal, mas também como conceito abstrato: enquanto movimento de sair de si próprio para ver as coisas acontecerem, com um olhar não-intrusivo.
Já o termo "Impasse" refere-se à situação política na Guiné-Bissau, gerida sob evidentes tendências autocráticas, e em que não se sabe se o país está a viver numa democracia ou numa ditadura.
Nem de propósito, uma das cenas centrais do filme acontece na feira de Lumo, onde a negligência de um trabalhador do Estado leva a que estacione a viatura num lugar indevido, interrompendo o negócio de todos, e gerando uma grande desordem.
“Foi apenas um carro, mas desestabilizou tudo”, nota o também ator, sublinhando a consequência: “As pessoas têm de trabalhar muito para tentar corrigir uma coisa que não foi provocada por elas”.
Não será assim demasiadas vezes? Welket assinala que, nesse cenário, o impasse é uma metáfora para o impasse em que o seu país se encontra, sem saber se vai andar "para a frente, para trás ou para o lado".
Finalmente, a palavra "Tentativa" traduz o sentimento rebelde e otimista de persistir, expressão de uma resiliência capaz de transportar o povo do país para "um lugar melhor."
A Manta de Invisibilidade
Enquadrado o título do filme, a conversa retorna ao primeiro conceito – de “Contemplação” –para adicionar um olhar concreto a essa ideia abstrata, possível a partir da figura do "missionário invisível".
“Era preciso que houvesse um olhar não intrusivo, para que pudéssemos testemunhar realmente o que está a acontecer no país, como as pessoas estão a lidar com tudo", explica o cineasta, acrescentando que aí reside o manto de invisibilidade que acompanha a câmara enquanto se filma.
Por isso, mais do que uma invenção cinematográfica, o “missionário invisível” é a projeção do próprio realizador, que põe em prática o método de autorrepresentação. Além disso, num contexto como o guineense, no qual a crítica pública é reprimida, a câmara invisível oferece a vantagem de se mover livremente, conseguindo ver, escutar e registar o que não pode ser dito.
Regressar em imagens
O processo vai-se revelando, na autodescoberta que tem sido o reencontro do realizador com as origens, iniciado em 2019, quase três décadas depois da saída da Guiné, em 1991. A essa primeira viagem seguiram-se outras, roteiro onde se destaca o regresso a Xitole, a sua localidade-berço.
Aconteceu em 2023, e envolveu um improviso sobre rodas: para poder registar e capturar esse momento, Welket, que seguia de autocarro, teve de pedir ao condutor para desencascar uma paragem.
"Houve um fracasso, no sentido em que embora o autocarro passasse por lá, Xitole não era uma paragem da viagem".
O "áudio" em audiovisual
A par do registo visual, Welket firma créditos no registo sonoro, compilando anos de viagem num mosaico audiovisual. Não estranha, por isso, que em “Contemplação Impasse Tentativa” encontremos imagens de arquivo, que vão muito além da Guiné-Bissau. É o caso do mar em São Tomé e Príncipe, da vista aérea de Portugal, ou dos planos da Nigéria e da Alemanha, todos extraídos de uma compilação seleta das suas idas e vindas.
‘Arrumadas’ as imagens, qual será o raciocínio que guia os diversos sons do filme? Por cada escolha, há uma intencionalidade, garante o realizador, sem descurar um único áudio. Seja o canto dos pássaros, o movimento do mar em São Tomé e Príncipe, ou a voz-off que lê a poesia do seu pai, Paulo T. Bungué.
“Cabral” é um dos poemas que se ouve na produção, aponta Welket, explicando que o mesmo representa uma homenagem a Amílcar Cabral.
Mais do que cuidar da escolha dos sons, o guineense sublinha a importância de afinar a edição: as alterações técnicas permitiram-lhe "deslocar as pessoas para um outro lugar" – o de contemplação.
"Embora fale na primeira pessoa, há a intenção de que a voz pareça também consciência”.
Cabral em eco: cinema entre memória e revolução
“Contemplação Impasse Tentativa” aborda vários temas políticos, seja direta ou indiretamente. Ao longo do filme, encontramos, por exemplo, alusões e homenagens a Amílcar Cabral, líder da luta pela independência contra o domínio colonial português, em Cabo Verde e na Guiné-Bissau.
A determinada altura, a ação encaminha-nos para um exercício de imaginação de uma pergunta que Cabral poderia fazer: “Como é que vocês veem o vosso país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”.
Com esta proposta, Cabral deixa de ser apenas uma figura histórica para tornar-se consciência coletiva.
"Qual é a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos e cidadãs, quando abrimos mão dos nossos direitos ou desacreditamos no sistema eleitoral democrático, que é o que se passa no país? É muito difícil ter-se um posicionamento político, porque há quase sempre represálias”, lamenta o guineense, prosseguindo: “Sem falar na questão dos recursos para poderes viver, para te poderes deslocar. Essas coisas acabam por suplantar o desejo de ser criativo".
As mensagens políticas ressaltam igualmente no diálogo que os poemas de Paulo T. Bungué criam através do tempo: entre o sonho revolucionário dos anos 1970 e o presente autoritário de um país em busca de voz.
Filmando o silêncio, o cineasta faz o país responder sem palavras.
"Por isso é que o filme manda uma pessoa invisível, que possa andar pelo país. [Sob este regime] já não temos manifestações públicas livres no país. Tu não podes ir agora para a rua com panfletos a dizer ‘Somos mais a favor dos direitos das mulheres, ou somos mais a favor dos direitos para a educação’. Não podes. Porque eles vão usar a polícia de intervenção rápida; vão disparar balas de borracha e jatos de água quente contra a população para a desmobilizar. Por isso é que o filme manda uma pessoa invisível, que possa andar pelo país — o governo não sabe que ele está lá, o povo também não sabe".
Pequenos ecrãs, grandes revoluções: um novo cinema guineense
Atento à realidade, Welket acredita que para criar uma indústria cinematográfica na Guiné-Bissau, que vê hoje como mínima, é preciso reinventar a arte, e recorrer aos telemóveis. O artista nota que cineastas como Flora Gomes ou Sana Na N'Hada têm produzido filmes desde o final dos anos 80 com as câmaras típicas, mas defende que para tornar o cinema mais acessível e democratizante - enquanto ferramenta de expressão política –, é preciso aprender a contar histórias usando o dispositivo móvel.
"Tendo em conta a conjuntura política em que vivemos, acredito que há muita coisa que precisa ser denunciada ou documentada para que possa haver um tratamento apropriado nos próximos anos. E o telemóvel é que o pode fazer. Usar os dispositivos móveis pode capacitar pessoas com um instrumento que pode mudar vidas."
Entre as histórias que devem ser contadas, o realizador inclui as que têm sido invisibilizadas, lembrando que é preciso desocultar vários capítulos do passado. O cineasta recorda, por exemplo, que durante a sua primeira viagem à Guiné-Bissau, ao conhecer o Memorial da Escravatura e Tráfico Negreiro de Cacheu, percebeu que teria de se comprometer com "um retorno mais pragmático e recorrente ao país, para poder resgatar novas histórias e contribuir para uma reinvenção do cinema guineense”.
“Contemplação Impasse Tentativa” é indissociável dessa consciência. No filme, Welket recorre à herança poética paterna como forma de manter viva a memória da libertação e promover esperança para uma sociedade onde a arte é também uma responsabilidade cívica.
Enraizado entre a memória de Cabral e o futuro de uma nova geração armada de telemóveis, o realizador usa o cinema como resistência, e incentiva outros a fazerem o mesmo.
*com edição de Paula Cardoso
“Malês”: a maior revolta de pessoas escravizadas no Brasil, contada por Antonio Pitanga
Aos 86 anos, o multipremiado actor e realizador brasileiro Antonio Pitanga apresenta-nos o filme da sua vida: “Malês”. A produção, que levou quase três décadas até chegar ao grande ecrã, transporta-nos para a Bahia de 1835, ano marcado pelo Levante dos Malês. O acontecimento é apontado como a maior rebelião de pessoas escravizadas no Brasil, e povoa o imaginário de Pitanga desde a infância, quando “o desejo de contar histórias ainda por conhecer” começou a ganhar forma. A busca por saber encaminhou-lhe os passos para o antigo Alto Volta, hoje Burkina Faso, onde, em 1964, procurou ir à raiz dos seus questionamentos: “De onde eu vim?”. As memórias da incursão africana, bem como dos ímpetos de criança, foram partilhadas pelo autor, no final de Novembro, em Berlim, após a exibição de “Malês”, longa exibida na sessão de abertura do Cine Brasil. Ainda sem data de apresentação em Portugal, o filme já marcou presença em países africanos, e suscita o interesse de universidades americanas, empenhadas em conhecer esse importante capítulo da resistência negra. Seja onde for, Pitanga defende a importância de “contar uma história dessas, e ter a alegria de a levar para as favelas, os quilombos, e África”. O Afrolink espera que a viagem de “Malês”, com destino a um maior conhecimento sobre a Escravatura, chegue às salas portuguesas. Até lá, deixamos-vos com um encontro pleno de lições e de inspiração.
Aos 86 anos, o multipremiado actor e realizador brasileiro Antonio Pitanga apresenta-nos o filme da sua vida: “Malês”. A produção, que levou quase três décadas até chegar ao grande ecrã, transporta-nos para a Bahia de 1835, ano marcado pelo Levante dos Malês. O acontecimento é apontado como a maior rebelião de pessoas escravizadas no Brasil, e povoa o imaginário de Pitanga desde a infância, quando “o desejo de contar histórias ainda por conhecer” começou a ganhar forma. A busca por saber encaminhou-lhe os passos para o antigo Alto Volta, hoje Burkina Faso, onde, em 1964, procurou ir à raiz dos seus questionamentos: “De onde eu vim?”. As memórias da incursão africana, bem como dos ímpetos de criança, foram partilhadas pelo autor, no final de Novembro, em Berlim, após a exibição de “Malês”, longa exibida na sessão de abertura do Cine Brasil. Ainda sem data de apresentação em Portugal, o filme já marcou presença em países africanos, e suscita o interesse de universidades americanas, empenhadas em conhecer esse importante capítulo da resistência negra. Seja onde for, Pitanga defende a importância de “contar uma história dessas, e ter a alegria de a levar para as favelas, os quilombos, e África”. O Afrolink espera que a viagem de “Malês”, com destino a um maior conhecimento sobre a Escravatura, chegue às salas portuguesas. Até lá, deixamos-vos com um encontro pleno de lições e de inspiração.
Foram precisos 29 anos de persistência criativa, mais de oito décadas de experiência e consciência de vida, e séculos de resistência negra para contar esta História. Nela encontramos a Bahia de 1835, e um dos acontecimentos que, desde a infância, habita o imaginário de Antonio Pitanga: o Levante dos Malês, reconhecido como a maior rebelião de pessoas escravizadas no Brasil.
“Criança ouve tudo. Sabe de coisa que até Deus duvida, né? Os mais velhos vão falando e a gente vai escutando, formando uma narrativa”, aponta o actor e realizador, revisitando os primeiros anos de uma existência colectivamente predestinada, porque “ninguém nasce no Pelourinho por acaso”.
Filho de Maria Natividade, “neta de escravo que com 12 anos já era empregada doméstica”, Pitanga recorda como o seu bairro-berço, situado em Salvador, bem no coração da Bahia, “é uma referência de tragédia”.
As memórias, fixadas nos horrores da Escravatura, recuam aos tempos em que “os senhores levavam os ‘seus negros’ para assistir outros negras e negros serem chicoteados”, dissuadindo-os de incorrer nas mesmas ‘tentações’.
Os capítulos do passado, aqui descritos pelo realizador, desfiam-se em Berlim, depois da exibição no grande ecrã do Cine Brasil, de “Malês” – o filme da vida de Antonio Pitanga, baseado na obra do historiador João José Reis.
Aos 86 anos, e com seis décadas de carreira, construída no teatro, na televisão e no cinema, o baiano cumpre, com a nova produção, “o desejo de contar histórias ainda por conhecer”.
A busca por mais saberes encaminhou-lhe os passos para o antigo Alto Volta, hoje Burkina Faso, onde, em 1964, procurou ir à raiz dos seus questionamentos: “De onde eu vim?”.
Da incursão africana – cumprida numa rota alargada, com passagens por Benim, Togo, Nigéria e Senegal –, aos ímpetos da infância, Pitanga faz questão de sublinhar que transporta nas vivências múltiplas influências ancestrais.
“Ninguém nasce de um acidente”, observa, evocando todo o movimento negro que o – e nos – antecede, e que tem a sua génese na oralidade, “tatuando alma, pele e corpo”.
Não estranha, por isso, que, em contraciclo àquilo que alguns colegas conjecturavam – de que o Brasil poderia estar a falar holandês, espanhol ou inglês, se outras ocupações coloniais, que não a portuguesa, tivessem vingado –, o cineasta sempre tenha defendido outra hipótese. “Eu dizia: não, o que eu queria era falar árabe, como os negros Malês, sequestrados da Mãe África e escravizados no Brasil”.
Protagonismo feminino e humanização
O fascínio de Pitanga por essa presença negra, africana e muçulmana estendia-se à Educação que acumulavam. “Eles eram letrados, tinham conhecimento da Física, da Engenharia, e isso, na minha cabeça de jovem brilhava”.
Consciente de que aquilo que não está nos anais diz tanto ou mais do que tudo o que está, o autor de “Malês” assume a responsabilidade de preencher vazios históricos a partir da sua obra.
“Tenho a bagagem do século passado, mas sou o homem de hoje, meu tempo é agora, meu futuro é no presente”, nota, explicando que construiu o filme atento às possibilidades de novos encontros.
“Para dialogar com vocês, com meus netos, meus bisnetos, com o ensino fundamental, a Universidade Pública, com os quilombos e os povos, eu tenho que interagir no olhar do século XXI, em pleno 2025. Então, quando você se depara com uma história como essa, o que faz?”.
Pitanga optou por reconhecer a presença feminina, humanizando-a.
“As mulheres não estão nos anais. Não tinham nem direito de fala. É sempre o marido, o homem. Então, eu disse: não, vamos trazer a mulher, e dividir o protagonismo”.
O resultado comprova-se em “Malês”, uma “história real”, que nos permite conhecer “as cabeças que fizeram o Levante”, nomeadamente o Pacífico Licutan, interpretado pelo próprio Pitanga.
Ao mesmo tempo, o filme oferece-nos a oportunidade de homenagear todas aquelas que tornaram possível a resistência, o combate e os caminhos da libertação negra, indissociáveis da reivindicação do direito de Amar.
Não é por acaso que as primeiras cenas de “Malês” nos transportam para um casamento, violentamente interrompido por acção do sistema escravocrata, da mesma forma que a existência de um parto na trama está longe de ser acidental.
Sem nunca se desligar de uma direcção humanizadora, o filme desconstrói igualmente a vilania de Sabina, personagem interpretada por Camila Pitanga.
Ainda que os registos históricos a apontem como a denunciante dos planos da revolta, sabotados a partir da sua interferência, o realizador retirou-lhe o rótulo de traidora.
“Criei, com o meu irmão cubano, Antonio Molina [também cineasta], um diálogo com Iyá Nassô, para se entender que o gesto dela era de Amor. E por Amor se faz qualquer coisa”. Até mesmo denunciar o próprio marido, com a ilusão de que seria poupado no embate com os agentes do sistema escravocrata.
“Eles estão preparados para a nossa força, não para a nossa inteligência”
A par da homenagem ao contributo das mulheres negras para a História da nossa libertação, “Malês” distingue-se também por exibir outra face pouco visibilizada do papel feminino nesse passado: mais do que ‘meras’ cúmplices dos crimes da Escravatura, as mulheres brancas orquestraram-nos tão ou mais cruelmente do que os homens.
Quão longe estamos de conhecer e reconhecer essa realidade? E de perceber que, sem esse encontro com o passado, as relações raciais vão continuar minadas de desconfiança?
Enquanto viaja por países africanos e suscita o interesse de universidades americanas, nomeadamente Princeton, Pensilvânia e Harvard, “Malês” permanece sem data de apresentação em Portugal.
“Quando levei o filme agora, em Burkina Faso, o pessoal lá chorou. Eles diziam: Gratidão, Pitanga, gratidão!”, partilha o realizador, assinalando igualmente o entusiamo da academia americana em discutir o levante baiano.
“Eles sabem tudo do Haiti [da Revolução], mas perguntam: que negros são esses, letrados, do Brasil, que fizeram tudo para se organizar?”.
A resposta prende-nos ao grande ecrã, onde “Malês” projecta o poder da mobilização e unidade negra. “Nunca fomos tantos. Uma hora vamos ser todos”, ouvimos numa das cenas, enquanto noutra se apresenta aquele que talvez seja o “perigo” que desde sempre mobiliza o opressor branco contra os povos negros. “Eles estão preparados para a nossa força, não estão preparados para a nossa inteligência”.
Seja como e com quantos for, Pitanga defende a importância de “contar uma história dessas, e ter a alegria de a levar para as favelas, os quilombos, e África”.
O Afrolink espera que a viagem de “Malês”, com destino a um maior conhecimento sobre a Escravatura, chegue às salas de cinema lusas, e que, a partir delas, encontremos renovada e reforçada inspiração para continuar a luta, à letra do que nos lega a obra de Antonio Pitanga: “Parados não podemos ficar (...) / Temos que levantar. Todos juntos”.
Neste movimento, prosseguindo com a força argumentativa do filme, que nunca percamos de vista o compromisso colectivo, por mais especificidades individuais que a nossa mobilização agregue. “Se o mundo quer fazer o meu filho de escravo, eu quero é mudar o mundo”. Avancemos!
Michèle Stephenson e Joe Brewster: “O filme é política. Queremos apoiar um movimento em que os afrodescendentes não implorem para ser vistos”
A autores de documentários premiados, como “Going to Mars - The Nikki Giovanni Project”, ou “American Promise”, Michèle Stephenson e Joe Brewster estiveram em Lisboa no âmbito do projecto “Democracy in Action”, que está a ser desenvolvido por um consórcio europeu, integrado, em Portugal, pelo CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG. Mais do que darem a conhecer o seu trabalho, exibido em sessões de cinema no Centro Cultural Cabo Verde, e no espaço Mbongi 67, Michèle e Joe conduziram uma formação intensiva em vídeo-documentário, exclusivamente dirigida a videomakers africanos e afrodescendentes. A experiência, que o Afrolink seguiu de perto, cumpre um dos propósitos maiores da dupla de cineastas: apoiar, local e globalmente, projectos de criadores negros emergentes.
O território da ficção desviou o cineasta Joe Brewster para o caminho da não-ficção. “Aprendi como o sistema não abraçava as nossas histórias, como não me ia deixar contar o que eu queria contar. Então, tive de fazer ajustes”. Há muito ‘convertido’ à arte do documentário, Joe aprimora-a há décadas ao lado da companheira Michèle Stephenson que, ao trocar uma carreira na Justiça pelos planos de cinema, somou à parceria de vida com Joe uma sólida aliança profissional. Fundadores da Rada Studio New York, e autores de documentários premiados, como “Going to Mars - The Nikki Giovanni Project”, ou “American Promise”, Michèle e Joe estiveram em Lisboa no âmbito do projecto “Democracy in Action” (DiA), que está a ser desenvolvido por um consórcio europeu, integrado, em Portugal, pelo CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG. Mais do que darem a conhecer o seu trabalho, exibido em sessões de cinema no Centro Cultural Cabo Verde, e no espaço Mbongi 67, Michèle e Joe conduziram uma formação intensiva em vídeo-documentário, exclusivamente dirigida a videomakers africanos e afrodescendentes. A experiência, que o Afrolink seguiu de perto, como parceiro do DiA, cumpre um dos propósitos maiores da dupla de cineastas: apoiar, local e globalmente, projectos de criadores negros emergentes. A missão concretiza-se através da ONG Rada Collaborative, uma extensão do seu estúdio em Nova Iorque, criado com um foco irremediavelmente político. “Estamos a fazer filmes que queremos ver, e não estão a ser feitos pelas comunidades brancas”, assinala Michèle, enquanto Joe lembra a importância de cada comunidade encontrar a sua voz. “Nunca faríamos um documentário sobre Portugal”, sublinha, defendendo que cabe à comunidade negra no país dar esse passo. “Queremos apoiar um movimento em que os afrodescendentes não implorem para ser vistos, em que não procurem uma razão para justificar a sua presença, porque eles construíram este país”.
Foto de Marianna Rios/CEsA, com Michèle Stephenson e Joe Brewster, na formação em Lisboa
Despida de crónicas e históricas narrativas de branqueamento, Lisboa apresenta-se inteira aos olhos da dupla de cineastas Michèle Stephenson e Joe Brewster: “É uma cidade bastante negra”, converge o casal.
Sob este ângulo partilhado, poderá a capital portuguesa transformar-se num pólo de produção da Rada Studio New York, casa que fundaram para valorizar, humanizar e projectar no grande ecrã a História, Cultura e vidas negras?
Aconteça o que acontecer, Joe é peremptório num destino: “Nunca faríamos um documentário sobre Portugal”, sublinha, defendendo que cabe à comunidade negra no país dar esse passo. “Queremos apoiar um movimento em que os afrodescendentes não implorem para ser vistos, em que não procurem uma razão para justificar a sua presença, porque eles construíram este país”.
O processo de sustentação começou a ganhar vida em meados de Junho, num workshop intensivo de vídeo-documentário, exclusivamente dirigido a videomakers africanos e afrodescendentes.
A experiência, nota Michèle, reforçou o compromisso colectivo que, desde as primeiras cenas, acompanha a acção da Rada Studio.
“Não se trata apenas de ensinar sobre como contar histórias, mas de criar uma comunidade de solidariedade, e também um sentido mais forte de agência, de ‘eu sou suficiente’, ‘eu posso fazer isso’, ou ‘eu tenho algo para contar’”.
O impacto, assinala a cineasta, mede-se bem pelas palavras de uma das participantes.
“Disse que aprendeu mais nos três dias que passou com este grupo, do que nos nove meses em que participou de uma outra formação em cinema”.
Desbloqueadores e amplificadores de vozes
A diferença salta à vista: no outro lado era a única mulher negra, e nunca se sentia suficientemente confortável para falar sobre a sua história; nesta capacitação sentiu-se vista, ouvida e acolhida, o que lhe permitiu desbloquear a voz.
O testemunho vai ao encontro do que Michèle e Joe têm observado, não apenas nos EUA, mas em todas as geografias por onde têm actuado.
Justamente por isso, a dupla de cineastas estendeu as suas operações à Rada Collaborative, organização sem fins lucrativos que se destina a apoiar, local e globalmente, projectos de criadores negros emergentes.
“Queremos assumir um compromisso de longo prazo, porque essas coisas levam tempo. Desde logo para as pessoas encontrarem a sua voz, e se sentirem confiantes nas histórias que estão a contar”, explica Michèle, já calejada nos ritmos cinematográficos de produção, exaustão e também alguma frustração.
Hoje com vários documentários premiados, a cineasta não descura a passagem de testemunho. “Há um papel histórico nisso”, considera, lembrando que a ausência ou apagamento de narrativas, argumentistas e realizadores negros acaba por desincentivar a entrada de profissionais afrodescendentes nesta indústria. “O padrão é sermos invisíveis”, aponta, enquanto Joe partilha como encontrou o seu lugar no cinema.
Iniciado na ficção, universo no qual chegou a assinar um par de produções, o parceiro de vida e de trabalho de Michèle alterou a rota a partir de um repto inesperado.
“Ela decidiu que ia fazer documentários”, conta, recuando cerca de três décadas nesta história.
Até aí ao serviço da Justiça, com intervenção na área dos Direitos Humanos, a cineasta acabou por incentivar a adiada especialização do marido na não-ficção.
“Na realidade, fui para Nova Iorque estudar documentário, mas morava no centro da cidade com muitos artistas, cineastas, actores e actrizes, e todos faziam ficção. Então, foi isso que fiz: comecei a escrever guiões”.
O hábito foi fazendo o monge, e, ao mesmo tempo, beliscando a fé na arte.
“Estava desencantado, porque na ficção passamos a maior parte do tempo a angariar fundos e, depois, há um período intenso em que se faz o filme”, adianta Joe, explicando que nesse percurso esbarrou com sólidas barreiras raciais.
“O dinheiro que se consegue depende muito do olhar com que se escreve, e normalmente tem que se escrever com um olhar branco, para que os personagens não ofendam a população dominante”.
Documentar para constar
O reconhecimento de que as regras da indústria cerceavam a sua liberdade criativa e possibilidades de expressão, favoreceu a entrega aos documentários.
“Aprendi como o sistema não abraçava as nossas histórias, como não me ia deixar contar o que eu queria contar. Então, tive de fazer ajustes. E como eu amo o ofício, comecei a vê-lo de forma diferente”.
Em vez de se debater com a ideia de uma “arte branca”, Joe rendeu-se “à arte de contar histórias”, uma das mais preciosas heranças africanas.
“O que um griot faz? Ele conta a sua história, a nossas histórias. Então, vejo-as como parte de uma necessidade cultural da qual fomos privados”.
O resgate da tecnologia ancestral permitiu ao cineasta perceber, de forma bem concreta, que não queria assinar produções de super-heróis.
“Os filmes mais poderosos são sobre uma empregada doméstica que basicamente cuida dos seus filhos e os ama, ou sobre alguém que está a passar por dificuldades, como o pai que está a tentar criar os filhos e manter a sua dignidade”.
Michèle reforça a ideia: “Estamos a fazer filmes que queremos ver, e não estão a ser feito pelas comunidades brancas. As histórias têm uma ressonância, porque vemos as nossas vidas no ecrã”.
Certeza americana
A força do efeito-espelho tornou-se especialmente expressiva a partir de “American Promise” que, ao longo de uma dúzia de anos, registou os desafios, marcadamente raciais, enfrentados por Michèle e Joe na educação de Idris, o filho de ambos.
“Pais negros de todo o país apareciam e levavam os seus filhos e os filhos dos seus filhos. Era quase um culto”, nota Joe, de volta ao 2013 de lançamento do documentário, que também acompanhou os embates vividos pelo melhor amigo de Idris.
A par da aceitação do público “American Promise” arrebatou várias distinções, com destaque para o prémio especial do júri no Festival de Sundance.
O amplo reconhecimento robusteceu a capacidade de Michèle e Joe financiarem as suas produções, habilidade que se revela cada vez mais vital, face a sucessivos retrocessos políticos, particularmente nefastos para projectos que representam comunidades sub-representadas e historicamente discriminadas.
“Trump quer que a sua narrativa domine, e está a silenciar todas as outras porque se sente ameaçado por elas”, assinala Michèle, defendendo que esta realidade pede compromisso redobrado.
“Temos de compreender que há um poder nisso: de nos arriscarmos a contar as nossas histórias. E não devemos ignorar o impacto que as histórias que escolhemos contar podem ter daqui a 20, 30, 40 anos”.
A partir desta consciência social, Joe acredita que há caminho para reverter os ataques às liberdades.
“Angariámos uma quantia enorme de dinheiro para um dos nossos filmes, provavelmente apenas porque as pessoas sabem que vai ser mais difícil de financiar. Então, investiram intencionalmente em Paul Robeson porque querem que a história seja divulgada. Mas todos os outros projectos estão a angariar metade do dinheiro que já deveriam ter angariado”.
Sejam quais forem os apertos e as folgas financeiras, a dupla de cineastas lembra a importância de construir audiências.
“Não nos limitamos a fazer o filme e a dar como certo que o nosso público negro vai aparecer”, diz Michèle, defendendo que “é preciso angariar fundos para o seu envolvimento, investir tempo na divulgação e nas exibições comunitárias, que se sabe serem necessárias para criar esse diálogo, e para que as pessoas se vejam a si mesmas”.
Nesse caminho, acrescenta Joe, impõe-se não perder o foco. “Estamos sempre a tentar descobrir quais as melhores histórias para contar, sabendo que não se pode contar todas”, aponta, realçando o dever de resistir, insistir e persistir. “O filme é política de muitas maneiras”.
Os planos de Artemisa Ferreira para documentar Cabo Verde
Ainda estudante, Artemisa Ferreira quis saber mais sobre os jovens portugueses descendentes de cabo-verdianos, que foi encontrando durante a licenciatura e o mestrado no norte do país. Desse interesse resultou o documentário “Identidade Repartida”, expressão de pertenças além-fronteiras. No regresso ao seu Cabo Verde natal, e já com o grau de mestre em Realização, Cinema e Televisão no currículo, escreveu e realizou a premiada curta “Oji”, centrada no impacto das redes sociais nas relações familiares. Agora apresenta-nos “Os 47’s - depoimentos que ficaram”, documentário que relata as “aflições causadas pela fome nos anos 40 em Cabo Verde”, e que, por cá, foi exibido no espaço Tabanka Sul, no Seixal, e no Mbongi67, em Queluz. Presente nas duas sessões, a cineasta, escritora e professora conversou com o Afrolink sobre este projecto, antecipando os próximos planos: "Quero documentar aquilo que existe, e que ainda está por contar em Cabo Verde".
Ainda estudante, Artemisa Ferreira quis saber mais sobre os jovens portugueses descendentes de cabo-verdianos, que foi encontrando durante a licenciatura e o mestrado no norte do país. Desse interesse resultou o documentário “Identidade Repartida”, expressão de pertenças além-fronteiras. No regresso ao seu Cabo Verde natal, e já com o grau de mestre em Realização, Cinema e Televisão no currículo, escreveu e realizou a premiada curta “Oji”, centrada no impacto das redes sociais nas relações familiares. Agora apresenta-nos “Os 47’s - depoimentos que ficaram”, documentário que relata as “aflições causadas pela fome nos anos 40 em Cabo Verde”, e que, por cá, foi exibido no espaço Tabanka Sul, no Seixal, e no Mbongi67, em Queluz. Presente nas duas sessões, a cineasta, escritora e professora conversou com o Afrolink sobre este projecto, antecipando os próximos planos: "Quero documentar aquilo que existe, e que ainda está por contar em Cabo Verde".
Apresentação d’ “Os 47’s - depoimentos que ficaram”, no espaço Mbongi67
Assombra memórias como o pior dos nossos pesadelos: por um lado, vive-se com o receio de que se concretize – ou melhor, que se repita – por outro, faz-se de tudo para o esquecer. Herdeira deste temor colectivo, gerado a partir de um capítulo trágico da História de Cabo Verde, Artemisa Ferreira decidiu confrontá-lo.
O resultado vê-se no documentário “Os 47’s - depoimentos que ficaram”, filme que relata as “aflições causadas pela fome nos anos 40”, período no qual o arquipélago africano perdeu quase metade da população.
“Este é um passado que não é muito falado. Por isso muitos jovens – e não só – desconhecem a realidade daquilo que foi e ainda é Cabo Verde”, nota a cineasta, quebrando décadas de um pesado silêncio.
“O país passou por uma seca severa, em que a partir do terceiro ano sem chover nada, as pessoas começaram a morrer de fome”.
Quase oito décadas depois, a cabo-verdiana assinala que “a conjuntura internacional mudou, mas a falta de chuva é uma realidade que persiste no país. Por isso, é importante conhecer os efeitos das secas, e encontrar respostas para o futuro”.
Licenciada em Tecnologias de Informação e Comunicação e Mestre em Realização Cinema e Televisão, Artemisa procura dar o seu contributo a partir da sétima arte.
“Quero documentar aquilo que existe, e que ainda está por contar em Cabo Verde”.
Identidades e globalidades
O interesse pelo desconhecido levou-a a debruçar-se sobre a realidade dos jovens portugueses descendentes de cabo-verdianos, comunidade com a qual se cruzou durante o Ensino Superior, cumprido em universidades lusas.
Desse encontro resultou o documentário “Identidade Repartida”, expressão de pertenças além-fronteiras.
“Percebi que em Portugal esses jovens não são considerados portugueses, e quando chegam a Cabo Verde também não são considerados cabo-verdianos. Então quis saber como se sentem”.
Entre mundos, a indefinição e os conflitos de identidade acabaram por surpreender Artemisa: enquanto os filhos de pai e mãe cabo-verdianos diziam sentir-se portugueses, aqueles em que um dos progenitores era português manifestavam uma maior identificação com Cabo Verde.
“Havia mais dúvidas naqueles em que ambos os pais eram cabo-verdianos”, sublinha a realizadora.
Depois dessa experiência, documentada em 2013 no âmbito do mestrado, a também escritora e professora universitária apresentou a curta de ficção “Oji”.
A produção, centrada no impacto das redes sociais nas relações familiares, venceu o prémio revelação no Plateau – Festival de Cinema da Praia 2015, e, dois anos depois, conquistou o troféu de melhor montagem na I Mostra Competitiva do Cinema Negro Adélia Sampaio, no Brasil.
Valas coloniais
Agora é com os “Os 47’s - depoimentos que ficaram” que Artemisa nos continua a prender ao grande ecrã.
“A narrativa é construída por entrevistas com pessoas que passaram pela fome, outras que não passaram por isso, e especialistas de diferentes áreas de estudo”, explica a cineasta, que, com esta obra, revela “as diferentes formas de luta dos cabo-verdianos para sobreviver”.
Os relatos incluem o chamado desastre da assistência, eternizado na cidade da Praia, mas não adequadamente memorializado.
"As pessoas vêem o monumento [às Vítimas da Fome e do Desastre da Assistência de 1949], mas não sabem o que representa", lamenta a também professora universitária, de lição voltada para um dos episódios mais desafortunados que marcaram os destinos do país.
"A população ia à procura de apoio, de algo para comer. Nesse local [onde funcionavam os Serviços Cabo-verdianos de Assistência], havia um muro que acabou por ruir e desabou por cima de quem ali estava. Eram crianças, jovens, idosos, grávidas...muita gente".
Os registos, aponta Artemisa, referem cerca de 230 mortes, número que, acredita, peca por defeito: "Tivemos feridos em estado grave que não sobreviveram, e não estão contabilizados".
Nessa época, morria-se sob o jugo colonial português, enquanto a propaganda ocultava os crimes do Estado Novo, regime que mantinha uma política de auxílio zero aos territórios ocupados.
"Segundo alguns relatos, o que Salazar fez na altura foi mandar abrir valas, mais e mais valas para enterrar a população".
A história conta-se n' "Os 47’s - depoimentos que ficaram”, que apresenta, em 90 minutos, mais de 70 testemunhos, reunidos em sete anos de trabalho.
Naufrágios e resistências femininas
Pelo caminho, a cineasta recolheu tanta informação, que não descarta a hipótese de retomar alguns episódios apresentados no documentário.
É o caso, por exemplo, dos naufrágios que, nessa época, acabaram por ajudar a mitigar os horrores da seca. “O mais famoso é o do navio John E. Schmeltzer, que encalhou em Santo Antão”, aponta Artemisa, assinalando que a rota “seguia da Argentina para a Europa, com toneladas e toneladas de milho”.
Ao navegar por este passado de infortúnio, a realizadora percebeu também como as mulheres assumiram um papel fundamental no combate à fome. “É impressionante o que elas fizeram para sobreviver, e para que as famílias sobrevivessem”.
Os testemunhos incluem a história dramática de uma mulher que, durante dias, andou com o filho morto às costas. “Talvez assim pudesse receber um bocadinho mais de alimento”, calcula a realizadora, interessada em aprofundar essa e outras estratégias femininas de resistência.
“Quero levar estes relatos para a literatura”, antecipa, trazendo para a conversa outra expressão do seu trabalho artístico: a escrita.
Autora do livro de poemas “Desejo”, Artemisa também integra a colectânea poética “Cabo Verde-Galiza – Um Abraço Poético”, e, com a obra “Gruta Abençoada”, tornou-se a primeira escritora a publicar um livro inteiro de poesias eróticas em Cabo Verde.
Apesar de algumas críticas e resistências, a realizadora conta que o texto inspirou um grupo teatral de São Vicente a apresentar uma peça sonora.
“Somos conservadores quando falamos publicamente, mas não quando estamos nas esquinas com os amigos”, diz, afastando da sua abordagem leituras pornográficas.
“Não associo o erotismo à parte sexual ou carnal, mas sim ao belo. Para mim, tudo o que é belo é erótico”.
Inspiração literária
Entre os livros e o grande ecrã, o caminho de criação artística também encontra no ensino uma via de expressão.
“Trabalho com os meus alunos a adaptação da literatura cabo-verdiana para o cinema”, adianta Artemisa, professora na Universidade de Cabo Verde- UniCV.
No último ano lectivo, por exemplo, a obra “Mornas eram as noites”, de Dina Salústio, deu o mote para a apresentação de quase 12 documentários.
A inspiração literária promete ganhar expressão também na cinematografia da escritora, que está a trabalhar numa docuficção.
O projecto deverá concretizar-se através da Ceiba Produções, empresa criada por Artemisa para implementar as suas propostas na área audiovisual.
Os planos, revela a realizadora, incluem um documentário sobre o músico Renato Cardoso, já em construção.
Igualmente em movimento está a afirmação e consolidação da presença feminina neste sector. "Reunimos um grupo de nove mulheres, e criámos um espaço para nos apoiarmos no desenvolvimento dos nossos projectos".
Nasceu assim o “Koletivu Nhanha”, baptizado à letra da identidade de uma antiga combatente: Ana da Veiga, que liderou a chamada Revolta de Ribeirão Manuel, no início do século XX.
Popularizada Nhanha Bongolon, tornou-se um símbolo da força e resistência feminina contra a opressão colonial. Agora também activo na luta pela igualdade de género. Dentro e fora do grande ecrã.