HISTÓRIAS
David J. Amado: “Preferia ser atacado e até morrer como sou, do que viver como alguém que não sou”
“A Água Me Leva” é o mais recente filme de David J. Amado, tendo estreado em março em Lisboa, no Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro, no âmbito do projeto “Democracy em in Action”. Seguiram-se outras exibições na Casa Capitão e na Associação Passa Sabi, a que se junta uma nova no próximo sábado, 2 de maio, na Rádio Quântica. Após ter assistido à última apresentação, o Afrolink encontrou-se com o produtor, bailarino, e artista na Fundação Gulbenkian. Uma oportunidade para falarmos sobre esta curta-metragem, que vai fazer parte de um projeto maior, intitulado “Depois do Norte”, mas também para conversarmos sobre o livro “Desprotegidos”, que se prepara para lançar.
Afrolink junta-se à Casa Capitão, com Mercado, O Tal Podcast, Cinema e Exposição
No próximo Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, que se assinala a 21 de Março, o Afrolink junta-se à Casa Capitão, para um sábado de consciencialização e celebração. O programa tem como mote o poema “Deixa Passar o meu Povo”, da moçambicana Noémia de Sousa, numa homenagem que evoca o centenário do seu nascimento, e comemora também o Dia Mundial da Poesia, igualmente assinalado a 21 de Março. Entre a luta anti-racista e a poesia, as actividades começam às 11h, com uma edição especial do Mercado Afrolink, e terminam às 20h, com um tributo à presença negra em Portugal, decorrente da última comemoração do “Black History Month”. Pelo caminho, teremos um episódio ao vivo de O Tal Podcast, seguido de uma sessão de curtas-metragens, encerrada numa conversa com os autores, integrada no projecto “Democracy in Action”. A entrada é livre, e o repto colectivo: “Deixa Passar o meu Povo”, poetizava Noémia de Sousa, inspirando-nos a reconhecer os marcos racistas do passado, a confrontar as marcas raciais do presente, e a assumir as nossas vozes para contar e cantar os amanhãs! Em união. Vamos!
Welket Bungué: “Sou sujeito e objeto daquilo que estou a registar”
"Contemplação Impasse Tentativa” é o mais recente filme de Welket Bungué, estreado em Outubro do ano passado em Portugal, no Festival Internacional de Cinema Doc Lisboa. Com a Guiné-Bissau como palco, a curta-metragem transporta-nos para a atualidade do caos de uma feira, epicentro de uma série de observações sobre o passado político, marcado pela luta de libertação, e a presente governação, manchada de autoritarismo. Cinquenta e dois anos depois da Independência, o que o povo diria a Amílcar Cabral diante da questão: “Como é que veem o país neste momento, relativamente ao país pelo qual lutámos e sonhámos?”. Sem perder de vista o olhar sobre o futuro, Welket usa o cinema como resistência, e faz do telemóvel uma força de intervenção. Para conhecer nesta conversa conduzida pela estudante Naya Chardon, de 16 anos, que partilha com o Afrolink, o resultado de um encontro com o ator, performer, modelo e realizador.
“Malês”: a maior revolta de pessoas escravizadas no Brasil, contada por Antonio Pitanga
Aos 86 anos, o multipremiado actor e realizador brasileiro Antonio Pitanga apresenta-nos o filme da sua vida: “Malês”. A produção, que levou quase três décadas até chegar ao grande ecrã, transporta-nos para a Bahia de 1835, ano marcado pelo Levante dos Malês. O acontecimento é apontado como a maior rebelião de pessoas escravizadas no Brasil, e povoa o imaginário de Pitanga desde a infância, quando “o desejo de contar histórias ainda por conhecer” começou a ganhar forma. A busca por saber encaminhou-lhe os passos para o antigo Alto Volta, hoje Burkina Faso, onde, em 1964, procurou ir à raiz dos seus questionamentos: “De onde eu vim?”. As memórias da incursão africana, bem como dos ímpetos de criança, foram partilhadas pelo autor, no final de Novembro, em Berlim, após a exibição de “Malês”, longa exibida na sessão de abertura do Cine Brasil. Ainda sem data de apresentação em Portugal, o filme já marcou presença em países africanos, e suscita o interesse de universidades americanas, empenhadas em conhecer esse importante capítulo da resistência negra. Seja onde for, Pitanga defende a importância de “contar uma história dessas, e ter a alegria de a levar para as favelas, os quilombos, e África”. O Afrolink espera que a viagem de “Malês”, com destino a um maior conhecimento sobre a Escravatura, chegue às salas portuguesas. Até lá, deixamos-vos com um encontro pleno de lições e de inspiração.
Michèle Stephenson e Joe Brewster: “O filme é política. Queremos apoiar um movimento em que os afrodescendentes não implorem para ser vistos”
A autores de documentários premiados, como “Going to Mars - The Nikki Giovanni Project”, ou “American Promise”, Michèle Stephenson e Joe Brewster estiveram em Lisboa no âmbito do projecto “Democracy in Action”, que está a ser desenvolvido por um consórcio europeu, integrado, em Portugal, pelo CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG. Mais do que darem a conhecer o seu trabalho, exibido em sessões de cinema no Centro Cultural Cabo Verde, e no espaço Mbongi 67, Michèle e Joe conduziram uma formação intensiva em vídeo-documentário, exclusivamente dirigida a videomakers africanos e afrodescendentes. A experiência, que o Afrolink seguiu de perto, cumpre um dos propósitos maiores da dupla de cineastas: apoiar, local e globalmente, projectos de criadores negros emergentes.
Os planos de Artemisa Ferreira para documentar Cabo Verde
Ainda estudante, Artemisa Ferreira quis saber mais sobre os jovens portugueses descendentes de cabo-verdianos, que foi encontrando durante a licenciatura e o mestrado no norte do país. Desse interesse resultou o documentário “Identidade Repartida”, expressão de pertenças além-fronteiras. No regresso ao seu Cabo Verde natal, e já com o grau de mestre em Realização, Cinema e Televisão no currículo, escreveu e realizou a premiada curta “Oji”, centrada no impacto das redes sociais nas relações familiares. Agora apresenta-nos “Os 47’s - depoimentos que ficaram”, documentário que relata as “aflições causadas pela fome nos anos 40 em Cabo Verde”, e que, por cá, foi exibido no espaço Tabanka Sul, no Seixal, e no Mbongi67, em Queluz. Presente nas duas sessões, a cineasta, escritora e professora conversou com o Afrolink sobre este projecto, antecipando os próximos planos: "Quero documentar aquilo que existe, e que ainda está por contar em Cabo Verde".