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Quando a gratuitidade não basta: o concerto d’ Os Tubarões e o acesso desigual à cultura

O Grande Auditório da Fundação Gulbenkian recebeu ontem, 12, um dos concertos mais aguardados da programação do “Jardim de Verão”: Os Tubarões, grupo histórico da música cabo-verdiana cuja trajetória se confunde com a história da Independência de Cabo Verde e da afirmação da identidade cultural africana de língua portuguesa. O concerto, de entrada gratuita, esgotou rapidamente. Mas o que ficou deste dia não foi apenas a celebração da música. Ficou também a desilusão de centenas de pessoas que não conseguiram assistir ao espetáculo, e uma questão que merece ser debatida: o acesso à cultura é verdadeiramente igual quando nem todos partem do mesmo ponto?

Terminou ontem 12, mais uma edição do “Jardim de Verão da Gulbenkian”, encerramento marcado pela muito aguardada actuação dos lendários Os Tubarões. Mas o momento de celebração musical ficou também ‘manchado’ pela desilusão de centenas de pessoas que não conseguiram assistir ao espetáculo da banda cabo-verdiana, levando a comunicadora Bia Djassi a propor uma reflexão: “O acesso à Cultura é verdadeiramente igual quando nem todos partem do mesmo ponto?”

Bia Djassi, comunicadora

Texto de Bia Djassi

O Grande Auditório da Fundação Gulbenkian recebeu ontem, 12, um dos concertos mais aguardados da programação do “Jardim de Verão”: Os Tubarões, grupo histórico da música cabo-verdiana cuja trajetória se confunde com a história da Independência de Cabo Verde e da afirmação da identidade cultural africana de língua portuguesa. O concerto, de entrada gratuita, esgotou rapidamente.

Mas o que ficou deste dia não foi apenas a celebração da música. Ficou também a desilusão de centenas de pessoas que não conseguiram assistir ao espetáculo, e uma questão que merece ser debatida: o acesso à cultura é verdadeiramente igual quando nem todos têm o mesmo ponto de partida?

O Grande Auditório tem capacidade para cerca de 1.200 pessoas. Dos bilhetes disponíveis, cerca de 600 foram disponibilizados online, com um modelo de acesso faseado: primeiro para os detentores do Cartão Gulbenkian Mais, com dois dias de antecedência, e depois para os titulares do Cartão Gulbenkian, um dia antes. Segundo a própria Fundação, esta era a forma de distribuição prevista para o concerto.

Na prática, estima-se que cerca de 90% desses 600 bilhetes tenham sido levantados logo no primeiro dia*, pelos detentores do Cartão Gulbenkian Mais. Quando chegou a vez dos utilizadores do Cartão Gulbenkian, às 9h da manhã do dia seguinte, os bilhetes disponíveis já estavam praticamente esgotados.

Restavam os outros 600 bilhetes, reservados para distribuição presencial no próprio dia, entre as 15h e as 17h. No entanto, antes das 16h já não havia qualquer bilhete disponível, deixando muitas pessoas frustradas, algumas depois de horas de espera, outras depois de se deslocarem propositadamente para assistir a um concerto que celebrava uma das mais importantes bandas da história da música cabo-verdiana.

É precisamente aqui que importa refletir sobre o significado da palavra gratuito.

A gratuitidade elimina o preço, mas não elimina as desigualdades de acesso.

Quando existem diferentes momentos de acesso aos bilhetes, cria-se inevitavelmente uma hierarquia de privilégios. Uns entram primeiro na fila; outros chegam quando praticamente já não há lugares. Não se trata de discutir a legitimidade de existirem benefícios associados a um cartão de membro, mas de questionar se esse modelo é o mais adequado para eventos de enorme relevância cultural e comunitária.

Esta reflexão torna-se ainda mais importante quando a programação pretende celebrar artistas africanos e as culturas afrodescendentes.

Não basta trazer artistas africanos para os grandes palcos. É igualmente necessário garantir que as comunidades que historicamente preservaram, difundiram e continuam a viver essas culturas consigam estar presentes nesses momentos. A democratização da cultura não se mede apenas pela qualidade da programação, mas também pela diversidade de quem consegue ocupá-la.

Instituições culturais com a dimensão e responsabilidade da Fundação Gulbenkian têm hoje a oportunidade de ir mais longe. Para além de programar diversidade, podem construir modelos de acesso mais inclusivos: reservar uma parte dos bilhetes para distribuição equitativa, envolver associações culturais, coletivos afrodescendentes e organizações comunitárias, e pensar estratégias que aproximem efetivamente os públicos das comunidades representadas no palco.

Porque a inclusão não termina na escolha dos artistas.

Também se constrói na plateia.

O Jardim de Verão tem sido um exemplo de programação cultural aberta e de qualidade. Justamente por isso, espera-se que também seja um exemplo na forma como garante o acesso do público. Afinal, uma programação que celebra a diversidade deve assegurar que essa diversidade não fica do lado de fora da sala.

*A informação de que a maioria dos bilhetes disponibilizados antecipadamente foi levantada na primeira fase de reservas foi transmitida verbalmente por um membro da bilheteira da Fundação Gulbenkian. Não corresponde a um dado oficialmente divulgado pela instituição.

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