HISTÓRIAS
Centrar os estudos no aluno para dar a volta ao meio – como a Gulbenkian quer alargar o mapa do sucesso escolar
De portas abertas desde o final do ano passado, os Centros de Estudo Gulbenkian acompanham 75 alunos de três bairros da Área Metropolitana de Lisboa, onde as carências socioeconómicas andam de mãos dadas com elevadas taxas de insucesso e abandono escolar. A intervenção, implementada em articulação com agrupamentos de escolas, e a parceria de entidades locais, pretende transformar essa realidade, através de uma rede de dezenas de explicadores, a aposta em três disciplinas – Português, Inglês e Matemática – e o envolvimento das famílias e comunidades. O Afrolink foi até ao bairro do Vale da Amoreira, no município da Moita, para saber mais sobre esta proposta de mudança.
De portas abertas desde o final do ano passado, os Centros de Estudo Gulbenkian acompanham 75 alunos de três bairros da Área Metropolitana de Lisboa, onde as carências socioeconómicas andam de mãos dadas com elevadas taxas de insucesso e abandono escolar. A intervenção, implementada em articulação com agrupamentos de escolas, e a parceria de entidades locais, pretende transformar essa realidade, através de uma rede de dezenas de explicadores, a aposta em três disciplinas – Português, Inglês e Matemática – e o envolvimento das famílias e comunidades. O Afrolink foi até ao bairro do Vale da Amoreira, no município da Moita, para saber mais sobre esta proposta de mudança.
Rafael e Aléssia, com o professor Domingos Boieiro, no Centro de Estudos Gulbenkian, no Vale da Amoreira
Fotografias de Luís Mucauro
Esvaziadas de ensinamento, as palavras tornaram-se, aula após aula, sinónimo de condicionamento e incompreensão. "O teu português não é muito correcto", habitou-se a ouvir um lado; "Precisas de melhorar a escrita", foi escutando do outro, e, sem qualquer direcção, Aléssia Rosário acabou perdida num contínuo de admoestações e recomendações. "Nunca disseram exactamente o que é preciso mudar".
Foi assim desde que chegou a Portugal, há cerca de cinco anos, e até ao final do ano passado, quando a entrada no Centro de Estudos Gulbenkian do Vale da Amoreira impôs um 'antes e depois'.
"Hoje consigo ver os erros que cometo", assinala Aléssia, em busca de um equilíbrio entre a bagagem que traz de São Tomé e Príncipe e a vivência em Portugal. "Aqui, a professora de Português foi super educada e gentil. Explicou-me que é normal pensar que algumas coisas estão correctas, por estar mais familiarizada com elas".
O exemplo, acrescenta o colega Rafael Raposo, expõe uma das fracturas que há muito fragiliza a qualidade do ensino. "Na escola, os professores não conseguem dar atenção a todos, porque as turmas são grandes. Cá, falam mais pausadamente, conseguimos que tenham tempo para nós".
Com um plano de estudos que engloba Português, Matemática e Inglês, e, por cada disciplina, uma carga horária semanal de hora e meia de explicações, os Centros de Estudo Gulbenkian diferenciam-se também pela dimensão dos grupos, limitados a três aprendizes por sala.
"A grande maioria dos alunos veio indicada pelas escolas. Existem, no entanto, alguns casos indicados pelas famílias, e pelas organizações comunitárias que gerem os Centros", esclarece Luís Plácido dos Santos, director do serviço de Educação e Ciência da Gulbenkian.
75 alunos, notas mais altas, assiduidade nos 95%
Desde 17 de Novembro no terreno, o projecto que o Afrolink foi conhecer ao Vale da Amoreira, também está a ser implementado nos bairros do Zambujal e Padre Cruz, acompanhando, nos três territórios, um total de 75 alunos, do 4.º ao 12.º ano.
"O balanço será realizado no final do ano", adianta Luís Plácido, que, para já, destaca a elevada taxa de assiduidade – fixada nos 95% –, a que se junta um impacto positivo na avaliação. "Diversos alunos já melhoraram as notas, comparativamente ao ano anterior", adianta, explicando que só após "uma reflexão estratégica sobre o projecto", será possível aventar os próximos passos.
Por enquanto, a intervenção está sustentada numa rede de 39 explicadores, na sua maioria professores do ensino público, seleccionados através de uma chamada aberta.
"Tive algumas reticências quando ouvi falar em centros de explicações", admite Domingos Boieiro, atento às desigualdades no acesso à Educação, que se acentuam com o facto de algumas famílias pagarem pelo apoio ao estudo dos filhos.
Peremptório em traçar a diferença entre a lógica classista de mercantilização do ensino, que rejeita, e a dinâmica comunitária e de transformação social, que o liga aos Centros de Estudo, o professor de História, vê neste projecto uma via para corrigir desequilíbrios.
"Aquilo que a Gulbenkian procurou fazer, e é também por isso que aqui estou, foi dar uma oportunidade a alguns estudantes que já são bons alunos – temos de o dizer –, e se forem apoiados poderão chegar onde toda a gente com mais condições chega".
Aléssia e Rafael confirmam os benefícios, muito além da atenção diferenciada que recebem, ao não terem de disputar dúvidas com dezenas de outros colegas.
"Passei de 12 para 15 a História", compara Rafael, enquanto Aléssia sublinha que ao ultrapassar as dificuldades de expressão e interpretação em Português, tornou-se mais fácil subir as notas e planear a entrada na universidade.
"São os nossos finalistas e, por isso, há aqui um sentimento agridoce", reconhece Joana Gavinhos, coordenadora do Centro de Estudos do Vale da Amoreira.
Alunos do 11.º ano
Universidade, família e comunidade
Agora na recta final do 12.º ano em Línguas e Humanidades, os colegas de turma e de explicações encontraram neste espaço, que funciona no CRIVA – entidade parceira da Gulbenkian para a intervenção neste bairro do município da Moita –, um acolhimento único das suas necessidades, com a substituição da disciplina de Matemática pela de História.
O ajuste, nota Luís Plácido, obedece a exigências de preparação para os exames de acesso ao Ensino Superior, horizonte que já pré-ocupa os estudos de Dário Pontes e Sueyma Hassane, alunos do 11.º ano.
"Quero ter uma média melhor para aumentar as hipóteses de entrar na faculdade", sublinha Dário, que se junta a Sueyma na vontade de manter o acompanhamento Gulbenkian no 12.º ano.
Enquanto essa boa notícia não chega, o projecto continua a diferenciar-se por colocar os alunos, e por extensão também os agregados familiares, no centro da intervenção.
"O apoio ao 4.º ano está a decorrer na escola básica, algo fundamental para o bem-estar das famílias", salienta Joana Gavinhos, destapando outro dos eixos centrais deste projecto: o envolvimento dos encarregados de educação, "chamados para o processo desde o início".
João Gouveia ilustra bem essa presença, e não hesita na avaliação. "Há a questão das notas, que estão a melhorar, e também uma mudança ao nível da confiança", diz o pai de Fernanda Gouveia, uma das alunas do 6.º ano seleccionadas para frequentar o Centro de Estudos do Vale da Amoreira.
Além do benefício das explicações para o percurso e futuro dos filhos – "A minha Fernanda é um bocadinho aérea, mas vejo que anda mais aplicada", reconhece João –, as famílias encontram outros benefícios neste projecto. "Conseguimos, por exemplo, facilitar o tratamento da acção social escolar", aponta Joana, de memória voltada para um caso, entretanto desbloqueado, "que a pessoa não conseguiu resolver por falta de um documento".
A cada intervenção, nota a coordenadora, mais do que o investimento que está a ser feito nas trajectórias individuais, sobressai um contributo concreto para o desenvolvimento local.
Paula Encarnação, assistente social e técnica da Câmara Municipal da Moita, sublinha o impacto. "Há uma mobilização dos recursos existentes no território, seja de apoio alimentar, ao nível das juntas de freguesia, seja do serviço de habitação e de acção social escolar, ambos sob gestão da autarquia".
Paula Encarnação, à esquerda, e Joana Gavinhos
Sair do bairro para ampliar o bairro
A par da capacitação dos alunos e das famílias, "para poderem ser autónomas na procura dos serviços e informação", a responsável destaca que o projecto "promove a inclusão, o diálogo intercultural e respeito pela diversidade cultural", favorecendo a construção de uma "comunidade mais rica a coesa".
A transformação, acrescenta Joana Gavinhos, passa também pelo contacto com outras realidades, concretizado através de "actividades culturais e de descoberta", que, através de passeios fora do bairro, alargam horizontes. "Nas férias das Páscoa, fomos recebidos na Assembleia da República pela deputada Eurídice [Pereira], que é aqui do distrito de Setúbal", conta a coordenadora, desfiando as memórias desse dia.
"À hora de almoço, no momento em que estávamos num compasso de espera, passou a deputada Eva [Cruzeiro], que os miúdos conhecem por causa do rap. Foram logo ter com ela, tirámos fotos, e depois foi interessante vê-la [no hemiciclo] em plenas funções".
Antes dessa visita, interpõe Paula Encarnação, houve também a oportunidade de o grupo assistir a um concerto de música clássica na Gulbenkian, experiências a que se juntam as mentorias, programadas para acontecer uma vez por mês nos Centros de Estudo.
"O objectivo é inspirar e fazer os alunos pensar sobre perspectivas de futuro, contar as suas próprias experiências, e fazer os estudantes acreditar", descreve Luís Plácido, explicando que essa responsabilidade é assumida sobretudo pelos "actuais Bolseiros Gulbenkian Mérito", ou seja, universitários com elevadas classificações escolares.
Mais do que alunos que se distinguem pelas notas, o responsável garante que o grupo de mentores "é muito diversificado", integrando "raparigas e rapazes de várias proveniências, classes cursos, etnias e raças".
Tudo para que todas as crianças e jovens encontrem modelos referência nos quais se possam rever. Ou, como se lê na obra colectiva exposta numa das paredes do Centro de Estudos, "juntando as peças dos nossos sonhos, construímos a nossa liberdade".
Como podemos melhorar o serviço de imigração em Portugal? Assembleia de Cidadãos Migrantes responde
O tema das Migrações está a marcar o debate público, mobilizando – e polarizando – as agendas políticas e mediáticas. Entre propostas de alterações legislativas, actualizações estatísticas dos novos fluxos migratórios, e análises sobre o seu impacto no tecido social e serviços públicos, o que têm a dizer os imigrantes que vivem no país? A I Assembleia de Cidadãos Migrantes compromete-se a ouvir e a fazer ouvir os contributos de quem deixou um mundo para trás e escolheu Portugal para viver.
O tema das Migrações está a marcar o debate público, mobilizando – e polarizando – as agendas políticas e mediáticas. Entre propostas de alterações legislativas, actualizações estatísticas dos novos fluxos migratórios, e análises sobre o seu impacto no tecido social e serviços públicos, o que têm a dizer os imigrantes que vivem no país? A I Assembleia de Cidadãos Migrantes compromete-se a ouvir e a fazer ouvir os contributos de quem deixou um mundo para trás e escolheu Portugal para viver.
É imigrante? Tem pelo menos 18 anos? Está a viver em Portugal? Inscreva-se na I Assembleia de Cidadãos Migrantes do país, que, nos dias 30 de maio, 6, 13 e 20 de Junho (sempre ao sábado), entre as 11h00 e as 18h00, vai deliberar sobre uma pergunta: “Como podemos melhorar o serviço de imigração?”.
A participação nas quatro sessões terá uma compensação de 200€ em vouchers de supermercado.
Além dos contributos de 50 pessoas sorteadas, a Assembleia vai envolver 10 pessoas migrantes na condução dos trabalhos, integrando-as numa equipa profissional de facilitação.
No final dos quatro dias de deliberação, mais do que a apresentação de propostas concretas para melhorar o serviço de imigração, pretende-se construir um caminho para a sua implementação. Com todas as pessoas.
Participem e divulguem!
Esta é uma iniciativa financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, promovida pela Associação Pão a Pão, em parceria com o Fórum dos Cidadãos.
Leitão Amaro (des)faz contas à imigração: “Não sou socialista nem comunista, portanto não sou planificador”
A conversa já lá vai – aconteceu no final de Junho, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa –, mas o desgoverno a que estamos entregues mantém-na dramaticamente actual. Trago-a agora para este espaço, cerca de 10 dias depois de o Tribunal Constitucional (TC) ter chumbado as alterações à lei de estrangeiros propostas pelo Executivo, e aprovadas no Parlamento com votos do PSD e Chega, adornados pela abstenção da IL. O travão de inconstitucionalidade imposto à via anti-imigração trilhada pelo Governo arrepiou caminho para o veto presidencial e devolução do diploma à Assembleia da República, mas, garante o ministro da Presidência, mantém firme o destino nacional de endurecimento de fronteiras. “A política de portas escancaradas do passado foi uma enorme irresponsabilidade. Isso implica que, neste último ano, agora e para o futuro, precisemos tomar mais medidas”, insiste António Leitão Amaro, aqui citado pelo jornal Público, em declarações proferidas antes do anúncio dos juízes do TC, e reforçadas já depois disso. Mas, voltemos à conversa de final de Junho, da qual se extrai o título deste texto, e à qual regresso já depois de noutras frentes – nomeadamente de alteração às leis laborais, e de intervenção na prevenção e combate aos incêndios –, o Governo evidenciar a mesma impreparação demonstrada na abordagem à imigração. Incapaz de explicar que dados sustentam a narrativa de uma velha política nacional de “portas escancaradas”, e que projecções levam o Executivo a desacreditar estudos que fazem depender o crescimento económico do país dos fluxos migratórios, Leitão Amaro barricou-se num argumento que ajuda a perceber a série de argoladas governativas que continuamos a testemunhar: “Não sou socialista, nem comunista, portanto não sou planificador”. Assumido devoto da “beleza da economia descentralizada”, o ministro partilhou estas palavras no encontro de encerramento do “Migrant Media Project”, projecto para a inclusão de jornalistas migrantes da Associação Pão a Pão, desenvolvido em parceria com o jornal Expresso, e apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. O Afrolink acompanhou o programa e registou as principais linhas com que se cose a nossa desgovernação.
A conversa já lá vai – aconteceu no final de Junho, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa –, mas o desgoverno a que estamos entregues mantém-na dramaticamente actual. Trago-a agora para este espaço, cerca de 10 dias depois de o Tribunal Constitucional (TC) ter chumbado as alterações à lei de estrangeiros propostas pelo Executivo, e aprovadas no Parlamento com votos do PSD e Chega, adornados pela abstenção da IL. O travão de inconstitucionalidade imposto à via anti-imigração trilhada pelo Governo arrepiou caminho para o veto presidencial e devolução do diploma à Assembleia da República, mas, garante o ministro da Presidência, mantém firme o destino nacional de endurecimento de fronteiras. “A política de portas escancaradas do passado foi uma enorme irresponsabilidade. Isso implica que, neste último ano, agora e para o futuro, precisemos tomar mais medidas”, insiste António Leitão Amaro, aqui citado pelo jornal Público, em declarações proferidas antes do anúncio dos juízes do TC. Mas, voltemos à conversa de final de Junho, da qual se extrai o título deste texto, e à qual regresso depois de noutras frentes – nomeadamente de alteração às leis laborais, e de intervenção na prevenção e combate aos incêndios –, o Governo evidenciar a mesma impreparação demonstrada na abordagem à imigração. Incapaz de explicar que dados sustentam a narrativa de uma velha política nacional de “portas escancaradas”, e que projecções levam o Executivo a desacreditar estudos que fazem depender o crescimento económico do país dos fluxos migratórios, Leitão Amaro barricou-se num argumento que ajuda a perceber a série de argoladas governativas que continuamos a testemunhar: “Não sou socialista, nem comunista, portanto não sou planificador”. Assumido devoto da “beleza da economia descentralizada”, o ministro partilhou estas palavras no encontro de encerramento do “Migrant Media Project”, projecto para a inclusão de jornalistas migrantes da Associação Pão a Pão, desenvolvido em parceria com o jornal Expresso, e apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. O Afrolink acompanhou o programa e registou as principais linhas com que se cose a nossa desgovernação.
Da esquerda: moderadores Juliana Iorio e David Dinis, ministro da Presidência, António Leitão Amaro, presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Ana Paula Costa e Farid Patwary, jornalista do Bangladesh
O que têm em comum as notícias falsas disseminadas amiúde pelo Chega com as projecções do Eurostat, um estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, e as estimativas das confederações patronais? Para o Governo todas parecem caber no mesmo saco, não apenas suspeito, mas automaticamente descartável.
“Sempre desconfiámos de previsões de necessidades de vindas [de trabalhadores estrangeiros], seja daqueles que do lado das empresas diziam que eram 100 mil para isto, 30 mil para aquilo; e ainda mais daqueles que diziam que do agrupamento familiar vinham 500.000 pessoas. Sempre desconfiámos e discordámos de muitas dessas afirmações”
As palavras, disponíveis online, são do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, e ouvem-se na conferência de imprensa do passado dia 23 de Junho, marcada pelo anúncio de alterações às leis da nacionalidade e de estrangeiros.
No final dessa mesma semana, o governante participou no painel “O impacto da política da Imigração”, inserido no encontro de encerramento do “Migrant Media Project”, projecto para a inclusão de jornalistas migrantes da Associação Pão a Pão, desenvolvido em parceria com o jornal Expresso, e apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
O Afrolink acompanhou a discussão – ocorrida na tarde de 27 de Junho nos Jardins do Bombarda, em Lisboa –, e questionou o ministro sobre as desconfianças que apresentou nessa conferência de imprensa, quando questionou a importância dos fluxos migratórios para a economia nacional. Por outro lado, quisemos saber porque é que o Governo insiste na ideia de que Portugal seguia uma política de imigração “de portas escancaradas”.
Comecemos pelos números. Leitão Amaro reafirmou a desconfiança em relação às previsões sobre a necessidade de mão-de-obra estrangeira que têm sido avançadas por várias confederações patronais. Acrescentei que há vários estudos que apontam no mesmo sentido, incluindo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, e também europeus.
Neste caso, referia-me em concreto a uma análise produzida a partir de dados do Eurostat, e publicada pelo jornal The Guardian, alertando para o efeito das políticas anti-imigração que mobilizam cada vez mais votos para a extrema-direita nos países europeus.
Mais do que a perda acentuada de população – em que os saldos naturais negativos (mais mortes do que nascimentos) deixarão de ser compensados pelos saldos populacionais (que incluem fluxos migratórios) –, as projecções, apontadas para 2100, antecipam a perda de capacidade produtiva, e o aumento das despesas com pensões e cuidados a idosos.
O impacto demográfico em Portugal, onde 22% dos bebés nascidos em 2023, eram de mães estrangeiras, seria assinável: ao ritmo actual, daqui a 75 anos a população portuguesa rondará os 9 milhões, número que se fica pelos 5,7 milhões sem imigrantes. Ou seja, estima-se que o país perderá quase 37% de cidadãos.
A publicação conclui que uma Europa sem imigração é uma Europa condenada à própria destruição.
Na mesma linha, a Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP) indica que o país precisa de 138 mil imigrantes por ano para crescer 3%. Afastando a ideia de que "os imigrantes empurram os nacionais para fora do mercado de trabalho", a FEP nota que só com a sua força Portugal pode ambicionar entrar, até 2033, no grupo “dos mais ricos”, da União Europeia.
Os dados reunidos no estudo Migrações e Direitos Humanos, da UGT, são igualmente peremptórios. “Num contexto de baixa natalidade e envelhecimento da população, Portugal vai inevitavelmente precisar de 50 mil a 100 mil trabalhadores regularmente ao longo do tempo”, adiantou o coordenador Jorge Malheiros, em declarações à rádio Renascença.
“A beleza da economia descentralizada”
Mas, por mais diversas e sustentadas que sejam as análises apresentadas, António Leitão Amaro insiste em esvaziá-las de importância.
“Permita-me ser céptico”, respondeu ao Afrolink, depois da nossa referência à existência de vários estudos, que vão muito além dos cadernos de encargos do patronato. “Como decisor público, olho para o mercado, olho para as reações dos agentes, e pergunto: se precisam assim tanto de mais trabalhadores, porquê que não pagam mais para atrair mais trabalhadores, nacionais e estrangeiros, e lhes dar mais condições, para não terem que viver numa casa acumulados, em que não têm sequer direito a um quarto. Têm uma fracção de cinco horas durante uma noite para estarem um bocadinho encostados, e depois têm que sair para dar lugar ao outro”.
Crente “na beleza da economia descentralizada”, o ministro da Presidência rematou: “Se houvesse essa necessidade, a economia pagaria esses salários, sobretudo quando nós temos esta lógica de concertação na entrada e com a responsabilização de quem recruta”.
À falta de uma resposta clara, insistimos: se o Governo rejeita todos os números que têm sido avançados, em que projecções assentam as políticas restritivas que tem apresentado, e a ideia de portas escancaradas?
“Eu não faço projecções”, apressou-se a atirar Leitão Amaro, personalizando a resposta. “Eu, reconhecidamente, não sou socialista, nem sou comunista, portanto não sou planificador, não me sinto capaz de fazer um cálculo da alocação do número de recursos, sejam humanos, de capital, de material a cada sector. Acredito na beleza da economia descentralizada que, de forma cooperativa, de forma social ou de forma privada, num mercado em concorrência ou em cooperação, identifica as suas necessidades e vai provê-las por uma cobertura e um jogo concorrencial ou de cooperação entre agentes, entre a procura e a oferta. Portanto, eu nunca vou fazer uma previsão destas”.
Redireccionando o foco para as responsabilidades do Executivo, e não para a fé do ministro da Presidência, prosseguimos com mais uma tentativa de compreender as escolhas governamentais. Afinal, conforme tivemos a oportunidade de sublinhar: esperaríamos que o Governo fizesse todos os levantamentos e mais alguns antes de apresentar as suas políticas.
“Eu percebo, mas nós temos uma ideia diferente sobre a organização da economia. Eu não acho que tenha que fazer. Eu não vou fazer uma planificação”, reiterou Leitão Amaro.
Aqui chegados, pergunto: quão diferente é o actual exercício de governação de um jogo de adivinhação baseado em percepções?