HISTÓRIAS

Reportagem, Educação Paula Cardoso Reportagem, Educação Paula Cardoso

Centrar os estudos no aluno para dar a volta ao meio – como a Gulbenkian quer alargar o mapa do sucesso escolar 

De portas abertas desde o final do ano passado, os Centros de Estudo Gulbenkian acompanham 75 alunos de três bairros da Área Metropolitana de Lisboa, onde as carências socioeconómicas andam de mãos dadas com elevadas taxas de insucesso e abandono escolar. A intervenção, implementada em articulação com agrupamentos de escolas, e a parceria de entidades locais, pretende transformar essa realidade, através de uma rede de dezenas de explicadores, a aposta em três disciplinas – Português, Inglês e Matemática – e o envolvimento das famílias e comunidades. O Afrolink foi até ao bairro do Vale da Amoreira, no município da Moita, para saber mais sobre esta proposta de mudança. 

De portas abertas desde o final do ano passado, os Centros de Estudo Gulbenkian acompanham 75 alunos de três bairros da Área Metropolitana de Lisboa, onde as carências socioeconómicas andam de mãos dadas com elevadas taxas de insucesso e abandono escolar. A intervenção, implementada em articulação com agrupamentos de escolas, e a parceria de entidades locais, pretende transformar essa realidade, através de uma rede de dezenas de explicadores, a aposta em três disciplinas – Português, Inglês e Matemática – e o envolvimento das famílias e comunidades. O Afrolink foi até ao bairro do Vale da Amoreira, no município da Moita, para saber mais sobre esta proposta de mudança. 

Rafael e Aléssia, com o professor Domingos Boieiro, no Centro de Estudos Gulbenkian, no Vale da Amoreira

Fotografias de Luís Mucauro

Esvaziadas de ensinamento, as palavras tornaram-se, aula após aula, sinónimo de condicionamento e incompreensão. "O teu português não é muito correcto", habitou-se a ouvir um lado; "Precisas de melhorar a escrita", foi escutando do outro, e, sem qualquer direcção, Aléssia Rosário acabou perdida num contínuo de admoestações e recomendações. "Nunca disseram exactamente o que é preciso mudar". 

Foi assim desde que chegou a Portugal, há cerca de cinco anos, e até ao final do ano passado, quando a entrada no Centro de Estudos Gulbenkian do Vale da Amoreira impôs um 'antes e depois'.  

"Hoje consigo ver os erros que cometo", assinala Aléssia, em busca de um equilíbrio entre a bagagem que traz de São Tomé e Príncipe e a vivência em Portugal. "Aqui, a professora de Português foi super educada e gentil. Explicou-me que é normal pensar que algumas coisas estão correctas, por estar mais familiarizada com elas".  

O exemplo, acrescenta o colega Rafael Raposo, expõe uma das fracturas que há muito fragiliza a qualidade do ensino. "Na escola, os professores não conseguem dar atenção a todos, porque as turmas são grandes. Cá, falam mais pausadamente, conseguimos que tenham tempo para nós". 

Com um plano de estudos que engloba Português, Matemática e Inglês, e, por cada disciplina, uma carga horária semanal de hora e meia de explicações, os Centros de Estudo Gulbenkian diferenciam-se também pela dimensão dos grupos, limitados a três aprendizes por sala. 

"A grande maioria dos alunos veio indicada pelas escolas. Existem, no entanto, alguns casos indicados pelas famílias, e pelas organizações comunitárias que gerem os Centros", esclarece Luís Plácido dos Santos, director do serviço de Educação e Ciência da Gulbenkian. 

75 alunos, notas mais altas, assiduidade nos 95%

Desde 17 de Novembro no terreno, o projecto que o Afrolink foi conhecer ao Vale da Amoreira, também está a ser implementado nos bairros do Zambujal e Padre Cruz, acompanhando, nos três territórios, um total de 75 alunos, do 4.º ao 12.º ano. 

"O balanço será realizado no final do ano", adianta Luís Plácido, que, para já, destaca a elevada taxa de assiduidade – fixada nos 95% –, a que se junta um impacto positivo na avaliação. "Diversos alunos já melhoraram as notas, comparativamente ao ano anterior", adianta, explicando que só após "uma reflexão estratégica sobre o projecto", será possível aventar os próximos passos. 

Por enquanto, a intervenção está sustentada numa rede de 39 explicadores, na sua maioria professores do ensino público, seleccionados através de uma chamada aberta. 

"Tive algumas reticências quando ouvi falar em centros de explicações", admite Domingos Boieiro, atento às desigualdades no acesso à Educação, que se acentuam com o facto de algumas famílias pagarem pelo apoio ao estudo dos filhos.  

Peremptório em traçar a diferença entre a lógica classista de mercantilização do ensino, que rejeita, e a dinâmica comunitária e de transformação social, que o liga aos Centros de Estudo, o professor de História, vê neste projecto uma via para corrigir desequilíbrios. 

 "Aquilo que a Gulbenkian procurou fazer, e é também por isso que aqui estou, foi dar uma oportunidade a alguns estudantes que já são bons alunos – temos de o dizer –, e se forem apoiados poderão chegar onde toda a gente com mais condições chega". 

Aléssia e Rafael confirmam os benefícios, muito além da atenção diferenciada que recebem, ao não terem de disputar dúvidas com dezenas de outros colegas.  

"Passei de 12 para 15 a História", compara Rafael, enquanto Aléssia sublinha que ao ultrapassar as dificuldades de expressão e interpretação em Português, tornou-se mais fácil subir as notas e planear a entrada na universidade. 

"São os nossos finalistas e, por isso, há aqui um sentimento agridoce", reconhece Joana Gavinhos, coordenadora do Centro de Estudos do Vale da Amoreira.

Alunos do 11.º ano

Universidade, família e comunidade

Agora na recta final do 12.º ano em Línguas e Humanidades, os colegas de turma e de explicações encontraram neste espaço, que funciona no CRIVA – entidade parceira da Gulbenkian para a intervenção neste bairro do município da Moita –, um acolhimento único das suas necessidades, com a substituição da disciplina de Matemática pela de História. 

O ajuste, nota Luís Plácido, obedece a exigências de preparação para os exames de acesso ao Ensino Superior, horizonte que já pré-ocupa os estudos de Dário Pontes e Sueyma Hassane, alunos do 11.º ano. 

"Quero ter uma média melhor para aumentar as hipóteses de entrar na faculdade", sublinha Dário, que se junta a Sueyma na vontade de manter o acompanhamento Gulbenkian no 12.º ano. 

Enquanto essa boa notícia não chega, o projecto continua a diferenciar-se por colocar os alunos, e por extensão também os agregados familiares, no centro da intervenção. 

"O apoio ao 4.º ano está a decorrer na escola básica, algo fundamental para o bem-estar das famílias", salienta Joana Gavinhos, destapando outro dos eixos centrais deste projecto: o envolvimento dos encarregados de educação, "chamados para o processo desde o início". 

João Gouveia ilustra bem essa presença, e não hesita na avaliação. "Há a questão das notas, que estão a melhorar, e também uma mudança ao nível da confiança", diz o pai de Fernanda Gouveia, uma das alunas do 6.º ano seleccionadas para frequentar o Centro de Estudos do Vale da Amoreira. 

Além do benefício das explicações para o percurso e futuro dos filhos – "A minha Fernanda é um bocadinho aérea, mas vejo que anda mais aplicada", reconhece João –, as famílias encontram outros benefícios neste projecto. "Conseguimos, por exemplo, facilitar o tratamento da acção social escolar", aponta Joana, de memória voltada para um caso, entretanto desbloqueado, "que a pessoa não conseguiu resolver por falta de um documento". 

A cada intervenção, nota a coordenadora, mais do que o investimento que está a ser feito nas trajectórias individuais, sobressai um contributo concreto para o desenvolvimento local. 

Paula Encarnação, assistente social e técnica da Câmara Municipal da Moita, sublinha o impacto. "Há uma mobilização dos recursos existentes no território, seja de apoio alimentar, ao nível das juntas de freguesia, seja do serviço de habitação e de acção social escolar, ambos sob gestão da autarquia". 

Paula Encarnação, à esquerda, e Joana Gavinhos

Sair do bairro para ampliar o bairro

A par da capacitação dos alunos e das famílias, "para poderem ser autónomas na procura dos serviços e informação", a responsável destaca que o projecto "promove a inclusão, o diálogo intercultural e respeito pela diversidade cultural", favorecendo a construção de uma "comunidade mais rica a coesa". 

A transformação, acrescenta Joana Gavinhos, passa também pelo contacto com outras realidades, concretizado através de "actividades culturais e de descoberta", que, através de passeios fora do bairro, alargam horizontes. "Nas férias das Páscoa, fomos recebidos na Assembleia da República pela deputada Eurídice [Pereira], que é aqui do distrito de Setúbal", conta a coordenadora, desfiando as memórias desse dia. 

"À hora de almoço, no momento em que estávamos num compasso de espera, passou a deputada Eva [Cruzeiro], que os miúdos conhecem por causa do rap. Foram logo ter com ela, tirámos fotos, e depois foi interessante vê-la [no hemiciclo] em plenas funções". 

Antes dessa visita, interpõe Paula Encarnação, houve também a oportunidade de o grupo assistir a um concerto de música clássica na Gulbenkian, experiências a que se juntam as mentorias, programadas para acontecer uma vez por mês nos Centros de Estudo.  

"O objectivo é inspirar e fazer os alunos pensar sobre perspectivas de futuro, contar as suas próprias experiências, e fazer os estudantes acreditar", descreve Luís Plácido, explicando que essa responsabilidade é assumida sobretudo pelos "actuais Bolseiros Gulbenkian Mérito", ou seja, universitários com elevadas classificações escolares.  

Mais do que alunos que se distinguem pelas notas, o responsável garante que o grupo de mentores "é muito diversificado", integrando "raparigas e rapazes de várias proveniências, classes cursos, etnias e raças". 

Tudo para que todas as crianças e jovens encontrem modelos referência nos quais se possam rever. Ou, como se lê na obra colectiva exposta numa das paredes do Centro de Estudos, "juntando as peças dos nossos sonhos, construímos a nossa liberdade".   

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